"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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domingo, 12 de julho de 2020

Soneto XVII e o amor de Modigliani

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou seta de cravos que propagam o fogo:
amo-te como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Amo-te como a planta que não floriu e tem
dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te diretamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira,

a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono. 


Pablo Neruda, Cem Sonetos de Amor 

Pablo Neruda nasceu a 12 de Julho, assim como Amedeo Modigliani (20 anos mais cedo).

Amedeo e Jeanne


domingo, 8 de maio de 2016

Pablo Neruda de regresso a Isla Negra

No passado dia 26 de Abril, os restos mortais de Pablo Neruda foram sepultados no jardim de sua casa, na Isla Negra, em frente ao oceano Pacífico.

«Ahora Neruda está con nosotros, vuelve a mirar las olas del mar y a abrazar a su querida Matilde.»






sábado, 12 de julho de 2014

Pablo Neruda pelas calles de Santiago


Um holograma de Pablo Neruda percorreu locais emblemáticos de Santiago, celebrando os 110 anos do seu nascimento.

«Se estamos aqui reunidos, sinto-me contente. Penso com alegria que o que vivi e escrevi serviu para nos aproximar. Representa o primeiro dever do humanista e a tarefa fundamental da inteligência, que consiste em assegurar o conhecimento e entendimento entre todos os homens. Vale bem a pena ter lutado e cantado, vale bem a pena ter vivido, se o amor me acompanha.»
Pablo Neruda, Nasci para Nascer 


quinta-feira, 10 de abril de 2014

(...) o que a primavera faz com as cerejeiras

Quero fazer contigo 
o que a primavera faz com as cerejeiras.



Brincas todos os dias com a luz do universo. 
Subtil visitadora, chegas na flor e na água.
És mais do que a pequena cabeça branca que aperto
como um cacho entre as mãos todos os dias.


Com ninguém te pareces desde que eu te amo.
Deixa-me estender-te entre grinaldas amarelas.
Quem escreve o teu nome com letras de fumo 

entre as estrelas do sul? 
Ah, deixa-me lembrar como eras então, 
quando ainda não existias. 

Subitamente o vento uiva e bate à minha janela fechada.
O céu é uma rede coalhada de peixes sombrios.
Aqui vêm soprar todos os ventos, todos.
Aqui despe-se a chuva.


Passam fugindo os pássaros.
O vento. O vento.
Eu só posso lutar contra a força dos homens.
O temporal amontoa folhas escuras
e solta todos os barcos que esta noite amarraram ao céu.


Tu estás aqui. Ah tu não foges.
Tu responder-me-ás até ao último grito.
Enrola-te a meu lado como se tivesses medo.
Porém mais que uma vez correu uma sombra estranha 

pelos teus olhos.

Agora, agora também, pequena, trazes-me madressilva,
e tens até os seios perfumados.
Enquanto o vento triste galopa matando borboletas
eu amo-te, e a minha alegria morde a tua boca de ameixa.


Quanto te haverá doído acostumares-te a mim,
à minha alma selvagem e só, 

ao meu nome que todos escorraçam. 
Vimos arder tantas vezes a estrela d'alva beijando-nos os olhos 
e sobre as nossas cabeças destorcerem-se os crepúsculos 

em leques rodopiantes.
As minhas palavras choveram sobre ti acariciando-te.
Amei desde há que tempo o teu corpo de nácar moreno.
Creio-te mesmo dona do Universo.
Vou trazer-te das montanhas flores alegres, «copihues»,
avelãs escuras, e cestos silvestres de beijos.


Quero fazer contigo
o que a primavera faz com as cerejeiras.

Pablo Neruda, Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada




sábado, 21 de dezembro de 2013

O solstício de Inverno - e o Natal - como renascimento

«Nascemos como esboço - É preciso sempre renascer. Nascemos para renascer.»
Pablo Neruda

Farol de Felgueiras (Foz do Douro)
Fotografia de Veselin Malinov (editada na National Geographic)

«Canta y golpea el mar, no está de acuerdo. No lo amarren. No lo encierren. Aún está naciendo. Estalla el agua en la piedra y se abren por vez primera sus infinitos ojos. Pero se cierran otra vez, no para morir, sino para seguir naciendo.»
Pablo Neruda


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O Outono de Pablo Neruda

LXXIV

Porque permanece nos ramos
até que as folhas caem?

E onde ficam dependuradas
as suas calças amarelas?

É verdade que o Outono parece
esperar que algo aconteça?

Talvez o tremor duma folha
ou o trânsito do universo?

Há um íman sob a terra,
íman irmão do Outono?

Quando se dita sob a terra 
a designação da rosa?

Pablo Neruda, Livro das Perguntas


António Ramos Rosa e Pablo Neruda

No mesmo dia que Pablo Neruda, há 40 anos - que se passará com a entrada do Outono? - morreu António Ramos Rosa.


A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa, Volante Verde


O Outono entra legalmente
ou é uma estação clandestina?
Pablo Neruda