"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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terça-feira, 22 de setembro de 2020

Setembro

«Fica uma quinzena em que setembro executa suas crueldades: o mar acinzenta-se despovoa-se o areal (...) na sala ficamos confrontando o mar perseguindo a viagem dos alísios de verão: minúscula tribo que somos compondo a espera de outro verão muito distante.»

Mário Cláudio, As Máscaras de Sábado



segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Anatomia de Setembro I

«estranha na cidade é a permanência de setembro instantes de suspensão de não se saber onde o quê; presumo que conheça a cidade mas não tão longe como eu nem em iguais rotas de vida já lhe aconteceu os membros desligarem-se do corpo a cabeça levitar transformada em lua? na cidade desse tempo era isto na cidade um esquecimento um túnel onde nenhuma luz cintilava;               ouça; setembro não tem na cidade a mágoa estridente das terras que a natureza preparou para o outono trata-se ainda aqui de uma estação de oiro se me consente o ordinário da frase quando falo em oiro quero que entenda assim na cidade a permanência de setembro é como direi trabalhada a cinzel a bistre;»

Mário Cláudio, Um Verão Assim


terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Um Ano Novo cheio de erva fresca


«Postam-se aquelas vacas inglesas, meu amigo, numa consciência da abundância e numa certeza dos objectivos que nenhum funcionário público português se atreverá a igualar.
(...)
Portugal inteiro deveria pôr os olhos nisto, numa forma assim de permanecer na vida limpamente, tendo o estômago cheio ou vivendo a perspectiva de o encher, satisfeito com as cousas, sem se presumir de herói, nem de poeta, nem de santo, e dotado de muita erva fresca antes de mais para desviar o sentido de toda a frustração.»
Mário Cláudio, As Batalhas do Caia


Feliz Ano Novo
Muuuuuuuuu!...


sábado, 7 de dezembro de 2019

Nuvens...

«Estar no presente não é olhar o que está em baixo; é olhar para cima. Houve uma altura em que dei por mim a olhar para as nuvens. É curioso que vejo muitas pessoas da minha idade a publicar muitas fotografias de nuvens no Facebook, não sei se sentem o mesmo. Aliás, o meu próximo livro vai chamar-se Teoria das Nuvens, e é uma história que se passa na contemporaneidade, não tem uma viagem ao passado.»
Mário Cláudio




segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Parabéns, Mário Cláudio

Deve ter sido assim, na Cooperativa Árvore, no Sábado passado.




«Não há nada que eu quisesse fazer além da escrita.»


sábado, 2 de novembro de 2019

Epígrafes

«A residência no estrangeiro, abraçado a um exílio com tanto de voluntário como de empenhado, contribuía sem dúvida para a escassa validação do escritor no seu berço pátrio, sempre disposto a esquecer os filhos que transpõem as fronteiras, votando-os ao silêncio em que se detecta o amuo da imaturidade, ou o castigo da independência. Respeitado pelos seus pares como uma voz importantíssima, se bem que no entusiasmo algo tépido, autorizado pela inveja que não se contém, Sena lutaria contra semelhante ostracismo, usando a tenacidade risonha com que retrucava, ao acusarem-no de falar demasiadamente de si mesmo, "Se não for eu a fazê-lo, quem o fará por mim?"»
Mário Cláudio, A Alma Vagueante


«Tenho horror de falsas modéstias, de facto. Mas tenho ainda maior horror da mediocridade que se compraz em recusar-se a reconhecer o que a excede. Não, não sou um dos meus mais seguros admiradores. Se o fosse, seria como a maioria dos membros da vida [literária] portuguesa, tão satisfeitos de si mesmos [que escrevem sempre um livro pior que o anterior]. O problema não está em eu me considerar muito grande - mas sim em os outros serem, na maioria, tão pequenos. (...) O mais que fazem é louvar às vezes um medíocre ou desenterrar um morto, com medo da sombra que lhes seja feita. A diferença entre mim e eles é que não temo o juízo do futuro, e não procuro tapar o sol com uma peneira. Não: a minha segurança é total e absoluta: ninguém pode destruir-me senão eu mesmo.»
Jorge de Sena, Entrevistas


