"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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sábado, 30 de junho de 2018

Maio de 68 - 50 anos (22)

Leituras e heranças...

«Mais do que um movimento global, 1968 foi feito de 68 tão diversos (...)»
Manuel Loff


«Nos dez anos seguintes passou-se de uma "esquerda generalista" a "esquerdas especializadas": feminista, homossexual, ecologista, regionalista, anticonsumista, etc.»
Pascal Ory (historiador)

«A partir da década de 70, como herança dos eventos de Maio de 68, houve o ápice dos movimentos feministas. Essas mobilizações mudaram radicalmente os direitos das mulheres.»



«Graças a Maio de 68, houve uma importante evolução do sistema universitário e pedagógico na França. Antes, nas universidades as aulas eram dadas em grandes anfiteatros e somente o professor tinha palavra, depois foram introduzidas as salas menores, onde os estudantes poderiam participar.»
Julie Pagis (socióloga)

«(...) a reivindicação fundadora do 68 estudantil — a democratização do acesso à e da gestão da universidade, o ataque ao autoritarismo escolar e à pedagogia elitista — teve um evidente sucesso nos 30 anos que se seguiram a 1968 (...)»
Manuel Loff


«O movimento não era contra a sociedade de consumo, mas a favor dela» e teria preparado terreno para o capitalismo. 
Luc Ferry (filósofo)

Nicolas Sarkozy criticou a herança de Maio de 68 por ter liquidado a escola do mérito e do respeito e ter estabelecido as bases do capitalismo sem escrúpulos e sem ética.



«A tese mais comum sobre 68 (...) é a da vitória cultural mas derrota política. (...) Definir 68 como o embate entre uma vanguarda política e culturalmente criativa e um conservadorismo político e societal partilhado à direita e à esquerda, por burgueses e operários, é uma leitura tão intrinsecamente burguesa e liberal que ninguém nos 68 se atreveria a assumi-la.»
Manuel Loff


Maio de 68 - 50 anos (21)

«Faltam-me outras palavras, porque não sei o que vai acontecer. Só pressinto, como um bicho, que a meteorologia está mudando. Ou que, algures, um afloramento de alma faz ondear a crosta da nossa civilização burguesa: é a única certeza que tenho.»
António José Saraiva, Maio e a crise da civilização burguesa


Leituras de Maio há muitas.
As heranças de Maio foram várias...
Os herdeiros de Maio foram por muitos caminhos...

«Como em tudo, a leitura do passado faz-se sempre a partir dos valores do presente, pelo que uma boa parte do que se celebra hoje de 68 (e do estudantil em particular) é constituído sobretudo por pontos de chegada de um processo que, mesmo que se tenha iniciado em 1968, dificilmente se pode dizer que tenha sido desejado há 50 anos.»
Manuel Loff


«Nós não podemos perceber o Maio de 68 e os seus desenvolvimentos se ignorarmos a Revolução Chinesa, e a leitura ocidental que ela teve, e se ignorarmos a Revolução Cubana e a independência argelina e as lutas do Terceiro Mundo. E tudo isso criou um caldo de cultura política que também se manifesta em relação à invasão da Checoslováquia, combatida em muitos países pela mesma geração do Maio de 68.»
José Pacheco Pereira

«Foi uma geração que gerou o movimento. E que se bifurcou depois, perdida entre os arautos da pós-modernidade, os compromissos do Estado e as carreiras.» 
Francisco Louçã




«Tenho uma visão mais festiva sobre a coisa. Foi uma festa linda, um grito, um sobressalto. Não havia um projecto político. Foi um movimento libertário. Teve a importância que teve porque coincidiu com uma adesão maciça da classe trabalhadora: sete milhões de operários em greve, com a ocupação das empresas (não foi como a maior parte das greves de agora que servem para ficar em casa a ver a novela). Daí a vivência que tive. Comecei a estar integrado em grupos móveis de artistas que iam aos sítios ocupados, cantar, declamar e fazer sketches, com a dupla função de entreter e dar força moral para que continuassem.»
José Mário Branco

