"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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sábado, 30 de junho de 2018

Maio de 68 - 50 anos (20)



«31 de Junho de 1968*
Sucesso do governo nas eleições, excedendo todas as expectativas. A oposição perdeu mais de metade dos seus deputados, o PC idem. É a derrota do Waldeck-Rochet. O PCF vai entrar em crise, a não ser que se deixe encarreirar mansamente para uma situação eleitoral parecida com a da SFIO. (...)

Os "revolucionários" é que são coerentes, pois, desde o início, recusaram o jogo eleitoral e fizeram valer o princípio das "minorias actuantes". Somente, o princípio da minoria só vale na medida em que ela suscita a adesão da maioria. A minoria não comanda, convence. De outro modo seria a ditadura, e portanto a repressão, e portanto o Estado, e portanto a burocracia que os revolucionários pretendem abolir. A maioria alcançada pelos gaullistas nas eleições mostra que a França não está pronta para a revolução.

E, no entanto, ao ouvir ontem o Humberto, todo lançado na "Université d'été", convenço-me de que a revolução vai recomeçar no Outono com a abertura das aulas, não posso duvidar de que a revolução está em marcha. As eleições ficaram na sombra.
São estas duas atitudes que é preciso confrontar e opor: a França que vota gaullista maciçamente - incluindo a banlieue de Paris, que sempre votou vermelho -, a França que confirma a rotina; e, por outro lado, a revolução que prossegue, na minoria, o seu andamento, igualmente seguro e inelutável.

(...) São precisos conceitos diferentes para entender uma e outra. Uma revolução só é possível quando, de salto, a massa entra em estado dinâmico. Foi o que, parece, esteve quase para acontecer em Maio. Foi o que aconteceu em Novembro de 1917 na Rússia. É só no momento em que o estado dinâmico se propaga à maioria da população activa que a estrutura pode mudar.»


António José Saraiva, Maio e a crise da civilização burguesa


* Exactamente assim... no livro. O lado revolucionário de Maio de 68 chegou até ao calendário!...


Maio de 68 - 50 anos (19)



«(...) houve as eleições com os resultados que sabes. Em resumo, o PC perdeu perto de 3/4 dos deputados e cerca de meio milhão de votantes. A Féderation perdeu mais de metade dos deputados. Os gaulistas ortodoxos têm a maioria absoluta. Seguem-se-lhe em número de deputados os giscardianos (que estão à direita dos gaullistas, e não ao centro como dizem), o PC, a Federação e os Centristas. Há um número considerável de gaulistas de esquerda.

Esperava-se a vitória dos gaulistas, mas o recuo do PC foi para mim uma surpresa. O mais curioso é que o PC perdeu uma parte do seu eleitorado nos seus bastiões tradicionais, como a chamada "ceinture rouge" de Paris. Houve muitos operários que votaram gaulista. Isto confirma que a classe operária está em grande parte integrada no sistema, fazendo bicha para a sua vez na chamada "sociedade de consumo". O operários que tiveram a iniciativa da greve foram uma minoria muito esclarecida, pertencente, na maior parte, à metalurgia. O operariado vota no PC institucionalmente, mas considera o PC como um elemento da ordem e não da revolução. Num momento em que a ordem parecia ameaçada, as classes médias e uma parte do operariado consideraram que como baluarte da ordem o De Gaulle era preferível ao ao Waldeck Rochet. E à luz destas considerações percebe-se muito bem porque é que o PC condenou tão ostensivamente os "revolucionários" e centrou a sua campanha eleitoral à volta do tema de que é um partido ordeiro e inimigo de aventuras, com o "sens de l'État".

Foi um duche escocês. Na 1.ª fase pareceu que toda a gente em França queria a revolução; na 2.ª fase que toda a gente queria o status quo. Na realidade a revolução foi obra de uma minoria actuante, que durante mais de um mês penalizou a maioria. Só as minorias fazem as revoluções.

