"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Nuvens (fora da gaveta)

 «Assim fiz. (...)












(...) a todos os prefácios que me couberam em sorte pela vida em diante.
Então, terminada a tarefa, pegava em toda aquela farrapada e metia-a numa gaveta, exactamente nesta que abri agora mesmo e fui encontrar cheia de nuvens, de papéis de nuvens que remexi na vaga esperança de se me deparar algum rato escondido...

Mas isso sim. Muitas delas nem forças tinham para se escapulir das gavetas, pesadas de ideias podres. Outras lá conseguiam voar a custo, para logo se desfazerem em chuva miudinha que mal humedecia as ervas rasteiras do tempo.

Mas a maior parte diluía-se no céu deserto, já com o poente ao fundo nos horizontes nus.»
José Gomes Ferreira, Gaveta de Nuvens (Intróito)  

E eis como ficou este post...


quinta-feira, 30 de maio de 2024

Entrei no Café...

Entrei no Café com um rio na algibeira

e pu-lo no chão,

a vê-lo correr

da imaginação


A seguir, tirei do bolso do colete

nuvens e estrelas

e estendi um tapete

de flores

- a concebê-las


Depois, encostado à mesa,

tirei da boca um pássaro a cantar

e enfeitei com ele a Natureza

das árvores em torno 

a cheirarem ao luar

que eu imagino.


E agora aqui estou a ouvir

a melodia sem contorno

deste acaso de existir

- onde só procuro a Beleza

para me iludir

dum destino. 

José Gomes Ferreira, Poesia III 



Penguin Cafe Orchestra



sexta-feira, 9 de junho de 2023

O passado de Lisboa resume-se a esta luz

«Lisboa é uma cidade sem passado visível nas pedras. Ou melhor: o passado de Lisboa resume-se a esta luz que, de olhos em olhos, de pele em pele, de caliça em caliça, chega diariamente até nós, lá do fundo dos tempos, sempre com o mesmo peso de espuma voada.

Depois, ao anoitecer, dá-se uma espécie de terramoto e a cidade afunda-se na escuridão. Desaba, desmantela-se, rui (às vezes ajudada pelo clarão explosivo do luar), para surgir reconstruída na manhã seguinte com a fluidez suspensa de pedras de céu azul e o habitual ouro contente das fachadas.

Eis a razão, ou pelo menos uma das razões, por que os habitantes desta cidade não se inibem de deitar abaixo seja o que for (os Jerónimos e a Torre de Belém escaparam até hoje à demolição por milagre), todos, no fundo - repito -, com a convicção de que o nosso único testemunho de passado comum reside nesta bendita luminosidade que, através de mil catástrofes e tormentas, purifica incansavelmente as ruas e os prédios.»

José Gomes Ferreira, nascido a 9 de Junho de 1900, na cidade do Porto, teve épocas de vagabundagens por Lisboa, a "horas desertas da noite, quando o silêncio crepita mais vivo na solidão", de que "resultou o adensamento (...) da lenda que me atribui o conhecimento a palmos de Lisboa e respectivos alçapões".

Citações de José Gomes Ferreira, O irreal quotidiano


A imagem que conservo há anos "para abertura" do meu PC

Considerava JGF como derrotista, mas Lisboa parece-me hoje uma cidade que vai perdendo a memória ao mesmo ritmo que vai sendo ocupada pelos alienígenas. 

Fica-nos a luz...