«Começou a parecer a muita gente que havia experiências revolucionárias que não seguiam o modelo leninista tradicional e que poderiam ser mais eficazes e, acima de tudo, pareciam mais modernas. A linguagem não era a mesma; a forma de vestir, também não. Havia símbolos icónicos que mostravam bem isso, como aquela fotografia tirada pelo Korda ao Che Guevara. Se formos a ver aquilo a que chamamos o adquirido do Maio de 68, que em Portugal chegou muito mais tarde, traduz-se no dar importância a lutas que até ali não tinham tido relevância. Há uma nova visão da psiquiatria, há uma nova forma de ver o problema das prisões, há um renovar do movimento feminista, o aparecimento com mais força do movimento LGBT. Houve em França e nos EUA...» 
José Pacheco Pereira

«A morte de Guevara, as barricadas da Rue Gay-Lussac, a sublevação do Quartier Latin, o incêndio da Bolsa de Paris, o ataque à Convenção Democrata em Chicago, a fuga de De Gaulle para junto do exército francês na Alemanha, o atentado contra Dutschke, o assassinato de Bobby Kenedy, de Malcom X, de Martin Luther King, o mundo ardia. Movia-se uma nova constelação: Joan Baez, Bob Dylan, os rapazes de Liverpool já se tinham calado. We want the world and we want it now, cantava o profeta Jim Morrison.» 
Francisco Louçã


Maio de 68 - 50 anos (20)



«31 de Junho de 1968*
Sucesso do governo nas eleições, excedendo todas as expectativas. A oposição perdeu mais de metade dos seus deputados, o PC idem. É a derrota do Waldeck-Rochet. O PCF vai entrar em crise, a não ser que se deixe encarreirar mansamente para uma situação eleitoral parecida com a da SFIO. (...)

Os "revolucionários" é que são coerentes, pois, desde o início, recusaram o jogo eleitoral e fizeram valer o princípio das "minorias actuantes". Somente, o princípio da minoria só vale na medida em que ela suscita a adesão da maioria. A minoria não comanda, convence. De outro modo seria a ditadura, e portanto a repressão, e portanto o Estado, e portanto a burocracia que os revolucionários pretendem abolir. A maioria alcançada pelos gaullistas nas eleições mostra que a França não está pronta para a revolução.

E, no entanto, ao ouvir ontem o Humberto, todo lançado na "Université d'été", convenço-me de que a revolução vai recomeçar no Outono com a abertura das aulas, não posso duvidar de que a revolução está em marcha. As eleições ficaram na sombra.
São estas duas atitudes que é preciso confrontar e opor: a França que vota gaullista maciçamente - incluindo a banlieue de Paris, que sempre votou vermelho -, a França que confirma a rotina; e, por outro lado, a revolução que prossegue, na minoria, o seu andamento, igualmente seguro e inelutável.

(...) São precisos conceitos diferentes para entender uma e outra. Uma revolução só é possível quando, de salto, a massa entra em estado dinâmico. Foi o que, parece, esteve quase para acontecer em Maio. Foi o que aconteceu em Novembro de 1917 na Rússia. É só no momento em que o estado dinâmico se propaga à maioria da população activa que a estrutura pode mudar.»


António José Saraiva, Maio e a crise da civilização burguesa


* Exactamente assim... no livro. O lado revolucionário de Maio de 68 chegou até ao calendário!...


Maio de 68 - 50 anos (19)



«(...) houve as eleições com os resultados que sabes. Em resumo, o PC perdeu perto de 3/4 dos deputados e cerca de meio milhão de votantes. A Féderation perdeu mais de metade dos deputados. Os gaulistas ortodoxos têm a maioria absoluta. Seguem-se-lhe em número de deputados os giscardianos (que estão à direita dos gaullistas, e não ao centro como dizem), o PC, a Federação e os Centristas. Há um número considerável de gaulistas de esquerda.

Esperava-se a vitória dos gaulistas, mas o recuo do PC foi para mim uma surpresa. O mais curioso é que o PC perdeu uma parte do seu eleitorado nos seus bastiões tradicionais, como a chamada "ceinture rouge" de Paris. Houve muitos operários que votaram gaulista. Isto confirma que a classe operária está em grande parte integrada no sistema, fazendo bicha para a sua vez na chamada "sociedade de consumo". O operários que tiveram a iniciativa da greve foram uma minoria muito esclarecida, pertencente, na maior parte, à metalurgia. O operariado vota no PC institucionalmente, mas considera o PC como um elemento da ordem e não da revolução. Num momento em que a ordem parecia ameaçada, as classes médias e uma parte do operariado consideraram que como baluarte da ordem o De Gaulle era preferível ao ao Waldeck Rochet. E à luz destas considerações percebe-se muito bem porque é que o PC condenou tão ostensivamente os "revolucionários" e centrou a sua campanha eleitoral à volta do tema de que é um partido ordeiro e inimigo de aventuras, com o "sens de l'État".

