"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

À memória da M.ª João, que faria hoje 68 anos


No final do 1.º ano da faculdade (1977-78), à chegada de uma visita de estudo - a única de todo o curso! - ao Castro do Zambujal (Torres Vedras).

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder


domingo, 23 de novembro de 2025

Ele é Herberto Hélder

«Ele nasceu não num lugar, mas numa inquietação que atravessaria a sua existência inteira, uma respiração do mundo que só a poesia poderia decifrar.
Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu, eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia só para filmar Herberto no instante em que atravessava os pátios da Faculdade de Letras, onde estudava Filologia Românica. A câmara aproximar-se-ia devagar, quase com reverência, captando o jovem que escutava os murmúrios do mundo antes de o transformar em palavra viva. Ele caminhava como em “Os Passos em Volta”, atento a cada sombra, a cada pausa da luz sobre a pedra, como se pudesse sentir a língua do mundo a vibrar sob os seus pés.
Lisboa seria para ele um território de alquimia silenciosa. Jornalista, bibliotecário, tradutor, voz de rádio; (...)»
Luís Galego

Herberto Hélder nasceu a 23 de Novembro.



sábado, 23 de novembro de 2024

Ter paixão - Herberto Helder

li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua
paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos no mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a
paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega
Herberto Hélder, A faca não corta o fogo


Herberto Helder nasceu a 23 de Novembro de 1930.



segunda-feira, 17 de maio de 2021

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha casa ardesse pousada na noite.
– E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes caem no meio do tempo,
– não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Herberto Hélder










domingo, 16 de setembro de 2018

Us and Them



"(...)
também eu queria escrever um poema maior que o mundo,
escrevê-lo com o mais verbal e primeiro de mim mesmo
(...)"
Herberto Hélder


segunda-feira, 21 de março de 2016

Sinto que me falta...

Tríptico
«(...)
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.»
Herberto Helder, A colher na boca


terça-feira, 24 de março de 2015

A infância de Herberto Hélder

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isso foi antes
de aprender a álgebra
José Tolentino Mendonça, Os dias contados

O primeiro poema do primeiro livro de poemas de José Tolentino Mendonça, sobre Herberto Hélder, poeta que admira.

Herberto Hélder (1930 - 2015)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Aos amigos

«Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.»
Herberto Hélder