"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astrosou para o sorriso das vacas." Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
No actual estado da arte, quando nada se conhece do que vai (vai?) pela cabeça dos nossos governantes - a não ser os anúncios generalistas - e tudo está tão turvo, parece ser daquelas medidas que se tomam para parecer que o Ministério está atento e actuante. É preciso apresentar serviço!
Nada me parece (bem) pensado.
Uma mudança que mexe com tanta coisa, a começar na necessidade de rever a Lei de Bases do Sistema Educativo, a estrutura curricular, organizacional (até no tocante às instalações escolares, depois os manuais actualizados), diferentes corpos de professores (com diferentes formações)...
E o assunto é apresentado com uma ligeireza...
Se a intenção for levada para diante a curto prazo, cheira-me que vai haver um remake da digitalização dos exames.
Mais grave, porque vai mexer a sério com as aprendizagens dos alunos.
Não há como um rankingzinho ou uns resultados PISA para que se fale de Educação.
Ao menos, esquecem-se os tanques e as piscinas, o atrelado, o amigo empreiteiro ou a digitalização dos exames, o que de educativo pouco tem, e fala-se de algo realmente importante.
Há algumas opiniões pertinentes, mas também se dizem tantas banalidades, generalidades, dislates, disparates, lapalissadas, patacoadas, tolices e outras sandices...
Apontam-se culpados, não demora que estes estejam em prisão preventiva.
Resta a fraca consolação de que os estudantes portugueses estão acompanhados pelos de outros países na descida dos resultados. E haverá causas comuns (o que pode ajudar ao diagnóstico e à medicação adequada)...
A sangue quente, ameaça-se começar as obras pelo telhado ou deitar abaixo todo o edifício.
É preciso andar muito distraído para não enxergar o que nos advertiam vários indicadores, nomeadamente os níveis de (i)literacia.
E nesse aspecto, o relatório PISA foi divulgado numa data apropriada:
Não fazer um diagnóstico sério da situação é mais de meio caminho para continuarmos no plano descendente.
Mais:
O diagnóstico que não se esqueça do ecossistema social.
E o Ministério que deixe de trabalhar em circuito fechado!
P.S.: O meu último ano de trabalho foi com turmas do 5.º ano constituídas por alunos que sofreram o confinamento quando estavam no 1.º ano de escolaridade.
Assustador!...
Para esses alunos qualquer medida já vem tarde.
Preparem-se para os resultados PISA daqui a três anos!...
A pintora Menez (Maria Inês Ribeiro da Fonseca) completaria hoje 100 anos.
Sem título, 1988
«Pintora do gesto e da cor, foi capaz de sugestões ambientais de cor na dissolução da forma, que prosseguiu antes de se voltar, mais tarde e já na década de oitenta, para obras de sentido e forma figurativas. Estas, no essencial, continuaram, porém, a explorar espaços quase abstractos, banhados como eram de um clima quase impressionista, atmosférico, difuso e fixado em imagens de sonho e de memória, que deram o essencial dessa obra, luminosa nos seus contrastes. Uma obra que continuou, depois, a evoluir para delicadas figurações diáfanas, de mulheres perdidas no tempo, definitivamente afastadas de qualquer condição histórica reconhecível ou identificável, mas, em todo o caso, insuficiente para evidenciar um clima metafísico.» (Bernardo Pinto de Almeida)
Apesar de ser uma festa anual, nos 50 anos da sua 1.ª edição, será a 49.ª Festa do Avante! Em 1987, por diferendo em relação ao terreno do Alto da Ajuda, não se pôde realizar.
A primeira festado Avante! teve lugar na antiga FIL (Feira
Internacional de Lisboa), na Junqueira, em 1976, de 24 a 26 de Setembro.
Num país saído havia pouco da ditadura, o evento foi algo
novo e original na vida política e cultural. O espírito era de um
cosmopolitismo aberto, sobretudo, ao mundo antes interdito da Europa de Leste,
com as suas bancas de artesanato e produtos culturais, em alguns casos de
gastronomia (lembro-me do goulash húngaro). As “Cubas livres” circulavam a
grande velocidade.
Mas os artistas – aquilo
que mais me interessava – eram de geografias muito variadas, a começar pelos
naturais, os que se destacaram a cantar a liberdade antes e depois do 25 de
Abril.
