"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Deus quer (salvo seja!), o homem sonha, a obra nasce

"Faço tudo!"

Mesmo não sendo o Presidente o responsável directo pela sua revisão.

«Ser bombeiro é uma arte
Que nem todos dão valor»

Embora não tenha cumprido serviço militar!

«Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!»
 
Citando José Rodrigues Miguéis (1978):

«Eu não me envergonho de ser português, mas tenho vergonha de que alguns o sejam!»


segunda-feira, 27 de outubro de 2025

José Rodrigues Miguéis - Uma placa para assinalar prédio em que nasceu

Foi hoje descerrada uma placa a assinalar o prédio em que nasceu o escritor José Rodrigues Miguéis, sobre cuja morte passaram, exactamente, 45 anos.

Recordo o que já escrevi há uns anos.

Depois de uma história rocambolesca - mas parece-me que não tanto como a dos direitos de autor sobre a sua obra... - em que Teresa Martins Marques e Eduardo Cintra Torres tiveram um papel central, uma placa metálica lá está, finalmente!, junto à entrada dos números 12 e 14 da Rua da Saudade (uma entrada para dois prédios),  freguesia de Santa Maria Maior, Lisboa, para assinalar que naquela casa nasceu José Rodrigues Miguéis.

Devia ser dito: nas águas-furtadas do n.º 12.

Uma frase de A Escola do Paraíso acompanha a informação básica.


O descerrar da placa por Teresa Martins Marques, 
autora de uma recente biografia de José Rodrigues Miguéis -
Nos passos de José Rodrigues Miguéis - Uma biografia como um romance 


A singela homenagem atrapalhou a saída do prédio de uma família de turistas, agora que o edifício (ou quase todo ele) funciona como Alojamento Local.
Aliás, a instalação da placa metálica foi a alternativa possível à não autorização da empresa proprietária do edifício para nele afixar uma lápide.
O imóvel seria desfeiado e, pasme-se, desvalorizado!
L'argent avant la culture...


terça-feira, 28 de maio de 2024

O 28 de Maio de 1926, o General Gomes da Costa e a geringonça


Manuel de Oliveira Gomes da Costa, o general que aceitou arrancar com o movimento militar que eclodiu em Braga, em 28 de Maio de 1926, e que pôs fim à 1.ª República. 

O movimento militar não tinha um projecto político definido, constituindo "uma amálgama heterogénea de interesses e doutrinas contraditórios" que tornou instável a Ditadura Militar que se instalou em Portugal.

Gomes da Costa viria a assumir a chefia do Governo a 17 de Junho de 1926. "(...) demasiadamente impulsivo para seguir qualquer linha de coerência programática" (Adelino Maltez), foi vítima do golpe dos generais Carmona e Sinel de Cordes, tendo ficado preso no Palácio de Belém (8 de Julho). Foi transferido para Caxias e Cascais e, no dia 11, foi desterrado para Angra do Heroísmo, deixando de ter qualquer protagonismo militar e político.
Dele dizia Raúl Brandão que "tem cabeça de galinha e é sempre da opinião da última pessoa com quem fala". 

José Rodrigues Miguéis, no romance O Milagre segundo Salomé, retrata bem o ambiente que se vivia no período de crise da 1.ª República e de transição para o regime ditatorial - "Trata-se da figuração simbólica de uma época, ambiente e estado de espírito colectivo, sob a forma de romance convencional" -, desenhando em vários capítulos um retrato de Gomes da Costa - o "General ABC": 
«A Nação, inerte ou entregue a si mesma, quer sonhar perfeito o Herói para o venerar melhor na paz da inconsciência. Ele fará tudo por nós, durmamos pois! Esperamos sempre que um ente superior, sobrenatural, eterno Desejado, faça por nós aquilo que somos incapazes de, ou não estamos dispostos a fazer. (...) Nos momentos de crise (e quais o não são!) fala-se dele como do Homem-capaz-de-meter-isto-nos-eixos. Os partidos disputam-no, fazem-lhe namoro, mas ele, oh!, é apenas (textual) "um soldado que cem vezes arriscou a vida pela Pátria", e com franqueza a Pátria começa a estar enjoada de politicagem.»

