"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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quinta-feira, 17 de outubro de 2024

António Ramos Rosa - centenário do nascimento

«Ele queria desaprender a lógica implacável
do seu discurso
Por mais que quisesse a sua mente era um tumulto 
de relações de imagens e de ideias
Poderá ele alcançar a simplicidade elementar
e viver ao nível da existência em cada acto necessário
sem querer envolver-se nas múltiplas motivações
nem determinar o que em si é confuso e obscuro?
Talvez ele consiga viver num espaço transparente
para além da confusão
e respirar o que está para além das palavras e dos gritos
o silêncio das subtilezas vivas das evidências simples
Se o conseguisse poderia estar no mundo iluminado pelo mundo
e sobre o seu solo sentiria a solidez da sua identidade»

António Ramos Rosa nasceu a 17 de Outubro de 1924.


quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Escrevo...

«Escrevo, sim, mas soberana é agora a modéstia com que escrevo. Há uma discrição fundamental em tudo o que tenho a dizer. A minha voz deverá ser extremamente ténue, delicada, fiel a esse "quase nada" que é a minha parte inalienável.»
António Ramos Rosa


António Ramos Rosa nasceu a 17 de Outubro.

domingo, 14 de janeiro de 2018

O que procuramos será real?



O que procuramos será real? Ou será o impossível
fruto do desejo sempre latente e indefinível?
Ou não será imediata presença
e só a nossa distracção a perde ou turva o seu cristal?
Talvez tenhamos perdido o dom da simplicidade
e da tranquila conivência com as coisas
Se pudéssemos coincidir o movimento com a suspensão
o vazio seria a plenitude
e a palavra não trairia o silêncio 
nem a evidência solar de cada coisa
Só esta presença nos daria o túmido equilíbrio
de pertencer ao mundo como uma haste de trigo
e de possuir um corpo com a turgência nova
de uma primavera vagarosamente ingénua
vagamente indolentemente luminosa
António Ramos Rosa, As Palavras




sábado, 25 de janeiro de 2014

Como se

Como se pudesse dizer alguma coisa
como se houvesse alguma coisa para dizer
um astro branco um astro negro
um astro de sangue
um cavalo atrás de uma árvore
tudo isto são palavras
Tudo 
para dizer a mesma sede
insaciável
para enganar o silêncio
para fugir num navio branco
Como poderemos ser dignos de existir
sem o segredo que viaja nas nuvens
sem as pedras que respiram os montes
sem as nascentes que ascendem das portas proibidas?
António Ramos Rosa


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

António Ramos Rosa e Pablo Neruda

No mesmo dia que Pablo Neruda, há 40 anos - que se passará com a entrada do Outono? - morreu António Ramos Rosa.


A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa, Volante Verde


O Outono entra legalmente
ou é uma estação clandestina?
Pablo Neruda