"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Parabéns, Maddy Prior

... pelo 70.º aniversário.
O tempo passa rápido.


A primeira canção que ouvi interpretada pelos Steeleye Span
(andaria pelo ano de 1973...)


Vila Berta

Miradouro da Graça (Miradouro Sophia de Mello Breyner)

«(...) deixando esse miradouro [da Graça], quem tiver sorte nos acasos talvez atravesse o Largo (com a balbúrdia dos eléctricos e o pequeno comércio que lá formiga) e, a meio duma descida junto ao Quartel dos Bombeiros, se encontre de repente num recanto de beleza: Vila Berta.
Surge como uma rua fechada por um prédio com pinturas de azulejo sobre um túnel de passagem para a cidade envolvente. Dum lado e doutro casas bordadas de flores - e silêncio. Uma paz súbita, quase secreta. Uma intimidade que se sente já antiga.


No gosto e na construção Vila Berta não revela qualquer romantismo de burguesia provinciana. Também não usa de maneirismos e menos ainda de simetrias imediatas para resultar no bem composto. Pelo contrário, a fazer face às casas singelas dum dos lados da rua, projectam-se, do outro, arrojadas varandas de ferro, lançadas como pontões, e o admirável é que duma confrontação como esta resulta uma harmonia de encantar. Fidelidade à época e a um gosto pressentido, será isso? As colunas e os remates de remate lembram a escola de Eiffel e os desenhos de azulejo têm o colorido do despontar do século. E as flores?





Flores, na primavera e no verão a Vila Berta cobre-se delas. Rosas de grade e janela, rosas loucas, trepadeiras. Rosas e plantas de improviso em manchas de imaginação. Ver como eu lá vi, exposto num pontão deserto, um lavatório de bacia de porcelana a transbordar de chorões em chaga viva, é deparar com uma escultura de vanguarda num cenário fora do tempo. Cenário? Cenário, digo bem. Esta Vila, este pátio, tem qualquer coisa de palco aberto, basta olhar. Dum lado, varandas voltadas para a cena, em fundo a fachada dum prédio com os seus ornatos coloridos e o túnel de acesso à cidade. 



Será por essa entrada que, numa noite de verão, alguém verá aparecer o Cavaleiro da Rosa inundado de luar. Dirá que o viu quedar-se a meio do pátio, empunhando bem alto a flor que o anunciava e rodeado de silêncio.»
José Cardoso Pires, Lisboa Livro de Bordo
(1997)



Vila Berta - de Tojal em Tojal

Regressei à Graça por motivo da abertura parcial do seu convento, com a exposição da Procissão do Corpo de Cristo, peças da autoria de Diamantino [Francisco] Tojal (1897-1958), nome que desconhecia.

Fiz caminho pela Vila Berta (Villa Bertha), complexo habitacional (no bairro da Graça) empreendido, entre 1902 e 1908/10, por Joaquim Francisco Tojal, nome a que nunca tinha ligado.
Coincidência de Tojais? Certamente família, pai e filho, muito possivelmente.

Segundo as fontes mais credíveis, Joaquim Francisco Tojal fundou uma empresa de construção.
Diamantino Tojal é dado como empresário e construtor civil. E teria sido no seu estaleiro de construção civil - o mesmo que Joaquim Francisco Tojal instalara (?) - "a dois passos da sua residência, na Vila Berta, na Graça, onde sempre viveu", que produziu, também com amigos, as peças da Procissão. O mesmo lugar onde as peças deterioradas foram reparadas para figurarem na actual exposição, cerca de 75 anos depois.

Diamantino Tojal (3.º da esquerda) na inauguração da exposição
da Procissão do Corpo de Deus, em 1948, no Palácio Galveias.
O elevado número de peças não permitiu, então, que todas fossem expostas.

A Vila Berta foi classificada como Imóvel de Interesse Público (Março de 1996). A proposta de classificação foi do arquitecto Carlos Tojal (um neto de Joaquim Francisco Tojal?).
Existe uma Associação de Defesa do Património da Vila Berta, a qual é presidida por Estêvão Tojal, bisneto do seu fundador e morador na vila.
"Ainda estão na posse da família cerca de 40 a 50% dos prédios".