domingo, 25 de abril de 2021

Revolução

«Manhãzinha cedo, senti acordar-me o sopro da voz ciciada da minha mulher:
- O Fafe telefonou de Cascais… Lisboa está cercada por tropas...
Refilo, rabugento:
- Hã?
E enrolo-me mais nos lençóis:
- É algum golpe militar reaccionário dos "ultras"... Deixa-me dormir.
Mas qualquer coisa começou a magoar-me a pele com dentes frios, para me dissuadir de adormecer.
E daí a instantes a minha mulher insistiu, baixinho, muito baixinho, com medo de não haver realidade:
- Só funciona o Rádio Clube que pede às pessoas que se conservem em casa.
Golpe militar? Reaccionário, evidentemente. Como se poderia conceber outra coisa?
Levanto-me preparado para o pesadelo de ouvir tombar pedras sobre cadáveres. Espreito através da janela. Pouca gente na rua. Apressada. Tento sintonizar a estação da Emissora Nacional. Nem um som. Em compensação o telefone vinga-se desesperadamente. Um polvo de pânico desdobra-se pelos fios. A campainha toca cada vez mais forte.
Agora é o Carlos de Oliveira.
- Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa?
Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso.
Às oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro:
- Aqui, Posto de Comando das Forças Armadas. Não queremos derramar a mínima gota de sangue.
De novo o silêncio. Opressivo. De bocejo. Inútil. A olhar para o aparelho.
Custa-me a compreender que se trate de revolução. Falta-lhe o ruído (onde acontecerá o espectáculo?), o drama, o grito. Que chatice!
A Rosália chama-me, nervosa:
- Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa.
Corro e ouço:
- Aqui o Movimento das Forças Armadas que resolveu libertar a Nação das forças que há muito a dominavam. Viva Portugal!
Também pede à polícia que não resista. Mas Senhor dos Abismos!, trata-se de um golpe contra o fascismo (isto é,: salazarismo-caetanismo).
(...)
Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas. Ainda assisti, ainda assisti à morte desse maldito meio século de opressão (…).
De súbito a Rádio abre-se em notícias (...)
Abro a janela e apetece-me berrar: acabou-se! acabou-se finalmente este tenebroso e ridículo regime de sinistros Conselheiros Acácios de fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Acabou-se. Vai recomeçar tudo.
(…)
Antes de morrer, a Televisão mostrou-me um dos mais belos momentos humanos da História deste povo: a saída dos prisioneiros políticos de Caxias. (…)
E o telefone toca, toca, toca… Juntámos as vozes na mesma alegria. (Só é pena que os mortos não nos possam telefonar da Morte: o Bento de Jesus Caraça, o Manuel Mendes, o Casais Monteiro, o Redol, o Edmundo de Bettencourt, o Zé Bacelar, a Ofélia e o Bernardo Marques, o Pavia, o Soeiro Pereira Gomes e outros, muitos, tantos... Tenho de me contentar com os vivos. Porque felizmente dos vivos poucos traíram ou desanimaram. Resistimos quase todos de unhas cravadas nas palmas das mãos...)
De repente, estremeço, aterrado.
Mas isto de transformar o mundo só com vivos não será difícil?
Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos.
Revolução.»

José Gomes Ferreira, Poeta Militante (3.º volume)



domingo, 30 de agosto de 2020

Poema para o Nikias

«O Nikias pediu-me um poema - que seria inspirado numa gravura que me ofereceu...
Mas não me sai nada. Ou, com mais sinceridade: quando saltei da cama, tive a intuição do primeiro sinal.
Estas palavras:
A cidade de cristal.
Então, a sorrir, lembrei-me de que essa intuição estava há muito escrita num papelinho, ainda não aproveitado na Cidade Inexacta e talvez adaptável ao caso.
Cá está. Copio:

O cristal da cidade
tem muros de pedra 
que cega o silêncio...


Traços violentos sobre tudo isto e, a seguir, estas palavras já com sabor de poesia
(porque aparecem as palavras morte e flores?):

A morte
é o outro lado das flores.


Mais abaixo outra versão:

A cidade de cristal
oculta na sombra dos corredores
- olhos de pedra nas crianças...


E o final inevitável:

A morte
é o outro lado das flores...


Mais riscos e, por fim, a poesia:

Pedras secretas
para a cidade de cristal
oculta na sombra dos corredores
do musgo inquieto...

A morte 
é o outro lado das flores...


Existem mais hipóteses. Entre elas uma em que substituí a palavra morte por vida (E até por sonho...)

A vida
é o outro lado das flores...

Oh! a aventura dos poetas que cantam por aproximações e experiências sucessivas!»
José Gomes Ferreira, Dias Comuns VI


Nikias Skapinakis, Retrato de José Gomes Ferreira


segunda-feira, 27 de julho de 2020

Há 50 anos...

