"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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sexta-feira, 1 de maio de 2026

Dia do Trabalhador

Entretém-te filho, entretém-te!
Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da Silva

José Mário Branco, FMI


quinta-feira, 19 de março de 2026

Arquivo de José Mário Branco acessível online

José Mário Branco constituiu um arquivo documental, composto de partituras, ficheiros áudio, espectáculos, correspondência profissional, etc. 
Este arquivo, conservado na própria residência do músico, foi temporariamente disponibilizado ao Centro de Estudos em Música (CESEM - unidade de investigação sediada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Lisboa), para a sua categorização, digitalização, higienização e reacondicionamento. 

No final do processo, foi acordado que estes materiais digitais, coerentemente organizados, seriam inseridos numa base de dados própria, para consulta livre online, concebida como instrumento auxiliar para o estudo, divulgação e reapropriação social da obra do músico. 
A base de dados foi apresentada publicamente em Junho de 2018, com a presença do próprio José Mário Branco.

Aos materiais constantes do arquivo têm sido adicionadas imagens e outros dados relevantes para a documentação e contextualização do percurso do artista. 
A gestão do Arquivo Musical José Mário Branco é feita pelo CESEM, em articulação com o Centro de Estudos e Documentação José Mário Branco - Música e Liberdade (CEDJMB-ML), criado pela família do cantor após a sua morte, em 2019.



Até postumamente se evidencia o sentido de organização de José Mário Branco...
... e o facto de ser ML. :)



domingo, 24 de novembro de 2024

25 de Novembro - No aproveitar é que está o ganho

«Eu não sei se havia um plano formulado com rigor e com suficiente clareza. O que sucedeu, isso sim, foi - já nos dias ou semanas que antecederam o 25 de Novembro e sobretudo nesse próprio dia (e apesar de nós acabarmos por ter o controlo da situação) - uma tentativa imediata de aproveitamento por parte da direita para recuperar toda a força e a supremacia da situação. Penso que não havia da parte deles um plano gizado com pormenor, com pés e cabeça, até porque julgo que não se sentiam ainda com força para isso, sabiam que, ao fim e ao cabo, quem comandava os acontecimentos no plano político e militar era o Grupo dos Nove e, portanto, não sabiam ainda orientar-se muito bem no meio de tudo isto. O que aconteceu, de facto, foi uma tentativa imediata de aproveitamento.

(...)

Quer dizer, ao fim e ao cabo, o que se passou no 25 de Novembro foram várias coisas, por isso se fala em mais do que um 25 de Novembro, entre elas a tentativa de o transformar numa "pinochetada" como eu costumo dizer. Isso é claríssimo e fez, obviamente, com que nos tivéssemos de bater, pelo menos, em duas frentes: aquela para a qual nos tínhamos preparado e outra, a da direita militar.»

Entrevista de M.ª Manuela Cruzeiro a Melo Antunes, Melo Antunes o sonhador pragmático

No plano político-militar, os militares conotados com as facções mais à esquerda foram afastados.

A direita política e militar "não ganhou" (se quisermos analisar dessa forma redutora - entre vitórias e derrotas, a situação) - não foi a vencedora imediata, "até porque não se sentiam ainda com força para isso", mas passou a ter condições para crescer.

Foram as forças moderadas que controlaram as operações militares do 25 de Novembro (e o fluxo político inerente, numa época em que o adjectivo militar andava a par com o adjectivo político). Mesmo o Coronel Jaime Neves, habitualmente conotado com posições mais à direita, e que se distinguiu nas acções desse dia, actuou sob a orientação do Tenente-Coronel Ramalho Eanes, comandante operacional a partir do Regimento de Comandos da Amadora. No Palácio de Belém, o Presidente, General Costa Gomes assumira o comando, coadjuvado por Vasco Lourenço (comandante da Região Militar de Lisboa) e Rocha Vieira, Chefe do Estado-Maior. Neste período, esteve reunido em permanência o Conselho da Revolução, dominado pelas posições do Grupo dos Nove (de que Melo Antunes era figura proeminente).

Todos estes militares tinham estado comprometidos com o 25 de Abril.  

Mas, ao serem posteriormente afastados dos postos de chefia os elementos mais à esquerda, o cenário político começou a deslizar todo ele para a direita - entrámos no PCREC (o C de Contra).