Começando pelo princípio...
Joaquim Francisco Tojal nasceu no Brasil, filho de emigrantes portugueses. Marceneiro de profissão, veio para Portugal nos finais do séc. XIX e fundou uma empresa de construção.
Morando na Parede, adquiriu, em 1887, terrenos na Quinta do Alcaide Fidalgo (Graça, Lisboa), onde construiu um conjunto de habitações. Esse conjunto apresentava semelhanças com as vilas operárias que se edificavam em Lisboa desde as últimas décadas do século XIX. 

«Desta Rua do Sol, em transversal, segue à Travessa da Pereira, por um passadiço, a “Vila Berta”, construída em 1902 por Joaquim Francisco Tojal, que adquiriu também os terrenos a sul, antes pertencentes a Tomaz da Costa (o proprietário do grande prédio que foi o palácio dos Condes de Val-de-Rei no Largo da Graça, hoje Vila Sousa). Paralela a esta artéria “Vila Berta” (D. Berta Tojal, nela residente) correrá a Rua Francisco Tojal, que celebra a memória do construtor, e cujo dístico já foi colocado.»
Norberto Araújo, Peregrinações em Lisboa

Mas, comparativamente à grande maioria das vilas, apresentava uma assinalável qualidade arquitectónica, com elementos de riqueza decorativa, e de materiais construtivos, ultrapassando o "quadro de miséria" que frequentemente acompanha esta tipologia de construção.
A razão está no facto de Joaquim Tojal ter projectado a vila para habitação da família e de amigos próximos, principalmente, e para os mestres e operários do estaleiro de construção da sua empresa, instalado em terrenos contíguos. Configurava um conjunto habitacional de pequena burguesia, embora haja uma distinção evidente na tipologia dos edifícios, conforme os seus destinatários. 
 A vila foi baptizada com o nome da filha: Berta. 


A Vila Berta é do tipo de vilas que formam uma rua, sendo constituída por duas bandas de edifícios em correnteza, separadas pela rua. 
Essas duas bandas apresentam características diferentes: 
- do lado nascente, os edifícios têm dois pisos e uma cave. 




- do lado poente, "mais nobre", os edifícios são de três pisos, a uma cota superior à do nível da rua. O 1.º piso, para além da sua altura superior, fica afastado da rua por um terraço ajardinado e o 2.º piso apresenta uma plataforma sobre a zona de acesso ao edifício apoiada em pilares de ferro fundido.




Adivinha-se que seriam as primeiras destas habitações aquelas que se destinavam aos operários e mestres (marceneiros, canalizadores, pedreiros, etc.).

No topo Norte da rua, encontra-se o acesso principal ao interior da vila (a partir da Rua do Sol à Graça): uma passagem sob um prédio.



Inicialmente, a vila era encerrada, nos topos, por portões que davam à rua um carácter privado, contando com um guarda e um jardineiro. Os portões deixariam de existir, integrando-se a rua no espaço público.


«As varandas em ferro imprimiram-lhe um carácter peculiar,
bem como os azulejos de estampilha, as varandas e as mansardas.»
(desenhos da arquitecta Ana Tostões)

Com o tempo, foi-se alterando a composição dos seus habitantes, incluindo a instalação de famílias estrangeiras e a renovação etária da população residente.
Presente parece continuar o cuidado com a preservação e a reabilitação das construções, embora haja quem fale na "rápida descaracterização dos seus elementos arquitectónicos".
Em 2015/2016 verificaram-se obras de requalificação do conjunto edificado.
A vila foi cenário da nova versão do Pátio das Cantigas e consta de muitos roteiros turísticos da cidade de Lisboa.

O neto do fundador da vila defende a ideia que «além do património cultural físico, existe ainda outro património socio-cultural associado à Vila Berta que se pretende preservar: a vida comunitária, as relações de boa vizinhança entre os moradores desta aldeia e a participação de todos em actividades comuns».

