"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astrosou para o sorriso das vacas." Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
Há 50 anos, os U2 (melhor, aqueles que viriam a ser os U2), reuniram-se pela primeira vez, na cozinha da casa dos pais de Larry Mullen Jr., o baterista, em Dublin (Rosemount Avenue, n.º 60).
Larry tinha colocado um anúncio na escola (a Mount Temple Comprehensive School), que todos frequentavam, à procura de "músicos" que o quisessem acompanhar na formação de um grupo musical.
Mount Temple Comprehensive School
Andavam entre os 14 e os 16 anos de idade e os conhecimentos musicais não eram grandes. Mas sobrava-lhes a vontade e a persistência.
Ainda com o nome de The Hype, em concerto na própria escola
«Muitos anos, tanta coisa, o real, multiforme, nem sempre aprazível, a fervilhar, por dentro e por fora. Oxalá nos encontremos, caro leitor. No fundo, no fundo - mesmo disfarçado -, é a si que eu busco. Julgo saber o valor deste "si" e optei, deliberadamente, por ele.»
Guerra Junqueiro nasceu a 15 de Setembro de 1850, em Freixo de Espada à Cinta.
Funcionário administrativo, político, deputado, jornalista, escritor e poeta.
«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonha, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia de um coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;»
No actual estado da arte, quando nada se conhece do que vai (vai?) pela cabeça dos nossos governantes - a não ser os anúncios generalistas - e tudo está tão turvo, parece ser daquelas medidas que se tomam para parecer que o Ministério está atento e actuante. É preciso apresentar serviço!
Nada me parece (bem) pensado.
Uma mudança que mexe com tanta coisa, a começar na necessidade de rever a Lei de Bases do Sistema Educativo, a estrutura curricular, organizacional (até no tocante às instalações escolares, depois os manuais actualizados), diferentes corpos de professores (com diferentes formações)...
E o assunto é apresentado com uma ligeireza...
Se a intenção for levada para diante a curto prazo, cheira-me que vai haver um remake da digitalização dos exames.
Mais grave, porque vai mexer a sério com as aprendizagens dos alunos.
Não há como um rankingzinho ou uns resultados PISA para que se fale de Educação.
Ao menos, esquecem-se os tanques e as piscinas, o atrelado, o amigo empreiteiro ou a digitalização dos exames, o que de educativo pouco tem, e fala-se de algo realmente importante.
Há algumas opiniões pertinentes, mas também se dizem tantas banalidades, generalidades, dislates, disparates, lapalissadas, patacoadas, tolices e outras sandices...
Apontam-se culpados, não demora que estes estejam em prisão preventiva.
Resta a fraca consolação de que os estudantes portugueses estão acompanhados pelos de outros países na descida dos resultados. E haverá causas comuns (o que pode ajudar ao diagnóstico e à medicação adequada)...
A sangue quente, ameaça-se começar as obras pelo telhado ou deitar abaixo todo o edifício.
É preciso andar muito distraído para não enxergar o que nos advertiam vários indicadores, nomeadamente os níveis de (i)literacia.
E nesse aspecto, o relatório PISA foi divulgado numa data apropriada:
Não fazer um diagnóstico sério da situação é mais de meio caminho para continuarmos no plano descendente.
Mais:
O diagnóstico que não se esqueça do ecossistema social.
E o Ministério que deixe de trabalhar em circuito fechado!
P.S.: O meu último ano de trabalho foi com turmas do 5.º ano constituídas por alunos que sofreram o confinamento quando estavam no 1.º ano de escolaridade.
Assustador!...
Para esses alunos qualquer medida já vem tarde.
Preparem-se para os resultados PISA daqui a três anos!...
A pintora Menez (Maria Inês Ribeiro da Fonseca) completaria hoje 100 anos.