Nesta data centenária, a RTP epigrafa Jorge de Sena como "um dos intelectuais mais influentes do século XX português". Para compensar...




domingo, 23 de junho de 2019

A Exposição do Mundo Português na ficção (3)

«E o comboiozito que, naquela manhã, nos fazia percorrer os carris da via marginal, era uma alcova, de facto, para o devaneio de dois namorados. Guardo as sensações desse dia cristalino, com um mar muito azul, à nossa esquerda, que não conseguíamos desgarrar, perante as memórias dos Jerónimos e da Torre de Belém, da tal odisseia que, a toda a hora, nos era recordada. Passámos o vasto conjunto de edifícios, muito brancos, da Exposição do Mundo Português, estimulando a curiosidade, só por isso, para a visita que iríamos fazer, mais tarde, aos pavilhões. (...)
A romagem, desde há muito ansiada, à Exposição do Mundo Português, justificaria a ida a Lisboa, só por si, e anularia, até, qualquer veleidade de lua-de-mel além-fronteiras, ainda que a guerra a não impossibilitasse. Livrámo-nos dos Primos, por um par de dias, e dirigimo-nos a Belém, munidos daquele conspícuo guia oficial, que conservo, ainda hoje, e que mostra, na capa e na contracapa, duas diversas representações de um guerreiro medieval e português, ora de pé, com a sua espada desembainhada, ora a cavalo, arvorando o estandarte das hostes cristianíssimas. Um agradável percurso, pela totalidade da mostra, num desses comboios-automóveis que, através dela, constantemente circulavam, custava dois escudos, apenas, e foi a aventura em que nos alistámos.»
Mário Cláudio, Tocata para Dois Clarins


segunda-feira, 3 de junho de 2019

Agustina Bessa-Luís (1922 - 2019)



«O que é que vai ficar da obra da Agustina? Quanto a mim, vai ficar o que tem a ver com a portugalidade, uma portugalidade a Norte, com grandes personagens que a ilustram. A enorme capacidade de dar atmosferas, ambientes, aquilo a que se chama o espírito do tempo e o espírito do lugar. Nisso, Agustina é insuperável. E vai ficar a sua enorme cultura humanística, uma coisa que tende a desaparecer da literatura. E também um estilo único, que nunca ninguém teve igual. Acontece com ela o que aconteceu com o Aquilino: são autores de estilo. E essa ideia de um autor identificável pelo estilo também está a desaparecer – agora tudo se arrisca a ser um pouco igual.»

Mário Cláudio


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

José Afonso fora do panteão

A SPA defende que os restos mortais do músico José Afonso devem ser trasladados para o Panteão Nacional.
A família já recusou a hipótese.

Sobre isso:
- uma bem apanhada:
«(...) a simbologia em perspectiva perante a sugerida entrada de Zeca no redondel de Santa Engrácia não podia ser pior: convenhamos que colocar o autor da canção-senha da Revolução dos Cravos ao lado de Carmona (e de Cavaco, que daqui por uns anos terá lá com certeza uma assoalhada), era uma condenação a título perpétuo.»
Viriato Teles
- uma boa proposta:
«A SPA devia-se preocupar com outras coisas. Por exemplo: porque é que não há discos de Zeca Afonso à venda? Porque é que não existem discos Orfeu no mercado? Deviam era divulgar a música e deviam impor-se na sociedade e na área da cultura. Se criarem um prémio com o nome Zeca Afonso para novos artistas, isso agradaria mais ao Zé.»
Arnaldo Trindade
A propósito disso:
«Ao passar agora defronte da Casa dos Bicos, reparo na oliveirinha que protege as cinzas do inesquecível prosador, e felicito-o em silêncio por ter escapado tão habilmente aos monumentais esplendores do Panteão Nacional. Rezo pois para que a terra lhe seja leve, suspeitando de que o será por certo, e muito mais do que os mármores dos sarcófagos da Igreja de Santa Engrácia.»
Mário Cláudio, Saramago (27 de Novembro de 2015)


domingo, 10 de junho de 2018

De barriga cheia!

Feira do Livro...
Um bom dia, apesar de cinzento.
Muita gente.

