"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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sábado, 22 de agosto de 2026

Exportem-se os pastéis de nata!...


«Se não aparecerem mulheres, importam-se, que é em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilos, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima, com os direitos de alfândega: e é tudo em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas...»

Eça de Queiroz, Os Maias


domingo, 16 de agosto de 2026

Trump gostaria de ser Afonso de Albuquerque!...


«Está claro - dizia o conde [de Gouvarinho] - que não temos nem os milhões, nem a marinha dos Ingleses. Mas temos grandes glórias; o infante D. Henrique é de primeira ordem; e a tomada de Ormuz é um primor...»

«(...) Alencar, já desanuviado, foi acompanhá-los pelo Aterro. E falou sempre, contando o plano de um romance histórico, em que ele queria pintar a grande figura de Afonso de Albuquerque, mas por um lado mais humano, mais íntimo: Afonso de Albuquerque namorado; Afonso de Albuquerque, só, de noite, na popa do seu galeão, diante de Ormuz incendiada, beijando uma flor seca, entre soluços. Alencar achava isto sublime.»

Eça de Queiroz, Os Maias - Episódios da vida romântica

Eça de Queiroz faleceu a 16 de Agosto de 1900.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Sobre a nudez forte da verdade...

... o manto diáfano da fantasia. (Eça de Queiroz)

«Não há um caos nos exames nacionais. (...)

A classificação dos exames nunca foi tão transparente e o rigor nunca esteve tão assegurado.»

(Luís Montenegro)


terça-feira, 25 de novembro de 2025

Parabéns ao Eça!...

Esquecido entre as discórdias históricas e comemorativas, assinala-se hoje o 180.º aniversário do nascimento de Eça de Queirós.

O que diria ele do Portugal actual e das suas personagens mores?



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Hotel a hotel, enche a cidade o papo

«Viajar é (…) deixar um sítio onde se estava comendo num hotel triste, um boeuf-à-la-mode triste, para ir, através de poeira, confusão e bagagem, comer a outro hotel mais triste, outro boeuf-à-la-mode mais triste; e as igrejas, as lojas, os homens, sendo por toda a parte iguais, não vale a pena partir para ir apenas e em definitivo, sentir a melancolia infinita que inspiram as multidões estranhas.»

Eça de Queirós, Correspondência (Carta à condessa de Ficalho, 21 de outubro de 1885)

Há cidades que vão ficando iguais às outras que se vão parecendo com as primeiras. 



Lisboa
Estas placas não são as verdadeiras, mas podiam ser...


quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Novo repouso em paz para Eça

«Entretanto, soube-se que Cristiano Ronaldo comprou o avião mais luxuoso do mundo, feito especificamente para si e que inclui uma biblioteca recheada com milhares de clássicos da literatura portuguesa dos séculos XIX e XX, onde Eça também repousará em paz.»

Maria Isabel Roque, https://amusearte.hypotheses.org/11375


terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Eça de Queirós a caminho do Panteão

Parece estar a chegar ao fim a saga em torno dos restos mortais de Eça de Queirós (ou Queiroz? Tenho sempre dúvida).


Em Tormes, para despedida das terras de Baião, voltou a estar em câmara ardente - entre Paris, Lisboa, Santa Cruz / Tormes - quantas câmaras ardentes?

Pelo que li, irá inaugurar a quarta sala tumular localizada num dos ângulos de Santa Engrácia, ao nível do piso térreo.

Quem serão os seus futuros companheiros? Alguém com quem possa conversar nas noites que deverão ser frias? 

Gostava de saber o que escreveria Eça, que, na qualidade de morto, tal como em vida, já muito viajou.

Quem é que irão "recuperar" a seguir ou de quem é que se lembrarão? O espaço é limitado...


sábado, 25 de novembro de 2023

A comemorar o 25 de Novembro... há 178 anos!

Foi a 25 de Novembro... de 1845, que nasceu José Maria d'Eça de Queiroz, na Póvoa do Varzim, em edifício já inexistente.

Prédio que ocupa o espaço onde
ficava aquele em que Eça nasceu.

Os pais: Carolina Augusta Pereira d'Eça e José Maria de Almeida Teixeira de Queiroz

A estátua na Praça do Almada, na Póvoa do Varzim,
próximo da casa onde nasceu


O que poderia Eça dizer da actual situação política?

«Ordinariamente todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o Estadista. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?»

Eça de Queiroz, O Distrito de Évora


domingo, 30 de maio de 2021

Arroz de favas

«(…) E pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara favas! … Tentou todavia uma garfada tímida – e de novo aqueles seus olhos, que pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado: 
– óptimo!… Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia!»

Eça de Queirós, A cidade e as serras


Acrescente-se o frango alourado...


