"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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quarta-feira, 11 de setembro de 2024

A embebedar os quatro cantos do mundo

«Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. No setembro, os homens deixam as eiras da Terra-Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo.»

Miguel Torga, Um Reino Maravilhoso - Trás-os-Montes


Ainda o Douro, o vinho e os estrangeiros

«A terra do seu nome e do seu amor são as léguas de xisto que dum lado e doutro das margens se levantam em presépio, a encandear o sol que as aquece. Aí sucedem-se as quintas que os turistas que passam vão encontrando num deslumbrado encontro do mito com a realidade. Por mais de uma vez haviam bebido vinho do Porto em Londres, Paris ou Nova Iorque. No rótulo da garrafa vinha o nome desconhecido do sítio onde se criara o néctar. Roncão, Rodo, Canal, Boa Vista, Rio Torto, Crasto, Sagrado... (...) Nomes e apelidos das mais variadas línguas acenavam a cal das paredes dos calços. Diez Hermanos, Cosens, Andresen, Kopke, Sandeman, Croft, De Laforce, Calém -, parecia a torre de Babel.» 

Miguel Torga, Vindima


Ontem descobri que também existia um Dia Internacional do Vinho do Porto. 

O negócio exige!...


O Douro do senhor Smith

O Douro vinhateiro tem dois grandes poetas: Miguel Torga e António Cabral.  

«São ambos duas vozes poderosas, Torga e Cabral, duas vozes bem timbradas e cheias, substanciosas, empenhadas ambas no canto duriense, mas os olhos com que vêem o Douro são diferentes, e por isso diferente a voz com que o cantam.»

A. M. Pires Cabral (1993)

António Cabral vê com alguma ironia o predomínio inglês sobre o território... e os seus homens:

«(...) Hoje, o senhor Smith é o dono da grande quinta:
Setenta pipas de vinho de primeira,
além dum extenso olival, dois pomares,
um palacete, a habitação dos caseiros, os caseiros,
trabalhadores eventuais e outras árvores de fruto. (...)»

Poemas durienses

O senhor Smith era "um menino bonito" do Duque de Wellington. Comprara uma quinta no Alto Douro por uma bagatela e visitava-a de cinco em cinco anos. 

O poeta contava as suas histórias.


terça-feira, 10 de setembro de 2024

Dia do Vinho do Porto

O dia 10 de Janeiro é considerado o dia do Vinho do Porto.


A 10 de Janeiro de 1756, o Marquês de Pombal assinou o alvará régio que determinou a criação da Região Demarcada do Douro, a primeira região demarcada de vinhos em todo o mundo. O território abrangido para a produção de vinhos de "feitoria" ou de "embarque" circunscrevia-se a 40 mil hectares.

Em 1907, João Franco - o Presidente do Conselho de Ministros cuja acção conduziria ao Regicídio - alargou a Região Demarcada para 600 mil hectares, mas Ferreira do Amaral (que sucedeu a João Franco) restringiu-a aos actuais 250 mil, logo no ano seguinte.

Mapa do País Vinhateiro do Alto Douro, de Josh. James Forrester (1843)
(dedicado respeitosamente a sua Majestade Fidelíssima, a Sr.ª Dona Maria II)

O negócio do vinho do Douro desenvolveu-se durante o século XVII graças às importações feitas pelos negociantes ingleses. As elevadas taxas aplicadas pelo governo francês sobre os vinhos de Bordéus fez os ingleses virarem-se para os vinhos do Douro, os quais passaram a exportar regularmente pela barra da foz do Douro. As exportações cresceram, sobretudo, a partir da assinatura do Tratado de Methuen (1703).

Embarque de pipas de Vinho do Porto em Vila Nova de Gaia, cerca de 1900

Segundo o historiador Gaspar Martins Pereira, a designação "Vinho do Porto" surge a partir da segunda metade do século XVII (1675). Esta designação resulta do processo de aguardentação do mosto e é este processo que distingue o velho Vinho do Douro do novo Vinho do Porto. A adição de aguardente vínica ajudava o vinho a suportar as travessias marítimas.  

No Porto e em Vila Nova de Gaia estabeleceram-se as sociedades inglesas para o comércio de vinhos, nomes ainda hoje reconhecidos: C. N. Kopke (1638), Croft (1670), Taylor, Fladgate & Yeatman (1692), J. W. Burmester (1730)... 