É neste romance, "terminado provisoriamente" nos anos de 1950, mas só publicado em 1975, que é utilizada, a propósito do contexto político, não sei se pela primeira vez, a expressão "geringonça".
«Eu não perdi a fé na República como ideia-força, mas se ela se não salva por si, alguém terá de a vir salvar. Quanto a mim, o problema é essencialmente económico, mas tudo depende da fórmula política. Se não for dentro da geringonça parlamentar, há que ir buscá-la fora dela.»

Nem Paulo Portas, nem Vasco Pulido Valente - José Rodrigues Miguéis!


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Génio da cooperação para o bem geral!

O génio da ironia na ficção sobre a guerra. 

«Cornelius-Hippolite VandenBeurs consagra-se à organização, em países neutros, note-se bem, mormente na pacífica e laboriosa Schwíndia, de alguns trusts e holding companies através dos quais se procederá à exploração, troca e rateio dos produtos dispensáveis aos dois campos beligerantes: essas empresas, rigorosamente neutrais, é bom acentuarmos, controlavam ao mesmo tempo o capital e a gerência das indústrias que, antes da guerra, nos países agora hostis, haviam funcionado em perfeita harmonia, sob a forma de sindicatos e cartéis. Escusado será dizer que os detentores de tais interesses em cada país "inimigo" não intervinham pessoalmente na gerência desses trusts! Por uma espécie de acordo entre gentlemen, escolhiam-se para directores-delegados cidadãos de países neutros, sabedores e dignos de inteira confiança. Invenção genial, essas empresas prosperaram fabulosamente, vendendo a gregos e a troianos sem discriminação, mantendo vivo em plena guerra o espírito de paz e cooperação internacional, e contribuindo a par disso para acelerar a decisão do conflito, e poupar assim muitas vidas e bens. (Aplausos discretos.) O minério de ferro da Rendânia voltava a esta sob a forma de chuva de obuses e granadas; o carvão da Brancónia e do Littenburgo ia à Lamagna e à Rendânia aquecer os alto-fornos donde saíam os tanques e canhões das ofensivas contra a Brancónia, etc. Não se pode conceber forma mais subtil nem mais elevada de internacionalismo. Isto, meus senhores, é o que se pode chamar génio da cooperação para o bem geral! Chegou-se mesmo à perfeição de proibir que fossem bombardeados, em território nacional ocupado pelo inimigo, os centros de produção empenhados em abastecê-lo de material de guerra.»

José Rodrigues Miguéis, O Milagre segundo Salomé



domingo, 28 de abril de 2019

José Rodrigues Miguéis e Lisboa (4)

«(...) Há horas em que a Cidade parece regressar àquele instante inicial de paz e criação: o sol cai a pino sobre a calçada reverberante e um recolhimento no ar, uma vela vermelha e cautelosa rasteja (como ao tempo dos califas) no esmalte azul do Tejo, um calor voluptuoso irradia dos corações... Presépio, anfiteatro, cais dum destino, plano inclinado por onde há séculos um povo e uma alma parecem escoar-se a caminho de outros mundos e paisagens, do pão amargo sobretudo, - Lisboa é este rio imenso, este horizonte de apelos sem fim, e não se pode ter nascido aqui, vivido aqui, ou ser-lhe assimilado, sem lhe sofrer o influxo, sem ficar para sempre marcado duma vocação, dum desgarramento e fatalismo, dum anseio de partir e tornar, duma sensual melancolia.»
José Rodrigues Miguéis, Lisboa, cidade triste e alegre




domingo, 10 de junho de 2018

José Rodrigues Miguéis - o espólio e a memória

É na Universidade de Brown (John Hay Library) que se encontra o espólio de José Rodrigues Miguéis, por iniciativa da viúva do escritor.
Pode espreitar-se aqui.

Rodrigues Miguéis morreu nos Estados Unidos (1980), onde se exilou por causa do salazarismo.
Uma cópia em microfilme de todo o espólio foi entregue na Biblioteca Nacional de Lisboa.

Segundo Onésimo Teotónio Almeida, que se preocupou com o destino do espólio e terá intervido na solução encontrada, "volta e meia vem gente de qualquer parte do mundo investigar" esse espólio.