O espaço da FIL era muito limitado para tanta festa. Na
bancada frente ao palco principal, quando os mais jovens se instalavam para
assistir a uma das principais atracções musicais, os Area,
instalavam-se também os “velhos” militantes comunistas, alguns vindos de longe,
para assistir ao discurso que Álvaro Cunhal iria fazer no mesmo palco logo após
o grupo de jazz-rock italiano.
Os diferentes interesses em jogo manifestaram-se logo no
início do concerto, quando os “camaradas” começaram a reclamar contra o nível
de som, demasiado alto para os seus ouvidos.
Lembro-me, no último dia, de ter assistido, a encerrar a festa, ao concerto de
Carlos do Carmo, ficando a aguardar que o pai de uma colega
do liceu me desse a boleia para casa. E bem que aguardei… Enquanto militante,
ainda ficou a ajudar nas arrumações finais.
A festa passaria, nos anos seguintes, pelo Jamor, Alto da Ajuda, Loures (onde um
dia, quando consegui chegar à Quinta do Infantado, a festa estava já a
encerrar, tal foi o engarrafamento que apanhei!) e Amora (Quinta da Atalaia) desde 1990.
Apesar da Amora ser território familiar - durante décadas trabalhei na freguesia - foi a partir da mudança da festa para a margem Sul que eu fui deixando de comparecer.
A crise da hérnia discal de 1992 marca a fronteira temporal a partir da qual me começaram a marcar faltas de presença. Os nomes grandes da música internacional, que eram o chamariz, deixaram de ser tão frequentes e passaram a ser vistos mais facilmente noutros eventos. Também a idade foi tirando a disposição: "já não estamos por tudo!"
Mas acredito que é uma festa diferente: Não há festa como esta!
«Uma Festa como efectivamente Portugal jamais vira, não
apenas porque a actividade do Partido Comunista fora forçada à clandestinidade,
mas também porque a repressão que forçou o nosso Partido à luta clandestina
atingia afinal não apenas os comunistas mas todos os potugueses, a sua
liberdade, a sua felicidade - a sua vida em suma.
A Festa do «Avante!», sendo uma Festa organizada pelos comunistas teria de ser
uma grande Festa da vida, dessa vida que o fascismo reprimiu e tentou destruir,
uma festa popular onde, finalmente liberto, o povo pudesse construir e conhecer
a realidade de ser livre.
Esta grande festa da liberdade e do homem que organizámos na FIL correspondeu
inteiramente ao que dela esperávamos.» (Rúben de Carvalho)
«Sempre que vou jantar a casa dos meus pais, saio de lá com a infância atravessada: Benfica mudou, a minha mãe deixou de ter 30 anos, posso fumar sem que ninguém me proíba, quando vem a travessa para a mesa nunca são fatias recheadas, não encontro os meus irmãos de pijama, com os cabelos loiros molhados do banho. A casa dos meus pais não se alterou muito: os quartos dos filhos transformaram-se em salas, mas o cheiro é o mesmo. Há retratos de mortos: os meus avós, alguns tios, algumas tias, mortos que nunca me habituei ao facto de estarem mortos, que não me espantaria se entrassem de repente, pessoas que me fazem uma falta dos diabos e a quem não faço falta nenhuma porque nada agora lhes faz falta quanto mais eu. Sempre que vou jantar a casa dos meus pais saio de lá com a infância atravessada (...)»
António Lobo Antunes, Crónica na revista Visão, 11 de Setembro de 2003
Hoje é o primeiro de Setembro em que António Lobo Antunes já não comemora os seus anos.
(Deveria dizer "o primeiro primeiro de Setembro"?)
Mural num prédio de Benfica, da autoria de Edis One
Recebemos a notícia do falecimento de Narana Coissoró, antigo dirigente do CDS.
Não me prende a este partido qualquer laço de especial afinidade/simpatia política, mas penso que há uma diferença tão grande entre aquilo que eram, em tempos mais recuados, os dirigentes políticos do CDS e aquilo que são os actuais, que não deixo de sentir respeito pelos antigos.
E li o texto emocionado de Isabel Moreira a recordar a sua amizade e consideração para com Narana Coissoró, próximo de seu pai, Adriano Moreira.
Tenho de sentir simpatia por quem assim tem os livros...