Será esta a "Casa da Quinta", onde mora Estêvão Tojal?
A visita vale a pena!...


sábado, 12 de agosto de 2017

Aniversário

Há trinta e cinco anos que nasci.
Foi um calvário lento esta subida!
Chuva, granizo, neve, e o que não vi
Que era um sol frio e me gelava a vida...

De vez em quando uma bandeira erguida
Lá muito longe, ao fim da encosta, ali
Onde a vista só chega comovida...
Era outro Homem que passava aí.

Nem uma telha contra essa invernia!
A própria pele humana que trazia
Tornou-ma em carne viva o aguaceiro...

Falta chegar ao fim, à cruz e ao fel.
Fazer a sério o resto do papel,
Até que o tempo corra o reposteiro.
Miguel Torga, Diário II (12 de Agosto de 1942)



Procissão do Corpo de Deus - painéis de Martins Barata

A procissão do Corpo de Deus no início do século XV, em Lisboa, nos painéis de Jaime Martins Barata (1955).
Os dois painéis foram executados para o Ministério das Corporações e podem ser vistos no Convento de Santos-o-Novo (sala de entrada do Recolhimento).


No primeiro painel, a procissão à saída da Sé. 


No segundo, a procissão na zona do Rossio; sob o pálio, o rei D. João I.



Em ambos, no meio das figuras "institucionais" (clero secular e regular, cúria patriarcal, confrarias, irmandades), a presença de figuras que, no reinado de D. João V, foram eliminadas, apagando-se os elementos das tradições pagãs - os excessos heterodoxos de dragões, serpentes, foliões... - a favor de uma encenação cerimoniosa e solene, verdadeira demonstração do poder real absoluto e do peso da Igreja.  


Pormenores dos painéis
 «(...) não vão na procissão tourinhas, gigantes, serpe, drago e esparteira, carros e as mais cousas semelhantes, que costumavam dar os ofícios, nem dança alguma, nem os mouros que costumavam ir junto a S. Jorge; que na procissão não vá palio de lã, mas outro mais rico; que o senado mande lançar cadeias nas bocas das ruas que vão sair às da procissão.»
Carta do Secretário de Estado Diogo de Mendonça Côrte-Real ao Senado da Câmara de Lisboa, de 12 de Maio de 1717

Martins Barata - Estudo (Dança da luta)

Martins Barata - Estudo (Figuras satíricas)


Procissão do Corpo de Deus - o espectáculo mais curioso de Lisboa


Vimos costume bem cham
nos Reys ter esta maneira
Corpo de Deus, Sam Joam
aver canas, procissam,
aos domingos carreira,
cavalgar pella cidade
com muyta solenidade
Ver correr, saltar, luctar,
dançar, cantar, montear,
em seus tempos e Hidade.
Garcia de Resende

A procissão do Corpo de Deus, criada em Portugal, em 1264, por D. Mateus (bispo de Lisboa), era a que condensava um maior sentido de espectacularidade, servindo de  modelo para as restantes que também se queriam grandiosas.

«(...) era a mais deslumbrante de todas as que se faziam em Lisboa. Era inigualável o empenho da população neste préstito cívico-religioso, pela participação das corporações dos vários mesteres da Casa dos Vinte e Quatro, que compareciam com seus castelos, bandeias e insígnias. Estas e outras fantasias - diabos, reis, príncipes e imperadores, feiticeiros, os tamborileiros a pé e os trombeteiros a cavalo, os repiques de sinos - alvoraçavam os alfacinhas na Procissão do Corpus Christi. Mas o que maior entusiasmo despertava era São Jorge e o seu Estado, ou seja, a imagem do santo guerreiro, a cavalo num soberbo ginete branco, o pajem, criança a cavalgar ao lado do santo e muito bem trajada, o alferes, revestido de armadura e viseira, conhecido por "homem de ferro", a capitanear quase meia centena de cavalos, conduzidos à mão por criados de cavalariça. Os cinco "Pretos de S. Jorge", com a simbologia do patrono, tocavam tambores, clarins e charamelas. Incorporavam-se no préstito algumas imagens, múltiplas comunidades religiosas, irmandades, o Cabido, o Senado, cavaleiros das três ordens militares, a aristocracia e a Família Real, todos de mantos brancos.»
Dicionário da História de Lisboa