A este professor se deve, também, a organização do Colóquio realizado no Padrão dos Descobrimentos, em Outubro de 2001 (centenário do nascimento do escritor), e a coordenação da edição das actas do mesmo, pela C.M. de Lisboa.

Já em 1981, um ano depois da morte de José Rodrigues Miguéis, Onésimo Almeida, no Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade da Brown, organizara um simpósio sobre o escritor e a sua obra.
As actas deste simpósio, com algumas adendas e actualizações, foi editado, também em 2001, pela Editorial Presença, com o título José Rodrigues Miguéis: Lisboa em Manhattan. E Onésimo Almeida volta a ser o coordenador da obra.

Por ocasião das comemorações do 10 de Junho, acredito que José Rodrigues Miguéis seja um nome lembrado, atendendo ao cenário em que se realizam nos EUA e a quem preside.
Será mais do que merecida essa lembrança de um escritor que viveu 43 anos nos EUA (com pequenas interrupções) e fez do exílio um espaço privilegiado da sua ficção, "tema dominante e obsessão dolorosa" (Eduardo Lourenço).
Um "exilado nostálgico" chamou-lhe Pedro Mexia, sobre quem, alguém disse, "nunca chegou a sair de Lisboa."

«Ninguém é profeta na sua terra - e muito menos na alheia.»
José Rodrigues Miguéis


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Lusitana e oca volubilidade

«"Tu sofres de opinião fácil!", disse alguém dotado de espírito diagosticante a um sujeito que se pronunciava categoricamente sobre tudo e todos com lusitana e oca volubilidade.»
José Rodrigues Miguéis (1940)


domingo, 14 de agosto de 2016

Estou hoje com saudades do Porto

«Alfacinha (e nascido na Rua da Saudade), tenho um fraco pelo Porto desde que, menino, acompanhei a família na primeira jornada ao Norte e à Galiza. Ainda hoje, ao cabo de exílios e tormentos, ao ouvir alta noite as sereias dos vapores que cruzam o Hudson, me assalta a inexplicável nostalgia do Porto.
A cidade robusta e alcantilada, áspera, de granito escurecido pelo tempo, com a Ribeira caótica na base, servindo de rodapé do velho burgo; as torres e muralhas, os mosteiros, o sol coado pela neblina, os seus nomes locais - Campanhã, Leça, Carreiros, Cedofeita, Cantareira, Cabedelo e tantos outros (...) tudo tenho gravado a nostalgia na retina da-i-alma. Até o sotaque dos naturais - Poârto! - me tem um eco ibero-linguístico!
Visitas posteriores me consolidaram nessas primeiras impressões. O Porto era em tudo diferente: o bastante para mo tornar querido. O que ele tinha de nórdico e pomposo (...) davam-lhe uma grandeza e respeitabilidade burguesa que nunca me soube inspirar a minha Lisboa das "gaiolas sem carácter, da caliça esboroada, da greda pegajosa e do intratável basalto: apesar do muito que lhe quero (polígamo!) e da sua luminosidade, tenho em mim o culto atávico dos pedreiros construtores de eternidades. E depois, barroca e pitoresca como Nápoles, Lisboa era do Sul, e o Porto era o Norte (...) Tudo nele me era a um tempo exótico e por isso, paradoxalmente, mais Português, mais Nação, mais Nós (...)»
José Rodrigues Miguéis

Dórdio Gomes - Barredo (1935)


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

José Rodrigues Miguéis - 114 anos

José Rodrigues Miguéis nasceu há 114 anos.


Ter encontrado esta imagem hoje, fez-me lembrar a atribulada viagem do Artur em Uma viagem na nossa terra (Léah e outras histórias).

«De vez em quando, um de nós curvava-se por cima do ombro do Fonseca para ler o conta-quilómetros, e bradava: "Ena, rapazes! Vamos quase a oitenta!" Todas as cabeças se precipitavam tumultuosamente para o tablier, e outros gritos explodiam nas gargantas enrouquecidas: "Bravo! Seu teso! Que volante! E que carro! Em segunda mão! Imaginem se fosse novo!", etc. E o Fonseca, de cabeça à banda, sem se voltar, sorria lisonjeado.»