Daqui advém a simpatia da direita pelo 25 de Novembro, a data em que a revolução foi travada, através do afastamento dos seus principais actores, e que se transforma em símbolo político por oposição ao 25 de Abril da esquerda. Por isso é preciso realizar a cerimónia - todos têm rituais.

A direita aproveitou-se, naturalmente, das condições que foram criadas, sem nada ter feito directamente, mas sabendo "orientar-se muito bem no meio tudo isto". 

O 25 de Novembro é, a meu ver, o fim das utopias possíveis do 25 de Abril, aquelas que se abriram imediatamente após o dia inicial e limpo, quando todo o futuro nos pareceu estar por escrever. 

Nota: O plural majestático da última frase será um exagero: com 15 anos inocentes (politicamente ignorante), não compreendia de todo os acontecimentos que então se desenrolavam.    

2.ª nota - No meio de tanto que se tem dito e escrito, louvo aquilo que me parece ser o respeito pela verdade nos relatos que faz das situações vividas e a coerência da análise da parte do General Ramalho Eanes (nomeadamente no que se prende com a sua actuação) em todos os depoimentos que lhe conheço sobre os acontecimentos ocorridos em torno do 25 de Novembro de 1975. Concorde-se ou não com as posições que tomou... 



quarta-feira, 20 de novembro de 2024

José Mário Branco - obra de interesse nacional

Cinco anos após a morte de José Mário Branco, um conjunto de cidadãos, maioritariamente com ligações à Música, entregou à Vice-Presidente da Assembleia da República a petição para que a obra de José Mário Branco seja considerada de interesse nacional.

A recolha de assinaturas continua.


terça-feira, 1 de outubro de 2024

Que grande rebaldaria / E a Palestina às escuras


No meio dos escombros da sua casa, Abu Omar, de 70 anos, fuma cachimbo e ouve música do gira-discos, em Aleppo, na Síria, a 9 de Março de 2017, após o bombardeamento do seu bairro.  

Foi na Síria, um episódio mais dos permanentes conflitos do Médio Oriente. Podia ser hoje, no Líbano, em Gaza, na Cisjordânia, onde a loucura de Benjamin Netanyahu continua a atear fogos. 

A uma semana de se assinalar um ano dos ataques do Hamas, os reféns já cumpriram o seu papel, já foram úteis aos planos de Netanyahu.

Está difícil ouvir música!...


Shalom Palestina

«Que grande rebaldaria / E a Palestina às escuras» - versos da canção Nefretite não tinha papeira (do LP Venham Mais Cinco, de José Afonso, 1973)

Última quadra da mesma canção (já que estou com a mão na massa):

Os Sheikes israelitas
Já que estou com a mão na massa 
Lembram-me os Sheikes das fitas
Que dão porrada a quem passa


sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Corporativismo

 

Quem se mete com as Ordens, leva!

Vivam as Corporações!

José Mário Branco - Elogio da Corporação


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Cantiga(s) do Fogo e da Guerra

Assanhem-se os ânimos! 

Agilitemos os espíritos guerreiros!

Sus!


Há um fogo enorme no jardim da guerra
E os homens passeiam fagulhas na terra
Os homens passeiam co'os pés no carvão
que os deuses acendem luzindo um tição

Pra apagar o fogo vêm embaixadores
trazendo no peito água e extintores
Extinguem as vidas dos que caiem na rede
e dão água aos mortos que já não têm sede

Ao circo da guerra chegam piromagos
abrem grande a boca quando são bem pagos
Soltam labaredas pela boca cariada
fogo que não arde nem queima nem nada

Senhores importantes fazem pique-niques
churrascam o frango no ardor dos despiques
Engolem sangria dos sangues fanados
e enxugam os beiços na pele dos queimados

É guerra de trapos, do pulmão que cessa
do óleo cansado que arde depressa
Os homens maciços cavam-se por dentro
e o fogo penetra, vai direito ao centro

José Mário Branco
Cantiga do Fogo e da Guerra
Letra: Sérgio Godinho     Música: José Mário Branco


terça-feira, 19 de novembro de 2019

Obrigado, José Mário




«(...) Há princípios e valores
Há sonhos e há amores
Que sempre irão abrir caminho
E quem viver abraçado
À vida que há ao lado
Não vai morrer sozinho
E quem morrer abraçado
À vida que há ao lado
Não vai viver sozinho»
Do que um homem é capaz

E José Mário Branco era capaz disto! 


quarta-feira, 30 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (14)

30 de Maio
O Presidente de Gaulle regressa a França, depois de ter estado na Alemanha (Baden-Baden) com os comandantes de uma base militar francesa e de lhes ter pedido o apoio em caso de confrontação.