A Procissão do Corpo de Deus no Rossio quatrocentista (Martins Barata, 1947)

«(...) era o espectáculo mais curioso de Lisboa do século XIV ao século passado, havendo atingido o seu auge de explendor em 1719, e embora depois fosse, gradualmente, perdendo a grandiosidade decorativa, conservava ainda antes da República, muito do pitoresco primitivo.»
Norberto Araújo, Peregrinações em Lisboa


D. Manuel II, segurando a vara direita do pálio,
na última Procissão do Corpo de Deus do tempo da monarquia (1910)


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Haverá um Dia do Vinho?

Dia Internacional da Cerveja



Os monges medievais, sendo comummente fabricantes de cerveja, usavam uma grande variedade de ervas na sua confecção.
Uma das ervas introduzidas nessa produção, no Mosteiro de San Gallo (Suíça), foi o lúpulo. E a moda pegou...
Dizem que o sabor amargo tão característico da cerveja se deve ao lúpulo, o qual também ajuda na sua conservação.



segunda-feira, 31 de julho de 2017

Procissão do Corpo de Deus

«Em Lisboa ninguém dormiu. Acabaram os outeiros, as damas voltaram dentro a compor a pintura esmaecida ou esborratada, daqui a pouco regressarão à janela, outra vez gloriosas de carmim e alvaiade. O povo miúdo de brancos, pretos e mulatos de todas as cores, estes, aqueles e os outros, estende-se ao longo das ruas ainda turvas do primeiro amanhecer, só o Terreiro do Paço, aberto para o rio e para o céu, é azul nas sombras, e depois subitamente rubro do lado do paço e da igreja patriarcal, quando o sol rompe sobre as terras de além e desfaz a bruma com um sopro luminoso. É então que começa a sair a procissão.



Vêm à frente as bandeiras dos ofícios da Casa dos Vinte e Quatro, primeiro que todas as dos carpinteiros, representando S. José, que desse ofício foi oficial, (...) Atrás vem a imagem de S. Jorge, com todo o seu estado, os tambores a pé, os trombeteiros a cavalo, rufando uns, outros soprando, rataplã, rataplã, tataratará, tá, tatá, não assiste Baltasar no Terreiro do Paço, mas ouve as trombetas ao longe e arrepia-se como se estivesse no campo de batalha, (...)




Passaram as bandeiras, afasta-se o alarido das trombetas e dos tambores, agora vem o alferes de S. Jorge, o rei-de-armas, o homem-de-ferro, de ferro vestido e calçado, com plumas no elmo e viseira derrubada, ajudante-de-santo nas batalhas, para lhe segurar a bandeira e a lança, para ir à frente a ver se saiu o dragão ou dorme, escusada prudência hoje, que não saiu e estará dormindo, suspiroso sim de nunca mais poder vir à procissão do Corpo de Deus, não são coisas que se façam a dragões, nem a serpentes, nem a gigantes, triste mundo este, que assim vai consentindo que lhe roubem as belezas, enfim, algumas se terão preservado, ou são de beleza tanta que não se atrevem os reformadores das procissões a deixar, para só falar destes, os cavalos nas cavalariças, ou a abandoná-los (...)


e eis que aí vêm quarenta e seis, pretos e cinzentos, de formosos xairéis, condene-me Deus se não declarar que melhor vestem as bestas do que os homens que as vêem passar, e isto é sendo o Corpo de Deus, trouxe cada um no seu próprio corpo o que de melhor tinha em casa, a roupinha de ver ao Senhor (...)»
José Saramago, Memorial do Convento



As fotografias são da exposição Corpus Christi. A procissão do Corpo de Deus, na Sala do Capítulo do Convento da Graça, até dia 1 de Outubro.