No Porto, os ingleses uniram-se na British Factory, a Feitoria Inglesa, que determinou preços, dominou mercados e controlou transportes, mandando em todo o comércio dos vinhos.

A primeira sociedade portuguesa surgiu em 1751: a de D. Antónia Adelaide Ferreira.

Rua Nova dos Ingleses (1834)

Feitoria Inglesa (foto actual)

A criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, em 1756, seguida da demarcação da região do Douro foram a resposta a uma crise do sector, procurando proteger o negócio, o que passava pela qualidade dos vinhos. Foi estabelecida a diferença entre vinhos "de feitoria" ou "de carregação" dos vinhos "de ramo", o vinho comum "sem direito a viajar".


O território vinhateiro destinado à produção de Vinho do Porto coincide com a área onde se podem produzir outros vinhos (maduros, moscatel, espumantes). No início do século XXI estavam plantados 45 278 hectares. 




sexta-feira, 9 de abril de 2021

Um copo à memória de Baudelaire

«Devemos andar sempre bêbedos. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê? Com vinho, com poesia ou com a virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são: "São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto.»
Charles Baudelaire





domingo, 13 de setembro de 2020

Mestre Aquilino

«Meus queridos camaradas, olhem sempre em frente, olhem para o sol, não tenham medo de errar sendo originais, iconoclastas, o mais anti que puderem, e verdadeiros, fugindo aos velhos caminhos trilhados de pé posto e a todas as conjuras dos velhos do Restelo. Cultivem a inquietação como uma fonte de renovamento. E, enquanto vivermos, façamos de conta que trabalhamos para a eternidade e que tudo o que é produção do nosso espírito fica gravado em bronze para juízes implicáveis julgarem à sua hora.»
Aquilino Ribeiro (num discurso em Março de 1963)


Aquilino Ribeiro nasceu a 13 de Setembro

Por isso, brindei hoje com um Terras do Demo branco...



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Aguçar a inteligência e disciplinar a ansiedade


«De fato completo, e de laço à gato, apresenta-se na sala de aula da escola oficial, (...) cumprindo um rito que possui tanto de palpitante como de ameaçador. Observa com curiosidade os restantes rapazes, e enfrenta com coragem as provas a que o sujeitam, de ditado, de redacção, de aritmética, e de desenho, animado pela discreta energia que lhe advém do dedalinho de vinho do Porto, de boa colheita, que a Mãe, honrando uma antiga tradição da família, o convida a escorropichar, a fim de que se lhe aguce a inteligência, e se lhe discipline a ansiedade.»
Mário Cláudio, Astronomia 


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Ainda o Vinho do Douro

«No lagar, sob o soalho do meu quarto, ouço correr o vinho, como numa fonte de jardim; um picante cheiro a mosto, subindo no ar, parece encher todo o vale; e, ao longe, entre as vindimadeiras, uma voz de soprano, rija, metálica, entoa uma das dolentes e arrastadas cantigas, ao mesmo tempo tristes e zombeteiras, de cima do Douro.»
Ramalho Ortigão, As Farpas




«Setembro da abundância...
Velhice que parece nova infância.
São Miguel das vindimas, Sol divino,
Negros frutos de néctar purpurino.
Ó sangue vivo em flor,
Pintando as mangas da camisa ao lavrador 
E os seus lábios que ficam a sorrir...
Lagares a ferver vermelha espuma a abrir.
E que bom cheiro a mosto.
Luz de perfume, espírito, embriaguez,
Esparso e alado gosto,
Almas de Bacanais, em sombra de palidez.»
Teixeira de Pascoaes



Dia do Vinho do Porto

Tinha surgido um Dia Internacional ou Mundial do do Vinho do Porto, comemorado a 27 de Janeiro.
Agora fala-se de um Dia do Vinho do Porto, sem o Internacional ou Mundial.

A data de hoje faz sentido: foi a 10 de Setembro de 1756 que D. José I assinou o alvará régio que instituiu a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (a Real Companhia Velha).
O objectivo era limitar a preponderância dos ingleses no comércio dos vinhos do Douro e resolver a crise por que passava aquela região.


«(...) sustentando a cultura das vinhas, conserve as produções delas na sua pureza natural, em benefício da lavoura, do comércio e da saúde pública.»


