"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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segunda-feira, 27 de abril de 2026

É ler a legenda...


Da prisão negra em que estavas
a porta abriu-se p'ra rua.
Já sem algemas escravas,
igual à cor que sonhavas,
vais vestida de estar nua.

Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.

(...)
Jorge de Sena, Cantiga de Maio (4-06-1974)


Graça Morais - Painel de homenagem aos presos políticos da Prisão de Caxias

sábado, 2 de novembro de 2024

Jorge de Sena - Hei-de ser tudo...

Hei-de ser tudo o que eles querem:
a raiva é toda de eu não ser um espelho
em que mirem com gosto os próprios cornos,
as caudas com lacinhos, e os bigodes
de chibos capripédicos.
Não sou sequer imagem.
Mas voz eu sou
que como agulha ou lança ou faca ou espada
mesmo que não dissesse da miséria
de lodo e trampa em que se espojam vis
só porque existe é como uma denúncia.

Hei-de ser tudo, não o sendo. Um dia
– podres na terra ou nos caixões de chumbo
estes zelosos treponemas lusos –
uma outra gente, e limpa, julgará
desta vergonha inominável que é
ter de existir num tempo de canalhas
de um umbigo preso à podridão de Impérios
e à lei de mendigar favor dos grandes.
Jorge de Sena, 9.12.1972


Jorge de Sena nasceu a 2 de Novembro de 1919.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Os 500 anos de Camões e os 499 anos de um eclipse solar

Redescobriu-se agora que Camões terá nascido no dia 23 de janeiro de 1524, portanto, há 500 anos, um ano antes de ter ocorrido um eclipse do Sol.

Terá sido a sua mãe a contar-lhe? "Filho, no dia em que fizeste um aninho..." 

A hipótese parte da interpretação de um soneto em que o poeta se refere a esse fenómeno astronómico - ver Público.

Redescoberta, porque o que parece ser uma novidade já foi objecto de estudo há décadas. Em 1940, a Empresa Nacional de Publicidade editou, em Lisboa, As Memórias Astrológicas de Camões e Nascimento do Poeta em 23 de Janeiro de 1524, da autoria de Mário Saa.



Mesmo com tanto tempo de antecedência de conhecimento, sendo meio milénio uma data tão redonda e sendo Camões unanimemente exaltado como o egrégio poeta da Pátria, de comemorações condignas estamos falados. 

«Este país te mata lentamente», escreveu Sophia de Mello Breyner em Camões e a Tença.
Já Jorge de Sena tem o fabuloso poema Camões dirige-se aos seus contemporâneos.

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

E o próprio Camões, na sua grande experiência de vida, lamentava:

O favor com que mais se acende o engenho, 
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.

Pois parece-me que é isto!...


domingo, 29 de março de 2020

Como queiras, Amor...

Como queiras, Amor, como tu queiras.
Marc Chagall, Os Amantes
 

Entregue a ti, a tudo me abandono,
seguro e certo, num terror tranquilo.
A tudo quanto espero e quanto temo,
entregue a ti, Amor, eu me dedico.

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba,
e nada, não, ainda há por que eu não espere
como de quem ser vida é ter destino.

As pequeninas coisas da maldade, a fria
tão tenebrosa divisão do medo
em que os homens se mordem com rosnidos
de malcontente crueldade imunda,
eu sei quanto me aguarda, me deseja,
e sei até quanto ela a mim me atrai.

Como queiras, Amor, como tu queiras.
De frágil que és, não poderás salvar-me.
Tua nobreza, essa ternura tépida
quais olhos marejados, carne entreaberta,
será só escárnio, ou, pior, um vão sorriso
em lábios que se fecham como olhares de raiva.
Não poderás salvar-me, nem salvar-te.
Apenas como queiras ficaremos vivos.

Será mais duro que morrer, talvez.
Entregue a ti, porém, eu me dedico
àquele amor por qual fui homem, posse
e uma tão extrema sujeição de tudo.

Como tu queiras, meu Amor, como tu queiras.

Jorge de Sena, in Post-scriptum

Poderia ter sido dedicado a Mécia de Sena.

Uma boa noite


Mécia de Sena (1920-2020)

A escritora Mécia de Sena faleceu ontem, em Los Angeles, poucos dias depois de ter completado 100 anos de vida.