«A mostra reconstitui a exposição original apresentando as 1587 miniaturas, em barro não cozido, que retratam a procissão do Corpo de Deus como seria no século XVIII, concebidas e moldadas à mão, entre 1944 e 1948, pelo empresário Diamantino Tojal.»

Este conjunto de peças, que faz parte do acervo do Museu de Lisboa, apenas tinha sido apresentado na sua totalidade em 1948, no Palácio Galveias.


«Acredito na imortalidade. Será uma aventura sem corpo!»

«Através de cada personagem, de cada filme, de cada peça de teatro, eu entro num universo novo. E sou eu, a pioneira, que diz ao espectador; venha comigo à descoberta de algo estranho e diferente de si!»

«Ao longo do tempo não só tenho encontrado personagens, como belíssimos seres humanos, seja entre os técnicos ou os criadores artísticos, seja entre as pessoas que me são chegadas. Com eles fui-me dando aos outros, ao mundo!»


Jeanne Moureau (à direita) no filme O gebo e a sombra,
de Manoel de Oliveira

«O cinema português tem algo de muito próprio. É aparentemente modesto, discreto, eu diria antes que é um cinema resistente. É um cinema que permite, através de realizadores como Manoel de Oliveira, Paulo Rocha, Jorge Botelho, Jorge Silva Melo, Teresa Vilaverde... uma visão sobre um mundo interior que diz respeito a todos nós. Depois, é vossa palavra saudade, tão cara aos poetas!»

As palavras são de Jeanne Moureau, na primeira pessoa, adaptadas da entrevista concedida a Luís Goucha, e que podem ser lidas no seu blogue O Cabaré do Goucha (12 de Fevereiro de 2016).

Jeanne Moureau faleceu hoje.


domingo, 30 de julho de 2017

Bergman e Antonioni

Morreram os dois no mesmo dia, exactamente há 10 anos.

«Bergman é o teatro. O miúdo que leu o Strindberg todo na adolescência (uma brutalidade inimaginável) fez todo o seu mundo no teatro: encenou peças, casou com actrizes, cultivou os seus actores fetiche, escreveu argumentos sobre meios teatrais. É um cineasta da palavra. (...) Bergman foi um autor da gravidade.

Antonioni é um cineasta da imagem. O que acima de tudo retemos dos seus filmes são avenidas largas, ilhas desertas, postes de electricidade, gruas. É um cinema visual, um cinema de arquitectura, que ao tempo (à palavra) sempre preferiu o espaço (a distância). (...) Dizem que inventou um cliché – a "incomunicabilidade" (...)»
Pedro Mexia

Por coincidência, a 31 de Julho desse ano voei para Estocolmo. Decorriam na cidade as cerimónias fúnebres de Bergman e eu ia começar as minhas férias.

Estocolmo - Teatro Nacional, de que Ingmar Bergman era director, em 2007


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Reacendimentos...



Há gente que não aprende!


Lusitana e oca volubilidade

«"Tu sofres de opinião fácil!", disse alguém dotado de espírito diagosticante a um sujeito que se pronunciava categoricamente sobre tudo e todos com lusitana e oca volubilidade.»
José Rodrigues Miguéis (1940)


quarta-feira, 26 de julho de 2017

As cheias de 1967 e a censura - a propósito de vítimas...

Noite de 25 para 26 de Novembro de 1967 - chuva intensa sobre a região de Lisboa.

1.ª edição do Diário de Lisboa de 26 de Novembro de 1967
O Diário de Notícias, três dias depois, indicava 427 mortos.
A censura impôs o fim da contagem pública das vítimas.
Nunca se chegou a saber o seu número certo. Os poderes públicos não quiseram que se soubesse da verdadeira dimensão da tragédia.

Seria demasiado triste que no Portugal pós-25 de Abril acontecesse uma situação semelhante!