Foi um duche escocês. Na 1.ª fase pareceu que toda a gente em França queria a revolução; na 2.ª fase que toda a gente queria o status quo. Na realidade a revolução foi obra de uma minoria actuante, que durante mais de um mês penalizou a maioria. Só as minorias fazem as revoluções.

Tenho várias ideias anotadas sobre todo este problema num diário que escrevi e que te hei-de mostrar.*
(...)
O que vai seguir-se? (...) O De Gaulle vai acabar mal, evidentemente, porque terá contra ele a Esquerda e a Direita. A não ser que, mais uma vez, a audácia o recompense. De qualquer forma uma viragem está em curso em França, e, através dela, em toda a Europa ocidental. O socialismo, ou qualquer coisa com outro nome e mais desalienante do que o que o dito nome contém existencialmente, virá, mas por vias bem diferentes daquelas que ensinam os clássicos e os doutores. Viva a imaginação!»
Carta de António José Saraiva
António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência

* António José Saraiva, Maio e a Crise da Civilização Burguesa


sábado, 23 de junho de 2018

Maio de 68 - 50 anos (18)

23 de Junho
Teve lugar a 1.ª volta das eleições legislativas depois da dissolução da Assembleia Nacional pelo Presidente Charles de Gaulle, para responder à crise de Maio de 68.

Sessão em que o Presidente da Assembleia Nacional anunciou a dissolução deste órgão.

Para estas eleições, os gaullistas formaram a UDR (Union pour la Défense de la République). O tema da campanha foi simples e eficaz: a defesa da ordem e a denúncia da ameaça subversiva e totalitária representada pelo Partido Comunista. Ao lado da UDR encontravam-se republicanos independentes e centristas moderados. 

À esquerda, o Partido Comunista e a FGDS (Fédération de la Gauche Démocrate e Socialiste) procuraram demarcar-se da desordem originada pelas movimentações estudantis. Só o PSU (Parti Socialiste Unifié) reivindicou a herança dos temas dos estudantes de 68 (não chegando a eleger qualquer deputado, apesar de quase 1 milhão de votos).

Dia 30 será a 2.ª volta...


sexta-feira, 8 de junho de 2018

Maio de 68 - 50 anos (17)

«Neste momento (8 de Junho), a polémica PC - Estudantes atingiu o auge. Os estudantes tentam arrastar os grevistas restantes a bater-se com a polícia; a Humanité chama-lhes "provocadores".»
António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência


Aos estudantes, Georges Marchais chamava-lhes "fils à papa".
Já em 1967, Jean Ferrat cantava:

(...)


Quand le temps de vos colères
Quand vos contorsions
Ne seront plus qu'éphémères
Et vieilles illusions
Fils de bourgeois ordinaires
Pour qui nous savons
Vous voterez comme vos pères
Pauvres petits c…
Vous voterez comme vos pères
Pauvres petits cons


(...)


Em 1969, o sentido é (nostalgicamente) diferente...

Au printemps de quoi rêves-tu?
D'un printemps ininterrompu

Duas vezes a mesma canção:



Pelas imagens...


Pelo som (que aqui é melhor).


Maio de 68 - 50 anos (16)

A 8 de Junho, António José Saraiva escrevia a Óscar Lopes.
Até parece que Maio continuava...

«Meu caro
Tenho estado a assistir a uma coisa que não se vê todos os dias: uma revolução, e uma revolução sem precedente, porque é a primeira que ocorre num país economicamente e socialmente adiantado, no Ocidente.
(...)
Acrescento que o começo disto foi absolutamente inesperado. Não havia agitação operária. Recomeçava a expansão económica. Começava a reunir-se a conferência entre americanos e vietnamitas. O De Gaulle preparava a viagem à Roménia.»

António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência


quinta-feira, 31 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (15)

Maio entrou por Junho adentro...


Pouco mais de um mês depois da revolta, a 23 de Junho de 1968, França vota.
O partido conservador de Charles De Gaulle, a União dos Democratas para a República (UDR), ganha as eleições parlamentares, conquistando 353 dos 468 assentos.

