"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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domingo, 1 de novembro de 2026

Tempos difíceis...

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rastro
Tempo de ameaça

Sophia de Mello Breyner Andresen


Lisboa, 1960 - Foto de Eduardo Gageiro


terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Os 500 anos de Camões e os 499 anos de um eclipse solar

Redescobriu-se agora que Camões terá nascido no dia 23 de janeiro de 1524, portanto, há 500 anos, um ano antes de ter ocorrido um eclipse do Sol.

Terá sido a sua mãe a contar-lhe? "Filho, no dia em que fizeste um aninho..." 

A hipótese parte da interpretação de um soneto em que o poeta se refere a esse fenómeno astronómico - ver Público.

Redescoberta, porque o que parece ser uma novidade já foi objecto de estudo há décadas. Em 1940, a Empresa Nacional de Publicidade editou, em Lisboa, As Memórias Astrológicas de Camões e Nascimento do Poeta em 23 de Janeiro de 1524, da autoria de Mário Saa.



Mesmo com tanto tempo de antecedência de conhecimento, sendo meio milénio uma data tão redonda e sendo Camões unanimemente exaltado como o egrégio poeta da Pátria, de comemorações condignas estamos falados. 

«Este país te mata lentamente», escreveu Sophia de Mello Breyner em Camões e a Tença.
Já Jorge de Sena tem o fabuloso poema Camões dirige-se aos seus contemporâneos.

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

E o próprio Camões, na sua grande experiência de vida, lamentava:

O favor com que mais se acende o engenho, 
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.

Pois parece-me que é isto!...


quinta-feira, 15 de junho de 2023

Lisboa com seu nome de ser e de não-ser

(...)
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver
Sophia de Mello Breyner Andresen



quinta-feira, 1 de julho de 2021

Fiel à palavra dada à ideia tida

Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com sua ignorância ou vício

Aquele que foi "Fiel à palavra dada à ideia tida"
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse
Sophia de Mello Breyner Andresen

Daniela e Natércia Maia
(neta e esposa de Salgueiro Maia)
Fotos de Alfredo Cunha

Salgueiro Maia faria hoje 77 anos.

Em Castelo de Vide, terra natal de Salgueiro Maia, inaugurou-se hoje a Casa da Cidadania com o seu nome.


terça-feira, 22 de setembro de 2020

Tristão e Isolda

Sobre o mar de Setembro velado de bruma
O sol velado desce
Impregnando de oiro a espuma
Onde a mais vasta aventura floresce.

Tristão e Isolda que eu sempre vi passar
Num fundo de horizontes marítimos
Trespassados como o mar
Pela fatalidade fantástica dos ritmos
Caminham na agonia desta tarde
Onde uma ânsia irmã da sua arde.

Tristão e Isolda que como o Outono,
Rolando de abandono em abandono,
Traziam em si suspensa
Indizivelmente a presença
Extasiada da morte.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do Mar



quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A última coisa que desapareceu na minha mãe foi a poesia

«- Qual é a última memória que tem dela?
- A última é a do dia em que ela morreu, mas essa não é uma memória bilateral. A memória que tenho de como a minha mãe era é justamente na casa de Lagos. Ela já estava muito enfraquecida e doente, fazia confusões e, a certa altura, eu estava desesperado porque não conseguia ter uma conversa directa com ela e sentia-a completamente ausente. Então, de repente, veio-me uma inspiração, e comecei a dizer o princípio de poemas dela e ela acabava-os. Era impressionante! Eu disse o princípio de uns cinco poemas e ela terminava-os com um sorriso. Acho que é a última memória bonita que tenho dela tal como era. A última coisa que desapareceu na minha mãe foi a poesia.»
Entrevista de Miguel Sousa Tavares ao DN, 26 de Outubro de 2019




segunda-feira, 10 de junho de 2019

Camões e Jorge de Sena

«Ninguém como Camões nos representa a todos, repito, e em particular os emigrantes, um dos quais ele foi por muitos anos, ou os exilados, outro dos quais ele foi a vida inteira, mesmo na própria pátria, sonhando sempre com um mundo melhor, menos para si mesmo que para todos os outros. Ele, o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo. Ninguém, como ele desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exactamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares. Ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa. É o exilado físico de muitos anos mas é, como todos nós, e nisso tanto ou mais o somos que outros povos, o exilado moral, clamando por justiça, por tolerância, por dedicação à pátria, por espírito de sacrifício, por unidade nacional e universal, lá onde via que o homem é, como ele disse mais que uma vez, o "bicho da terra tão pequeno" contra o qual se encarniçam os poderes do mal.»
Jorge de Sena, 
discurso como Presidente das Comemorações do 10 de Junho de 1977, 
"Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas", 
proferido na cidade da Guarda.