Arroz de favas no restaurante de Tormes

Arroz de favas cá em casa (menos caldoso...)



quarta-feira, 14 de abril de 2021

Dia Internacional do Café - chamar a Cristandade ao café

«Ousarei ainda desenrolar a minha surpresa perante os versos da epístola em que o Santo Padre recomenda o café, com bondoso fervor, insistindo mesmo que o tomemos de Moca e o saboreemos lentamente, em regalados goles? O café! Mas o café foi logo, desde a sua aparição, a bebida directa, quase oficial do racionalismo! Estimulando a imaginação e a razão indagadora - ele implicitamente dissolve o respeito pela regra e pelo dogma imutável. O café, mais que a Enciclopédia, fomentou a Grande Revolução. Bebido, com o alvoroço da sensação nova, por Buffon, Diderot, d'Alembert, Rousseau, ele aqueceu mais aquelas almas calorosas, aguçou mais aqueles espíritos penetrantes: e Michelet não duvida afirmar, com gongorismo, mas com rigor histórico, que essa geração forte descobriu no fundo das chávenas, através da negra e perfumada bebida, o luminoso raio de 89! Os ímpios do século XVIII foram insaciáveis bebedores de café - e, na primeira mesa do botequim do Procópio onde ele se bebeu, se improvisaram decerto as primeiras pilhérias sobre Jeová. Voltaire tirou da cafeteira toda a sua obra demolidora. Esse diabólico rei da Prússia, Frederico-o-Grande, que morreu dos excessos de café, e que se regalara de não acreditar nem em Deus nem na Vida Eterna, exclamava, moribundo: "Já não sou nada, já não bebo café! O café, a quem devo tanta ideia!... Agora ao almoço só sete chávenas e ao jantar apenas catorze!" Voltaire, Frederico da Prússia!... Estes dois únicos homens deviam tornar para sempre suspeitos à Igreja os escuros grãos de onde eles tiraram a força, o ardor, a petulância e "as ideias". E agora Nosso Santo Padre, num lardgo e doce gesto, urbi et orbi, chama a Cristandade ao café!»

Eça de Queirós, Notas Contemporâneas


Sai um cafezinho!


terça-feira, 5 de maio de 2020

Já dizia Fradique Mendes

«Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: — todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro. Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade; — e quem for possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa, vai gradualmente sofrendo uma desnacionalização. Não há já para ele o especial e exclusivo encanto da fala materna, com as suas influências afectivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do carácter.»
Eça de Queirós, A correspondência de Fradique Mendes


domingo, 31 de março de 2019

Eça não estava lá

Pensei que Eça poderia estar em Paris, onde era Cônsul Geral, quando da inauguração da Torre Eiffel.

Mas Eça estava em Lisboa: tinha vindo perto do final do mês de Março. Os seus companheiros dos Vencidos da Vida recebem-no a 26, para um jantar no Hotel Bragança. E por esses dias repetem-se os encontros e o jantares entre os amigos.

A subida à Torre Eiffel fá-la-á mais tarde, a 27 de Agosto, acompanhando o (ainda) príncipe D. Carlos. Este teria ido a Paris pela Exposição Universal. 

«Por aqui nada de novo. Esteve cá Luís Soveral, e fizemos um jantar de vencidos, com bacalhau, na Maiso d'Or. Depois houveram cantigas e danças. Agora está cá o Príncipe. Subimos com ele à Torre Eiffel - e, sicut licet exclamámos: "é explêndido!" A torre não dá para mais do que uma exclamação - mas essa é de dever, e não lha regateámos.»
Carta a Oliveira Martins



domingo, 10 de fevereiro de 2019

10 de Fevereiro e Eça de Queirós

A 10 de Fevereiro de 1867, Eça de Queirós abriu escritório de advogado em Évora, no edifício da sede de redacção do Distrito de Évora, na actual Praça Joaquim António de Aguiar.


Edifício onde funcionou a sede da redacção do Distrito de Évora (foto Google maps)

A 10 de Fevereiro de 1886, Eça de Queirós casou-se com Emília de Castro Pamplona, na capela particular da Quinta de Santo Ovídio (Porto), que pertencia à família da noiva, os Condes de Resende.


Fachada poente e jardins do solar da Quinta de Santo Ovídio
A fachada principal, voltada a nascente, dava para a
Praça da Regeneração, actual Praça da República.
Pintura do jardim primitivo (século XVIII), presumivelmente desenhado por Nasoni.