«Nas eleições parlamentares que se seguiram, os partidos gaullistas governantes obtiveram uma esmagadora vitória, aumentando a sua votação em mais de um quinto e garantindo uma impressionante maioria na Assembleia Nacional. Os trabalhadores voltaram ao trabalho. Os estudantes foram para férias.»
Tony Judt, Pós-Guerra - História da Europa desde 1945 



Este historiador britânico considera que as revoltas estudantis de Maio de 1968, em França, "tiveram um impacto psicológico fora de todas as proporções do seu real significado". Tendo um estilo "aparentemente revolucionário, foram um "psicodrama" que entrou na mitologia popular, quase de imediato, como objecto de nostalgia.



Curioso que o governo de De Gaulle, constituído após a retumbante vitória de Junho de 1968, somente se sustenta no poder até Abril de 1969.

A História não é assim tão simples...


quarta-feira, 30 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (14)

30 de Maio
O Presidente de Gaulle regressa a França, depois de ter estado na Alemanha (Baden-Baden) com os comandantes de uma base militar francesa e de lhes ter pedido o apoio em caso de confrontação.

Cerca das quatro da tarde, através da rádio, fala à nação "com aquela voz profunda, solene, histórica, de militar da velha guarda." Anuncia a dissolução da Assembleia Nacional, recusa demitir-se, conserva o primeiro-ministro e ameaça decretar o estado de sítio. Adia o referendo que anunciara dia antes e convoca eleições antecipadas para 23 de Junho

As suas palavras geram uma gigantesca manifestação de apoio ao regime.
Cerca de 1 milhão de conservadores - as "direitas unidas" e os gaullistas, opostos à greve geral e fartos da violência nas ruas - marcham através de Paris.
«Antes das 16.30 h, estava-se em Cuba; depois das 16.35 h, estava-se quase na Restauração.» (Jean Lacoutoure)




«Tive a percepção de que o Maio de 68 estava a terminar quando estava a vir para casa, a pé, e ao passar pelos Campos Elísios deparei-me, a vir em sentido contrário, com uma grande manifestação com bandeiras tricolores. E, de repente, percebi que havia uma outra França, a chamada maioria silenciosa, que tinha acordado e estava na rua. Não é que eu tivesse perspectivado que pudesse ser diferente mas, naquele momento, entendi que estava a acabar e lembro-me de pensar que a História é mais complicada do que pensávamos. Isso foi-me muito útil quando voltei para viver o período depois do 25 de Abril, e perceber que as coisas não são irreversíveis. » (Sérgio Godinho)




A imagem é um pormenor de uma pintura de Júlio Pomar, Resistência (1946). 
Júlio Pomar, como José Mário Branco e Sérgio Godinho,
encontrava-se em Paris, em Maio de 1968.


domingo, 27 de maio de 2018

Les accords (?) de Grenelle

Durante o fim-de-semana (dias 25 e 26), em instalações do Ministério do Trabalho (Hôtel du Châtelet - Rue de Grenelle), representantes do Governo, das centrais sindicais e das organizações do patronato discutem e "parecem chegar a um acordo tácito" [aspas minhas], cuja designação varia.
Vulgarmente fala-se nos "acordos" de Grenelle (ou no projecto de acordo) , mas até sobre a designação é difícil um acordo.

Esse momento, atingido na madrugada do dia 27, marca a separação dos caminhos entre os estudantes mais radicais (de tendências maoístas, anarquistas ou, ainda, trotskistas) e os sindicatos, de linha mais ortodoxa, menos retóricos.

(Com ou sem assinaturas) Avançou a concretização de reivindicações concretas - aumento do salário mínimo (35%) e dos outros salários (cerca de 10%) e o reconhecimento de mais direitos às organizações sindicais junto das empresas.
As greves e as ocupações das fábricas mantiveram-se por alguns dias, ainda, mas a contestação atenua-se.



sábado, 26 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (13)

«As revoluções não se fazem de cartilha na mão, digam o que disserem os ortodoxos. Vê-se agora, em França. Todas as condições exigidas pela teoria realizadas - a sublevação consciente na rua, os meios de produção nas mãos dos trabalhadores, a pequena burguesia de acordo, os camponeses idem, o poder às aranhas -, e nada. É que os textos sagrados - e até os profanos - só valem o que vale a liberdade de quem os lê.»
Miguel Torga, Diário X (Coimbra, 26 de Maio de 1968)




sexta-feira, 25 de maio de 2018

Le pouvoir le pouvoir le pouvoir



(...)