Sem título, 1988
«Pintora do gesto e da cor, foi capaz de sugestões ambientais de cor na dissolução da forma, que prosseguiu antes de se voltar, mais tarde e já na década de oitenta, para obras de sentido e forma figurativas. Estas, no essencial, continuaram, porém, a explorar espaços quase abstractos, banhados como eram de um clima quase impressionista, atmosférico, difuso e fixado em imagens de sonho e de memória, que deram o essencial dessa obra, luminosa nos seus contrastes. Uma obra que continuou, depois, a evoluir para delicadas figurações diáfanas, de mulheres perdidas no tempo, definitivamente afastadas de qualquer condição histórica reconhecível ou identificável, mas, em todo o caso, insuficiente para evidenciar um clima metafísico.» (Bernardo Pinto de Almeida)
Apesar de ser uma festa anual, nos 50 anos da sua 1.ª edição, será a 49.ª Festa do Avante! Em 1987, por diferendo em relação ao terreno do Alto da Ajuda, não se pôde realizar.
A primeira festado Avante! teve lugar na antiga FIL (Feira
Internacional de Lisboa), na Junqueira, em 1976, de 24 a 26 de Setembro.
Num país saído havia pouco da ditadura, o evento foi algo
novo e original na vida política e cultural. O espírito era de um
cosmopolitismo aberto, sobretudo, ao mundo antes interdito da Europa de Leste,
com as suas bancas de artesanato e produtos culturais, em alguns casos de
gastronomia (lembro-me do goulash húngaro). As “Cubas livres” circulavam a
grande velocidade.
Mas os artistas – aquilo
que mais me interessava – eram de geografias muito variadas, a começar pelos
naturais, os que se destacaram a cantar a liberdade antes e depois do 25 de
Abril.
O espaço da FIL era muito limitado para tanta festa. Na
bancada frente ao palco principal, quando os mais jovens se instalavam para
assistir a uma das principais atracções musicais, os Area,
instalavam-se também os “velhos” militantes comunistas, alguns vindos de longe,
para assistir ao discurso que Álvaro Cunhal iria fazer no mesmo palco logo após
o grupo de jazz-rock italiano.
Os diferentes interesses em jogo manifestaram-se logo no
início do concerto, quando os “camaradas” começaram a reclamar contra o nível
de som, demasiado alto para os seus ouvidos.
Lembro-me, no último dia, de ter assistido, a encerrar a festa, ao concerto de
Carlos do Carmo, ficando a aguardar que o pai de uma colega
do liceu me desse a boleia para casa. E bem que aguardei… Enquanto militante,
ainda ficou a ajudar nas arrumações finais.
A festa passaria, nos anos seguintes, pelo Jamor, Alto da Ajuda, Loures (onde um
dia, quando consegui chegar à Quinta do Infantado, a festa estava já a
encerrar, tal foi o engarrafamento que apanhei!) e Amora (Quinta da Atalaia) desde 1990.
Apesar da Amora ser território familiar - durante décadas trabalhei na freguesia - foi a partir da mudança da festa para a margem Sul que eu fui deixando de comparecer.
A crise da hérnia discal de 1992 marca a fronteira temporal a partir da qual me começaram a marcar faltas de presença. Os nomes grandes da música internacional, que eram o chamariz, deixaram de ser tão frequentes e passaram a ser vistos mais facilmente noutros eventos. Também a idade foi tirando a disposição: "já não estamos por tudo!"
Mas acredito que é uma festa diferente: Não há festa como esta!
«Uma Festa como efectivamente Portugal jamais vira, não
apenas porque a actividade do Partido Comunista fora forçada à clandestinidade,
mas também porque a repressão que forçou o nosso Partido à luta clandestina
atingia afinal não apenas os comunistas mas todos os potugueses, a sua
liberdade, a sua felicidade - a sua vida em suma.
A Festa do «Avante!», sendo uma Festa organizada pelos comunistas teria de ser
uma grande Festa da vida, dessa vida que o fascismo reprimiu e tentou destruir,
uma festa popular onde, finalmente liberto, o povo pudesse construir e conhecer
a realidade de ser livre.