Viúva de Jorge de Sena, foi a sua grande colaboradora e a organizadora da sua obra, mesmo depois da morte do escritor. Essa sua tarefa, cumprida até ao fim, terá levado a abdicar de uma carreira própria.
«(...) Mécia, a mulher que recusou ser o lugar de espera para ser a activa companheira de uma singularíssima aventura intelectual e moral.» (Baptista Bastos)
Foi Jorge de Sena que reconheceu a impossibilidade de ter realizado tudo o que conseguiu, como escritor e como professor, sem o apoio de Mécia de Sena.


«"Entre os vários rapazes com quem dancei, houve um que fora totalmente desconhecido. À despedida, perguntara-me o meu nome. Meses depois, cruzámo-nos numa conferência (...). Passados outros meses, encontrámo-nos num recital (...). Disse-me que também escrevia poemas (...). O nosso conhecimento mútuo a bem dizer nem se iniciara e iria fazer-se através de correspondência que se lhe seguiu".
A rejeição do "caminho mais fácil" entre ambos, "deu lugar a uma confiança e uma identificação que dificilmente poderão ter paralelo", escreveu então Mécia de Sena. "Não sem agruras e com algumas duras provas, ambas resistiram durante quase 30 anos, afinal o nosso 'para sempre' dignamente cumprido."»
Mécia de Sena
(no DN de hoje)


sábado, 2 de novembro de 2019

Epígrafes

«A residência no estrangeiro, abraçado a um exílio com tanto de voluntário como de empenhado, contribuía sem dúvida para a escassa validação do escritor no seu berço pátrio, sempre disposto a esquecer os filhos que transpõem as fronteiras, votando-os ao silêncio em que se detecta o amuo da imaturidade, ou o castigo da independência. Respeitado pelos seus pares como uma voz importantíssima, se bem que no entusiasmo algo tépido, autorizado pela inveja que não se contém, Sena lutaria contra semelhante ostracismo, usando a tenacidade risonha com que retrucava, ao acusarem-no de falar demasiadamente de si mesmo, "Se não for eu a fazê-lo, quem o fará por mim?"»
Mário Cláudio, A Alma Vagueante


«Tenho horror de falsas modéstias, de facto. Mas tenho ainda maior horror da mediocridade que se compraz em recusar-se a reconhecer o que a excede. Não, não sou um dos meus mais seguros admiradores. Se o fosse, seria como a maioria dos membros da vida [literária] portuguesa, tão satisfeitos de si mesmos [que escrevem sempre um livro pior que o anterior]. O problema não está em eu me considerar muito grande - mas sim em os outros serem, na maioria, tão pequenos. (...) O mais que fazem é louvar às vezes um medíocre ou desenterrar um morto, com medo da sombra que lhes seja feita. A diferença entre mim e eles é que não temo o juízo do futuro, e não procuro tapar o sol com uma peneira. Não: a minha segurança é total e absoluta: ninguém pode destruir-me senão eu mesmo.»
Jorge de Sena, Entrevistas


Nesta data centenária, a RTP epigrafa Jorge de Sena como "um dos intelectuais mais influentes do século XX português". Para compensar...




Vamos, Mécia?

«E para que conste, direi o que neste mês de Outubro de 2009 me contou D. Mécia de Sena: que no próprio dia em que se deu o 25 de Abril, Jorge de Sena, ao ouvir pela rádio que tinha caído a ditadura em Portugal, se voltou para ela e lhe disse, com uma alegria e um entusiasmo quase infantil: - "Ó Mécia, vamos para Portugal"? Ao que a D. Mécia respondeu: - "Ó Jorge, como é que podemos ir assim sem mais, se tu não tens nenhuma garantia de emprego em Portugal nem sabes sequer se to vão oferecer? Vamos esperar e depois se verá."

E a verdade é que, através dos anos, por mais de uma vez me referiu a D. Mécia que o tal convite para ensinar numa universidade portuguesa só foi feito a Jorge de Sena quando ele estava no leito de morte, no hospital, em Santa Bárbara, no ano do Senhor de 1978. Fizera-lho António Reis, na sua qualidade de Secretário da Cultura num dos governos socialistas. Que nesse momento, muito comovido e sensibilizado pelo convite, Jorge de Sena se voltou para a D. Mécia e lhe disse: - "Vamos, Mécia"? Ao que a D. Mécia respondeu: - "Jorge, primeiro tens de melhorar; depois falamos nisso".»



