"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Enquanto quis Fortuna que tivesse

Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum juízo isento,
escureceu-me o engenho co tormento,
para que seus enganos não dissesse

Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos tão diversos,

verdades puras são, e não defeitos...
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos.
Luís de Camões, o homenageado do dia

Fazei pela vida!...
(para poderdes comentar)



terça-feira, 9 de junho de 2026

Vaquinhas sorridentes para celebrar Camões


Esperamos que o actual Presidente da República possa reparar no sorriso das vacas, na ilha Terceira, como Cavaco Silva o fez, há 15 anos, na ilha Graciosa.

Quanto a Camões, podemos continuar a conjecturar que passou pela Terceira quando do regresso do Oriente. 
Não seria estranho...



quarta-feira, 11 de junho de 2025

Atribulações de um Dia de Portugal

Em Dia de Portugal, há quem deite os corninhos ao sol (e não é por bom motivo).

Um grupo associado à extrema-direita agrediu o actor Adérito Lopes, do grupo teatral A Barraca.

Confesso que, para mim, foi um choque! Um sinal que "as coisas" estão a andar muito depressa.

Do que li (Público online de hoje), esse grupo pertencerá a uma organização internacional com representação em Portugal e pelo menos um dos autores do ataque aos actores d’A Barraca esteve envolvido na morte de Alcindo Monteiro, um português de origem caboverdiana, agredido no dia 10 de Junho de 1995 e que viria a falecer dois dias depois.

A referência a esse grupo - "Sangue e Honra" - faria parte do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) relativo a 2024, relatório esse que foi truncado pelo menos em sete páginas, nas quais se tratava dos problemas de segurança pública provocados por estes grupos de extrema-direita e pelo terrorismo (há quem refira o grupo "Reconquista").

Vários partidos querem o debate sobre o RASI, continuando à espera da explicação para o apagamento desse capítulo - por que razão não aparece na versão oficial que chegou ao Parlamento.


Entretanto, Xeque David Munir, o imã da mesquita de Lisboa, foi insultado no Encontro Nacional de Homenagem aos Combatentes, em Belém, para o qual foi convidado oficialmente, o que acontece desde 1995.

Os insultos partiram de um grupo que fazia a saudação nazi.


À margem das ideologias políticas, mas fruto da época, da banalização da violência, um grupo de cinco adeptos do F.C. Porto foi atacado no interior de uma viatura em que foram introduzidos engenhos incendiários, por um grupo de adeptos(?) do Sporting, após o jogo de hóquei em patins entre as duas equipas. 

Resultaram dois feridos graves e três ligeiros.


Entretanto, em relação ao discurso de Lídia Jorge nas comemorações oficiais em Lagos, há uma clara divisão nos poucos locais que frequento nas redes sociais: altamente elogiado por uns, deitado abaixo por outros (geralmente em mau Português e por muita gente que não compreendeu literalmente o discurso, pelo que os dislates são muitos). Sobretudo, não entenderam a menção à inexistência de "portugueses puros" - se os bisavós são de Freixo de Espada à Cinta, que é lá isso de não ser um português puro?...

Alegra-me que nos sítios que frequento o apreço pelo discurso saia largamente vencedor. Mas esse não será o registo em todos os lados. Não verifiquei: há locais a que não me chego, sobretudo por uma questão de sanidade mental. Campeia por aí uma grande indigência mental. 

Citando Lídia Jorge: «A cultura digital subverteu a regra de exemplaridade, o escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende. 

Um Chefe de Estado de uma grande potência, durante um comício, pôde dizer: "Adoro-vos! Adoro os pouco instruídos." E os pouco instruídos aplaudiram.»

 Desejo-vos melhores dias.


terça-feira, 10 de junho de 2025

Seguidores de ídolos fantasmas

«Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecerá escala global. Porque nós, agora, somos outros.

