"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
Mostrar mensagens com a etiqueta João de Melo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta João de Melo. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 28 de março de 2022

S. Jorge, o sáurio que dorme

«Não sabem como são as fajãs? Imagine-se uma linha de falésias em sucessão ao longo de toda a costa, a norte e a sul da ilha. Para melhor o imaginar, é preciso "ver" a grande muralha verdejante: não inteiramente a pique, antes em declive e em erosão; sobre ela, como um manto de lã tinturada a verde de urze e faia, toda uma coberta vegetal de rara unidade e harmonia. Quando a falésia abate, ou se do alto ela se despenha, formam-se sobre o mar uns terreiros desabados que as forças da natureza moldam e afeiçoam à sua maneira (...). Fajãs são breves territórios postados como esfinges deitadas sobre a linha do mar. Tangidas pela ilha-mãe, vogam como crias ao lado de quem as pariu. As fajãs fazem a pura e inocente beleza de S. Jorge. Sob nomes que tanto lembram Deus como o Diabo: Além, Ouvidor, Cubres, Santo Cristo, a norte; Almas, Vimes, Bodes, Labaçal, ao sul.»

João de Melo, Açores - o segredo das ilhas


Fajã da Caldeira de Santo Cristo

Fajã do Ouvidor

Fajã dos Cubres


segunda-feira, 23 de março de 2020

A quarentena da leitura

«Há gente dentro dos livros. Tem um modo de vida que se traduz em história, humanidade, sonho, riso, sorriso e também nos seus contrários. Por exemplo, a dor da memória, a tragédia na própria pessoa ou na dos outros. Pessoas como nós, evidentemente. Mas o melhor dos livros talvez seja tanto o prazer da sua escrita como a sua linguagem criada por nós para os outros. Essa gente que vive dentro dos livros nunca diz que se sente só – esteja ela em casa, num lugar mais estranho ou num tempo de excepção ao próprio quotidiano. Leiam como essa gente respira, ela que vive dentro, na alma e na palavra do livro. Fala para nós, vê-nos, aponta-nos o dedo ao pensamento e ao coração. Afinal ela somos nós. O livro é um espelho onde se mira a condição humana. Ler livros foi a melhor dádiva que recebi da vida. A leitura ajuda, e muito, a sair de uma realidade para outra. Sempre com a possibilidade de um regresso a nós mesmos. Ora leiam também como eu respiro.»
João de Melo



domingo, 14 de outubro de 2018

Remodelação ministerial - a luz do dia

«Remodelação ministerial. De surpresa. Mas logo saltam à praça as feras televisivas. São os comentadores e os intérpretes do dia. Eles sabem tudo, dizem tudo, não deixam que ninguém pense pela própria cabeça. Estão todos em grande, em triunfo e em glória - mesmo os poucos que não lutaram por uma causa nem tiveram uma finalidade pessoal na sua ânsia de doutrinação política. Sendo assim, o pobre de mim dispensa-se de pensar, de dizer, de discutir o óbvio e o obscuro.»
João de Melo


domingo, 10 de junho de 2018

De barriga cheia!

Feira do Livro...
Um bom dia, apesar de cinzento.
Muita gente.

E o encontro que mais aguardava: Mário Cláudio.
E também João de Melo e Lídia Jorge.
Este ano, já tinha estado com Mário de Carvalho.
A simpatia de cada um...

E lá vieram mais uns livrinhos...

Deana Barroqueiro partiu o braço, deve ter adiado a presença.
Para o ano...
Quando tiver um livro novo.

Tenho de procurar imagens dos livros...


quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

João de Melo - Prémio Vergílio Ferreira 2016


O Prémio Vergílio Ferreira, instituído pela Universidade de Évora, destina-se a galardoar o conjunto da obra literária de um autor relevante de língua portuguesa.
Aguarda-se para breve a edição da próxima obra de João de Melo, Os Navios da Noite, um livro de contos.


domingo, 6 de dezembro de 2015

A Poça do Simão Dias - um submarino encalhado na pedra

Não sei quem foi o Simão Dias, mas a sua poça deve ser a mais bonita de todas.

A Poça do Simão Dias - Fajá do Ouvidor (ilha de S. Jorge)
(Fotografia de Rui Vieira: www.rui-vieira.com)

«A Poça do Simão Dias é uma espantosa enseada, com os montões de lava a erguerem muros a uma piscina natural. Tem-se a sensação de que tudo se desmoronou, e de que as rochas se fragmentaram no mar, perante a verde e impassível muralha da ilha. No meio deste lago de águas tranquilas, emerge um submarino rochoso, com a ponte de vigia ao centro e o dorso meio submerso. Um submarino encalhado na pedra.»
João de Melo, Açores - o segredo das ilhas


sábado, 5 de dezembro de 2015

Os Capelinhos - Um território caído da Lua

«Os Capelinhos estão para ali, em lava e em cinza, com o seu quê de trágico e de grandioso ao olhar, mas como um acrescento ou uma ocupação: a lava que veio do fundo do mar anexou os ilhéus, soterrou em parte o farol, varreu a fogo e matéria ígnea a população do Capelo, estendeu para ocidente os limites primitivos do verde e do azul. É um território caído da Lua desde 1957-58, espécie de chuva radioactiva onde o vento corre como um latido de cão abrasivo, levantando nuvens de cinza e deslocando uma terra de lava que não consolidou uma estrutura nem uma ossada rochosa definida nesse território desolado. A erosão entrou por ali dentro - como entra o cinzel ou o escopo do escultor na pedra arrancada à montanha - e tem vindo a modelar o chão, a forma pouco a pouco descoberta da primeira baía assoreada pela areia escura e pedregosa, entre as duas primeiras falésias.»
João de Melo, Açores - o segredo das ilhas




sexta-feira, 13 de março de 2015

Açores (com vista para as Flores)

«Não há terras mais belas, em todo o território português, do que as dos Açores. Nem em nenhum outro país europeu. Os seus campos são ainda mais exuberantes do que o verde Minho ou a Irlanda; as lagoas, mais lendárias e sobrenaturais do que as da Escócia ou os mil lagos finlandeses; a arquitectura da paisagem, que sobe da costa até ao interior em grandes e caprichosos arcos montanhosos, nada fica a dever às alturas de montanha que movem e encantam o olhar da Europa - dizem-no os próprios europeus que para ali viajam.»
João de Melo, Açores - o segredo das ilhas

Ilha das Flores


segunda-feira, 3 de março de 2014

Olhar as ilhas - do segredo ao conhecimento

Corvo

«De que falamos nós, quando falamos de ilhas? Creio que de formas. Das belas estranhas formas que elas sugerem ao olhar. Sempre que as vemos no mapa, não são mais do que corpos fixos, sem nenhum fogo na alma; corpos em deriva nas voltas, volutas e luxúrias do mar. Mas quando olhamos de uma ilha para a outra, essa nova perspectiva representa também uma mudança na alma e na forma das ilhas. O que dantes nelas era difuso e longínquo como que se ilumina agora sobre as linhas da costa. As cores e as coisas emergem ao lado das sombras. Quando sobre elas se descerra a imensa e húmida cortina do mar, outros relevos saem do encoberto para se acenderem no dia. Então, passam a ser uma visão revelada ou diferentemente configurada nos nossos sentidos. As ilhas ganham um rosto e uma expressão. Os nossos olhos enchem-se de brilho. Tornam-se diáfanas e coloridas de luz as paisagens. E nós passamos do segredo ao conhecimento das ilhas.»
João de Melo, Açores - O Segredo das Ilhas

Pico