Jorge de Sena era um notável especialista em Camões.
Comemora-se este ano o centenário do nascimento de Jorge de Sena, a 2 de Novembro, o mesmo mês em que a sua muito amiga Sophia de Mello Breyner Andresen também comemora o seu (6 de Novembro).

De Sophia muito se tem falado, de Jorge de Sena nem tanto. A dar-lhe razão de não ser um intelectual bem quisto em Portugal.
Exilado no Brasil e nos Estados Unidos nos tempos da ditadura do Estado Novo, Jorge de Sena nunca se fixaria em Portugal, mesmo depois de 25 de Abril de 1974, falecendo em Santa Bárbara (EUA), a 4 de Junho de 1978.

«Sim, Jorge de Sena não era uma presença confortável para o Portugal de então. O que só lhe fica bem. Mas continuou a não ser uma presença confortável depois do 25 de Abril. O que só nos fica mal.. Na verdade, é uma vergonha nacional que não tenham sido dadas a este homem condições necessárias para regressar ao seu país quando, quero crer, o teria desejado se as necessárias condições lhe tivessem sido dadas.»
Hélder Macedo, De amor e de poesia e de ter pátria 




domingo, 23 de setembro de 2018

Oblíquo Setembro

Oblíquo Setembro de equinócio tarde
que se alonga e depara e vê e mira
Tarde que habita o estar do seu parado
Sol de Sul pelo sal detido

Assim o estar aqui e o haver sido
Quasi a mesma que sou no tão perdido
Morar aberto de um Setembro antigo
Com o mar desse morar em meu ouvido

Pura paixão que não conhece olvido
Sophia de Mello Breyner Andresen


Segundo o Observatório Astronómico de Lisboa, 2h54m é a hora do Equinócio de Outono de 2018.


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Ondas


«As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.»
Sophia de Mello Breyner Andresen


domingo, 6 de novembro de 2016

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu a 6 de Novembro.


Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar,
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que tu respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.
Coral





segunda-feira, 20 de junho de 2016

Princípio de Verão

Largos longos doces horizontes
A desdobrada luz ao fim da tarde
Um ar de praia nas ruas da cidade
Secreto sabor a rosa e nardo arde
Sophia de Mello Breyner Andresen



segunda-feira, 25 de abril de 2016

Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962)



sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A noite e a casa - Sophia

A noite reúne a casa e o seu silêncio
Desde o alicerce desde o fundamento
Até à flor imóvel
Apenas se ouve bater o relógio do tempo

A noite reúne a casa a seu destino

Nada agora se dispersa se divide
Tudo está como o cipreste atento

O vazio caminha em seus espaços vivos
Sophia de Mello Breyner, Geografia


Sophia nasceu a 6 de Novembro.


sexta-feira, 3 de julho de 2015

No tempo dividido












A memória longínqua duma pátria
Eterna mas perdida e não sabemos
Se é passado ou futuro onde a perdemos
Sophia de Mello Breyner Andresen
I (do conjunto Poemas de um livro destruído),
No tempo dividido


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sophia no Panteão - Nestes últimos tempos

Sophia de Mello Breyner Andresen já estava no Panteão, antes ainda de ir para o Panteão (Nacional).
Sophia faz parte do conjunto de homens e mulheres notáveis - encontra-se no Templo que lhes é consagrado.
O exemplo da sua vida e o valor da sua obra poética são absolutos (e poética é toda a sua obra, mesmo a prosa e os textos infanto-juvenis).
As cerimónias de hoje têm um valor relativo. Não são a verdade.

Poderá parecer sectarismo (e sê-lo-á, talvez*), mas ouvir Cavaco Silva discursar sobre a poeta é artificial, ver Passos Coelho (e não só) na assistência é deprimente - disgusting. A sua relação com o exemplo e com os valores de Sophia de Mello Breyner é... zero. Estas personagens... não grudam. Estava lá gente para ser vista, a cumprir a obrigação de estar presente.
A unanimidade em torno de Sophia é supérflua.
Sophia considerava que os artistas, os poetas conseguem "apreender na natureza, nos elementos, o elo primordial que une o Homem ao Universo". Quem nos governa só consegue apreender o elo que nos liga ao capital.

Sophia de Mello Breyner Andresen não foi só a poeta - que detestava a palavra poetisa - foi uma defensora, durante o Estado Novo, da liberdade em Portugal. Assumiu abertamente a sua posição, candidatou-se pela CEUD às eleições legislativas de 1969, participou em vigílias contra a guerra colonial, associando-se aos grupos católicos progressistas que se destacavam na época.
O acto de maior simbolismo, hoje, foi a missa celebrada na Capela do Rato, lugar central da acção desses grupos.