A iniciativa, diz-se, foi do Marquês de Pombal, mas por detrás, também se diz, havia um velho frade dominicano de comportamentos pouco abonatórios para quem usava hábito (João de Mansilha) e, mais atrás, diz-se ainda, um grande vinicultor do Douro, pertencente a uma nobre família do Porto (Dr. Luís Beleza de Andrade). Ainda haveria um espanhol (Bartolomeu Pancorbo), continua o "diz-se diz-se", natural da Biscaia, que também se dedicava ao negócio do Vinho do Porto.
Diz-se que o frade, natural de S. Miguel de Lobrigos, "gozava de grande influência junto do Marquês" ou que era "subserviente em excesso aos interesses do Marquês". Será possível que as duas afirmações estejam certas e que Frei João e Pombal fossem "unha com carne"?
João de Mansilha foi procurador da Companhia na corte (aquilo a que chamaríamos hoje lobby). Caiu em desgraça com a queda em desgraça do Marquês.

As polémicas quanto à criação e início de funções da Companhia foram muitas, com revoltas à mistura, como o "motim dos taberneiros", na Quarta-Feira de Cinzas do ano de 1757, castigado, à "boa" maneira de Pombal, com um elevado número de enforcamentos e condenações ao degredo.

Pipas de massa vinho
(que representam... muita "massa")


domingo, 26 de janeiro de 2014

Rolhas inteligentes ou rolhas para grandes vinhos


Um produtor italiano de rolhas de cortiça desenvolveu um sistema que insere códigos individuais nas rolhas. Isso permite que os consumidores possam aceder à história dos vinhos que façam uso dessas rolhas - de que forma o podem fazer é que não está muito claro nas notícias.

O sistema é complexo e envolve a impressão de um código na rolha, várias fotografias desta e passagem da informação para uma base de dados.
Essa base pode ser completada pelas informações que as empresas vinícolas que comprarem essas rolhas quiserem: origens do vinho, colheita, castas, data de engarrafamento, etc.
Suspeitas sobre o vinho que se esteja a consumir poderão ser esclarecidas pela análise da rolha por parte empresa vinícola.

Na Universidade de Aveiro, está a ser desenvolvida uma rolha de cortiça com um chip incorporado. Esse chip é capaz de dar informações sobre o vinho (ou outro líquido) engarrafado, como as datas de produção e de engarrafamento e também um registo das variações térmicas a que foi submetido.
Estas informações podem ser lidas por aparelhos como o smartphone.

O projecto está na fase de protótipo, havendo a ideia de integrar sensores que poderão da mais informações sobre o estado das bebidas.

Estas rolhas pretendem obviar à falsificação dos vinhos de topo e as rolhas com chip agradarão, certamente, aos bebedores mais exigentes.

A partir de agora, cá em casa, quando abrir um Château Lafite Rothschild ou um Richebourg Grand Cru, posso confirmar o seu pedigree e ter a certeza absoluta que não trocaram o precioso néctar por um humilde Camilo Alves ou Abel Pereira da Fonseca.

No futuro, as rolhas (como tudo, ao que parece) também serão rastreadas por GPS.
Os produtores vinícolas e de rolhas, o ministro das Finanças e o Director Geral dos Impostos, ficarão a saber onde e quando as "grandes" garrafas de vinho são abertas.

Escreveu Carlos Drummond de Andrade:

Respeito silencioso paira sobre a toalha.
A garrafa espera o gesto, o saca-rolhas espera
o gesto que há-de ser lento e ritual.

Ergue-se o pai, grão sacerdote prende a garrafa
entre os joelhos gira regira a espira metálica
até o coração do gargalo.
Não faz esforço não enviesa não rompe a rolha
É grave, simples, de velha norma.
(...)


sábado, 2 de novembro de 2013

Uma boa notícia

Nem tudo vai mal no Mundo...

Público, 1.11.2013

Espero que o Douro e o Alentejo estejam em sintonia!




domingo, 22 de setembro de 2013

Outono - vindimas e vinho

Ilustração de finais do século XV

Com o Outono, as vindimas e a produção de vinho.