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O vazio da falta de um café e de dois dedos de conversa

José Rodrigues Miguéis queixava-se da sua pouca sorte com barbeiros, o primeiro dos quais - o que lhe cortou o cabelo aos 6 anos - morreu no Terreiro do Paço, na sequência de uma bala perdida no atentado ao rei D. Carlos, quando gritava um "Viva o Rei".*

Eu ando com pouca sorte aos cafés.
No terminal fluvial do Seixal, a D. Amélia fechou em Abril o cafezinho que tinha no quiosque.
Reaberto no Verão com o nome de Cantinho da Tina, fechou na semana passada, na 6.ª feira, dia 13 (dia que parece de azar).
Há o bar nos barcos, há o bar no interior da estação, mas que não tem as mesmas valências - é de passagem.
No quiosque era um 2 em 1 3 em 1: um café e dois dedos de conversa, com direito a cadeira e mesa ao Sol, quando ele queria aparecer.
Em ambos os casos - Sol ou céu nublado - seguia mais quentinho no caminho para a escola. Mais quentinho e desperto, no corpo e na alma.
Agora há um vazio - a margem Sul parece-me um deserto à chegada -, já nem apetece tanto a caminhada até ao centro do Seixal.

Também a partir de Janeiro, aquilo que ganhamos mal vai dar para estes excessos, como beber um café fora de casa.
Nada de vivermos acima das possibilidades que "eles" nos impõem!...

Para a Cristina C. (e para o Miguel) felicidades na nova fase da vida que se lhes abre.

* Pouca sorte com barbeiros, em Léah e outras histórias


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

José Rodrigues Miguéis


Nascido a 9 de Dezembro de 1901, em Lisboa, cidade que tão bem retrata em várias das suas obras.

«Um vagido exasperado, enraivecido, vem do fundo da casa.
- Nasceu o menino!
A comadrinha sorri, ensaboa as mãos no lavatório:
- Entrem, entrem! Está tudo acabado.

Na grande cama de ferro do casal, no quarto ao fundo, branca como os lençóis, a dona Adélia repousa com o filho ao lado, já lavado e enfaixado. Reabre a custo os olhos imensos, como se as pestanas lhe pesassem, e procura a parteira. A sua voz é um sopro:
- É menino ou menina, comadrinha?
- É rapaz, é rapaz! E perfeitinho, um latagão!
A boca da parida rasga-se de orelha a orelha num sorriso descarnado que descobre os dentes grandes, brancos e perfeitos.
(...)
O menino dorme serenamente. (...)
- Julguei que me ia nascer em dia da Senhora da Conceição, e afinal...»
José Rodrigues Miguéis, A Escola do Paraíso


sábado, 8 de dezembro de 2012

Adere a um partido

«A Répública divorciou-se da Inteligência. Adere a um partido. Convicções? Que importância tem isso? Abrimos uma garrafita?»
José Rodrigues Miguéis, Idealista no mundo real

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

José Rodrigues Miguéis e Lisboa (3)


«Presépio, anfiteatro, cais de um destino, plano inclinado por onde há séculos um povo e uma alma parecem escoar-se a caminho de outros mundos e paisagens, do pão amargo sobretudo - Lisboa é este rio imenso, este horizonte de apelos sem fim, e não se pode ter nascido aqui, vivido aqui, ou ser-lhe assimilado, sem lhe sofrer o influxo, sem ficar para sempre marcado duma vocação, dum desgarramento e fatalismo, dum anseio de partir e tornar, duma sensual melancolia.»
JRM, Lisboa - Cidade triste e alegre

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

José Rodrigues Miguéis e Lisboa (2)


«Ao cabo de muitas caminhadas e indagações, encontraram na Rua dos Milagres de Santo António uma coisa que nem de encomenda: um prediozinho de dois andares, cuja vasta loja, de grande pé-direito, estava ocupada por um grande armazém de sacaria, quase sempre fechado. No centro da grade de ferro que protegia a bandeira da porta, em arco redondo, lia-se a data da construção: 1858 (O ano em que nasceu minha mãe!, disse ele, que não acreditava em agouros, mas em todo o caso impressionado.) A casa encostava ao morro, de forma que a loja não tinha desafogo para trás, e o primeiro andar estava separado da muralha de reforço da encosta, que quase se podia tocar com a mão, por uma estreita passagem para onde deitava as janelas.»
JRM, O milagre segundo Salomé


JRM escreve o nome da rua no plural, mas a rua é muito curta para tanto milagre que Santo António terá feito. Só lá cabe um. Não sabemos qual escolher dos vários que estão retratados nos azulejos de um dos prédios da rua.