Deslocamo-nos à velocidade dos meteoros e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam para o espaço. (...) O poder demente aliado ao triunfalismo tecnológico faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a Terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se, mais uma vez, se tratasse de um berloque.

E os cidadãos são apenas público que assiste a espectáculos em écrans de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores e os seus ídolos são fantasmas.»

Do discurso de Lídia Jorge nas cerimónias do 10 de Junho de 2025 



Sem cor de virtude

«[Camões, Shakespeare e Cervantes] Procederam à anatomia dos dilemas humanos e entre eles os mecanismos universais do poder. Corpus que continua válido e intacto até aos nossos dias. Sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, o poder temeroso e o poder laxista. 

No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da História para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então? 
Queixava-se da degradação moral, mencionava o vil interesse e "sede i[ni]miga" do dinheiro que a tudo nos obriga e evocava, entre os vários aspectos da degradação, o facto de sucederem aos homens de coragem, que tinham enfrentado o mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer fortuna.
Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento, queixava-se da falta da sociedade intelectual que resultava depois, na prática, na degradação dos actos do dia a dia.»

Do discurso de Lídia Jorge nas cerimónias do 10 de Junho de 2025 



A bordo de "Os Lusíadas", por 40 apeadeiros

Em Dia de Camões, no Ano em que comemoram os 500 anos do seu nascimento (a ter sido, de facto, em 1525!), o Público edita uma "proveitosa travessia" que sintetiza Os Lusíadas em 40 episódios - os 40 apeadeiros - com cativantes recursos gráficos* e transcrição de passagens.

Os Lusíadas com paragem em 40 apeadeiros

Trabalho de Luís Miguel Queirós, Francisco Lopes e José Alves 


* Ilustrações: Alfredo Roque Gameiro (1864-1935) e Manuel de Macedo (1839-1915) 
na Grande edição ilustrada/revista e prefaciada pelo Dr. Sousa Viterbo



quarta-feira, 28 de agosto de 2024

A má cara...

 

Segundo Luís Montenegro, a economista "honra o perfil" exigido para o "novo ciclo da União Europeia".
A economista - para além de ser a má cara da troika (qual "cavalo de troika") - faz-me lembrar os "swaps", a resolução do BES, a venda do BPN, a privatização da EDP, a polémica entrada na Arrow Global (envolvendo o Banif)... é possível que me esqueça de alguma polémica.* 
Por ela se demitiu Paulo Portas... irrevogavelmente.

«Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m'espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau; mas fui castigado.
Assim que só para mim
anda o mundo concertado.»
Luís de Camões

* P.S. - A assinatura do contrato de concessão com a ANA, por um prazo de 50 anos, incluindo a definição dos procedimentos e regras para o novo aeroporto de Lisboa. Vamos ver o que isso ainda vai dar...
Era Ministra das Finanças do Governo de Passos Coelho que, em gestão, dois dias depois de o seu programa ter sido chumbado na Assembleia da República, oficializou a privatização da TAP.


segunda-feira, 10 de junho de 2024

Hoje é dia de chatear o Camões!

"Camões é uma espécie de ídolo de todas as gerações." A frase é do jornalista da RTP 1 que apresentou o noticiário da hora de almoço.

Será o ídolo malandro e subversivo, como defende Hélder Macedo, que dedicou muitos anos da sua vida ao estudo de Camões? 

Ler a entrevista - Público 2024-06-09


Ai, Camões, Camões!...


terça-feira, 14 de maio de 2024

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Mísera sorte! Estranha condição!

 

Não sei se os candidatos a deputados do PS são os mesmos ou se há muitas entradas novas. 

Mas quando vejo os principais eventos da AD só vejo velhos rostos. E não são os dos últimos 10 anos, são os de há muitos mais anos. 

Quando é de Santana Lopes, um ex-PPD-PSD que já rivalizou por outro partido, o discurso mais aplaudido na Convenção (dizem, que eu não segui, e devemos duvidar de muito do que dizem)...

