 |
O exemplo raro do centenário de
nascimento de um escritor
ser lembrado num pacote de açúcar |
Alves Redol nasceu há 100 anos, em Vila Franca de Xira.
Com
Gaibéus, o seu primeiro romance, editado em 1939 (data em que se vivia o fascismo e teve início a 2.ª guerra Mundial), é considerado o precursor do neorrealismo em Portugal. A sua escrita tem uma marca ideológica muito forte de resistência ao regime político, de intervenção ou militância política – a arte como contributo para o desenvolvimento da consciência e o progresso social.
Leitura obrigatória no Curso Complementar dos Liceus pós-25 de Abril, assim conheci os trabalhadores sazonais que das Beiras iam para a lezíria trabalhar na ceifa do arroz e que são o centro de
Gaibéus.
«Propus-me com Gaibéus criar um romance anti-assunto, ou, melhor, anti-história, sem personagens principais que só pedissem comparsaria às outras.» (Breve memória para os que têm menos de 40 anos ou para quantos já esqueceram o que aconteceu em 1939, escreveu Redol em 1965)
 |
Capa dos "meus" Gaibéus
(com marcas do tempo),
edição de 1976,
com letra muito miudinha |
Redol, já falecido em 1969, tornou-se então presença certa nos manuais de Língua Portuguesa, mesmo nos do 2.º Ciclo, onde passagens de
Constantino, guardador de vacas e de sonhos tinham lugar cativo. A sua estreia na literatura infantil tinha sido em 1956, com
A vida mágica da Sementinha – Uma breve história do trigo. No final da vida viu publicado um outro conjunto de livros adequados à aprendizagem da leitura, a série
A Flor, com quatro títulos recentemente reeditados pela Caminho.
Mas a sua obra é ainda mais variada: nela cabem textos jornalísticos, um estudo de carácter etnográfico (
Glória, uma aldeia do Ribatejo), compilações de textos de tradição oral, contos, novelas, textos dramáticos (
Forja será o mais conhecido) e os romances que o distinguiram como escritor, nomeadamente obras como o citado
Gaibéus,
Avieiros (1942),
Fanga (1943), uma trilogia centrada no Douro e conhecida por “ciclo
Port Wine” (1949-1953) e
Barranco de cegos (1961).
Numa vida vivida, maioritariamente, em ditadura, consciente do grave estado de saúde em que se encontrava, escrevia a José Cardoso Pires poucos dias antes da sua morte:
«Um gajo tem sempre mais alguma coisa que gostava de fazer ou de dizer. Eu serei um dos que morre na incomunicabilidade com o seu tempo. Nunca me deixaram dizer-lhe o que de mais autêntico tinha para ele.»
O Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, tem em curso um conjunto de actividades evocativas do centenário do nascimento de Alves Redol.