A ter existido, a grade de ferro com a data de 1858 já passou à história. Devia ser semelhante à de 1886, que ainda resiste na vizinha Costa do Castelo.

domingo, 27 de novembro de 2011

José Rodrigues Miguéis e o fado

Desenho de Stuart
«Por pobre que seja musicalmente, o Fado é em geral inconfundivelmente português. Se o povo o acolheu e o canta, é porque nele achou uma forma de expressão que lhe convinha.»
O espelho poliédrico

«A Lisboa do Fado uterino menor, desgarrado e soluçante, das mansas e discretas podridões, dos galegos e das mulheres por trás das tabuínhas.»
Lisboa - Cidade triste e alegre

«Por fim, já eram horas de jantar, foram a um "retiro" numa azinhaga perto da estrada das Linhas de Torres. Debaixo da parreira alguém dedilhava um fado na guitarra.»
O milagre segundo Salomé


Retiro do Ferro de Engomar, em Benfica
(presentemente freguesia de S. Domingos de Benfica, perto de onde morei.
Existe lá hoje o restaurante com o mesmo nome e ainda resta uma tasca)

domingo, 20 de novembro de 2011

José Rodrigues Miguéis e Lisboa (1)

De José Rodrigues Miguéis diz Luísa Ducla Soares: “é porventura o escritor mais enraizadamente Lisboeta.”

Lisboa, simultaneamente cenário e personagem, é o centro de muitas das suas obras, mesmo sendo escritas no prolongado exílio americano.

“É Lisboa uma realidade em si, e será preciso tê-la conhecido e vivido nela para bem a compreender e amar.”
(JRM, A escola do paraíso)

Mesmo que Lisboa tenha diferentes faces...

“Lisboa é a liberdade, a fantasia, o lirismo, o progresso, a vida e unidade da Nação.”
(JRM, Lisboa triste e alegre)

“Lisboa é feminina, ociosa, parasitária, vive da política e do boato.”
(JRM, O milagre segundo Salomé)

Com a entrada do século XX, a 9 de Dezembro de 1901, nasceu José Claudino Rodrigues Miguéis, na mansarda do n.º 12 da Rua da Saudade, perto da Sé, de onde se avista o Tejo.

“Na grande cama de ferro do casal, no quarto ao fundo, branca como os lençóis, a dona Adélia repousa com o filho ao lado, já lavado e enfaixado. Reabre a custo os olhos imensos, como se as pestanas lhe pesassem, e procura a parteira. A sua voz é um sopro:
- É menino ou menina, comadrinha?
- É rapaz, é rapaz! E perfeitinho, um latagão!”
(JRM, A escola do Paraíso)

Nem uma simples placa assinala esse nascimento no prédio que ainda há pouco teve direito a obras de conservação, voltando a ganhar o tom rosado que JRM refere em O milagre segundo Salomé...

“Não se pode ter nascido ali, viver a ver chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas e o esvoaçar de adeuses no azul, nem ouvir noite e dia estas vozes, sem ficar impregnado de irremediável nostalgia.”
(JRM, A escola do paraíso)

“Os paquetes atracam logo em baixo, no cais, e a rua deve talvez o nome à saudade que para sempre ficou flutuando no sítio: a saudade dos que ficam, e a dos que partem e querem prender-se à terra, de braços, olhos e almas alongadas.”
(JRM, A escola do paraíso)