Quando é de Leonor Beleza (ministra na década de 80) uma das intervenções que mais apela ao bom senso das propostas a apresentar (li-as), devendo ter em consideração as incertezas do mundo de hoje...

Quando é de Paulo Portas outro dos discursos "de estratégia política" mais inflamados (sabe muito!...)...

Quando são as mensagens ou os recados de Cavaco nos jornais, "coisa" que ele não lia nos tempos em que governava, que galvanizam as "bases" (as velhas bases)...

Não sei quem são os mais esgotados...

Ó glória de mandar! ó vã cobiça 
Desta vaidade a quem chamamos Fama! 
Ó fraudulento gosto, que se atiça
 Cũa aura popular, que honra se chama! 

Novas formas de estar na política, precisa-se!


terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Manuscrever tem outro encanto

Por coincidência (ou não - o mais certo!) com a possível data do aniversário de Camões, hoje é Dia da Escrita à Mão.


Não que eu escreva com os pés quando estou ao computador, mas a escrita à mão - manuscrever - ajuda-me a uma maior concentração, a processar melhor a informação sobre a qual esteja a trabalhar e a pensar de forma mais abrangente e meticulosa. A escrita parece ganhar uma maior coerência. 
Sendo um processo mais lento, é mais tranquilo e reflexivo. 
Penso eu que tenho ganhos... Pretensão, pelo menos, não falta!
O uso de uma caneta de tinta permanente com bico suave é fetiche para textos mais exigentes. 

Não sei se fui suficientemente claro - este texto não foi manuscrito!


Fado Camões

Agora o fado fado...

Camões meteu-se (ou foi metido) cedo no fado. Amália que o diga, tão criticada foi por, em 1965, ter tido a ousadia de o cantar (ao Camões, que não o fado em si!...).

Um disco dedicado a Camões, nos seus 500 anos, é o novo projecto da cantora Lina. 


O que temo e o que desejo
Gosto disto!


Os 500 anos de Camões e os 499 anos de um eclipse solar

Redescobriu-se agora que Camões terá nascido no dia 23 de janeiro de 1524, portanto, há 500 anos, um ano antes de ter ocorrido um eclipse do Sol.

Terá sido a sua mãe a contar-lhe? "Filho, no dia em que fizeste um aninho..." 

A hipótese parte da interpretação de um soneto em que o poeta se refere a esse fenómeno astronómico - ver Público.

Redescoberta, porque o que parece ser uma novidade já foi objecto de estudo há décadas. Em 1940, a Empresa Nacional de Publicidade editou, em Lisboa, As Memórias Astrológicas de Camões e Nascimento do Poeta em 23 de Janeiro de 1524, da autoria de Mário Saa.



Mesmo com tanto tempo de antecedência de conhecimento, sendo meio milénio uma data tão redonda e sendo Camões unanimemente exaltado como o egrégio poeta da Pátria, de comemorações condignas estamos falados. 

«Este país te mata lentamente», escreveu Sophia de Mello Breyner em Camões e a Tença.
Já Jorge de Sena tem o fabuloso poema Camões dirige-se aos seus contemporâneos.

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

E o próprio Camões, na sua grande experiência de vida, lamentava:

O favor com que mais se acende o engenho, 
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.

Pois parece-me que é isto!...