Não sei se os néscios de direita também chamavam monhé a Narana Coissoró, como chamam a António Costa...
Há 60 anos - 29 de agosto de 1966 - os Beatles deram o seu último concerto com público pagante no Candlestick Park, em São Francisco, encerrando a fase ao vivo da banda e iniciando uma nova era de experimentação em estúdio.
«Se não aparecerem mulheres, importam-se, que é em
Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, ideias,
filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilos, indústrias, modas,
maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização
custa-nos caríssima, com os direitos de alfândega: e é tudo em segunda mão, não
foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas...»
No final do 1.º ano da faculdade (1977-78), à chegada de uma visita de estudo - a única de todo o curso! - ao Castro do Zambujal (Torres Vedras).
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado. Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos, com os livros atrás a arder para toda a eternidade. Não os chamo, e eles voltam-se profundamente dentro do fogo. — Temos um talento doloroso e obscuro. Construímos um lugar de silêncio. De paixão.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irão usou um clássico para responder.
«O homem que mente para si mesmo e dá ouvidos à sua
própria mentira chega a tal ponto que não consegue distinguir a verdade dentro
de si, nem ao seu redor, e assim perde todo o respeito por si mesmo e pelos
outros.»
«Está claro - dizia o conde [de Gouvarinho] - que não temos nem os milhões, nem a marinha dos Ingleses. Mas temos grandes glórias; o infante D. Henrique é de primeira ordem; e a tomada de Ormuz é um primor...»
«(...) Alencar, já desanuviado, foi acompanhá-los pelo Aterro. E falou sempre, contando o plano de um romance histórico, em que ele queria pintar a grande figura de Afonso de Albuquerque, mas por um lado mais humano, mais íntimo: Afonso de Albuquerque namorado; Afonso de Albuquerque, só, de noite, na popa do seu galeão, diante de Ormuz incendiada, beijando uma flor seca, entre soluços. Alencar achava isto sublime.»
Eça de Queiroz, Os Maias - Episódios da vida romântica
Conheci dias duradouros, o sol tão longo entre manhã e tarde. Um levantar súbito de luz por trás da crista das heras no muro velho, e depois descer no verão entre grades verdes e para além do portão como a cair no Hades, no inverno. Não havia tempo nos dias longos, mas a passagem diária do sol abençoado.
Às 10:51 - hora em Greenwich - ocorreu um eclipse total do Sol, o último do 2.º milénio.
Em Portugal, o eclipse foi visto como parcial, variando a sua magnitude entre 62% em Faro e 77% em Bragança.
27 anos de distância, registados nos óculos homologados e cheios de logótipos (Direcção-Geral da Saúde, Societas Ophtalmológica Lusitânica, Ordem dos Médicos, Associação Nacional das Farmácias e Observatório Astronómico de Lisboa - Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa).
Algures, dentro das caixas de arquivo, tenho a minha fotografia com os óculos postos, na varanda da casa de Benfica. Tempo das máquinas analógicas.
«Este é o nó górdio da Educação em Portugal: o conhecimento que os alunos têm ou não à entrada do Superior. Ninguém diz o óbvio: os alunos em Portugal nada lêem. Escrevem mal. Pensam mal. Têm pouca linguagem. A ignorância quanto a factos histórico-culturais é profundíssima; não dominam verbos, não entendem o que lhes é pedido que façam em situação de exames. Quem fala disto?
(...)
Todo o estudante, na verdade, sabe que já não é preciso ler-se seja o que for para "entrar" na faculdade. Saber escrever de forma analítica e crítica, aplicar técnicas de análise textual, relacionar conceitos com factos históricos, considerar problemas abstractos com observação de problemas concretos, colocar hipóteses de sentido, comprovar essas hipóteses, citar com propriedade, construir um argumento válido e verdadeiro - tudo isso é o passado e este é o tempo do ChatGPT, do sucesso e da fama nas redes sociais, da IA que tudo resolverá.»
Parece que foi atingido o supremo objectivo de saber onde se encontram todas as provas realizadas, tê-las classificadas e ter as pautas afixadas.
Quanto às reapreciações, ainda não está tudo resolvido, mas promete-se brevidade.
Os níveis dos resultados dos exames são uma questão secundária, já não se discute o que avaliam os exames e como avaliam.