E o encontro que mais aguardava: Mário Cláudio.
E também João de Melo e Lídia Jorge.
Este ano, já tinha estado com Mário de Carvalho.
A simpatia de cada um...

E lá vieram mais uns livrinhos...

Deana Barroqueiro partiu o braço, deve ter adiado a presença.
Para o ano...
Quando tiver um livro novo.

Tenho de procurar imagens dos livros...


domingo, 4 de setembro de 2016

Homenagem a Mário Cláudio

No seu Porto, no seu Jardim do Palácio de Cristal...


Aquele que é, para mim, o melhor escritor português vivo. 
É certo que há o outro Mário, o Carvalho, mas...


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Amadeo a caminho de Paris (1906)

«Há os que partem e retornam, tendo Paris como farol donde chegam as novas do Planeta. Cumprir-se nessa cidade, com os boulevards descerrados às efemérides e ao sonho, parecerá aos insatisfeitos o único risco a correr, o único sobejante da apatia a que o berço os condenou. Daí que se torne instante abalar.»

«Lisboa, quinta-feira. Minha Maman: Chego agora de Linda-Pastora sob a luz offuscante dum sol que não quer acreditar que o inverno está próximo. (...) Eu e o meu camarada embarcamos amanhan. O tempo está limpo e sereno e o vapor já nos espera ali no Tejo. Tenho uma grande dôr de os deixar, a si, ao santo do Papá e a todos. Além disso, eu sou um espírito dramatico e a minha alma representa sempre uma tragedia em que eu sou o unico espectador. Contudo, no meio deste luto, eu vou rindo - rindo diabolicamente. Isto não quer dizer que me julgue infeliz - não. Se qualquer quizesse trocar a sua infelicidade pela minha desgraça eu não trocava. Os meus destinos só estão bem commigo, ou por elles triumpho ou por elles sou esmagado. Adeus minha Mãe, esperam-me para comprar bilhete - adeus. Mil coisas do coração do seu filho Amadeo.»

«A caminho de Paris, com Francisco Smith, perscrutando da coberta ondulante o deslizar da chuva pelas vidraças, Amadeo visaria mais à frente que à retaguarda.»


Mário Cláudio, Amadeo



sexta-feira, 25 de março de 2016

Lágrimas

Rogier van der Weyden, Deposição

«Entra a Semana Santa, e a Mãe visita com ele as sete igrejas da praxe, todas soturnas de velas que tremeluzem na expectativa da Ressurreição, e com santos nos seus altares, sinistramente tapados por panos roxos de que se desprende o bafio de muitas humidades. E lá por trás, cristalizados em suas teatrais atitudes, derramam eles lágrimas copiosas pela Paixão do Senhor, aguardando o tilintar das campainhas da aleluia. Ajoelha então à beira da Mãe, contrito dos seus pecados de crueldade e desobediência, e o coração do rei que tanto ama a cidade que lho oferece como prova da sua ternura goteja lentamente, coroado como o Divino Mestre por espinhos que se entrelaçam.»
Mário Cláudio, Astronomia




sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Um à sua direita, e outro à sua esquerda...


«Lá estão, pendurados na parede, e a vigiar em última instância a prestação dos examinandos, o Presidente do Conselho, a quem Dona Alda chama "o nosso homem do leme", e o da República, a quem a dita senhora atribui "carácter bem temperado". (...) Fica então muito quedo, e de mãos sobrepostas no tampo da carteira, a mirar aquele Jesus Cristo que, agonizando na cruz no meio dos dois presidentes, o do Conselho e o da República, por que razão o abandona.»
Mário Cláudio, Astronomia


Aguçar a inteligência e disciplinar a ansiedade


«De fato completo, e de laço à gato, apresenta-se na sala de aula da escola oficial, (...) cumprindo um rito que possui tanto de palpitante como de ameaçador. Observa com curiosidade os restantes rapazes, e enfrenta com coragem as provas a que o sujeitam, de ditado, de redacção, de aritmética, e de desenho, animado pela discreta energia que lhe advém do dedalinho de vinho do Porto, de boa colheita, que a Mãe, honrando uma antiga tradição da família, o convida a escorropichar, a fim de que se lhe aguce a inteligência, e se lhe discipline a ansiedade.»
Mário Cláudio, Astronomia 


terça-feira, 1 de setembro de 2015

O Porto nas aguarelas de António Cruz

«Armou António Cruz o seu cavalete diante de um recanto do casario, abriu-se à captação da medida da luz e da cor que coincide com a rugosidade do reboco de uma parede, com a dissolução de uma substância carbonizada nas nevoentas linfas do começo de Setembro, com o adensamento do negrume no mais intrínseco dos sótãos.»
Mário Cláudio, A cidade no bolso

