"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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domingo, 27 de julho de 2025

Nuno Portas (1934 - 2025)


Para obviar à memória cada vez mais curta dos viventes, a morte de Nuno Portas é apresentada como a morte do pai de Miguel e de Paulo Portas (esperando eu que o Miguel ainda esteja em muitas memórias). Falta a referência à Catarina...

Numa sessão de homenagem a Nuno Portas, na Cooperativa Árvore (Porto), a 8 de Outubro de 2004, afirmou Nuno Teotónio Pereira, outro grande arquitecto já desaparecido: 

«Falar de Nuno Portas é de facto para mim, uma pesada responsabilidade, por temer ficar aquém do que é a sua figura e do que devemos ao seu trabalho e à sua maneira de estar, de pensar e de agir. Mas é também gratificante pelo que intensamente fizemos juntos e pelo que temos aprendido um com o outro.

(...)

Mas é aqui que julgo ser necessário acrescentar mais alguns dados a respeito da sua personalidade: a insatisfação permanente face aos objectivos alcançados, aliada a uma extraordinária capacidade de trabalho, que o levam a aprofundar sempre os estudos já desenvolvidos; a coragem em contrariar, de peito aberto, ideias feitas e conclusões simplistas ou redutoras, o que o expõe com frequência à controvérsia; a necessidade de partilhar e comunicar, abrindo constantemente frentes de debate e discussão, sacudindo a inércia das instituições e abrindo caminho a novos horizontes. Finalmente, a firmeza das suas convicções, que resulta de um confronto constante com realidades escondidas ou contraditórias, mas que se lhe impõem como norma de conduta através da profundidade do seu pensamento e dos fundamentos do seu saber.»

Após o 25 de Abril de 1974, Nuno Portas foi Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, tendo uma acção importante no lançamento de programas de realojamento condigno das populações urbanas mais carenciadas, nomeadamente através do projecto SAAL (Serviço Ambulatório de Apoio Local), e no reenquadramento da função política e social da arquitectura no desenho da cidade.

As ideias que então teve oportunidade de concretizar já as houvera apresentado no Colóquio Nacional de Habitação, que decorreu em 1969, no Ministério das Obras Públicas.

É muito interessante todo o seu trajecto enquanto urbanista, intimamente relacionado com uma visão  sociológica e filosófica muito coerente. 

E quando a habitação é um problema central na sociedade actual, penso na falta que faz a existência de gente deste calibre, com a sua visão e a sua capacidade de intervenção partilhada, com ideias para realmente ajudar a resolver o problema.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Nuno Teotónio Pereira (1922 - 2016)


«Mais do que um profissional brilhante na área da arquitectura, se assume como uma figura ética que, desde sempre, soube afirmar posições de grande vigor cívico».

Esta foi a opinião do júri que, em 2015, atribuiu, por unanimidade, o Prémio Universidade de Lisboa a Nuno Teotónio Pereira, segundo proposta da Ordem dos Arquitectos.

As pessoas foram o fundamento e a principal preocupação do seu trabalho de arquitecto. Palavras do próprio.

Pertenceu ao círculo dos chamados católicos progressistas, integrou a Comissão de Socorro aos Presos Políticos, foi um dos organizadores da vigília na Capela do Rato (em protesto contra a Guerra Colonial) e foi detido 4 vezes pela PIDE. Da última vez, só saiu da prisão... depois do dia 25 de Abril de 1974. 

Nasceu em Lisboa, cidade que amava e onde deixa a sua marca em vários edifícios e conjuntos habitacionais. 
Foi distinguido com 4 prémios Valmor, o último dos quais pelo conjunto das Estações do Cais de Sodré e seu interface (fluvial, ferroviária e do Metro), em colaboração com o arq. Pedro Botelho, trabalho que já não chegou a ver concretizado por ter ficado cego, devido a glaucoma.

Embora Teotónio Pereira já tivesse 93 anos, longe estava eu de pensar, quando hoje atravessei o interface entre os comboios e os barcos, que o seu autor se tivesse juntado à extensa lista de destacadas figuras que morreram este mês. 

Estação Fluvial do Cais de Sodré - fotografia de Manuel V. Botelho