«Agora mesmo (é perto do meio-dia) a Emissora tocou A Portuguesa (roubaram-nos tudo) e noticiou a morte de Salazar, às 9 e 15 da manhã de hoje.
Evoquei mentalmente Humberto Delgado - assassinado e enterrado como um cão.
Agora vamos assistir à comédia das grandes dores oficiais - ajudadas por uma propaganda tenaz.

Ao mesmo tempo vai beber-se muito champanhe por essa sinistra pátria fora...»
José Gomes Ferreira, Dias Comuns IX


sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Nesta tarde de outono ainda tocada por um vento de lábios azuis...



Devia morrer-se de outra maneira

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira





domingo, 9 de junho de 2019

Não poder gozar os grandes prazeres do escândalo

«Faço hoje 70 anos - o que considero uma injustiça alarmante.
A velhice traz sobretudo este inferno: "restringe a liberdade. Os velhos vivem numa espécie de liberdade vigiada. Vigiada pelo pelo ridículo que não os deixa pôr pé em ramo verde.
Eu, por exemplo, apetecia-me agora andar vestido como os rapazes: de calças vermelhas, de casaco até aos joelhos, jóias hippies para fazer, de vez em quando, a minha contestaçãozita... Mas impossível. Todos me chamariam tonto.
A velhice impede-nos de gozar os grandes prazeres do Escândalo.»
José Gomes Ferreira, Dias Comuns, vol. IX 
(9 de Junho de 1970)



sábado, 17 de novembro de 2018

Alexandre Vargas (1952 - 2018)

Morreu esta semana o poeta Alexandre Vargas, filho mais novo do também poeta José Gomes Ferreira. No mesmo ano que o seu irmão, o arquitecto Raúl Hestnes Ferreira.

O Alexandre entrou-me em casa nos diários do pai - Dias comuns - e, sem eu saber (só muito mais tarde), pela tradução da poesia de Peter Hammill - Camaleão na sombra da noite.

A música era elemento importante na sua poesia, e por lá passam, entre outros, os King Crimson e Syd Barrett.
A poesia e afinidades musicais...



Quando a minha boca se cansa 
e não posso apelar para outra música,
deverei então olhar para trás e dizer
que fiz tudo
demasiado cedo?
(Peter Hammill traduzido, 
de Chameleon in the shadow of the night)

Alexandre Vargas desenhado por Luís Manuel Gaspar (1987),
para um livro ainda inédito


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

A palavra República

«Nessa Calçada do Sol que só tinha casas construídas de um lado para se ver o longo panorama de Lisboa em que, certa madrugada, ouvi um tiro de canhão para o povo se reunir na Rotunda e descer aos tiros até à Câmara onde se proclamaria a República. Muitos revolucionários usavam chapéus altos e outros, mais radicais, chapéus de coco.
(...)
Mas a palavra República é que nos apaixonava. Tinha lá tudo dentro e resolvia todos os problemas do mundo - esperança de barrete frígido.»
José Gomes Ferreira, Calçada do Sol

Miradouro do Monte Agudo
(ali perto da antiga Calçada do Sol)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (12)

«24 de Maio
Encerrou-se o prólogo da 2.ª Revolução Francesa com um discurso de De Gaule a propor um plebiscito para que a nação decida se ele deve permanecer para fazer reformas necessárias... Ele, De Gaule.
E agora? Que vai suceder?
Balão que se esvazia lentamente?...
É tão difícil ver as coisas contemporâneas!»
José Gomes Ferreira, Dias Comuns IV


domingo, 20 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (9)

«20 de Maio
A França inesperadamente em plena sedição. Bandeiras vermelhas nas Universidades e nas Fábricas Ocupadas, greves, greves, greves...
Que vai acontecer? (Nada? A 2.ª Revolução Francesa?)
- Ah! Se houvesse lá um Lenine!... - suspirou ontem o Abelaira.»
José Gomes Ferreira, Dias Comuns IV


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Raúl Hestnes Ferreira

Ontem, a notícia da morte de Raúl Hestnes Ferreira, aos 86 anos, arquitecto e professor, filho do poeta José Gomes Ferreira.


