"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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sábado, 17 de novembro de 2018

Alexandre Vargas (1952 - 2018)

Morreu esta semana o poeta Alexandre Vargas, filho mais novo do também poeta José Gomes Ferreira. No mesmo ano que o seu irmão, o arquitecto Raúl Hestnes Ferreira.

O Alexandre entrou-me em casa nos diários do pai - Dias comuns - e, sem eu saber (só muito mais tarde), pela tradução da poesia de Peter Hammill - Camaleão na sombra da noite.

A música era elemento importante na sua poesia, e por lá passam, entre outros, os King Crimson e Syd Barrett.
A poesia e afinidades musicais...



Quando a minha boca se cansa 
e não posso apelar para outra música,
deverei então olhar para trás e dizer
que fiz tudo
demasiado cedo?
(Peter Hammill traduzido, 
de Chameleon in the shadow of the night)

Alexandre Vargas desenhado por Luís Manuel Gaspar (1987),
para um livro ainda inédito


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Raúl Hestnes Ferreira

Ontem, a notícia da morte de Raúl Hestnes Ferreira, aos 86 anos, arquitecto e professor, filho do poeta José Gomes Ferreira.


Foi através do pai que o seu nome se tornou meu conhecido.
Em 1963, na 1.ª edição de Aventuras de João Sem Medo, JGF faz a dedicatória aos seus dois filhos, «Para os meus dois filhos - o homem e a criança - este Divertimento escrito por quem sempre sonhou conservar a Criança bem viva no Homem.» E torna mais explícito: «Para ti, Raúl José, homem há muito - e homem autêntico -, que aprendeste à tua custa que a verdadeira coragem é a força do coração...»

Raúl Hestnes Ferreira fez formação em várias partes do mundo. «Chegou ao Mediterrâneo por um longo e sinuoso caminho, do Porto à Finlândia, da ordem dos Modernos a Kahn, a Roma, à universidade da ordem compositiva», como assinalou Alexandre Alves Costa.

Família Gomes Ferreira
Estudo e painel de azulejos da autoria de Maria Keil, amiga da família.

«Eu também gostava muito de escrever, mas fui também muito influenciado pela personalidade do arquitecto Keil do Amaral. O meu pai convivia muito com artistas plásticos – sei lá…Manuel Ribeiro de Pavia, a pintora Maria Keil,… – e os meus padrinhos foram Bernardo Marques (desenhador) e Ofélia Marques (uma grande pintora, também). Eu fui criado nas artes, e gostava muito de desenhar. Aos 15, 16 anos, naquelas opções da escola, acabei por enveredar pela arquitectura, e não estou nada arrependido, de facto.»

Das suas múltiplas obras, de que sobressai um Prémio Valmor (2002, Edifício II do ISCTE), destaco três, mais uma vez pela ligação paterna:
- a que foi a sua primeira obra de raiz, a chamada Casa de Albarraque, em Rio de Mouro (Sintra), projecto de 1959-61, desenhada como tranquilo retiro de fim-de-semana para o seu pai, frequentemente referida nos diários de JGF, Dias Comuns;

A Casa de Albarraque (1961?), com José Gomes Ferreira ao cimo das escadas

A Casa de Albarraque (2013), com a presença de Raúl Hestnes Ferreira.
Na parede, o painel de azulejos de Maria Keil

- a escola secundária que tem o nome do pai, em Benfica (pertinho da minha antiga casa);

Escola Secundária José Gomes Ferreira (Benfica)
Maqueta e fotografia tirada do morro fronteiro

- a Biblioteca de Marvila (Lisboa), onde existe uma sala dedicada ao pai, integrando alguns dos seus objectos pessoais, a secretária onde escrevia e a sua biblioteca.


Desenhos de Filipe Pinto, aqui

Como pelo pai sinto a morte do filho.
José Gomes Ferreira que, em A Memória das Palavras, recorda a morte do irmão Jaime, quando ele, no quarto ao lado "a ouvir tudo, tudo, TUDO!...", também estava com febre tifóide.
«Fiquei eu. Sim, eu. De olhos abertos, a ouvir, a adivinhar... Eu. Terrível. Sozinho. Curioso de ouvir morrer. Mãos de horror nos lençóis. Lágrimas a secarem os olhos. (...) Meu pai entrou no quarto e deitou a cabeça a meu lado, na cama, a chorar.»