Esta grande festa da liberdade e do homem que organizámos na FIL correspondeu
inteiramente ao que dela esperávamos.» (Rúben de Carvalho)
«Sempre que vou jantar a casa dos meus pais, saio de lá com a infância atravessada: Benfica mudou, a minha mãe deixou de ter 30 anos, posso fumar sem que ninguém me proíba, quando vem a travessa para a mesa nunca são fatias recheadas, não encontro os meus irmãos de pijama, com os cabelos loiros molhados do banho. A casa dos meus pais não se alterou muito: os quartos dos filhos transformaram-se em salas, mas o cheiro é o mesmo. Há retratos de mortos: os meus avós, alguns tios, algumas tias, mortos que nunca me habituei ao facto de estarem mortos, que não me espantaria se entrassem de repente, pessoas que me fazem uma falta dos diabos e a quem não faço falta nenhuma porque nada agora lhes faz falta quanto mais eu. Sempre que vou jantar a casa dos meus pais saio de lá com a infância atravessada (...)»
António Lobo Antunes, Crónica na revista Visão, 11 de Setembro de 2003
Hoje é o primeiro de Setembro em que António Lobo Antunes já não comemora os seus anos.
(Deveria dizer "o primeiro primeiro de Setembro"?)
Mural num prédio de Benfica, da autoria de Edis One
Recebemos a notícia do falecimento de Narana Coissoró, antigo dirigente do CDS.
Não me prende a este partido qualquer laço de especial afinidade/simpatia política, mas penso que há uma diferença tão grande entre aquilo que eram, em tempos mais recuados, os dirigentes políticos do CDS e aquilo que são os actuais, que não deixo de sentir respeito pelos antigos.
E li o texto emocionado de Isabel Moreira a recordar a sua amizade e consideração para com Narana Coissoró, próximo de seu pai, Adriano Moreira.
Tenho de sentir simpatia por quem assim tem os livros...
Não sei se os néscios de direita também chamavam monhé a Narana Coissoró, como chamam a António Costa...
Há 60 anos - 29 de agosto de 1966 - os Beatles deram o seu último concerto com público pagante no Candlestick Park, em São Francisco, encerrando a fase ao vivo da banda e iniciando uma nova era de experimentação em estúdio.
«Se não aparecerem mulheres, importam-se, que é em
Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, ideias,
filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilos, indústrias, modas,
maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização
custa-nos caríssima, com os direitos de alfândega: e é tudo em segunda mão, não
foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas...»
No final do 1.º ano da faculdade (1977-78), à chegada de uma visita de estudo - a única de todo o curso! - ao Castro do Zambujal (Torres Vedras).
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado. Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos, com os livros atrás a arder para toda a eternidade. Não os chamo, e eles voltam-se profundamente dentro do fogo. — Temos um talento doloroso e obscuro. Construímos um lugar de silêncio. De paixão.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irão usou um clássico para responder.
«O homem que mente para si mesmo e dá ouvidos à sua
própria mentira chega a tal ponto que não consegue distinguir a verdade dentro
de si, nem ao seu redor, e assim perde todo o respeito por si mesmo e pelos
outros.»
«Está claro - dizia o conde [de Gouvarinho] - que não temos nem os milhões, nem a marinha dos Ingleses. Mas temos grandes glórias; o infante D. Henrique é de primeira ordem; e a tomada de Ormuz é um primor...»
«(...) Alencar, já desanuviado, foi acompanhá-los pelo Aterro. E falou sempre, contando o plano de um romance histórico, em que ele queria pintar a grande figura de Afonso de Albuquerque, mas por um lado mais humano, mais íntimo: Afonso de Albuquerque namorado; Afonso de Albuquerque, só, de noite, na popa do seu galeão, diante de Ormuz incendiada, beijando uma flor seca, entre soluços. Alencar achava isto sublime.»
Eça de Queiroz, Os Maias - Episódios da vida romântica
Conheci dias duradouros, o sol tão longo entre manhã e tarde. Um levantar súbito de luz por trás da crista das heras no muro velho, e depois descer no verão entre grades verdes e para além do portão como a cair no Hades, no inverno. Não havia tempo nos dias longos, mas a passagem diária do sol abençoado.