"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
Mostrar mensagens com a etiqueta Almada Negreiros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Almada Negreiros. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 13 de junho de 2023

Prémios do Património Cultural Europeu 2023

A Europa Nostra, organismo que representa organizações que trabalham na salvaguarda do património cultural europeu, atribuiu os prémios do Património Cultural Europeu, tendo Portugal recebido quatro distinções.

Na categoria de "Conservação", foi contemplado o restauro dos tectos em estilo mudéjar da Sé Catedral do Funchal; na categoria de "Pesquisa", a distinção coube ao projeto para salvaguarda da arte xávega na praia da Tocha; na de "Envolvimento e sensibilização dos cidadãos", foi consagrado o projecto de investigação e divulgação da arte mural de Almada Negreiros na cidade de Lisboa; finalmente, o arqueólogo e historiador Cláudio Torres, grande responsável pela valorização da herança cultural islâmica em Portugal, foi distinguido como "Paladino do património". 



segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Martinho da Arcada


A 2 de Janeiro de 1782*, abriu, nas lojas de um dos primeiros edifícios construídos na Praça do Comércio após o Terramoto de 1755, aquele que se transformou no actual café-restaurante Martinho da Arcada, com o nome de Casa da Neve, vendendo bebidas e sorvetes. Sucederam-se outras designações: Casa de Café Italiana, Café do Comércio, Café dos Jacobinos, Café da Arcada do Terreiro do Paço...


Em 1829, um novo dono, Martinho Bartolomeu Rodrigues, deu-lhe o seu próprio nome, passando a chamar-se Martinho da Arcada para o distinguir do café homónimo do antigo Largo Camões (actual Largo de D. João da Câmara), pertencente ao mesmo gerente.

Foi paragem obrigatória para governantes, artistas e intelectuais, e local de tertúlias. 
Foi a segunda casa do seu cliente mais famoso: Fernando Pessoa. A sua mesa, ex-libris da casa, continua reservada no recanto onde passou tardes a escrever.



Foi aqui, no dia 27 de Novembro de 1935, que Fernando Pessoa e Almada Negreiros se sentaram, beberam um café, conversaram durante algumas horas e se despediram. Três dias depois, Pessoa morreria no Hospital de São Luís dos Franceses e este encontro ainda hoje é recordado como a última vez que o poeta entrou no seu local favorito, em Lisboa. 


* Também encontrei o ano de 1778 como a data fundadora, sendo que em 1782 também vendia bilhetes para as carreiras de sege entre o Terreiro do Paço e Belém.


domingo, 10 de abril de 2022

Proibido por inconveniente

Proibido por inconveniente - Materiais das Censuras no Arquivo Ephemera, a exposição do que a Censura pretendia esconder no tempo do Estado Novo.

No antigo edifício do Diário de Notícias, até 27 de Abril, uma exposição resultante da parceria entre a EGEAC (C. M. Lisboa) e a Ephemera - Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira.

Além da exposição, a atracção do seu cenário, sob a "tutela" do enorme planisfério de Almada Negreiros.


 

domingo, 3 de novembro de 2019

Os dias das pequenas coisas

Num Domingo molhado, com...
Sarah Affonso no Museu Nacional de Arte Contemporânea (Chiado).


 Auto-retrato

Meninas

Ilustrações de Sarah Affonso para a 1.ª edição de
A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner (1958)

Sarah Affonso com Almada Negreiros e os filhos
(na Quinta da Lameirinha?)

Fotografia da casa da Quinta da Lameirinha (Bicese)


domingo, 7 de abril de 2019

Almada Negreiros

José Sobral de Almada Negreiros nasceu na Roça Saudade, em S. Tomé (S. Tomé e Príncipe), a 7 de Abril de 1893.


«(...) a situação de Almada Negreiros é ímpar, ao longo dos sessenta anos em que actuou, durante a vigência de três ou quatro gerações que variadamente o acolheram. O seu valor é sem dúvida especial (...)
Artista do Sudoeste europeu, da Península Ibérica, "el portugès Almada" foi um poeta e um pintor português, ou mais exactamente lisboeta, por valores assumidos duma mitificação cultural. (...)

Artista português, Almada não teve mestre para o ser. "Nós não precisamos de Mestres, para chegarmos a Mestres bastam-nos os nossos sentidos aqui na cidade." Esses sentidos explicam o visual que desenha ou escreve, aprendendo nessa vivência aguda e amorosa que foi sempre a sua, entendendo os seres e o seu sentido linear atá ao fundo duma anticiência "acusmaticamente" codificada em discurso geométrico.»
José-Augusto França, Amadeo & Almada


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Começar (de novo)

A RTP lembrou ontem...