Foi através do pai que o seu nome se tornou meu conhecido.
Em 1963, na 1.ª edição de Aventuras de João Sem Medo, JGF faz a dedicatória aos seus dois filhos, «Para os meus dois filhos - o homem e a criança - este Divertimento escrito por quem sempre sonhou conservar a Criança bem viva no Homem.» E torna mais explícito: «Para ti, Raúl José, homem há muito - e homem autêntico -, que aprendeste à tua custa que a verdadeira coragem é a força do coração...»

Raúl Hestnes Ferreira fez formação em várias partes do mundo. «Chegou ao Mediterrâneo por um longo e sinuoso caminho, do Porto à Finlândia, da ordem dos Modernos a Kahn, a Roma, à universidade da ordem compositiva», como assinalou Alexandre Alves Costa.

Família Gomes Ferreira
Estudo e painel de azulejos da autoria de Maria Keil, amiga da família.

«Eu também gostava muito de escrever, mas fui também muito influenciado pela personalidade do arquitecto Keil do Amaral. O meu pai convivia muito com artistas plásticos – sei lá…Manuel Ribeiro de Pavia, a pintora Maria Keil,… – e os meus padrinhos foram Bernardo Marques (desenhador) e Ofélia Marques (uma grande pintora, também). Eu fui criado nas artes, e gostava muito de desenhar. Aos 15, 16 anos, naquelas opções da escola, acabei por enveredar pela arquitectura, e não estou nada arrependido, de facto.»

Das suas múltiplas obras, de que sobressai um Prémio Valmor (2002, Edifício II do ISCTE), destaco três, mais uma vez pela ligação paterna:
- a que foi a sua primeira obra de raiz, a chamada Casa de Albarraque, em Rio de Mouro (Sintra), projecto de 1959-61, desenhada como tranquilo retiro de fim-de-semana para o seu pai, frequentemente referida nos diários de JGF, Dias Comuns;

A Casa de Albarraque (1961?), com José Gomes Ferreira ao cimo das escadas

A Casa de Albarraque (2013), com a presença de Raúl Hestnes Ferreira.
Na parede, o painel de azulejos de Maria Keil

- a escola secundária que tem o nome do pai, em Benfica (pertinho da minha antiga casa);

Escola Secundária José Gomes Ferreira (Benfica)
Maqueta e fotografia tirada do morro fronteiro

- a Biblioteca de Marvila (Lisboa), onde existe uma sala dedicada ao pai, integrando alguns dos seus objectos pessoais, a secretária onde escrevia e a sua biblioteca.


Desenhos de Filipe Pinto, aqui

Como pelo pai sinto a morte do filho.
José Gomes Ferreira que, em A Memória das Palavras, recorda a morte do irmão Jaime, quando ele, no quarto ao lado "a ouvir tudo, tudo, TUDO!...", também estava com febre tifóide.
«Fiquei eu. Sim, eu. De olhos abertos, a ouvir, a adivinhar... Eu. Terrível. Sozinho. Curioso de ouvir morrer. Mãos de horror nos lençóis. Lágrimas a secarem os olhos. (...) Meu pai entrou no quarto e deitou a cabeça a meu lado, na cama, a chorar.»


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Lua


A lua - imagina -
que nem a um poeta 
satisfaz!
- Sonâmbula mulher incompleta
com cabeça de menina 
e corpo de gás...
José Gomes Ferreira, Eléctrico, in Poesia III


Mundo tão concreto. E tão irreal!



Uma nuvem pequenina
saiu-te dos olhos
e pairou por momentos
no ruído azul
do sol velado...

Depois transformou-se na ninfa do Despenteio ao Vento
e vai agora pelos campos
com cabelos de poeira
e túnica molhada de flores amarelas
(...) 