«(...) Mécia, a mulher que recusou ser o lugar de espera para ser a activa companheira de uma singularíssima aventura intelectual e moral.» (Baptista Bastos)


Nos 100 anos de Jorge de Sena

A 2 de Novembro de 1919 nasceu Jorge de Sena
«(...) o poeta, o ficcionista, o dramaturgo, o crítico, o ensaísta – uma das vozes mais potentes do século XX. Uma voz que cruzou os oceanos e o tempo para estar hoje, aqui, no meio de nós, não só fazendo ecoar a si mesma como todas aquelas vozes subtis, sussurradas, silenciadas por censuras e repressões.
(...) Este poeta, cuja voz é um clamor pela liberdade, pelos direitos humanos, pela dignidade da vida, completa seu primeiro centenário mais actual que nunca, como cumpre a todos os grandes autores, e dentre estes, não é exagero dizer que Sena ocupa uma posição das mais altas. Sua vasta e complexa obra, que reflecte um apetite de tudo, um desejo imenso de conhecimento, do outro, dos outros, de si mesmo, do mundo, ainda nos desloca dos lugares-comuns, das conclusões fáceis, do que é aceite sem questionamento, e assim o será pelos centenários que virão, actualizando-se de acordo com o tempo e a sociedade, mas sempre mantendo aquela desconfiança metódica de tudo que não passou pelo filtro da meditação.»

Jorge de Sena em fotografia de Fernando Lemos (1949)


Epitáfio de Jorge de Sena

Epitáfio

De mim não buscareis, que em vão vivi
de outro mais alto que em mim próprio havia.
Se em meus lugares, porém, me procurardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida.


Essas palavras que em meu nome passam
nem minhas nem de altura são verdade.
Verdade foi que de alto as desejei
e que de mim só maldições cobriam.
Debaixo delas a traição se esconde,
porque de mais me conheci distante
de alturas que de perto não existem.

Fui livre, como as águas, que não sobem.
Pensei ser livre, como as pedras caem.
O nada contemplei sem êxtase nem pasmo,
que o dia a dia
em que me via
ele mesmo apenas era e nada mais.

Por isso fui amado em lágrimas e prantos
do muito amor que ao nada se dedica.
Nada que fui, de mim não fica nada.
E quanto não mereço é o que me fica.

Se em meus lugares, portanto, me buscardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida.
Jorge de Sena
(8/1/1953)
in Fidelidade

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Encontro com Vermeer em Delft



Fui deambulando pelas ruas,
cruzando canais, seguindo à margem de outros,
em direcção à praça principal,
e a esparsos vultos que da quietude emergem 
(como na vista da cidade, com o petit pan de mur jaune)
pergunto onde Vermeer morara.

Ninguém sabia. E fui de rua em rua
até chegar a uma pequena loja
que vendia simples lembranças da cidade
(azulejinhos, porcelanas, etc., para turistas).
A dona por certo saberia.

Ela sorriu, trouxe-me à outra porta 
que dava para a grande praça, e mostrou-me 
a placa na fachada do prédio.

Jorge de Sena (7/05/1969) 
Notas de um regresso à Europa





segunda-feira, 10 de junho de 2019

Camões e Jorge de Sena

«Ninguém como Camões nos representa a todos, repito, e em particular os emigrantes, um dos quais ele foi por muitos anos, ou os exilados, outro dos quais ele foi a vida inteira, mesmo na própria pátria, sonhando sempre com um mundo melhor, menos para si mesmo que para todos os outros. Ele, o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo. Ninguém, como ele desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exactamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares. Ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa. É o exilado físico de muitos anos mas é, como todos nós, e nisso tanto ou mais o somos que outros povos, o exilado moral, clamando por justiça, por tolerância, por dedicação à pátria, por espírito de sacrifício, por unidade nacional e universal, lá onde via que o homem é, como ele disse mais que uma vez, o "bicho da terra tão pequeno" contra o qual se encarniçam os poderes do mal.»
Jorge de Sena, 
discurso como Presidente das Comemorações do 10 de Junho de 1977, 
"Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas", 
proferido na cidade da Guarda.