As cheias inscreveram-se no debate político, na medida do possível, em 1967. O regime procurava enquadrar o ocorrido na categoria do desastre natural.

À época das inundações de 1967, a comunicação social afecta ao regime do Estado Novo punha a tónica no carácter inesperado da catástrofe, na sua origem natural - «(...) a violência do fenómeno de carácter excepcional, registado nas horas dramáticas da noite de 25 para 26 de Novembro, pode explicar cabalmente a grandeza dos prejuízos causados (...).» (nota oficiosa do Ministério do Interior) - e na «cadeia de solidariedade humana (…) sem distinção de classes», que havia significado a «vitória do homem, que a natureza tinha esmagado» (Diário da Manhã).

A oposição colocava a tónica nas condições sociais que levaram a que as fortes chuvadas se tivessem transformado num desastre humano.

Se num primeiro momento saíram notícias sobre o assunto, não tardou que a acção da censura se fizesse sentir para evitar leituras políticas críticas.
As autoridades tentaram ocultar a divulgação actualizada do número de mortos.

A 27 de Novembro, um telegrama da Direcção da Censura enviava as orientações às delegações locais: «Gravuras da tragédia: é conveniente ir atenuando a história. Urnas e coisas semelhantes não adianta nada e é chocante. É altura de acabar com isso. É altura de pôr os títulos mais pequenos.» 

Em 29 de Novembro, determinava-se: «Inundações: os títulos não podem exceder a largura de 1/2 página e vão à censura. Não falar no mau cheiro dos cadáveres.»

A imprensa estrangeira foi acusada de divulgar "notícias tendenciosas", a propósito da forma como o governo havia actuado.

Vivemos uma época diferente, felizmente. Se a liberdade de informação é fundamental numa democracia, a responsabilidade de quem trabalha essa informação é grande. 

Os incêndios, como as cheias, inscreveram-se no debate político.

O que se tem visto da parte de muita comunicação social é demasiada excitação e pouco tino. Com múltiplas leituras e múltiplos aproveitamentos. Leituras e aproveitamentos tendenciosos.
E, muitas vezes, com títulos tendenciosos, mesmo as notícias são tendenciosas! Mais do que tendenciosas: estupidamente tendenciosas! Pode-se falar em manipulação.

Não que os jornalistas não possam interrogar a realidade e questionar os poderes - têm esse dever.
Mas interrogar a realidade e ter sentido crítico obriga a uma maior racionalização/capacidade de pensar essa realidade, a um maior conhecimento e a uma maturidade que a maioria dos jornalistas visivelmente não tem. 
Depois, comunicação social e redes sociais andam demasiado ligadas entre si e este relacionamento exige novidades a todo o momento - a actualidade ferve e não se pensa. Pensar exige tempo, essa é outra das suas condições.

Porque as opiniões são leituras (mais) tendenciosas (ter opinião não significa ser neutro), a participação dos comentadores vem acentuar essa relação e reforçar outras ligações: as ligações a programas político-ideológicos, associados a interesses financeiros.  
Na actual situação, com os comentadores acentuam-se os interesses ideológicos que, no caso da direita, não encontram expressão a nível da capacidade política dos dirigentes dos partidos da oposição. Esses comentadores procuram compensar a força que a direita política não mostra. 


A urgência do tempo presente dificilmente os faz aguentar, uma legislatura que seja, o "jejum do poder".


Esta crónica de Camilo Lourenço, no início deste mês, é um excelente exemplo.
A meio do texto, este comentador afirma:
«No meio destas tragédias eu só espero uma coisa: que o líder da oposição, Passos Coelho não fale. Ou, se falar, que se faça acompanhar, nas suas viagens pelo país, de algum assessor com dois dedos de testa. E, já agora, que faça o que ele manda. Estou farto de ver Passos Coelho a dar mão a António Costa quando este se está a afundar...»

Os destaques são meus, mas a frase sublinhada é um programa de intenções: "faça o que ele manda"! Seja um pau mandado - é isso que o autor espera de um (do seu) líder político.
Agora não estrague, Pedro...