Cansado de tanta lama na Via Láctea,
voltei para a minha nuvem dos Sós Eternos
(...)
José Gomes Ferreira, Eléctrico, in Poesia III


segunda-feira, 25 de abril de 2016

Sabem lá eles o que é sonho!

«As revoluções começam sempre pelo beijo de uma desconhecida na rua. Pela vitória do Sonho.

De súbito, desembarcámos em bandos ardentes numa ilha de gritos e pomo-nos em marcha, enterrando-nos até ao pescoço nas nuvens dos caminhos em frente, convencidos de que não tardaremos a encontrar nos planaltos árvores de prata que nos virão oferecer frutos com dedos de seiva delicada e as flores voarão dos prados em forma de borboletas azuis, para enfeitar os cabelos das crianças.
Que bom!, cantarmos em coro "o povo unido jamais será vencido", e darmos as mãos, e abraçarmos os amigos e beijarmos as camaradas e escrevermos nas paredes "Abaixo o pesadelo!", e rir, rir, rir, para meter inveja ao futuro e irritar os tiranos.
A vida só principia a morder, quando descobrimos que, afinal, o Sonho chamado Revolução apenas torna mais visível a realidade e nos mostra como o mundo é.»


José Gomes Ferreira, Revolução Necessária

Fotografia de Eduardo Gageiro


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O Irreal Quotidiano

«Bem. Encontrei o título: O Irreal Quotidiano. Agora, falta o livro. E o subtítulo - importantíssimo! - que apague no leitor a ideia de que se trata de mais uma confissão de sabor memorialista.
A O Mundo dos Outros, para evitar a palavra crónicas classifiquei no frontispício de Histórias e vagabundagens. 
E a este? Que porei debaixo de O Irreal Quotidiano?
A primeira ideia que me veio à cabeça foi esta: Histórias e invenções. Ou Histórias secretas e invenções. Ou Histórias públicas e invenções. Com uma prevenção deste género no rosto de livro:

"A primeira classificação que me acudiu para subtítulo deste livro foi a de anti-contos e invenções. Mas mal desenhei essas palavras no papel, senti um arrepio de vómito... Eh! José Gomes Ferreira! Anti, não. Por favor, não sigas a moda. E berra comigo: abaixo o anti-isto! O anti-aquilo! O anti-nada! - que, com a franqueza perfeita que devo à minha época, já mete nojo!
Então resolvi chamar a estas prosas "histórias públicas e invenções". Que diabo! Neste momento de confusão de géneros, também me sinto no direito de trazer a minha confusãozinha à trapalhada geral com as minhas invenções.
Embora o simplificador que vive em mim no fundo opine - e com razão! - que o problema se resolveria facilmente, se eu lhes chamasse o nome que sempre lhes deram: crónicas.
Mas serão de facto crónicas? Não serão anticrónicas?
Deixo o problema aos estudiosos que, assim, poderão ficar por esta página sem necessidade de ler o resto do livro.
Este problemazinho de caca chega para justificar o número habitual de linguados da crítica!"

Ousaria publicar isto?
Com outra forma menos directa talvez.»
José Gomes Ferreira, Dias Comuns IV
(entrada do dia 9 de Fevereiro de 1968)

Capa da 1.ª edição (1971)
O Irreal Quotidiano sem qualquer prevenção no rosto... 


