"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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quinta-feira, 7 de maio de 2026

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Dá-nos, Senhor, a coragem dos recomeços

Dá-nos, Senhor, a coragem dos recomeços.
Mesmo nos dias quebrados,
faz-nos descobrir limiares límpidos.
Não nos deixes acomodar ao saber daquilo que foi:
dá-nos largueza de coração para abraçar aquilo que é.
Afasta-nos do repetido,
do juízo mecânico que banaliza a história,
pois a desventra de qualquer surpresa e esperança.
Torna-nos atónitos como os seres que florescem.
Torna-nos inacabados, como quem precisa,
e deseja e antecipa um amanhã.
Torna-nos confiantes,
como os que se atrevem a olhar tudo,
e a si mesmos,
com o encanto e a disponibilidade
de uma primeira vez.
José Tolentino de Mendonça

Ilha das Flores - Foto de Manuel Menezes de Sequeira


domingo, 28 de janeiro de 2024

Dia Europeu da Protecção de Dados

O mais seguro é não escrever nada...

O que por palavras nos está oculto
No silêncio crepita
em intimidade

José Tolentino Mendonça


John Cage - 4' 33''
(eu não tocaria melhor)


quinta-feira, 16 de abril de 2020

A lentidão

Lembrei-me do texto de Tolentino de Mendonça por via da memória deste livro de Luís Sepúlveda.
«Com razão, num magnífico texto intitulado "A lentidão", Milan Kundera escreve: "Quan­do as coisas acontecem depressa demais, ninguém pode ter certeza de nada, de coisa nenhuma, nem de si mesmo." E explica, em seguida, que o grau de lenti­dão é directamente proporcional à intensi­dade da memória, enquanto o grau de velocidade é directamente proporcional à do esquecimento. Quer dizer: até a impressão de domínio das várias frentes, até esta empolgante sensação de omnipo­tência que a pressa nos dá é fictícia. A pressa condena-nos ao esquecimento. Passamos pelas coisas sem as habitar, falamos com os outros sem os ouvir, juntamos informação que nunca chega­mos a aprofundar. Tudo transita num galope ruidoso, veemente e efémero. Na verdade, a velocidade com que vivemos impede-nos de viver.

Uma alternativa será resgatar a nossa relação com o tempo. Por tentativas, por pequenos passos. Ora isso não acontece sem um abrandamento interno. Precisa­mente porque a pressão de decidir é enorme, necessitamos de uma lentidão que nos proteja das precipitações mecâ­nicas, dos gestos cegamente compulsi­vos, das palavras repetidas e banais. Precisamente porque nos temos de desdobrar e multiplicar, necessitamos de reaprender o aqui e o agora da presença, de reaprender o inteiro, o intacto, o concentrado, o atento e o uno.

Lembro­-me de uma história engraçada que ouvi contar à pintora Lourdes Castro. Quando em certos dias o telefone tocava repetidamente, e os prazos apertavam e tudo, de repente, pedia uma velocidade maior do que aquela que é sensato dar, ela e o Manuel Zimbro, seu marido, começavam a andar teatralmente em câmara lenta pelo espaço da casa. E divergindo dessa forma com a acelera­ção, riam-se, ganhavam tempo e distan­ciamento crítico, buscavam outros mo­dos, voltavam a sentir-se próximos, refaziam-se.

Mesmo se a lentidão perdeu o estatuto nas nossas sociedades modernas e oci­dentais, ela continua a ser um antídoto contra a rasura normalizadora. A lenti­dão ensaia uma fuga ao quadriculado; ousa transcender o meramente funcio­nal e utilitário; escolhe mais vezes convi­ver com a vida silenciosa; anota os pequenos tráficos de sentido, as trocas de sabor e as suas fascinantes minúcias, o manuseamento diversificado e tão íntimo que pode ter luz.»

José Tolentino Mendonça


Parte deste texto encontra-se na coluna lateral deste blog.
Mas é bom lembrar o que é importante...


sábado, 5 de outubro de 2019

O mistério está todo na infância


E, por fim, Deus regressa
carregado de intimidade e de imprevisto
já olhado de cima pelos séculos
humilde medida de um oral silêncio
que pensámos destinado a perder
Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente
Qual de nós dois é a sombra do outro?
Mesmo se piedade alguma conservar os mapas
desceremos quase a seguir
desmedidos e vazios
como o tronco de uma árvore
O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura

José Tolentino Mendonça



domingo, 1 de setembro de 2019

Aos domingos à tarde...