O casal
«Aqui é um convento, adormecido dentro da sua cerca, ou antes do seu roseiral, porque apenas em Maio tudo são rosas, e tão afastado do mundo e das suas empresas que, quando a sineta do portão, anunciando o correio, quebra este lento silêncio que só costuma ser quebrado pelo cantar dos repuxos, há tanto alvoroço como outrora entre os frades de Tibães ou do Bostelo, ao chegar com grande guizalhada de machos, o estafeta da corte. De manhã passeio na rua dos Loureiros, que é no meio da cerca, sem breviário, mas tão pachorrentamente como se levasse os olhos postos num; e à noite leio genealogias e agiológios.»
Excerto de uma carta de Eça de Queirós para Eduardo Prado (1892)

O solar foi demolido em 1895, para abertura da Rua Álvares Cabral.

Reparei nas datas durante a visita à exposição

Informações sobre Eça comple(men)tadas na Fotobiografia, de A. Campos Matos.
Informações sobre o solar da Quinta de Santo Ovídio (e que tantos nomes foi tendo...) na Fotobiografia e no blog Monumentos Desaparecidos.


sábado, 22 de dezembro de 2018

Literatura pesada


«Estamos em férias de Natal; é esta a época das festas de família, do plum-pudding, e duma praga de versos, de publicações, de baladas, de contos alegóricos, de cromo-litografias celebrando o velho ano, o bom Christmas, o ano novo e as doçuras do lar! O Natal dá lugar a uma singular experiência de literatura, que é para as letras o que o plum-pudding é para as confeitarias - um produto pesado e indigesto que todo o mundo gosta de ver sobre a mesa e em que ninguém toca, e que a gente grande estima pela alegria que dá às crianças. É sobretudo para as crianças que são escritas estas poesias piegas, e estas histórias de fantasmas, desenhadas estas vistas convencionais da neve e estas figuras grotescas da caridade. Os jornais, ou revistas, todas as publicações, põem de parte o bom senso, ciência ou arte, e dedicam um número a estas crianças, que se chama "o número de Natal", o que pela venda prodigiosa que tem, constitui um dos rendimentos das publicações inglesas. Os teatros fazem o mesmo: e todos sem excepção, representam nesta época a "pantomina", espécie de mágica desordenada, cheia de transformações, de bailados, e de glorias, onde aparecem simultaneamente actores, palhaços, cães sábios, virtuoses ilustres, feras, dançarinas célebres, habitantes de países exóticos (lapónios ou patagónios), macacos, esquadrões de cavalaria, e cascatas naturais! Estas representações duram três meses, e toda a família verdadeiramente inglesa e que respeita as tradições, vai ver a "pantomina" pelo menos três vezes, com todas as crianças e todos os criados: uma solenidade doméstica.»
Eça de Queirós, Cartas de Londres





domingo, 25 de novembro de 2018

Eça, um artista

«Convenci-me de que um artista não pode trabalhar longe do meio em que está a sua matéria artística: Balzac (...) não poderia escrever a Comédia Humana em Manchester (...) Eu, não posso pintar Portugal em Newcastle. De modo que estou nesta crise intelectual: ou tenho de me recolher ao meio onde posso produzir, por processo experimental - isto é, ir para Portugal - ou tenho de me entregar à literatura puramente fantástica e humorística.»
Carta a Ramalho Ortigão, 8 de Abril de 1878



Eça de Queirós nasceu a 25 de Novembro de 1845.


terça-feira, 6 de setembro de 2016

Está de escachar! Derrete os untos!

«- Sim, está de escachar!
(...) Entrei no quarto atordoado, com bagas de suor na face. E debalde rebuscava desesperadamente uma outra frase sobre o calor, bem trabalhada, toda cintilante e nova! Nada! Só me acudiam sordidezes paralelas, em calão teimoso: "é de rachar"!, "está de ananases"!, "derrete os untos"!... (...)»
Eça de Queirós, Correspondência de Fradique Mendes


quinta-feira, 7 de abril de 2016

Já não há bengalas como antigamente...


«Até aos Olivais, não cessou de ruminar coisas vagas e violentas que faria para aniquilar o Dâmaso. No seu amor não haveria paz, enquanto aquele vilão o andasse comentando sordidamente pelas esquinas das ruas. Era necessário enxovalhá-lho de tal modo, com tal publicidade, que ele não ousasse mais mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil... Quando o coupé parou à porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas no Dâmaso, uma tarde, no Chiado, com aparato…»
Eça de Queirós, Os Maias

Mas há dificuldade em compreender a cultura de finais de 1800...


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Memórias de Um Átomo...

«Carlos ria, abraçando-o outra vez.
- E donde vens tu, de Celorico?
- Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... O fígado, o baço, uma infinidade de vísceras comprometidas. Enfim, doze anos de vinhos e águas-ardentes.»

Não me lembrava que o Ega tinha vindo da Foz!
Valha-nos a televisão...