Cerca das quatro da tarde, através da rádio, fala à nação "com aquela voz profunda, solene, histórica, de militar da velha guarda." Anuncia a dissolução da Assembleia Nacional, recusa demitir-se, conserva o primeiro-ministro e ameaça decretar o estado de sítio. Adia o referendo que anunciara dia antes e convoca eleições antecipadas para 23 de Junho

As suas palavras geram uma gigantesca manifestação de apoio ao regime.
Cerca de 1 milhão de conservadores - as "direitas unidas" e os gaullistas, opostos à greve geral e fartos da violência nas ruas - marcham através de Paris.
«Antes das 16.30 h, estava-se em Cuba; depois das 16.35 h, estava-se quase na Restauração.» (Jean Lacoutoure)




«Tive a percepção de que o Maio de 68 estava a terminar quando estava a vir para casa, a pé, e ao passar pelos Campos Elísios deparei-me, a vir em sentido contrário, com uma grande manifestação com bandeiras tricolores. E, de repente, percebi que havia uma outra França, a chamada maioria silenciosa, que tinha acordado e estava na rua. Não é que eu tivesse perspectivado que pudesse ser diferente mas, naquele momento, entendi que estava a acabar e lembro-me de pensar que a História é mais complicada do que pensávamos. Isso foi-me muito útil quando voltei para viver o período depois do 25 de Abril, e perceber que as coisas não são irreversíveis. » (Sérgio Godinho)




A imagem é um pormenor de uma pintura de Júlio Pomar, Resistência (1946). 
Júlio Pomar, como José Mário Branco e Sérgio Godinho,
encontrava-se em Paris, em Maio de 1968.


terça-feira, 1 de maio de 2018

José Mário Branco e duas obras clássicas

O dia fez-me procurar disco antigo.
Ouço e recordo...

O dia 25 de Abril "inconscientemente" vivido, com a audição de um conjunto de canções - muitas até então proibidas - tendo muitas constituído, para mim, uma surpresa.
A aquisição dos discos (em vinil, claro!) que procurei avidamente, logo que pude, e ouvi vezes sem conta.
A partilha com os amigos dessas (e de outras) músicas, num clima bem diferente daquele em que se tinha vivido. Isso era mais do que perceptível, mesmo para quem era politicamente inconsciente.
Tinha 15 anos...


Ouço este disco de José Mário Branco... procuro o seu "irmão-gémeo" - Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades - e admiro-me da qualidade - músicas, letras, arranjos musicais... Muito à frente das habituais baladas de protesto, de consumo mais imediato.
Quase tantos anos como o Maio de 68 em Paris, cidade em que José Mário Branco vivia, e esta música continua a dizer(-me) coisas, para além do que possam ser as ligações afectivas valorizadas pela memória. 
É a isto que se chama uma obra clássica - e dura, dura, dura...




quarta-feira, 25 de maio de 2016

Eh! Companheiro

Eh! companheiro aqui estou
aqui estou para te falar
(...)

Parabéns, José Mário Branco, pelo 74.º aniversário.


(...)
pela paz que nos recusam
muito temos que lutar

A letra desta canção é do companheiro Sérgio Godinho.


domingo, 5 de outubro de 2014

José Mário Branco distinguido

José Mário Branco recebeu o Prémio Tenco, atribuído em Itália (San Remo) com o objectivo de distinguir artistas que contribuem com a sua obra e com a sua acção para o desenvolvimento das artes e da sociedade.



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Que amor não me engana




Lindíssima canção de José Afonso.
Gravada em Paris, Outubro de 1973.
Arranjos e direcção musical de José Mário Branco

José Mário Branco, nos arranjos e direcção musical, está associado aos discos maiores de José Afonso, como este, os dois últimos de José Afonso - Como se fora seu filho e Galinhas do Mato - e o primacial Cantigas do Maio. 
Ao que contam, JMB punha alguma ordem na anarquia criativa de JA. Junte-se a sua apurada sensibilidade musical - um amor que não engana - e temos obra.