Jorge de Sena era um notável especialista em Camões.
Comemora-se este ano o centenário do nascimento de Jorge de Sena, a 2 de Novembro, o mesmo mês em que a sua muito amiga Sophia de Mello Breyner Andresen também comemora o seu (6 de Novembro).

De Sophia muito se tem falado, de Jorge de Sena nem tanto. A dar-lhe razão de não ser um intelectual bem quisto em Portugal.
Exilado no Brasil e nos Estados Unidos nos tempos da ditadura do Estado Novo, Jorge de Sena nunca se fixaria em Portugal, mesmo depois de 25 de Abril de 1974, falecendo em Santa Bárbara (EUA), a 4 de Junho de 1978.

«Sim, Jorge de Sena não era uma presença confortável para o Portugal de então. O que só lhe fica bem. Mas continuou a não ser uma presença confortável depois do 25 de Abril. O que só nos fica mal.. Na verdade, é uma vergonha nacional que não tenham sido dadas a este homem condições necessárias para regressar ao seu país quando, quero crer, o teria desejado se as necessárias condições lhe tivessem sido dadas.»
Hélder Macedo, De amor e de poesia e de ter pátria 




O feriado republicano de Camões

O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas celebra o 10 de Junho de 1580, data da morte de Camões.

O génio da pátria, que Luís Vaz de Camões representava para os republicanos – foi em torno das comemorações camonianas de 1880 que os republicanos se guindaram politicamente –, passou a ser celebrado a partir de 1912, mas apenas como feriado municipal, em Lisboa.

Tendo reformado o calendário dos feriados, o Estado Novo manteve o de 10 de Junho, elevando-o à categoria de feriado nacional, exaltado num sentido nacionalista e como elemento da propaganda política do novo regime.

Foi a 10 de Junho de 1944 que o Estádio Nacional foi inaugurado e, durante a cerimónia, Salazar proferiu o discurso que viria a rebaptizar o feriado como o Dia da Raça, associando a data à celebração do "Mundo Português" e dos valores do regime.
Até ao 25 de Abril de 1974, o 10 de Junho ficou conhecido como o Dia de Camões, de Portugal e da Raça.

Com a Guerra Colonial, transformou-se numa data de homenagem às Forças Armadas e numa exaltação do poder colonial.
É da minha infância a atribuição das medalhas a militares que tinham combatido nos territórios africanos que Portugal administrava, incluindo a condecoração dos familiares, no caso dos combatentes falecidos – são essas as minhas memórias, televisivas, do 10 de Junho do Estado Novo.

Após o 25 de Abril de 1974, foi instituído, já em 1977, que o Dia de Camões passasse a ser dedicado também às comunidades portuguesas no estrangeiro, sendo celebrado em Portugal e no estrangeiro "com vista a levar a presença do nosso país às diferentes comunidades e a tornar estas mais conhecidas na sua nação de origem".

O primeiro Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (1977) foi comemorado oficialmente na cidade da Guarda.
Jorge de Sena fez, então, um discurso em defesa de Camões, sentindo necessidade de explicar, num Portugal pós-revolucionário ainda com traumas da ditadura, que não se poderia apelidar Camões de… “fascista”.


«Antes de mais, neste país há que pôr um basta não só ao fascismo ele mesmo, mas à mania de atribuir tudo ao fascismo, até as ideias. Porque, por esse caminho, ficamos todos sem ideias de que precisamos muito, e os fascistas ou os saudosistas deles acabam convencidos de que tinham ideias, quando ter ideias e ser fascista é uma absoluta impossibilidade intelectual e moral.
(...)

Pensarão alguns, acreditando no que se fez do pobre Camões durante séculos, que celebrá-lo, ou meditá-lo e lê-lo, é prestar homenagem a um reaccionário horrível, um cantor de imperialismos nefandos, a um espírito preso à estreiteza mais tradicionalista da religião católica. Camões não tem culpa de ter vivido quando a Inquisição e a censura se instituíam todas poderosas: se o condenamos por isso, condenamo-nos nós todos a que, escrevendo ou não-escrevendo, e ainda vivos ou já mortos, resistimos durante décadas a uma censura opressiva, e a uma repressão implacável e insidiosa, escrevendo nas entrelinhas como ele escreveu.»
Jorge de Sena




quinta-feira, 21 de março de 2019

J. S. Bach e Poesia

Juntar poesia à música de J. S. Bach, nascido (ao que parece) a 21 de Março.