A gravura mural Começar, é a última grande obra de Almada Negreiros – “um trabalho obcecante” -, inaugurada em Outubro de 1969.
Com 12,90 m x 2,20 m, foi gravada em calcário polido, no átrio da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa). Almada acompanhou a sua execução, feita por uma equipa de operários especializados.


É um discurso geométrico: uma profusão vertiginosa de linhas e arcos, acompanhados por números e expressões matemáticas, num jogo de cores.



«Vou simplesmente dizer o título da obra que eu concluí, que é uma obra síntese de tudo o que eu fiz na minha vida: é a Geometria. O título é Começar…»
(Almada Negreiros, numa conferência proferida por Jorge de Sena e dedicada, exactamente, a Almada Negreiros, em 1969).
Começar, a última obra.



domingo, 17 de abril de 2016

Gares Marítimas com os painéis de Almada Negreiros

Dia Internacional dos Monumentos e Sítios


«Tejo, lombada do meu poema aberto em páginas de Sol (...) Nós temos todos os rios de que precisamos. O Tejo é o maior; nasceu em Espanha, como outros, mas não quis ficar lá (...) Nós também temos varinas que vão pelas ruas como barcos sobre o Mar. - Elas sabem a sal. E trazem o Mar nas suas canastras.»
Almada Negreiros, Histoire du Portugal par Coeur



Dois dos painéis da Gare Marítima de Alcântara
(sobre Lisboa e o Tejo)


sexta-feira, 18 de março de 2016

O caçador

«Um dia um caçador… Não, ele não era caçador. Ia hoje à caça pela primeira vez. Uns desgostos levaram-no a experimentar a caça. Sobretudo, porque os caçadores chegam estafados à cama e dormem com os inocentes. E para que não lhe perguntassem o que fazia pelos campos, foi comprar uma farpela de caçador e todos os seus pertences, ajudado pelo catálogo de St. Étienne. Por conseguinte, era uma vez um rapaz vestido de caçador.»
Almada Negreiros



segunda-feira, 9 de novembro de 2015

domingo, 29 de março de 2015

A Invenção do Dia Claro

Almada tinha razão: mais luz, alegres.




História das Palavras

«As mulheres e os homens estavam espalhados pela Terra. Uns estavam maravilhados, outros tinham-se cançado. Os que estavam maravilhados abriam a bocca, os que se tinham cançado tambem abriam a bocca.

Houve um homem sósinho que se poz a espreitar esta diferença - havia pessoas maravilhadas e outras que estavam cançadas. 

Depois ainda espreitou melhor. Todas as pessoas estavam maravilhadas, depois não sabiam aguentar-se maravilhadas e ficavam cançadas.

As pessoas estavam tristes ou alegres conforme a luz para cada um - mais luz, alegres - menos luz, tristes.

O homem sósinho ficou a pensar n'esta diferença. Para não esquecer fez uns signaes n'uma pedra.

Este homem sósinho era da minha raça - era um Egypcio!

Os signaes que elle gravou na pedra para medir a luz por dentro das pessôas, chamaram-se hieroglifos.

Mais tarde veiu outro homem sósinho que tornou estes signaes ainda mais faceis. Fez vinte e dois signaes que bastavam para todas as combinações que ha ao Sol.

Este homem sósinho era da minha raça - era um Phenicio!

Cada um dos vinte e dois signaes era uma lettra. Cada combinação de lettras uma palavra.»

Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro


terça-feira, 24 de março de 2015

Revista de uma geração

24 de Março de 1915
Publicação do n.º 1 da Orpheu.



"Literatura de manicómio" é o título de um artigo de A Capital em que se analisa (?) a revista.
Os poetas de Orpheu são considerados "casos de paranóia", clinicamente falando. Orpheu é considerado um caso de foro psiquiátrico.


«Rilhafolescamente: A humanidade avança... mais 200 anos e o mundo será um grande manicómio.»
(O Povo, 17 de Abril de 1915)

Como escrevia Fernando Pessoa numa carta a Côrtes-Rodrigues (4 de Abril de 1915): «Somos o assunto do dia em Lisboa; sem exagero lho digo. O escândalo é enorme. Somos apontados na rua, e toda a gente - mesmo extraliterária - fala do Orpheu.»

É assim que Fernando Pessoa apresenta a revista, quando, depois do n.º 2, escreve a Camilo Pessanha a convidá-lo para colaborar:
«(...) é a única revista literária a valer que tem aparecido em Portugal, desde a Revista de Portugal, que foi dirigida por Eça de Queirós. A nossa revista acolhe tudo quanto representa a arte avançada; assim é que temos publicado poemas e prosas que vão do ultra-simbolismo ao futurismo.»