«Aos domingos à tarde chegavam os veleiros. Corríamos ao cais e por ali ficávamos, a olhar o fundo dos barcos, os que chegavam, as velas descidas com lentidão... Um mundo inteiro assomava aos nossos olhos: a longínqua Finlândia, a Roca, Veneza, o Finis Terrae dos duendes e dos encantos... E tudo era claro e distinto, como se os países ficassem mesmo ali a nosso lado, fossem a linha mágica do horizonte onde, agora, o sol incidia ou até a nossa casa, não sei. Era a hora das aves. Nunca mais me esqueci.»
José Tolentino Mendonça


José Tolentino de Mendonça vai ser nomeado Cardeal pelo Papa.


terça-feira, 26 de junho de 2018

O futebol, fenómeno de substituição da experiência religiosa

«Penso que existe uma hipervalorização [do futebol] no espaço público, mas sociologicamente é muito interessante porque o futebol é um fenómeno de substituição da experiência religiosa - as sociedades precisam de ritos. Se vivemos uma desritualização da sociedade nos ritmos habituais de vida, também são precisos ritos para organizar a nossa consciência do mundo e encontramos essas novas ritualidades, sem dúvida, no futebol, que representa um rito dominical para milhares de pessoas.» 
Tolentino de Mendonça, entrevista ao DN, 24 de Setembro de 2017


«O futebol é uma das poucas linguagens universais e identitárias que restam às nossas sociedades ocidentais, e que consegue o que a outras dimensões, que sabemos bem mais vitais, se considera difícil, se não impossível: uma transversalidade social e política a toda a linha, uma capacidade de desencadear persistentemente formas de adesão e emoção num quadro intergeracional, a possibilidade que dá a qualquer adepto, muitas vezes afásico ou lacónico em relação a tudo o resto, de emergir como um extravagante homo loquens. Émile Durkheim dizia que “uma religião só pode ser substituída por outra religião”. Não é, por isso, de estranhar a recuperação da gramática religiosa e litúrgica que o futebol faz.»
Tolentino de Mendonça, Expresso, 30 de Maio de 2015

Em pleno Campeonato do Mundo, dia de "S. Tolentino"...
Para compreender por que razão só se respira futebol na TV.


Arcebispo Tolentino

... poeta...
... arquivista, bibliotecário... E Tudo


Quietos fazemos as grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas


sábado, 31 de março de 2018

O silêncio do Sábado Santo

«O Sábado Santo não é apenas um dia imenso: é um dia que nos imensa. Aparentemente representa uma espécie de intervalo entre as palavras finais de Jesus pronunciadas na Sexta-feira Santa, "Tudo está consumado", e a Insurreição da vida que, na manhã da Páscoa, Ele mesmo protagoniza. O Sábado tem assim um silêncio que não se sabe bem se é ainda o da pedra colocada sobre o túmulo, ou se é já aquele misterioso silêncio que prepara "o grande levantamento" que a ressurreição significa. Este "intervalo", esta terra de ninguém, este tempo amassado entre derrotas e esperança, esta provação e júbilo, é o da nossa vida. O silêncio do Sábado Santo é o nosso silêncio que Jesus abraça. O silêncio dos impasses, das travessias, dos sofrimentos, das íntimas transformações. Jesus abraça o silêncio desta sôfrega indefinição que somos entre já e ainda não.»