Várias vozes falam de "indigência absoluta", de "exercícios idiotas de cruzinhas e de verdadeiros e falsos, de associação de respostas, de correspondências".
Por agora, estamos felizes com o sucesso atingido nesta fase do processo de distribuição, digitalização e classificação dos exames nacionais do 12.º ano.
Foi mandado construir no Campo Grande pelo poeta Arthur Ernesto Santa Cruz Magalhães (de quem não conheço um único verso ou uma única referência à obra), para expor a suacolecção de peças de Rafael Bordalo Pinheiro.
Doado à Câmara Municipal de Lisboa, é um dos núcleos do Museu de Lisboa e faz a divulgação da vida e obra do artista.
Para além da exposição permanente, tem neste momento 3 exposições temporárias alusivas à sua personagem mais popular: o Zé Povinho.
Comfortably Numb numa colaboração entre Roger Waters e a artista palestiniana Mona Miari.
Com versos inéditos em inglês e árabe, a canção aborda temas como a deslocação, a memória, a perda e a busca incessante pela justiça e pela dignidade humana.
«Ceuta não foi uma crise migratória. Foi guerra híbrida. Marrocos abriu a fronteira para pressionar Madrid por causa da lei de nacionalidade saharaui. (...)
E encaixa na doutrina do Grande Marrocos, que reclama o Sara, Ceuta e Melilha. Não é a primeira vez: a ilha de Perejil em 2002, a Marcha Verde em 1975, o assalto a Ceuta em 2021 com cerca de dez mil pessoas. A fronteira acende sempre que convém a Rabat.
É a mesma arma que a Bielorrússia usa contra a Polónia e a Turquia contra a UE: a migração como pressão sobre a Europa.»
(Jorge Silva Carvalho, na CNN)
O factodePedroSáncheztervisitadoaArgélia (apoiante da Frente Polisário pela independência do Saara Ocidental, antiga colónia espanhola ocupada por Marrocos em 1975)comointuitode melhorar asrelaçõesentreEspanhaeArgélia (e de ter acesso ao seu gás natural, importante no actual contexto),foivistoporMarrocoscomoalgonegativo.
E Marrocos está com as costas quentinhas pelo apoio de Donald Trump, cujo nome deverá ser dado à auto-estrada a construir entre Tiznit, em Marrocos, e a península de Dakhla, no território do Saara Ocidental.
Será uma via com mais de 1.000 km de extensão, percorrendo cerca de um terço da costa marroquina.
"Obrigado ao muito respeitado Mohammed VI, rei de Marrocos. Uma tremenda honra! Estou ansioso por percorrer toda a extensão desta Grande Autoestrada um dia, espero que em breve!", são as palavras de Donald Trump publicadas num vídeo promocional do projeto marroquino.
Na Europa, do centro à direita mais extrema, fervilha uma excitação de pôr os corninhos de fora. O Sanchez é um perigoso esquerdista, caraças! Parece que é o único Abencerragem na UE...
O Chega, que nos seus gabinetes da AR tem uma política de portas abertas, defendeu a suspensão do acordo de Schengen.
O nosso Primeiro, a exercitar a coordenação do Governo em período de férias e num exercício de moderação, não foi tão longe, mas já decidiu o reforço da presença das forças de autoridade no controlo de fronteiras, nomeadamente no sul do país, de um modo particular a fronteira marítima... não vão os marroquinos continuar a nadar de Ceuta para o Algarve.
Gostaria de ter ouvido Nuno Melo dizer: "Se Ceuta, em 1640, não tivesse decidido continuar sob domínio espanhol, isto nunca teria acontecido sob o nosso governo!".
«Os professores são hoje uma das últimas reservas estratégicas de Humanidade. Enquanto os sistemas digitais reduzem pessoas a dados e probabilidades, eles continuam a olhar para cada aluno como uma singularidade irrepetível. Enquanto os algoritmos aprendem pela repetição, os professores continuam a acreditar na transformação, no espanto, no inesperado e no milagre discreto da aprendizagem. (...) Continuam a guardar aquilo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir: a capacidade de despertar consciência.»
José Paulo Santos, Visão, 23 de Julho de 2026
Um grupo de alunos do 7.º ano entrevistando o Prof. Cláudio Torres, em Mértola, 1995