"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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domingo, 19 de setembro de 2021

José-Augusto França (a morte já anunciada)

A comunicação social já anunciara o seu falecimento em 2018.

Uma das maiores referências do panorama cultural português.

«O França não é uma pessoa, é um mundo (...)» (Rogério de Moura, antigo editor dos Livros Horizonte).

«Se a minha avó o tivesse conhecido, diria apenas: "É um homem que tem tudo muito bem explicado e que nunca deixa nada por dizer."» (José Jorge Letria)

Eduardo Lourenço e José-Augusto França, figuras maiores
da nossa cultura nas últimas décadas.
Dois intelectuais exilados no Estado Novo, dois afrancesados.

Abandonar o país para poder pensar e criar livremente.

«(...) já tinham estudado Histórico-Filosóficas, agitado o meio cultural, interrogado o mundo. Pouco depois sairiam do país para perceber que “não estávamos tão orgulhosamente sós” (...)»


domingo, 23 de junho de 2019

A Exposição do Mundo Português na ficção (2)

«A Exposição, finalmente toda inaugurada em seus pavilhões e secções, era sítio de passeio para Lisboa familiar e inteira aos domingos, e classes mais recolhidas às noites de todos os dias, em restaurantes e cafés a que o tempo cálido do Verão convidava. Dançava-se também, em locais mais caros de bebidas, e havia muitos estrangeiros de posses, no meio da chusma de pobres em perdição que a invasão dos seus países lançara pelos Pirenéus fora, até Portugal, em espera de vistos e passagens para a América da salvação de todos eles.»
José-Augusto França, A Guerra e a Paz


A Exposição do Mundo Português na ficção (1)

A Exposição pouco ficcionada neste texto. José-Augusto é muito objectivo na informação histórica.

«Em 29 de Março desse ano [1938] uma nota oficiosa da Presidência do Conselho de Ministros anunciara, para 1940, um ano de majestosas comemorações patrióticas, que eram de independência do país no século XII e da restauração dessa independência no século XVII - 1143 e 1640, na conta da História.
Aloísio leu com muito gosto o anúncio oficial em toda a largura de primeira página do Diário de Notícias, entre notícias optimistas da guerra de Espanha e uma declaração do chanceler Hitler de que "nenhuma fronteira da Europa correspondia à necessidade dos povos"; era logo depois do "Anschluss" austríaco. E mais uma vez ele admirou a acção do Doutor Salazar, e, sobretudo, a sua oportunidade. Não era o anúncio da Exposição a resposta que um país seguro de si, do seu bom direito e, sobretudo, da sua razão histórica, podia dar ao mundo em luta de forças sem perdão?»
José-Augusto França, A Guerra e a Paz


domingo, 7 de abril de 2019

Almada Negreiros

José Sobral de Almada Negreiros nasceu na Roça Saudade, em S. Tomé (S. Tomé e Príncipe), a 7 de Abril de 1893.


«(...) a situação de Almada Negreiros é ímpar, ao longo dos sessenta anos em que actuou, durante a vigência de três ou quatro gerações que variadamente o acolheram. O seu valor é sem dúvida especial (...)
Artista do Sudoeste europeu, da Península Ibérica, "el portugès Almada" foi um poeta e um pintor português, ou mais exactamente lisboeta, por valores assumidos duma mitificação cultural. (...)

Artista português, Almada não teve mestre para o ser. "Nós não precisamos de Mestres, para chegarmos a Mestres bastam-nos os nossos sentidos aqui na cidade." Esses sentidos explicam o visual que desenha ou escreve, aprendendo nessa vivência aguda e amorosa que foi sempre a sua, entendendo os seres e o seu sentido linear atá ao fundo duma anticiência "acusmaticamente" codificada em discurso geométrico.»
José-Augusto França, Amadeo & Almada


domingo, 30 de setembro de 2018

José-Augusto França (1922 - X)

Retiro o 2018 do título (e aguardo que faça o século de vida!)
Tinha ouvido a notícia na Antena 1...


Hoje, último dia de Setembro, partiu José-Augusto França, 95 anos vividos.

«"A beleza da vida está em viver de acordo com a sua natureza e o seu ofício" Fray Luis de León. 
Há muito o cito!»
José Augusto França

Personalidade incontornável do meio cultural português do século XX e já do XXI, com forte ligação às artes (pintura, literatura, arquitectura, cinema...), deixa uma extensa obra publicada e, acredito, alguns estudos por publicar. Aos 92 anos ainda tinha planos para escrever...

Como ele próprio se definiu, numa entrevista em Abril de 2015: «Escritor (que é aquele que escreve, também romances); historiador (que é aquele que escreve história, não só da arte); académico por docência profissional, desde 1974.»

No quadro Os críticos, de Nikias Skapinakis, pintado para A Brasileira,
José-Augusto França é o primeiro da direita.

Na semana passada, a Imprensa Nacional lançou a colecção Biblioteca José-Augusto França, com títulos escolhidos pelo próprio.

Era É natural de Tomar, a cuja Câmara doou a sua colecção de arte, criando o Núcleo de Arte Contemporânea.
«A certa altura da vida (e da idade) ou é leilão ou é doação.»

Aí se pode ver um conjunto de obras de um número vasto de artistas por quem José-Augusto França nutria nutre apreço e, em muitos casos, com quem manteve relações de amizade.

José-Augusto França por José de Guimarães

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Amadeo - Um fenómeno único na pintura portuguesa


«Amadeo foi um inventor: entendeu o cubismo e criou os primeiros quadros abstractos que dele derivaram, adiantou-se ao "purismo", e duma estética futurista passou ao encontro da aventura poética, certo com o movimento da pintura europeia que não podia conhecer no seu isolamento português de então.
A sua obra, truncada pela morte, e toda feita numa idade adolescente de pintor (...) é um encadeamento de períodos de experiências e de invenção, e pode ser verificada, a par e passo, como sendo ora convergente, ora paralela, ora precursora da pintura europeia sua contemporânea.
É um fenómeno único na pintura portuguesa (...)»
José-Augusto França, Amadeo


No Museu Nacional de Arte Contemporânea (Museu do Chiado), até ao próximo dia 26, uma exposição que evoca a que se realizou em Lisboa, na Liga Naval Portuguesa, em Dezembro de 1916. 
Almada Negreiros apresentou essa exposição como "mais importante do que a descoberta do caminho marítimo para a Índia".




quinta-feira, 23 de junho de 2016

Expo 40

«Em 29 de Março desse ano uma nota oficiosa da Presidência do Conselho de Ministros anunciara, para 1940, um ano de majestosas comemorações patrióticas, que eram de independência do país no século XII e da restauração dessa independência no século XVII - 1143 e 1640, nas contas da História.
Aloísio leu com muito gosto o anúncio oficial em toda a largura da primeira página do Diário de Notícias, entre notícias optimistas da guerra de Espanha e uma declaração do chanceler Hitler de que "nenhuma fronteira da Europa correspondia à necessidade dos povos"; era logo depois do "Anschluss" austríaco. E mais uma vez ele admirou a acção do Doutor Salazar, e, sobretudo, a sua oportunidade. Não era o anúncio da Exposição a resposta que um país seguro de si, do seu bom direito e, sobretudo, da sua razão histórica, podia dar ao mundo em luta de forças sem perdão?»
José-Augusto França, A Guerra e a Paz




A 23 de Junho de 1940 foi inaugurada a Exposição do Mundo Português.