José Tolentino de Mendonça, O Hipopótamo de Deus




domingo, 4 de março de 2018

Cultura


«A minha imaginação, depois de uma biblioteca lida, não é maior do que a da minha avó que nunca leu um livro. São formas diferentes. Para mim não faz muito sentido a divisão entre alta e baixa cultura. Ouvir Bach é a mesma coisa que ouvir um regato; ouvir as ondas do mar é tão bonito como ouvir Mahler. Ouvir um texto da Bíblia, como ouvi o meu pai ler - e era a única coisa que ele lia -, é tão belo como ler Dante ou Herberto Hélder.»
José Tolentino Mendonça, entrevista à Sábado (17 de Dezembro de 2015)

   

quinta-feira, 24 de março de 2016

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Hoje é um dia "perigoso" para andar na rede social

«A nossa época parece que só sabe falar de amor. Ao mesmo tempo que se assiste a uma inflação da palavra, diminui, claramente, a sua força expressiva, como que sequestrada por um uso equívoco e sonâmbulo. Cada vez menos se sabe de que falamos quando falamos de amor. Mas isso não serve de travão.»
José Tolentino Mendonça, Nenhum Caminho será Longo



terça-feira, 7 de julho de 2015

Uma nova relação com as coisas

«Ele vislumbrou uma nova relação com o real, feita já não de oposições e distâncias, como se a vida não fosse um mistério único, mas sublinhando corajosamente os traços de união, os hífenes inesperados, as continuidades. E assim nos mostra que não há pequeno ou grande, não há cósmico nem quotidiano, não há interno ou exterior: por todo o lado e em todas as coisas está, pelo contrário, latente a mesma espantosa proposta que a vida em si mesma é.»

Texto (de despedida) da autoria de José Tolentino de Mendonça, sobre Alberto Vaz da Silva, hoje falecido.
Advogado, dedicado à grafologia, muito ligado ao círculo dos chamados católicos progressistas, aqueles que a partir da década de 1950 e até ao 25 de Abril, com destaque para o período do marcelismo, dinamizaram o Centro Nacional de Cultura, de que a sua esposa, Helena Vaz da Silva, foi presidente de 1979 a 2002, data da sua morte.
É uma geração que vai desaparecendo.

Almoço de Católicos para o Socialismo
(João Bénard da Costa, o 1.º da esq., Sophia de Mello Breyner, de óculos escuros,
Helena Vaz da Silva, 2.ª à direita, Alberto Vaz da Silva, o último da fila da direita)


terça-feira, 24 de março de 2015

A infância de Herberto Hélder

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isso foi antes
de aprender a álgebra
José Tolentino Mendonça, Os dias contados

O primeiro poema do primeiro livro de poemas de José Tolentino Mendonça, sobre Herberto Hélder, poeta que admira.

Herberto Hélder (1930 - 2015)

sexta-feira, 20 de março de 2015

Primeiro dia de primavera

Primeiro dia de primavera:
que distante me parece
o inverno
José Tolentino Mendonça, A papoila e o monge


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Esconde-se a Lua...



                                Há uma luz
                                sobre as luzes
                                onde o olhar escapa a todas as luzes
José Tolentino Mendonça, A papoila e o monge


sábado, 6 de setembro de 2014

Memória

«(...)

O que deixaste abandonado regressa - aprende-se depois
quando, por exemplo, a esquecida infância se parece
com certos cães deixados de propósito a muitos quilómetros
que ladram não se percebe como
à porta da velha casa»
José Tolentino Mendonça, De igual para igual
(de um poema intitulado Setembro)


quinta-feira, 20 de março de 2014

O meu desejo na primavera

O meu desejo na primavera:
que mesmo as flores selvagens
venham florir à minha porta
José Tolentino Mendonça, A Papoila e o Monge

Galileo Chini, La primavera che perennemente si rinnova (1914)


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Oração pelas férias

Dá-nos, Senhor,
depois de todas as fadigas
um tempo verdadeiro de paz.
Dá-nos,
depois de tantas palavras
o dom do silêncio
que purifica e recria.
Dá-nos,
depois das insatisfações que travam
a alegria como um barco nítido.
Dá-nos,
a possibilidade de viver sem pressa,
deslumbrados com a surpresa
que os dias trazem pela mão.
Dá-nos
a capacidade de viver de olhos abertos,
de viver intensamente.
Dá-nos
de novo a graça do canto,
do assobio que imita
a felicidade aérea
dos pássaros,
das imagens reencontradas,
do riso partilhado.
Dá-nos
a força de impedir que a dura necessidade
esmague em nós o desejo
e a espuma branca dos sonhos
se dissipe.
Faz-nos
peregrinos que no visível
escutam a melodia secreta
do invisível.
                                           José Tolentino Mendonça