sábado, 10 de junho de 2023

Camões - o seu dia e o estado da língua portuguesa

«(...) o que parece preocupante é o facto de cada vez menos haver em Portugal qualquer espécie de interesse por Camões e por aquilo que ele representa. O nome do autor de Os Lusíadas tende a ser apenas a marca distintiva de um feriado, ambíguo luxo nos tempos que correm, e pouco mais. As questões da identidade começam por estar relacionadas com a língua materna e esta deve a Camões a sua dimensão moderna. Mas estão à vista as consequências que, para a identidade, decorrem do actual estado de coisas: a língua materna está cada vez mais deteriorada (…). Nem sabemos pronunciá-la, nem sabemos escrevê-la ou falá-la com um mínimo de correcção. E nem vale a pena falar da situação catastrófica que virá a ser gerada pelo Acordo Ortográfico se este algum dia se aplicar (...). Vivemos numa época de apoucamento da língua, de empobrecimento do vocabulário, de aviltamento de todas as regras de gramática. (…) Vêmo-la subordinar-se servilmente ao facilitismo e à tecnologia, quando devia contribuir para uma estabilização dos seus paradigmas próprios, procurando equilíbrios permanentes com as tendências que são sinal dos tempos. (...) A língua de Camões está irreconhecível. Se ele voltasse ao mundo, decerto pensaria em rasgar a sua obra. Deixámos de ser dignos dela.»

Vasco Graça Moura, A língua de Camões (DN, 9 de Junho de 2010)


sexta-feira, 15 de abril de 2022

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Camões e Jorge de Sena

«Ninguém como Camões nos representa a todos, repito, e em particular os emigrantes, um dos quais ele foi por muitos anos, ou os exilados, outro dos quais ele foi a vida inteira, mesmo na própria pátria, sonhando sempre com um mundo melhor, menos para si mesmo que para todos os outros. Ele, o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo. Ninguém, como ele desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exactamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares. Ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa. É o exilado físico de muitos anos mas é, como todos nós, e nisso tanto ou mais o somos que outros povos, o exilado moral, clamando por justiça, por tolerância, por dedicação à pátria, por espírito de sacrifício, por unidade nacional e universal, lá onde via que o homem é, como ele disse mais que uma vez, o "bicho da terra tão pequeno" contra o qual se encarniçam os poderes do mal.»
Jorge de Sena, 
discurso como Presidente das Comemorações do 10 de Junho de 1977, 
"Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas", 
proferido na cidade da Guarda.


Jorge de Sena era um notável especialista em Camões.
Comemora-se este ano o centenário do nascimento de Jorge de Sena, a 2 de Novembro, o mesmo mês em que a sua muito amiga Sophia de Mello Breyner Andresen também comemora o seu (6 de Novembro).

De Sophia muito se tem falado, de Jorge de Sena nem tanto. A dar-lhe razão de não ser um intelectual bem quisto em Portugal.
Exilado no Brasil e nos Estados Unidos nos tempos da ditadura do Estado Novo, Jorge de Sena nunca se fixaria em Portugal, mesmo depois de 25 de Abril de 1974, falecendo em Santa Bárbara (EUA), a 4 de Junho de 1978.

«Sim, Jorge de Sena não era uma presença confortável para o Portugal de então. O que só lhe fica bem. Mas continuou a não ser uma presença confortável depois do 25 de Abril. O que só nos fica mal.. Na verdade, é uma vergonha nacional que não tenham sido dadas a este homem condições necessárias para regressar ao seu país quando, quero crer, o teria desejado se as necessárias condições lhe tivessem sido dadas.»
Hélder Macedo, De amor e de poesia e de ter pátria 




O feriado republicano de Camões

O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas celebra o 10 de Junho de 1580, data da morte de Camões.

O génio da pátria, que Luís Vaz de Camões representava para os republicanos – foi em torno das comemorações camonianas de 1880 que os republicanos se guindaram politicamente –, passou a ser celebrado a partir de 1912, mas apenas como feriado municipal, em Lisboa.

Tendo reformado o calendário dos feriados, o Estado Novo manteve o de 10 de Junho, elevando-o à categoria de feriado nacional, exaltado num sentido nacionalista e como elemento da propaganda política do novo regime.

Foi a 10 de Junho de 1944 que o Estádio Nacional foi inaugurado e, durante a cerimónia, Salazar proferiu o discurso que viria a rebaptizar o feriado como o Dia da Raça, associando a data à celebração do "Mundo Português" e dos valores do regime.
Até ao 25 de Abril de 1974, o 10 de Junho ficou conhecido como o Dia de Camões, de Portugal e da Raça.