Je sais que si nous nous aimons

A travers le même combat
C'est que nos révoltes sont sœurs
Et cogne en nous le même sang
Un sang qui bien sûr coulera
Versé pour la cause du peuple
Pour qu'un jour tous les travailleurs
S'unissent et prennent le pouvoir
Le pouvoir le pouvoir le pouvoir


Maio de 68 - 50 anos (12)

«24 de Maio
Encerrou-se o prólogo da 2.ª Revolução Francesa com um discurso de De Gaule a propor um plebiscito para que a nação decida se ele deve permanecer para fazer reformas necessárias... Ele, De Gaule.
E agora? Que vai suceder?
Balão que se esvazia lentamente?...
É tão difícil ver as coisas contemporâneas!»
José Gomes Ferreira, Dias Comuns IV


quinta-feira, 24 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (11) - crónica

24 de Maio
Na encruzilhada...



La France manifeste. Paysans, ouvriers, étudiants, le plus souvent en cortèges séparés, toutes les villes de province sont en marche. A Paris, la CGT organise deux défilés, rive gauche et rive droite, qui se veulent des démonstrations de responsabilité et se refusent à rejoindre les étudiants. Ils se dispersent dans le calme. A partir de 17h30, étudiants et jeunes travailleurs se regroupent dans la capitale. Différents rassemblements convergent vers la gare de Lyon . Ils sont vingt, trente mille. Ils sont «tous des juifs allemands». Les plus résolus cachent des manches de pioche sous leurs blousons aux poches lourdes de projectiles. L'esplanade déborde de monde. Les organisateurs tentent de négocier une sortie vers les Grands Boulevards, c'est non. Les CRS s'avancent pour dégager la voie publique. En queue de cortège, les transistors retransmettent à 20 heures le discours promis par le général de Gaulle: «J'ai décidé de soumettre aux suffrages de la nation un projet de loi par lequel je lui demande de donner à l'Etat, et d'abord à son chef, un mandat pour la rénovation ["]. Au cas où votre réponse serait non, il va de soi que je n'assumerais pas plus longtemps ma fonction.» Il est accueilli par des «On s'en fout!» et des «Adieu, de Gaulle!» Pierre Mendès France réagit: «Un plébiscite, cela ne se discute pas, cela se combat. Dès maintenant le peuple a déjà répondu non.» L'allocution du général de Gaulle déçoit tout le monde jusque dans son camp (sauf la télévision cubaine qui la juge «remarquable, tant par ce qu'il a dit que par ce qu'il a tu»).

Le discours achevé, des barricades s'élèvent autour de la Bastille. Premières charges, premières blessures. Des officiers de CRS arrêtent les ambulances et en arrachent les blessés pour les fouiller violemment sur la chaussée. Vers 22 heures, le quartier de la Bastille est repris, les manifestants se mettent en marche vers la Bourse. Malgré le mot d'ordre de l'Unef, le bâtiment, qui n'est pas protégé, est pris d'assaut à coups de madrier. C'est la ruée, la corbeille est mise à sac. Pendant un quart d'heure, le palais Brongniart est en flammes. 22h45, débandade.

A 23h30, regroupement général au Quartier latin. On érige des barricades, l'organisation des secours prend le pas sur le débat idéologique, l'atmosphère est tendue, fébrile, résolue. A 0h30, le commissariat du Ve, au Panthéon, est lapidé, un car de police incendié.

Les CRS déclenchent une attaque frontale boulevard Saint-Michel. Tirs tendus de grenades lacrymogènes, les six barricades sautent, aussitôt déblayées par le bulldozer qui suit les escadrons. Mendès France se rend sur place. Le cardinal Marty vient au milieu de la nuit réconforter les blessés. La résistance s'organise en petits barrages jusque sur la rive droite. Le poste de police des Archives, rue Beaubourg, est saccagé, et son mobilier aussitôt élevé en barricades. La police s'énerve sur les isolés; ni le brassard de presse ni celui de la Croix-Rouge ne permettent d'éviter les coups. 795 interpellations, dont 80 femmes, 45 arrestations maintenues; 456 personnes reçoivent des soins dans les hôpitaux, 178 restent hospitalisées, dont 2 policiers. Philippe Mathérion, 26 ans, qui manifestait avec les étudiants, a été admis mort à l'hôpital Cochin au cours de la nuit. Il a été poignardé, probablement au cours d'une rixe entre manifestants. A Lyon, le commissaire Lacroix a été tué en tentant d'arrêter un camion lancé contre les forces de l'ordre.