Tenho várias ideias anotadas sobre todo este problema num diário que escrevi e que te hei-de mostrar.*
(...)
O que vai seguir-se? (...) O De Gaulle vai acabar mal, evidentemente, porque terá contra ele a Esquerda e a Direita. A não ser que, mais uma vez, a audácia o recompense. De qualquer forma uma viragem está em curso em França, e, através dela, em toda a Europa ocidental. O socialismo, ou qualquer coisa com outro nome e mais desalienante do que o que o dito nome contém existencialmente, virá, mas por vias bem diferentes daquelas que ensinam os clássicos e os doutores. Viva a imaginação!»
Carta de António José Saraiva
António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência

* António José Saraiva, Maio e a Crise da Civilização Burguesa


sexta-feira, 8 de junho de 2018

Maio de 68 - 50 anos (16)

A 8 de Junho, António José Saraiva escrevia a Óscar Lopes.
Até parece que Maio continuava...

«Meu caro
Tenho estado a assistir a uma coisa que não se vê todos os dias: uma revolução, e uma revolução sem precedente, porque é a primeira que ocorre num país economicamente e socialmente adiantado, no Ocidente.
(...)
Acrescento que o começo disto foi absolutamente inesperado. Não havia agitação operária. Recomeçava a expansão económica. Começava a reunir-se a conferência entre americanos e vietnamitas. O De Gaulle preparava a viagem à Roménia.»

António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência


quarta-feira, 28 de março de 2018

Espólios - o poder não se move pela cultura

Li
e partilho.

ESPÓLIO DE ANTÓNIO JOSÉ SARAIVA
Confesso que me repugna a atitude dos familiares que leiloam o que constituiu para os seus pais a obra de uma vida. Sim, que a obra não consiste apenas no que se escreve, pinta e esculpe mas também em colecções de livros e de objectos que o defunto levou a vida a juntar. Se a mim, defunta, me fizerem o mesmo, juro que hei-de arranjar maneira de me insurgir contra! Isto a propósito do leilão dos livros e dos pertences de José Hermano Saraiva que agora aconteceu. Alguém que lá foi contou-me. Os comerciantes abutres lá estavam, a arrematar os objectos que ele juntou com tanto amor: entre tantos outros, a olaria de Estremoz, agora património da humanidade, foi muito disputada. (Olho para as minhas peças, que há muito reúno, e fico apreensiva…). E todos os preciosos livros, claro. Essa pessoa que foi ao leilão soube, pela leiloeira, que iam fazer o mesmo à biblioteca do irmão, António José Saraiva – e fiquei estarrecida. Os livros de que se servia eram suculentamente anotados, e não dava posteriormente forma escrita a esses textos. Pergunto-me se irá também a leilão o seu espólio, que até agora não foi encaminhado para a Biblioteca Nacional, onde teria o seu útil assento. Por onde andarão tantos escritos inéditos, tantos documentos de que se serviu para a sua monumental História da Cultura e para toda obra de uma vida inteira dedicada ao estudo e à escrita? E a correspondência recebida de tantas pessoas – que guardaram a dele e a deram à estampa (Óscar Lopes, Luísa Dacosta)? É um século da nossa cultura que não foi ainda arrecadada! Perder tudo isso seria um crime de lesa-cultura que urge evitar – diz a leiloeira que o leilão de A. J. Saraiva está previsto até ao Verão! Por mim farei o que puder para o evitar – mas posso tão pouco! Não me movo nas esferas do poder que cuidam da nossa cultura e que se deviam sentir na obrigação de acudir a este perigo iminente. Quem dá uma mãozinha? Partilhar já ajuda.
Teresa Rita Lopes


Senti o mesmo em relação ao espólio de José Hermano Saraiva (apesar de não ser pessoa da minha simpatia) e à sua própria casa, em Palmela.
O poder não se move pela cultura.
(e as televisões estão mais preocupadas com a derrota da seleção e a não expulsão dos diplomatas russos)


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Óscar Lopes e António José Saraiva

Na emissão Vultos da História e da Cultura dos CTT, Óscar Lopes e António José Saraiva.


Dois académicos distintos, autores, em parceria, de “História da Literatura Portuguesa”.
Homenagem mais do que merecida!