«Eu estava com sono e a Sabedoria me disse:
A rosa da felicidade não se abre para quem dorme;
por quê te entregares a esse irmão da morte?
Bebe vinho; tens tantos séculos para dormir.»
Omar Khayyam
(séc. XI - XII)


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Festividades rurais

De passagem pela Feira da Pêra Rocha e Festival do Vinho Português (já acertei os nomes!)...


Encontrei um meu homónimo... dos grandes!
Sabia que o carrasco era arbusto. Que podia ser árvore e ter as dimensões deste... estava longe.



Se calhar... é verdade


















sábado, 13 de julho de 2013

O whisky que ficou para trás

Puxamos por uma ponta e... vêm atrás umas caixas com garrafas de whisky.
Porque falei de Shackleton, curioso recordar o extraordinário achado arqueológico feito, em 2010, sob uma cabana usada pelo explorador, na Antárctida, quando da expedição de 1907-1909: 5 caixas com garrafas de whisky e de brandy.

O achado só prova a pressa com que os exploradores foram forçados a abandonar o local.

A receita original para a mistura de maltes daquele whisky da destilaria White and Mackay, de 1898, já não existia.


Com base numa amostra retirada por um furo na rolha de uma das garrafas, a destilaria fornecedora de Shackleton já produziu um whisky de edição limitada - 50 mil garrafas.



quinta-feira, 4 de julho de 2013

Parece cortiça, mas não é

É arte (virtual) a fingir uma rolha de garrafa de vinho.


É uma imagem produzida num estúdio de ilustração, o estúdio Fescher, como se fosse a ampliação de um trabalho artesanal de escultura em cortiça, representando a colheita.

O objectivo desta imagem (não o deste post) é a divulgação do vinho reserva Aurora.
Mas o trabalho até merece publicidade gratuita. O vinho não sei, não o provei.


sexta-feira, 8 de março de 2013

Uma boa notícia


Até que enfim! Uma boa notícia.

Incomparáveis as virtudes do vinho
Puro ou terno como os homens e o seu coração
Com três copos conquistamos a felicidade
Mais três copos: temos o universo na mão
Li Bai (China, séc. VIII)

sábado, 19 de janeiro de 2013

Até no vinho?


O vinho é coisa santa
Que nasce da cepa torta
A uns faz perder o tino
A outros errar a porta
Quadra popular


«Os bebedores de água têm mau carácter.»
Blaise Pascal

P.S. - Pelo que dizem e contradizem, até parece é que os técnicos do FMI estão com os copos.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O Douro, as vinhas e as vindimas - Torga

Vinhas e oliveiras entre Pinhão e Sabrosa (Agosto de 2010)

«(...) colhido o centeio, nos plainos altos do granito pouco ou nada mais há que fazer durante uma temporada, e a palavra "vindima" soa como uma senha de recurso e de libertação. De resto, o grande sonho da terra em todo o ano é entrar numa roga. Descer à Ribeira é uma aventura da Montanha desde que há videiras no mundo. Vai-se à festa pagã da colheita dos cachos com a seiva da mocidade a florir ou com a secura da velhice a reverdecer.
(...)
Novas terras vieram depois, cada vez mais fundas e mais abafadas. Paços, Sabrosa, Vilarinho, Celeirós - patamares de descanso na grande escadaria. A coberto dos bafos gelados do Marão, as cepas e as tanchoeiras vestiam-se de serena pujança. E os cachos maduros e as azeitonas a pintar extremavam dois mundos: o mundo da terra quente e o mundo da terra fria. (...)
Numa curva da estrada, o Doiro apareceu. O rio Pinhão, depois de atravessar as duas pontes, a da estrada de macadame e a do caminho-de-ferro, entrava-lhe no flanco ainda a espumar, e a luz do Sol a pino reverberava, crua, no caudal majestoso. Os olhos secos da Montanha, fundos como as fontes de chafurdo, arregalavam-se de espanto diante da levada de oiro. Para muitos o espectáculo não tinha novidade. Mas os restantes paravam abismados e tontos. Uma sensação de longe, de coisa que arrasta a gente sem a gente querer, tirava-lhes a segurança firme das fragas.
- E para onde vai tanta água? - perguntava o Chico, espantado.»
Miguel Torga, Vindima

O Douro visto de S. Leonardo da Galafura (Agosto de 2009)

Miguel Torga era natural de S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa. O romance Vindima foi publicado em 1945.