Que os poderes públicos democráticos não sigam o exemplo do regime Estado Novo e que o poder político se saiba afirmar democraticamente e não se cole a interesses duvidosos.
É que às vezes (demasiadas, para o meu gosto!) põe-se a jeito! 
Agora não estraguem!


terça-feira, 25 de julho de 2017

Há mais mortos para além do défice

Entro nas férias ao som da discussão em torno do número de mortes no incêndio de Pedrógão.

A velocidade e a intensidade da troca de informação e de "mimos" ultrapassam a nossa capacidade de absorção e o nível necessário de bom senso.

A campanha política instalou-se em cima de mortos.
Penso que ultrapassámos a questão do défice.



quarta-feira, 19 de julho de 2017

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Modigliani

«Ele comporta-se como um fedelho mimado, mas não lhe falta inteligência. Temos de esperar para ver o que se esconde por detrás deste miúdo. Um artista, quem sabe?»
(do diário da mãe de Modigliani, teria ele 11 anos e sofrido um caso grave de pleuresia)



Amedeo Modigliani nasceu a 12 de Julho de 1884


terça-feira, 11 de julho de 2017

Árvores mediterrânicas

Em selo.
As edições dos selos portugueses são uma maravilha!
É pena que já não se escrevam tantas cartas e postais, forma mais popular de conhecer os selos (agora mais reservados aos filatelistas) e mais perene de conservar a comunicação escrita - no futuro será mais difícil haver a edição da correspondência entre escritores, artistas, pensadores...  


Esta do catapereiro!... (já vi que é uma pereira brava...)


Camille Pissarro

Camille Pissarro teria feito ontem 187 anos.
Ele é um pouco o "parente pobre", porque esquecido ou pouco valorizado, dos pintores impressionistas, mas foi o único que participou nas oito exposições do grupo.

A curiosidade maior, extra-pintura, é o facto de a sua família ter ascendência portuguesa. O seu pai, Abraham Frederic Gabriel Pissarro, já terá nascido em França (Bordéus), oriundo de uma família judaica de Bragança que, em finais do século XVIII, emigrou para a zona de Bordéus, onde havia uma comunidade de judeus portugueses, aí refugiados desde os tempos da Inquisição.



sábado, 8 de julho de 2017

O mau estado da vedação

No meu primeiro ano na Escola Paulo da Gama, longínquo ano lectivo de 1985-86, estreei-me como Director de Turma.
A escola tinha, então, uma vedação em mau estado, a que o Ministério da Educação não acudia.

Um dia fui avisado que alunos da minha direcção de turma tinham saltado a rede para sair da escola.
Zeloso dos meus deveres, na primeira oportunidade inquiri a turma: "Quem se atreveu a saltar a rede?"
Os alunos foram honestos e tornaram difícil contar os braços que se puseram no ar.
Desconcertado, fiz a pergunta alternativa: "Quem é que não saltou a rede?"
Do conjunto de 27 alunos, só o David e o Luís Miguel puseram o braço no ar.
Nessa altura, alguém disse: "Não saltaram porque passaram por baixo!"

Ao contrário dos meus alunos, no recente caso de Tancos, as armas saíram pelo portão.


Telma Monteiro campeã de judo

Venho do fb, onde, há poucas horas atrás, uma amiga saudou Telma Monteiro pela conquista de mais um campeonato europeu de judo.
O título conquistado é... o de 2015.

Apesar da notícia não ser nova, continua a recolher muitas reacções positivas - já tem umas dezenas de likes - e há quem lamente que a notícia não esteja a ser mais divulgada (neste momento, penso mesmo que a minha amiga é a única que o está a fazer!).


domingo, 25 de junho de 2017

Além do cume

Socorro-me 
das rosas do poema

verso a verso
no forro das palavras

buscando a luz
sedenta
e no seu lume
a encontrar o que há

aquém do nada
para chegar depois

além do cume
Maria Teresa Horta, in Poesis