"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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sexta-feira, 18 de outubro de 2024

João Luís Barreto Guimarães - mais um!

Prémio!
Para o médico que põe Vermeer/Delft nas suas capas de poesia.

 

Coincidindo com a edição de Claridade.

«Quem vai do Porto para Leça ao
longo da auto-estrada (divisando os
navios lá no Porto de Leixões)
no fim da ponte à direita vira
para o centro hípico
(serpenteando a avenida tendo
por bombordo o cais)
adiante vê o forte da Senhora das Neves
alguns cem metros à frente começa
a marginal. Daí já se vê o farol para lá
dos prédios brancos
não é difícil ter lugar para estacionar.
Toca no sexto direito. Estou
sempre por aqui. Ou então
não venhas hoje.
Faz como te apetecer.»


quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

O poeta (com uma caneta na mão)

O poeta

Foi visto
(por várias vezes) com uma
caneta na mão. Nem
tentava disfarçar. Sentava-se à mesa consigo
(sempre
cingido de livros) e escutem:
o que fazia era
escrever poemas. Sei muito bem o que digo.
Ele fazia poemas. Os outros
passavam ao largo
(fugindo a qualquer pergunta) ele nem
sequer escondia o que ali estava a fazer. Ali
à frente 
de todos. Linhas e linhas escritas.
Não se limitava a ler.
Não se limitava a viver a sua vida.
Sei muito bem o
que digo. Aquilo eram
poemas.
João Luís Barreto Guimarães


domingo, 17 de dezembro de 2023

Decepção à regra

Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?

João Luís Barreto Guimarães