"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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sábado, 3 de outubro de 2026

Escrever é discutir connosco

«Sinto necessidade-de escrever, quando oiço, quando vejo. Sobretudo quando vou ao cinema. (...) Sobretudo, no acto da escrita, é a capacidade da pessoa se discutir. O escrever é extremamente repousante, ainda que angustiante. No fim do trabalho, a pessoa apercebe-se que teve uma discussão consigo própria. Escrever é discutir connosco.»
José Cardoso Pires (em entrevista, 1991)

José Cardoso Pires teria feito ontem 101 anos.



quinta-feira, 2 de outubro de 2025

José Cardoso Pires - centenário do nascimento


Um centenário completamente esquecido, à excepção da adaptação para cinema de Lavagante.

«E não há dúvida de que o regime passa muito bem sem os escritores. Os escritores são sempre uma espécie de tolerados, de animais marginais, que servem para dourar a festa quando é preciso e mais nada.» 
(José Cardoso Pires em entrevista a Mário Ventura, não datada, mas que deverá ser do princípio da década de 80)

José Cardoso Pires (1925 - 1998) pintado por Júlio Pomar, em 1954


sábado, 30 de novembro de 2024

Os óculos de Fernando Pessoa

António Costa Pinheiro, Os óculos de Fernando Pessoa (1980)

Fernando Pessoa morreu na noite do dia 30 de Novembro de 1935.

As suas últimas palavras, dirigidas à enfermeira pouco antes de morrer, terão sido “Dê-me os óculos”.

«... como se deles precisasse para entrar pela noite dentro ou por um súbito desejo de escrever um último e impossível poema.» (Luís Osório)


«Os óculos de Fernando Pessoa são dois monóculos de Álvaro de Campos. O Pessoa está por trás.
Não há nada de especial neste facto, a não ser para os que julgam que uns óculos servem para ver melhor ou a dobrar ou em diferente, e não é o caso. Uns óculos, desde que bem pensados e bem vistos, servem sempre para a pessoa se esconder. E se se puser uma gaivota numa das lentes, então é que ainda melhor: então é que fica só a paisagem de dentro fingindo que é a de fora, não sei se me faço entender.

António Costa Pinheiro, Os óculos-gaivota do poeta Fernando Pessoa, 1976

Ora, o Costa Pinheiro (...) fingiu-os. E para comprometer ainda mais pôs-lhes a tal gaivota que os desmente. Pôs tudo diante deles: caneta e mãos, horizonte largo, o Além. Um celebrante no altar.
Quando o Fernando Pessoa se viu assim passou os dedos pelos olhos frios e pediu delicadamente: 
"Os meus óculos, senhor Pinheiro."»
José Cardoso Pires, O Jornal, 9 de Janeiro de 1981

António Costa Pinheiro, O espaço poético de Fernando Pessoa, 1977


sexta-feira, 2 de outubro de 2020

José Cardoso Pires

«Vivia como escrevia: no gume da faca, sem medo, com o rigor dos insatisfeitos. Reescrevia incessantemente as suas histórias, trabalhando ao milímetro a espessura e a luz de cada palavra.»

Inês Pedrosa

José Cardoso Pires nasceu a 2 de Outubro.

Almoço de homenagem a José Cardoso Pires, em 30 de Maio de 1964,
 por ocasião da entrega do Prémio Camilo Castelo Branco respeitante a 1963.
José Cardoso Pires está entre Sophia de Mello Breyner e Ferreira de Castro.
Óscar Lopes, que também nasceu a 2 de Outubro, faz o discurso.

«Cada romance tem as suas recordações à margem das aventuras que conta, cada um vais crescendo com o corpo e a voz do homem que o escreveu.»

José Cardoso Pires


domingo, 28 de outubro de 2018

Manta 90/40


Exposição que celebra os 90 anos de idade de João Abel Manta e os 40 anos da publicação do conjunto de desenhos Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar.
A exposição inclui, também, trabalhos em que o autor reflecte sobre Portugal e a sua História, abrangendo o período pós-Salazar e o PREC.

«Nascido em Lisboa em 1928, João Abel Manta alinhou desde cedo pela oposição ao Estado Novo enquanto dividiu a sua vida profissional e artística pela arquitectura, a gravura, o desenho, o cartoon, a cenografia, a ilustração e o design gráfico. Premiado no país e no estrangeiro, os seus desenhos e colagens para a imprensa durante o marcelismo e o período revolucionário de 1974-75 deram-lhe fama duradoura. Deixou-nos uma obra-prima chamada Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar (1978).»







«Um individualista assim, de tamanhas ferocidades contra o fácil e o demagógico; um artista tão trabalhado e paciente como uma pétala de mil nervuras; e sempre que necessário tão directo (às vezes em perfil grosso, sublinhado). A recusa de João Abel às seduções do habitat dos artistas contentados vem daí, do traço natural da sua exigência.»

«(...) em vez da galeria foi-se ao jornal e ao cartaz, em vez do investimento plástico do cheque e da glória à vista, empenhou-se na crítica imediata da nossa realidade de todos (...)»
José Cardoso Pires

Salazar 1926-1968



segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Vila Berta

Miradouro da Graça (Miradouro Sophia de Mello Breyner)

«(...) deixando esse miradouro [da Graça], quem tiver sorte nos acasos talvez atravesse o Largo (com a balbúrdia dos eléctricos e o pequeno comércio que lá formiga) e, a meio duma descida junto ao Quartel dos Bombeiros, se encontre de repente num recanto de beleza: Vila Berta.
Surge como uma rua fechada por um prédio com pinturas de azulejo sobre um túnel de passagem para a cidade envolvente. Dum lado e doutro casas bordadas de flores - e silêncio. Uma paz súbita, quase secreta. Uma intimidade que se sente já antiga.


No gosto e na construção Vila Berta não revela qualquer romantismo de burguesia provinciana. Também não usa de maneirismos e menos ainda de simetrias imediatas para resultar no bem composto. Pelo contrário, a fazer face às casas singelas dum dos lados da rua, projectam-se, do outro, arrojadas varandas de ferro, lançadas como pontões, e o admirável é que duma confrontação como esta resulta uma harmonia de encantar. Fidelidade à época e a um gosto pressentido, será isso? As colunas e os remates de remate lembram a escola de Eiffel e os desenhos de azulejo têm o colorido do despontar do século. E as flores?





Flores, na primavera e no verão a Vila Berta cobre-se delas. Rosas de grade e janela, rosas loucas, trepadeiras. Rosas e plantas de improviso em manchas de imaginação. Ver como eu lá vi, exposto num pontão deserto, um lavatório de bacia de porcelana a transbordar de chorões em chaga viva, é deparar com uma escultura de vanguarda num cenário fora do tempo. Cenário? Cenário, digo bem. Esta Vila, este pátio, tem qualquer coisa de palco aberto, basta olhar. Dum lado, varandas voltadas para a cena, em fundo a fachada dum prédio com os seus ornatos coloridos e o túnel de acesso à cidade. 



Será por essa entrada que, numa noite de verão, alguém verá aparecer o Cavaleiro da Rosa inundado de luar. Dirá que o viu quedar-se a meio do pátio, empunhando bem alto a flor que o anunciava e rodeado de silêncio.»
José Cardoso Pires, Lisboa Livro de Bordo
(1997)