"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Quem pudesse sintonizar tudo isto!

Há mais de meia hora
Que estou sentado à secretária
Com o único intuito
De olhar para ela.
(Estes versos estão fora do meu ritmo.
Eu também estou fora do meu ritmo).
Tinteiro grande à frente.
Canetas com aparos novos à frente.
Mais para cá papel muito limpo.
Ao lado esquerdo um volume da «Enciclopédia Britânica».
Ao lado direito -
Ah, ao lado direito!
A faca de papel com que ontem
Não tive paciência para abrir completamente
O livro que me interessava e não lerei.
Quem pudesse sintonizar tudo isto!

3.01.1935
Álvaro de Campos


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A censura a Álvaro de Campos

Levantam-se vozes indignadas pela censura ao poema de Álvaro de Campos.

Se o manual trouxesse o poema integral, levantar-se-iam vozes indignadas pelas referências erótico-pedófilas do poema num livro para jovens.

Os levantamentos de vozes são odes triunfais.
Acredito que Álvaro de Campos irá ganhar leitores.

Aliás, controvérsias são uma especialidade de Álvaro de Campos. Em tempos, o próprio se envolveu em controvérsias com Fernando Pessoa.


Álvaro de Campos (caricatura da autoria de Vasco)

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? 
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. 
Assim, como sou, tenham paciência! 
Vão para o diabo sem mim, 
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! 

Para que havemos de ir juntos? 



Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!

Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!»
Lisboa revisited (1923)



A minha edição das Poesias de Álvaro de Campos, da Ática (1980), tem os mesmos versos censurados. Os automóveis só levam os pândegos!



sábado, 6 de agosto de 2016

Descubra as diferenças



«Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!»
(Álvaro de Campos)


terça-feira, 21 de junho de 2016

Não estou pensando em nada (mas a dor nas costas é verdadeira)

Não estou pensando em nada 
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o Verão quente do dia.

Não estou pensando em nada, e que bom!

Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida...
Não estou pensando em nada.
É como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas.
Há um amargo de boca na minha alma:
É que, no fim de contas,
Não estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada...
Álvaro de Campos



sexta-feira, 29 de abril de 2016

Os paquetes que entram de manhã na barra

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.


Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem os meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É - sinto-o em mim como o meu sangue -
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui...

Álvaro de Campos (de Ode Marítima)


domingo, 17 de abril de 2016

Janelas das Gares Marítimas

Ah, o Grande Cais donde partimos em Navios-Nações!
O Grande Cais Anterior, eterno e divino!
De que porto? Em que águas? E porque penso eu isto?
Grandes Cais como os outros cais, mas o Único.
Cheio como eles de silêncios rumorosos nas antemanhãs,
E desabrochando com as manhãs num ruído de guindastes
E chegadas de comboios de mercadorias,
E sob a nuvem negra e ocasional e leve
Do fundo das chaminés das fábricas próximas
Que lhe sombreia o chão preto de carvão pequenino que brilha.
Como se fosse a sombra duma nuvem que passasse sobre água sombria.
Álvaro de Campos, Ode Marítima








Gares marítimas de Alcântara e de Rocha do Conde d'Óbidos.