Com a Guerra Colonial, transformou-se numa data de homenagem às Forças Armadas e numa exaltação do poder colonial.
É da minha infância a atribuição das medalhas a militares que tinham combatido nos territórios africanos que Portugal administrava, incluindo a condecoração dos familiares, no caso dos combatentes falecidos – são essas as minhas memórias, televisivas, do 10 de Junho do Estado Novo.

Após o 25 de Abril de 1974, foi instituído, já em 1977, que o Dia de Camões passasse a ser dedicado também às comunidades portuguesas no estrangeiro, sendo celebrado em Portugal e no estrangeiro "com vista a levar a presença do nosso país às diferentes comunidades e a tornar estas mais conhecidas na sua nação de origem".

O primeiro Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (1977) foi comemorado oficialmente na cidade da Guarda.
Jorge de Sena fez, então, um discurso em defesa de Camões, sentindo necessidade de explicar, num Portugal pós-revolucionário ainda com traumas da ditadura, que não se poderia apelidar Camões de… “fascista”.


«Antes de mais, neste país há que pôr um basta não só ao fascismo ele mesmo, mas à mania de atribuir tudo ao fascismo, até as ideias. Porque, por esse caminho, ficamos todos sem ideias de que precisamos muito, e os fascistas ou os saudosistas deles acabam convencidos de que tinham ideias, quando ter ideias e ser fascista é uma absoluta impossibilidade intelectual e moral.
(...)

Pensarão alguns, acreditando no que se fez do pobre Camões durante séculos, que celebrá-lo, ou meditá-lo e lê-lo, é prestar homenagem a um reaccionário horrível, um cantor de imperialismos nefandos, a um espírito preso à estreiteza mais tradicionalista da religião católica. Camões não tem culpa de ter vivido quando a Inquisição e a censura se instituíam todas poderosas: se o condenamos por isso, condenamo-nos nós todos a que, escrevendo ou não-escrevendo, e ainda vivos ou já mortos, resistimos durante décadas a uma censura opressiva, e a uma repressão implacável e insidiosa, escrevendo nas entrelinhas como ele escreveu.»
Jorge de Sena




sábado, 1 de setembro de 2018

O tempo...

Independentemente da mudança (ou não) da hora...

O tempo acaba o ano, o mês e a hora
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza.
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.
Luís de Camões


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Não podemos ser contentes

O relatório de uma investigação militar, apresentado no final de Abril pelo Pentágono, concluía que o bombardeamento de um hospital no Afeganistão onde operavam os Médicos Sem Fronteiras (Outubro de 2015, dezenas de mortos) não foi um crime de guerra, mas “uma sucessão de erros”. Segundo as conclusões das investigações, o incidente foi causado por “erros humanos não intencionais, erros de procedimento e falhas de equipamentos“. O relatório acrescenta a fadiga e “um elevado ritmo de operações” como outros fatores explicativos.
Pela mesma altura em que era publicado o relatório, bombardeamentos aéreos, possivelmente russos ou do regime sírio (subsiste algum regime?), mataram dezenas de pessoas num hospital de Aleppo (Síria) que recebe (ou recebia) assistência dos Médicos Sem Fronteiras. Terá sido outro erro…
Já não chegam os dedos de uma mão para contar estes erros contra hospitais, para não falar de outros alvos civis, danos colaterais de uma guerra a que as principais potências, por estratégias difíceis de entender, não têm vontade de pôr fim.
Vi imagens... Vamos girando para um vórtice de destruição.
Se fosse aqui perto, todos seríamos Charlie, todos seríamos franceses ou belgas. Lá longe não estranhamos nada. 
Este mundo está cada vez mais difícil (até de entender)!...


Tenho-me persuadido,
por razão conveniente,
que não posso ser contente,
pois que pude ser nascido.
(...)
                                                                            Camões