"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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quarta-feira, 9 de abril de 2025

Aind'a bunda

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito estudar.

A bunda são duas luas gémeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na caricia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
redunda.
Carlos Drummond de Andrade


A propósito da dimensão do cérebro
de quem motivou estes poemas


Só a bunda existia, o resto era miragem


vestido de pinguim

Era bom alisar seu traseiro marmóreo

Era bom alisar seu traseiro marmóreo
e nele soletrar meu destino completo:
paixão, volúpia, dor, vida e morte beijando-se
Em alvos esponsais numa curva infinita.

Era amargo sentir em seu frio traseiro
a cor de outro final, a esférica renúncia
a toda a respiração de amá-la de outra forma.
Só a bunda existia, o resto era miragem.

Carlos Drummond de Andrade


terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade


sábado, 30 de março de 2019

Pelo caminho, pelo caminho, pelo caminho...

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.


DN, 29 de Março
Depois querem o quê?

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drummond de Andrade


terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade



quinta-feira, 28 de abril de 2016

O Homem; As Viagens




O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?

(...)
Carlos Drummond de Andrade


sábado, 17 de maio de 2014

Para sempre


Picasso, Mother and child (1921)

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo - 
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade, Lição de Coisas



domingo, 26 de janeiro de 2014

Rolhas inteligentes ou rolhas para grandes vinhos


Um produtor italiano de rolhas de cortiça desenvolveu um sistema que insere códigos individuais nas rolhas. Isso permite que os consumidores possam aceder à história dos vinhos que façam uso dessas rolhas - de que forma o podem fazer é que não está muito claro nas notícias.

O sistema é complexo e envolve a impressão de um código na rolha, várias fotografias desta e passagem da informação para uma base de dados.
Essa base pode ser completada pelas informações que as empresas vinícolas que comprarem essas rolhas quiserem: origens do vinho, colheita, castas, data de engarrafamento, etc.
Suspeitas sobre o vinho que se esteja a consumir poderão ser esclarecidas pela análise da rolha por parte empresa vinícola.

Na Universidade de Aveiro, está a ser desenvolvida uma rolha de cortiça com um chip incorporado. Esse chip é capaz de dar informações sobre o vinho (ou outro líquido) engarrafado, como as datas de produção e de engarrafamento e também um registo das variações térmicas a que foi submetido.
Estas informações podem ser lidas por aparelhos como o smartphone.

O projecto está na fase de protótipo, havendo a ideia de integrar sensores que poderão da mais informações sobre o estado das bebidas.

Estas rolhas pretendem obviar à falsificação dos vinhos de topo e as rolhas com chip agradarão, certamente, aos bebedores mais exigentes.

A partir de agora, cá em casa, quando abrir um Château Lafite Rothschild ou um Richebourg Grand Cru, posso confirmar o seu pedigree e ter a certeza absoluta que não trocaram o precioso néctar por um humilde Camilo Alves ou Abel Pereira da Fonseca.

No futuro, as rolhas (como tudo, ao que parece) também serão rastreadas por GPS.
Os produtores vinícolas e de rolhas, o ministro das Finanças e o Director Geral dos Impostos, ficarão a saber onde e quando as "grandes" garrafas de vinho são abertas.

Escreveu Carlos Drummond de Andrade:

Respeito silencioso paira sobre a toalha.
A garrafa espera o gesto, o saca-rolhas espera
o gesto que há-de ser lento e ritual.

Ergue-se o pai, grão sacerdote prende a garrafa
entre os joelhos gira regira a espira metálica
até o coração do gargalo.
Não faz esforço não enviesa não rompe a rolha
É grave, simples, de velha norma.
(...)


domingo, 15 de abril de 2012

Carlos e Fernando, poetas sentados nas suas cidades

Há uns dias atrás, a minha amiga Conceição B. lembrava-me Carlos Drummond de Andrade, "um poeta de alma e ofício", que vive sentado num banco da Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, onde está gravado o verso maior de Mas viveremos: "NO MAR ESTAVA ESCRITO UMA CIDADE".
Hoje, tive tudo para me lembrar de Fernando Pessoa sentado no Chiado, a dois passos do largo onde nasceu.
E com Álvaro de Campos podemos revisitar Lisboa:
«Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...»

Ao lado de um e de outro se sentam as pessoas que querem ser fotografadas com os poetas.