Orpheu é uma bem-aventurada reunião de um conjunto multifacetado de poetas e artistas com "afinidades dissonantes". «Quando algumas pessoas têm a mesma desgraça... juntam-se.», afirmou Almada Negreiros na entrevista que deu, em 1969, no Zip Zip.
Corresponde a um encontro pleno das letras com as artes, espaço de uma expressão criativa de ruptura. A alma modernista centra-se em Almada Negreiros, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, todos numa fase de afirmação e de irreverência própria de quem está na casa dos vinte anos.

Como continua Fernando Pessoa na carta para Camilo Pessanha, «[A revista] tem sabido irritar e enfurecer, o que, como V. Ex.ª muito bem sabe, a mera banalidade nunca consegue que aconteça. Os dois números não só se têm vendido, como se esgotaram, o primeiro deles no espaço inacreditável de três semanas. Isto alguma coisa prova - atentas as condições artisticamente negativas do nosso meio - a favor do interesse que conseguimos despertar.»

Júlio Dantas atacava: «Quem não tem juízo, é quem os lê, quem os discute e quem os compra.»

Resposta (através de Almada): «Morra o Dantas, morra! PIM!»


quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Crepúsculo quotidiano

Por hoje já foi o bastante
por hoje basta d'evaporar bílis em espírito
alambique contra-instantes
basta d'espírito sem corpo e alma
um dia mais que vence a morte 
embate terrível entre vida e morte
vence-se a morte e não a vida
empate entre elas 
e nós resultado d'empate 
vamos indo graças a Deus

Ao cair da Luz na sua fronteira com as trevas
começa o espectáculo
o número do limite possível anima-se d'indefinido
o homem julga querer
e lê perfeitamente o que não pode
ainda? Há milénios.

De Deus e do Seu Sagrado não é a dúvida
mas no resto é
fazer fim do meio
e próprio de meio o que não é fim
nisto vamos graças a Deus

O frete de ser excede qualquer
e não se esboça outro
a dupla coluna do Céu e da Terra aos lombos de Atlas
mirra-nos o físico, larga-nos a alma, incendeia-nos o espírito 
e foca-nos
foca-nos o tríduo pelo menos.

(...)
Almada Negreiros


sábado, 12 de abril de 2014

Visita ao Palácio de Belém

Aproveitei a ausência do voluntário de Belém para visitar o palácio.
O palácio onde D. José I se safou do terramoto.

Penso ter completado a colecção de palácios reais da capital.
No interior, nada de fotos por motivos de segurança. Insegurança? São tão poucos os espaços que se podem visitar! E os que se visitam são conhecidos através da televisão e das foto do Museu da Presidência.
Já nas Necessidades a história é a mesma. E aí a vontade é maior - o interior do palácio é muito bonito e as visitas são raras, o que o torna desconhecido.


Sala dos Embaixadores - O magnífico lustre com a águia bicéfala, encomendado por um Romanov (Paulo I, filho de Pedro III e Catarina, a Grande), em Veneza, e adquirido por D. Fernando II, para o Palácio das Necessidades.

Na Sala Império, os painéis da Nau Catrineta, de Almada Negreiros (gare marítima de Alcântara), reproduzidos em tapeçarias de Portalegre - "Lá vem a nau Catrineta que traz muito que contar."

Montagem (com falhas) a partir de imagens copiadas da net

Vista a partir da varanda

Jardim de cima


segunda-feira, 7 de abril de 2014

Almada Negreiros

«Dizem que sou eu, o Menino d'Olhos de Gigante; e eu juro, pela minha boa sorte que não sou só eu!»
Almada Negreiros 
(nasceu a 7 de Abril de 1893)



segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Ver Almada


Comemoraram-se 120 anos do nascimento de Almada Negreiros e, simultaneamente, 100 anos da sua primeira exposição individual, nos salões da Escola Internacional de Lisboa.


Almada - one man show (expressão de Fernando Cabral Martins) - desenhador, caricaturista, pintor, poeta, bailarino, conferencista, dramaturgo, romancista, ensaísta, crítico de arte... Multiplicador (ou desmultiplicador) de criação artística nos seus vários níveis.
O sentido crítico mordaz e a criatividade permanente constituem a unidade dessa obra multifacetada.

Artista "Assim, inteiro, sem adjectivos, só de uma peça!"



sexta-feira, 17 de maio de 2013

Confidências

Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!
Almada Negreiros