I
Como se modulando neste espaço-tempo
que se desenha espaço em mero som contínuo
de um tempo trespassado,
a fina imarcescível
dor
é timbre e andamento,
e proporção de altura
a desdobrar-se na serena angústia
de um nada preenchido.

Intensamente.
Quietação.
Vácuo.
Tudo.

II
Canta o impossível.
Que voz humana
sustentaria
esta pressa alegre
ou a tensão suspensa
do lento sonho?

III
Madeiras, cordas, gestos, sopros, tudo
avança imóvel, sem parar, quieto,
a passo irresistível.
Não há que os contenha
senão o inaudível.

IV
Neste silêncio, que ficou, flutua?
O quê?
Nós?
Como tão pouco restaria?

Jorge de Sena, Concerto "Brandenburguês" n.º 1, em Fá maior, de J. S. Bach



Gravação dos idos de 1964, ano próximo ao da escrita do poema (1963).


quarta-feira, 25 de abril de 2018

Com que então libertos, hein?...

Com que então libertos, hein? Falemos de política,
discutamos de política, escrevamos de política,
vivamos quotidianamente o regressar da política à posse de cada um,
essa coisa de cada um que era tratada como propriedade do paizinho.
Tenhamos sempre presente que, em política, os paizinhos
tendem sempre a durar quase cinquenta anos pelo menos.
E aprendamos que, em política, a arte maior é a de exigir a lua
não para tê-la ou ficar numa fúria por não tê-la,
mas como ponto de partida para ganhar-se, do compromisso,
uma boa lâmpada de sala, que ilumine a todos.
(...)
Jorge de Sena



sábado, 19 de dezembro de 2015

A Piaf

Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do "Ça ira",
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que não se conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu, 
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo,
Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida. Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
do desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.
Jorge de Sena 
(poema escrito um ano depois da morte de Edith Piaf)



Edith Piaf nasceu há 100 anos


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Aniversário de "monstros"

Nunca pensei viver para ver isto:
a liberdade - (e as promessas de liberdade)
restauradas. Não, na verdade, eu não pensava
- no negro desespero sem esperança viva - 
que isto acontecesse realmente. Aconteceu.
E agora, meu general?

(...)
Jorge de Sena


«O primeiro plano da minha existência é uma colecção de cenas e figuras esboçadas nas brumas da memória. Mas estes esboços têm uma realidade viva que profundamente me comove!»
Teixeira de Pascoaes, Livro de Memórias






Jorge de Sena e Teixeira de Pascoaes, ambos nascidos a 2 de Novembro.
Dois "monstros" da literatura portuguesa.



domingo, 2 de novembro de 2014

Jorge de Sena - Eternidade

Vens a mim
pequeno como um Deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.

Nasceste agora mesmo. Vem comigo.


Jorge de Sena nasceu a 2 de Novembro de 1919.


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Frustrante termos de te aturar há 3 anos!



Que esperar daqui? O que esta gente
não espera porque espera sem esperar?
O que só a vida e morte
informes consentidas
em todos se devora e lhes devora as vidas?
O que quais de baratas e a baratas
é o pó de raiva com que se envenenam? 

Emigram-se uns para as Europas
e voltam como se eram só mais ricos.
Outros se ficam envergando as opas
de lágrimas de gozo e sarapicos.

Nas serras nuas, nos baldios campos,
nas artes e mesteres que se esvaziam,
resta um relento de lampeiros lampos
espanejando as caudas com que se atreviam.

Que Portugal se espera em Portugal?
Que gente ainda há-de erguer-se desta gente?
Pagam-se impérios como o bem e o mal
- mas com que há-de pagar-se quem se agacha e mente?

(...)
Jorge de Sena, L'été au Portugal (1971)


sábado, 17 de maio de 2014

Erik Satie

Erik Satie nasceu a 17 de Maio de 1866.


As notas vêm sós por harmonias
como de escalas que se cruzam
em sequências descontínuas de figuras
singelamente acorde surpreendido
de se encontrar num instante pensativo.
(...)
Jorge de Sena


sábado, 29 de março de 2014

Cuidado com a mudança da hora!



Relógio combalido...
minutos eram muitos, tantos, tantos...
e os astros à lareira
aprendem a aquecer-se...
(...)
Jorge de Sena