Aguarela de António Cruz
Vale a pena descobrir as pinturas de António Cruz (1907-1983) na Fundação Calouste Gulbenkian.


As suas aguarelas mostram-nos "o rosto mais belo do Porto".


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Prémio APE para Mário Cláudio

Mário Cláudio volta a vencer o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, com Retrato de Rapaz, 32 anos depois de Amadeo.

«Não vale a pena teimar, meu Menino, nunca mais tentarei espetar-te asas nas espáduas porque o que diz bem contigo, meu Mafarrico, é um bom par de corninhos, e passarás por isso a chamar-te Salai, mas não te vistas por enquanto, vou comprar-te a fatiota que de ti fará um ser humano, nem do Paraíso, nem do Inferno.»



sábado, 3 de janeiro de 2015

Objecto não voador identificado

Diz a Wikipédia que a 3 de Janeiro de 1496 Leonardo da Vinci testou sem sucesso uma máquina voadora que tinha construído.

Afirmou Mário Cláudio sobre Leonardo, "(...) ele é um apocalipse de fracassos. E, ao mesmo tempo, uma enciclopédia de curiosidades (...)"



quarta-feira, 12 de março de 2014

Culpa(do)

«O que os gregos chamaram razão abarca o pensamento constituído por ideias, assim como designa uma certa classe de actos emocionais como a bondade, o amor, o arrependimento que engloba o sentimento superior da culpa, sem a qual os grandes passos da humanidade não teriam sido dados. Quer dizer: a culpa é o centro dos actos humanos no qual o espírito se manifesta. É pela culpa, como excitante e fundador da pessoa, que o homem ascende aos chamados centros psíquicos e às suas funções do conhecimento como ser espiritual.»
Agustina Bessa-Luís, prefácio de O Triunfo do Amor Português de Mário Cláudio (2004)



domingo, 12 de janeiro de 2014

A Cozinha da Casa de Manhufe - Amadeo



Voltar a ver Amadeo e espreitar a "cosinha" da sua casa.

«Dos vários modelos de reconciliação, a frequência da cozinha de uma casa será por certo o mais antigo e o mais conseguido. Reconhecerá isto Amadeo quando pinta a Cozinha da Casa de Manhufe, nesse calor de evocados convívios, solilóquios a que o lume crepitante faz companhia, presentificando gerações que vêm aconchegar o corpo dos viventes, dando ao diário fluir um gosto de coisa perfeita que se nos insere na pele.

Amadeo Souza-Cardoso, Cozinha da Casa de Manhufe

O ocre terno do reboco, que o castanho húmido das madeiras povoa de uma confidência temperada de seriedade, a negra crosta dos potes de três pés, onde se confeccionam riquíssimas substâncias ora gomosas ora enxutas, ora papudas ora rechinantes de gordura que a si mesma rapidamente se come, tudo faz parte dessa geografia vital. A cancela ficou aberta para as escadas de fora, e bem assim se ergueu a ventana, pois que estamos no São Miguel e na cozinha se abafa. Até quem cabeceia no trasfogueiro, ascende o cheiro do mosto e o hausto do saibro dos caminhos, em cujas margens as amoras se toldam de um sudário pulverulento. A cozinha de Manhufe é lugar de trempes e covilhetes de banha, espetos e alguidares onde o sangue suíno paulatinamente coagula sob a elástica película, as carnes salgadas se desfazem da enxúndia gelatinosa que implora o corte do vinho. O sol, então, acalenta ou doira. Estamos no ano de mil novecentos e treze, a cozinha é do homem e o homem dela, que mais falta para que a obra se cumpra?»
Mário Cláudio, Amadeo

Amadeo, Auto-retrato