Num discurso proferido na campanha de 1969, afirmou "Aos pobres de Portugal é costume dizer 'Tenham paciência'. Mas na verdade devemos dizer: 'Não tenham paciência'. Devemos pedir ao povo português que procure o caminho de uma 'impaciência pacífica', que se exprima e combata sem violência mas com teimosia e firmeza."

Quebrando a unanimidade, lembremos o poema Nestes últimos tempos, de Julho de 1976.

Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças

Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?

Que diremos do lixo do seu luxo - de seu
Viscoso gozo da nata da vida - que diremos
Da sua feroz ganância e fria possessão?

Que diremos da sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?

Que diremos das máscaras álibis e pretextos
Das suas fintas labirintos e contextos?

Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto

Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?
O Nome das Coisas

Chamou as coisas pelo seu nome.

Vídeo de depoimentos à Societé Suisse de Radiodiffusion et Télévision e Office National de Radiodiffusion Télévision Française (Outubro de 1968, ainda não passara um mês do governo de Marcelo Caetano):




Poema de Sophia de Mello Breyner (1958) cantado por Francisco Fanhais



Proponho que no Panteão Nacional, (também porque está bem acompanhada por mestre Aquilino), se instale uma biblioteca dos grandes escritores portugueses. Passaria a ser um bom espaço de leitura.
E já agora... que nos permitissem que fôssemos ler para o terraço, com aquela vista monumental do Tejo, aquele Tejo que corre em poemas de Sophia.




* Também é sectarismo Cavaco Silva ignorar José Saramago.
Tenho curiosidade em saber o que sentiu Miguel Sousa Tavares, quando ouviu Cavaco Silva elogiar a sua mãe.



segunda-feira, 26 de maio de 2014

Ruben A.

Que tenhas morrido é ainda uma notícia
Desencontrada e longínqua e não a entendo bem

Quando - pela última vez - bateste à porta da casa e te sentaste à mesa
Trazias contigo como sempre alvoroço e início
Tudo se passou em planos e projectos
E ninguém poderia pensar em despedida

Mas sempre trouxeste contigo o desconexo
De um viver que nos funda e nos renega
- Poderei procurar o reencontro verso a verso
E buscar - como oferta - a infância antiga

(...)
Sophia de Mello Breyner Andresen

Rúben A. (Rúben Alfredo Andresen Leitão) nasceu em Lisboa, a 26 de Maio de 1920.
(morreu em 1975, Londres)


«Tudo na mesma. Mas um dia vai mudar. Não sei é quando.»
Rúben A.


sábado, 15 de março de 2014

Orfeu e Eurídice

O mito em torno do amor e da morte


Em...
Coreografia de Olga Roriz
Música de Christoph Willibald Gluck, executada (ao vivo) pela orquestra do Divino Sospiro, Ecce Ensemble e Coro da ESML (Escola Superior de Música de Lisboa)
Cenário e figurinos de Nuno Carinhas
Desenho de luz de Cristina Piedade 



Eurydice
Este é o traço que traço em redor do teu corpo amado e perdido
Para que cercada sejas minha

Este é o canto do amor em que te falo
Para que escutando sejas minha

Este é o poema - engano do teu rosto
No qual eu busco a abolição da morte
Sophia de Mello Breyner Andresen, No tempo dividido


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Pobretes e alegretes, riquitos e tristitos



Portugal tão cansado de morrer
Ininterruptamente e devagar 
Enquanto o vento vivo vem do mar

Quem são os vencedores desta agonia?
Quem os senhores sombrios desta noite
Onde se perde morre e se desvia
A antiga linha clara e criadora
Do nosso rosto voltado para o dia?

Sophia de Mello Breyner, Mar Novo


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Luz ao fim da tarde

Finalmente, hoje viu-se o Sol.


Largos longos doces horizontes
A desdobrada luz ao fim da tarde
Sophia de Mello Breyner

(embora não seja princípio de Verão)


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Sophia

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu a 6 de Novembro de 1919, na cidade do Porto (numa casa que conheci estas férias).

A mãe de Sophia ainda grávida

Bilhete de felicitações da rainha D. Amélia a Thomas de
Mello Breyner (avô de Sophia) pelo nascimento da neta


Evohé Bakkhos

Evohé deus que nos deste
A vida e o vinho
E nele os homens encontraram 
O sabor do sol e da resina
E uma consciência múltipla e divina.
Sophia de Mello Breyner, Poesia