domingo, 5 de julho de 2015

Aos Joões Sem Medo

«Era uma vez um rapaz chamado João que vivia em Chora-Que-Logo-Bebes, exígua aldeia aninhada perto do Muro construído em redor da Floresta Branca onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam instalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos.
Apesar de ficar a pouca distância da povoação, ninguém se atrevia a devassar a floresta. Não só por se encontrar protegida pela altura descomunal do Muro, mas principalmente porque os choraquelogobebenses - infelizes chorincas que se lastimavam de manhã até à noite - mal tinham força para arrastar o bolor negro das sombras, quanto mais para se aventurarem a combater bichas de sete bocas, gigantes de cinco braços ou dragões de duas goelas. Preferiam choramingar, os maricas!, agachados em casebres sombrios, enquanto lá por fora chovia com persistência implacável (como se as nuvens estivessem forradas de olhos) e dos milhares e milhares de chorões - as árvores predilectas dessa gente - pingavam folhas tristes. Tudo isto incitava os habitantes da aldeia a andarem de monco caído, sempre constipados por causa da humidade, e a ouvirem com delícia canções de cemitério ganidas por cantores trajados de luto, ao som de instrumentos plangentes e monótonos.
O único que, talvez por capricho de contradizer o ambiente e instinto de refilar, resistia a esta choradeira pegada, era o nosso João que, em virtude duma contínua ostentação de bravata alegre e teimosa na luta, todos conheciam por João Sem Medo.
Ora um dia, farto de tanta chorinquice e de tanta miséria que gelava as casas e cobria os homens de verdete, disse à mãe que, conforme a tradição local, lacrimejava no seu canto de viúva:
- Mãe: não aturo mais isto. Vou saltar o Muro.»

José Gomes Ferreira, Aventuras de João Sem Medo

Dedicado aos Joões Sem Medo da Grécia - "há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não", mesmo que não se saiba o que está do outro lado do Muro.
Que se saiba que há várias formas de não se ser piegas!


quarta-feira, 18 de março de 2015

José Gomes Ferreira cinéfilo (1)

Às vezes fico com a sensação de que um local que visito se torna centro das atenções nos tempos mais próximos, que uma personagem "encontrada" em exposições ou em livros se torna súbita mas repetidamente referida nos meios de comunicação social... Distracção prévia, coincidências, efeito magnético ou egocentrismo.

Após a visita à exposição sobre Cottinelli Telmo, ao pegar n'O irreal quotidiano, de José Gomes Ferreira (1971), leio a passagem 
«Aqui, há quarenta anos, numa manhã de sol aberto, acampei com o operador cinematográfico Bobone, para filmarmos os planos iniciais de A Canção de Lisboa. O Cottinelli acordou aborrecido e, a mastigar sono, perguntou-me: "queres ir tu?".
Aceitei e lá fui por essas ruas, muito feliz daquele escândalo brando de andar a exibir-me com camisolas de cineasta, máquinas e reflectores...»

Penso "O que é que o José Gomes Ferreira tem a ver com o filme?"

José Gomes Ferreira
Procuro na sua fotobiografia e lá está a colaboração em revistas sobre cinema, o trabalho na tradução e legendagem de filmes e a sua participação, a diferentes títulos, na que se convencionou chamar sétima arte (sempre sétima, numa ordem com as suas variações...).

«Foi nessa época (...) que o Eduardo Chianca de Garcia (...) se entregou à tarefa de criar a Tóbis Portuguesa com outros comparsas entusiásticos. E assim se iniciou o período dos filmes falados portugueses, com A Canção de Lisboa de que o Cottinelli Telmo foi a alma viva e ainda hoje faz rir até às lágrimas do fundo dos olhos, pelo que existe de lisboeta à René Clair (a célebre "cegada", por exemplo) autêntico clássico do nosso cinema notavelmente interpretado por António Silva, Vasco Santana e a querida Beatriz Costa. Para mim é uma honra especial lembrar-me de que assisti, como representante do Telmo, à montagem de A Canção de Lisboa feita por uma francesinha gira. (Era o primeiro fonofilme - como nesse tempo se dizia na nossa língua - montado em Portugal. (...)»

Segundo a ficha técnica de A Canção de Lisboa, José Gomes Ferreira trabalhou na montagem do filme.
E encontramos, ainda, o pintor Carlos Botelho, como assistente de realização, e o realizador Manoel de Oliveira, como actor.
Os cartazes do filme são da autoria de Almada Negreiros.


Só artistas!!!


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Doce...




«Se um dia alguém ler estas páginas perguntará: "então este homem só se interessa por literatura e arte? Por mais nada?" Ora! Para mim a literatura e a arte são superfícies de outras razões mais profundas. Mas só podemos comunicar com superfícies.»
José Gomes Ferreira, Dias Comuns IV - Laboratório de Cinzas