"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astrosou para o sorriso das vacas." Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
«O viajante dormirá neste sítio de S. Gens, perto de Serpa.
Há, aqui para trás, uma Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe. O que tem para
ver, vê-se de fora. Não é como a paisagem que diante dos olhos do viajante se
alonga. Essa quer que a vejam por dentro. É uma distância de árvores e colinas
quase rasas, simples cômoros que se confundem com a planície. Já se pôs o Sol,
mas a luz não se apaga. Cobre o campo duma cinza dourada, depois empalidece o
ouro, a noite vem devagarinho do outro lado, acendendo estrelas. Chegará mais
tarde a Lua, e os mochos chamarão uns pelos outros. O viajante, diante do que
vê, sente vontade de chorar. Talvez tenha pena de si mesmo, desgosto de não ser
capaz de dizer em palavras o que esta paisagem é. E diz apenas assim: esta é a noite
em que o mundo pode começar.»
E eu tenho o maior prazer em apresentar as Canções de Labor e Lazer, da Ana Catarina.
(pese o atraso com que o faço, mas o tempo e a disposição não têm sido grandes...) «A canção sempre foi companheira de vida do homem. Parece que nasce já com ela, carrega-a, molda-a de tal forma que, quando esta se solta, vem à superfície com a fisionomia exacta de quem a cantou, com as mesmas dores no corpo que o trabalho curva, as mesmas angústias, amores e crenças. As “canções de labor e lazer” não são apenas melodias bonitas e populares, são também memórias de um embalo no berço, de um baile, de uma romaria, do ecoar de vozes de homens e mulheres nos campos sem fim, ao compasso da enxada e da foice.»
Ana Tomás e Ricardo Fonseca apresentam o seu mais recente trabalho “Canções de Labor e Lazer”, com melodias tradicionais e poesia popular portuguesas. As canções que compõem o álbum eram cantadas por homens e mulheres enquanto trabalhavam nos campos, em romarias e procissões, em bailes ou no singelo acto de embalar uma criança. Com arranjos de Ricardo Fonseca, cada canção ganha uma sonoridade nova, com influências de linguagens musicais várias, nunca perdendo, no entanto, a raiz portuguesa tão patente no som único das violas tradicionais por ele interpretadas. Também a voz de Ana Tomás, com formação em canto lírico, e as interpretações de cada instrumentista tornam este álbum singular no panorama da música tradicional portuguesa.
Ana Tomás (voz)
Ricardo Fonseca (cordofones)
Fernando Frias (piano)
Gil Pereira (contrabaixo)
Tiago Araújo (percussão)