"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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sexta-feira, 5 de abril de 2024

Acordo Ortográfico 1990 - aconselha-se revisão

Como já várias pessoas se lembraram, a propósito de reposições, o Governo devia rever o Acordo Ortográfico de 1990. Isso era uma boa ideia!




sábado, 10 de junho de 2023

Camões - o seu dia e o estado da língua portuguesa

«(...) o que parece preocupante é o facto de cada vez menos haver em Portugal qualquer espécie de interesse por Camões e por aquilo que ele representa. O nome do autor de Os Lusíadas tende a ser apenas a marca distintiva de um feriado, ambíguo luxo nos tempos que correm, e pouco mais. As questões da identidade começam por estar relacionadas com a língua materna e esta deve a Camões a sua dimensão moderna. Mas estão à vista as consequências que, para a identidade, decorrem do actual estado de coisas: a língua materna está cada vez mais deteriorada (…). Nem sabemos pronunciá-la, nem sabemos escrevê-la ou falá-la com um mínimo de correcção. E nem vale a pena falar da situação catastrófica que virá a ser gerada pelo Acordo Ortográfico se este algum dia se aplicar (...). Vivemos numa época de apoucamento da língua, de empobrecimento do vocabulário, de aviltamento de todas as regras de gramática. (…) Vêmo-la subordinar-se servilmente ao facilitismo e à tecnologia, quando devia contribuir para uma estabilização dos seus paradigmas próprios, procurando equilíbrios permanentes com as tendências que são sinal dos tempos. (...) A língua de Camões está irreconhecível. Se ele voltasse ao mundo, decerto pensaria em rasgar a sua obra. Deixámos de ser dignos dela.»

Vasco Graça Moura, A língua de Camões (DN, 9 de Junho de 2010)


domingo, 15 de outubro de 2017

Um senhor de matosinhos


andava eu no liceu: no salão nobre
dos paços do concelho em matosinhos,
um professor, o óscar lopes, vinha

mostrar à noite que a literatura
importa a toda a dignidade humana.
(...)
Vasco Graça Moura 


Óscar Lopes nasceu a 2 de Outubro de 1917, em Leça da Palmeira (Matosinhos).



sábado, 20 de agosto de 2016

Visto da margem sul do rio o porto

visto da margem sul do rio o porto não explode
sob a tarde de verão, a água reflecte
renques de casario humilde a encastelar-se
irregular em ocres e granito, manchas, vãos, recatos.

é quando os jacarandás se fazem desse azul mais surdo
do anoitecer e concentram uma ameaça do tempo
contida nas cores tensas das fachadas, a entrecortar 
os jardins do crepúsculo aprendidos de cor.

além umas arcadas, um cais, o traço grosso a carvão 
dos encaixes da ponte armada em ferro, a muralha,
o deslizar da luz para poente, tudo
uma dramática placidez escurecendo a ribeira, um vidrado

de presenças esquecidas, palhetas de ouro fosco, sobre as barcaças
abandonadas, quase ao alcance da mão, da voz, da alma, é quando
a música há-de vir, lentamente elaborada na memória,
como um sopro da infância e do indizível do mundo.

(...)
Vasco Graça Moura



domingo, 3 de janeiro de 2016

Vasco Graça Moura - poesia e prémio

blues da morte de amor

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto 
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze, 
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurei, a ver fugir a escala
do clarinete: - morrer ou não morrer, darling, ah, sim.
Vasco Graça Moura


Vasco Graça Moura faria hoje 74 anos.
Eduardo Lourenço foi distinguido com o Prémio Vasco Graça Moura - Cidadania Cultural, na sua 1.ª edição.

O professor sentiu-se honrado e feliz com o prémio que tem o nome de alguém por quem tinha admiração. "Fui amigo dele, devo-lhe imenso. Admiro-o por ele ser o grande poeta que é, ficcionista, homem de acção - coisa rara - e também um grande tradutor, cosmopolita, um homem do renascimento, um espírito muito corajoso, um verdadeiro mosqueteiro das letras portuguesas."


domingo, 27 de abril de 2014

Vasco Graça Moura

«A poesia é a minha forma verbal de estar no mundo.»
Vasco Graça Moura


Tempo
Num atropelo 
foram passando os anos

Simulando vagares de eternidade
a burilar os sonhos
que sonhamos e a acrescentar
saudades à saudade

Num sobressalto
fomos tomando o gosto

Às infiéis constelações
das nossas rimas
no rasto de anjos e paixões
feitas de fulgores e neblinas

Num alvoroço
foi-se ganhando o tempo

Tecendo o poeta verso a verso
o corpo da poesia acalentada
no excesso e no gosto do colher
sedento a seduzir cada palavra

Num tumulto
fomos iludindo o nada

Na partilha astuciosa do prazer 
uma grande vontade adivinhada
escrever com a língua portuguesa
dizendo do país Poema e asa
Maria Teresa Horta
em homenagem a Vasco Graça Moura (2012)


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O lastro da memória, lastro das palavras

«Nós em termos culturais e civilizacionais explicamo-nos por uma acumulação de memórias, tradições, práticas, muitas vezes milenares. Muitas vezes, recuperar essa memória é um acto perfeitamente involuntário. Surge. Surge no próprio interior das palavras. Nós pegamos n'Os Lusíadas e vemos Camões, no ponto central do poema, ir fazer uma evocação dos episódios da Odisseia. Os Lusíadas são de 1572, portanto isso passa-se uns 2300 anos depois da Odisseia. Isso quer dizer alguma coisa. Nós temos uma memória cultural que está intrínseca nas próprias palavras, além de estar nas obras com que contactamos. E isso vem à tona, e não vem propositadamente. Vem porque faz parte das nossas necessidades de expressão. Isso acontece-me muitas vezes, mas não só com a literatura, acontece-me com a pintura, a música, o cinema. Há um adensar quer da preocupação cultural quer da expressão daquilo a que podemos chamar os grandes problemas da condição humana, quer da simples tradição transgeracional de informação e de factos que acaba por confluir na escrita. Nem nós nos podemos explicar sem isso.
Um dos grandes problemas da jovem literatura, e eu faço parte de vários júris literários e portanto posso falar com algum conhecimento de causa, é que a maior parte dos autores que concorrem não leram nada do Saramago para trás, se é que leram Saramago. Desconhecem completamente o património que está ao serviço deles e que poderia explicá-los. E isso vai ser uma tragédia.»
Vasco Graça Moura, entrevista à Ler, Janeiro de 2014

Falta lastro a quem nos representa.
A tragédia já começou.


P.S. - Por lapso, na 1.ª transcrição do texto, saltei a parte sublinhada, o que adulterava o sentido do mesmo. Convém repor a verdade.