N.º 12, Rua da Saudade

“Subiu (...) à Rua da Saudade, onde raro vinha agora: o prédio em cuja água-furtada nascera dormia um sono pombalino e rosado sob o peso das recordações: teve uma golfada de nostalgia, que a morte do pai avolumou. Seria possível que o germe da felicidade que nele fermentava datasse dos primeiros cinco anos de vida que ali passara?”
(JRM, O milagre segundo Salomé)

Rio Tejo visto das instalações do Teatro Romano
(perto do prédio onde nasceu José Rodrigues Miguéis)

terça-feira, 8 de março de 2011

Carnaval

Chegado o Carnaval, no ar húmido e esvassoirado de vento, com alternativas estonteantes de sol e chuva, paira um cheiro enjoativo de bisnagas. A cidade inteira parece alucinada, azoada de barulhos raros. Voam núvens de papelinhos, cabeleiras multicores de serpentinas pendem das sacadas, dos fios telegráficos, esvoaçam, transpõem as ruas.
A Águeda confeccionou amorosamente dúzias de saquinhos, com retalhos de seda e veludo, enche-os de feijão, na esperança de ir a qualquer parte brincar. O Gabriel comprou uma máscara cor-de-rosa, de riso estúpido, e corre a meter medo aos amigos. Mas depressa foge dos chechés: «Dá cá uma pançadinha ao velho!» - «Bebés» de fralda suja, calça comprida e botas de carroceiro à mostra, sinistros, cambaleiam. Há dominós e alcoviteiras. Meninos mascarados de polícia, marquês de Pombal, toureiros, almirantes, campinos, generais, passam com muito juízo, na companhia das famílias, a caminho da Baixa, da Avenida, dos concursos de máscaras e bailes infantis, o retrato sai depois nos jornais. Ele fica a olhá-los com mágoa: nunca se mascarou... As cegarregas atroam os ares, passa a Dança da Luta, cegadas, danças de pretos, «frum-fum-fum, que vou pr'Angola!» Filarmónicas amolgadas regougam de vinho tinto, desafinadas, pedem esmola na encruzilhada. Passam bandos de máscaras em turbilhão, frenéticos pesadelos arrastados no vento. As janelas e sacadas enchem-se de gente. Há quem arremesse cocotes de farinhas a quem passa: estoiram nas fachadas, na calçada, acertam por acaso, há insultos e berros. De outras janelas pendem «vasculhos» como aranhas ameaçadoras. (A casa deles é recuada, não se pode brincar assim.) Ali em baixo, um homem curvou-se disfarçadamente a apanhar do passeio uma moeda de prata: era falsa e estava pregada ao chão com um prego! A gargalhada encheu a rua, ele apanhou com o vasculho, fugiu corrido e enfarinhado... Porque é que tudo isto nos entristece?
Ao Chiado não se pode romper, o grão-de-bico chove das janelas, não fica um chapéu de coco inteiro. A Rua Augusta e a do Ouro estão acolchoadas de confetti. É proibido apanhá-los do chão, mas não sei se percebem...
(...) Ele e a irmã arremessam coisas que nunca acertam, ninguém repara neles, perdidos no tumulto. Mas sempre voltam para casa com algumas coisas novas, e a Águeda conserva os saquinhos para o ano seguinte.
O Carnaval deixa-lhes um frio húmido no coração, um enjoo de patchouli, uma memória de farrapos expostos, de vinho vomitado, um desgarramento de cansaço. Serão assim todas as alegrias? «Os hospitais cheios de gente!» - diz a dona Adélia. Logo depois quarta-feira de Cinzas... Só restam as serpentinas, a descorar ao sol, ou a pingar chuva.

José Rodrigues Miguéis, A Escola do Paraíso

domingo, 9 de janeiro de 2011

Barbeiros (2) ou José Rodrigues Miguéis (1)

A ida ao barbeiro fez-me lembrar uma história de José Rodrigues Miguéis, Pouca sorte com barbeiros.
José Rodrigues Miguéis, esse escritor tão injustamente esquecido.
Uma lembrança mais completa ficará para um dia destes.



Nota: É engraçado que quando procurava uma imagem de uma barbearia antiga, fui parar a um site onde a fotografia que escolhi estava acompanhada por um excerto de Pouca sorte com barbeiros. Acasos. E gostos: alguém com quem partilho o gosto por JRM.