Cet après-midi, Paris a la gueule de bois. Depuis 15 heures, rue de Grenelle, au ministère des Affaires sociales, tous les partenaires sociaux sont réunis pour négocier un accord qui mettrait fin à la crise. Les Parisiens sont partis en week-end, on trouve de l'essence au marché noir pour 3 francs le litre. Les autres peuvent toujours s'abonner au Monde des philatélistes, pour 12 francs par an (spécimen sur demande).



terça-feira, 22 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (10) - e Júlio Pomar

Em Paris, onde tinha fixado residência no ano de 1963, Júlio Pomar pintou a série temática sobre os acontecimentos de Maio de 68, centrando as suas representações nas CRS.






domingo, 20 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (9)

«20 de Maio
A França inesperadamente em plena sedição. Bandeiras vermelhas nas Universidades e nas Fábricas Ocupadas, greves, greves, greves...
Que vai acontecer? (Nada? A 2.ª Revolução Francesa?)
- Ah! Se houvesse lá um Lenine!... - suspirou ontem o Abelaira.»
José Gomes Ferreira, Dias Comuns IV


domingo, 13 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (8)


Li a história algures...

No dia 13 de Maio, Caroline de Benderna, manequim, 23 anos, participa na sua primeira manifestação.
Salta para as cavalitas de um amigo, o pintor Jacques Lebel. Este estende-lhe a bandeira da Frente Nacional para a Libertação do Vietname.
"Percebi que estava rodeada de fotógrafos. O instinto de manequim despertou e comecei a entrar no jogo."
A foto, da autoria de Jean-Pierre Rey, acabaria por ser publicada e correr o mundo.
A modelo era a nova Marianne.
Consequência: foi deserdada pelo pai, o conde de Bendern, e não recebeu sete milhões de libras.

Terá sido mesmo assim?
Pelo menos, ficou o ícone.



Maio de 68 - 50 anos (7)

Maio transita das universidades para as ruas e das ruas para as fábricas.

A 13 de maio, 1 milhão de pessoas manifesta-se nas ruas de Paris, durante a greve geral. Esta afecta todo o país.
Há manifestações por toda a França.
A Sorbonne é reaberta e ocupada pelos estudantes.
No Festival de cinema de Cannes, as projecções são suspensas.

O historiador Tony Judt considerou que estes protestos laborais foram os "maiores da história moderna de França", afirmando que os trabalhadores estavam "genuinamente frustrados com as suas condições de vida".

Nos dias que se seguem, os operários da Renault decretam uma greve e ocupam as instalações da fábrica em Cléon (dia 15), o movimento grevista alastra a mais de 50 empresas (16), a emissão da televisão (ORTF) passa a ser controlada pelos jornalistas e técnicos (19), o porto de Marselha é ocupado pelos trabalhadores e as centrais eléctricas e de telefones são bloqueadas (20), a greve envolve cerca de 7 milhões de trabalhadores (há quem fale em 9 milhões), os teatros de Paris estão ocupados (dia 21).




sexta-feira, 11 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (6)

A 11 de Maio, as principais confederações sindicais convocam uma greve geral para o dia 13 de Maio.
O primeiro-ministro, Georges Pompidou, interrompe a visita que estava a fazer ao Afeganistão. No regresso anuncia a reabertura da Sorbonne no dia 13.




quinta-feira, 10 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (5)

A 10 de Maio, ocorrem manifestações diante da prisão de La Santé. A polícia bloqueia as pontes do rio Sena. Os estudantes ocupam o Quartier Latin e fazem barricadas.
Seguem-se os confrontos que se prolongam pela madrugada. Os estudantes tiram as pedras da calçada para atacar as forças policiais.


De 10 para 11 de Maio, viveu-se uma batalha campal nas ruas de Paris.

Seriam os mais violentos desde o início desta crise.