"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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quinta-feira, 25 de abril de 2024

25 de Abril

Foram dias foram anos
a esperar por um só dia.
Alegrias. Desenganos.
Foi o tempo que doía
com seus riscos e seus danos.
Foi a noite e foi o dia
na esperança de um só dia.

Manuel Alegre


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

E a terra treme ainda que não trema

Já a terra não treme tanto pelas lagoas do Congro...


Fotografia de Manuel Oliveira (fb)
e do Fogo...

Dentro de cada imagem há outra imagem
e a terra treme ainda que não trema
e até mesmo o silêncio é linguagem
e as pedras são as pedras do poema.
Manuel Alegre, Escrito no Mar - Livro dos Açores


sábado, 20 de janeiro de 2018

Possíveis candidatos ao Nobel da Literatura

Propostos pelos membros da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa, Agustina Bessa-Luís e Manuel Alegre são possíveis candidatos ao Nobel da Literatura de 2018.

Todos os anos o Comité Nobel da Academia Sueca convida várias instituições a apresentarem candidaturas ao Nobel. É a quarta vez que a Academia de Ciências de Lisboa é chamada a participar na apresentação de candidaturas.









Tão diferentes, assim irmanados...

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Poemarma

Que o poema tenha rodas motores alavancas
que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.
Que seja um autocarro em forma de poema.

Que o poema cante no cimo das chaminés
que se levante e faça o pino em cada praça
que diga quem eu sou e quem tu és
que não seja só mais um que passa.

Que o poema esprema a gema do seu tema
e seja apenas um teorema com dois braços.
Que o poema invente um novo estratagema
para escapar a quem lhe segue os passos.

Que o poema corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
que o poema se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês

Que o poema se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
que o poema cante em todas as idades
(que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar.

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua
.
Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas
E até se partir uma não faz mal:
antes de muletas que de asas eternas .

Que o poema fique. E que ficando se aplique
A não criar barriga a não usar chinelos.
Que o poema seja um novo Infante Henrique
Voltado para dentro. E sem castelos.

Que o poema vista de domingo cada dia
e atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o poema vista a prosa de poesia
ao menos uma vez em cada ano.

Que o poema faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo o desejo de achar.

Que o poema diga o que é preciso
que chegue disfarçado ao pé de ti
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
E que o poema diga: o longe é aqui.
Manuel Alegre


O microfone do CMTV nunca será poema!


domingo, 5 de junho de 2016

Arte poética

É enorme esta fotografia de Duarte Belo, na ilha do Pico

Dentro de cada imagem há outra imagem
e a terra treme ainda que não trema
e até mesmo o silêncio é linguagem
e as pedras são as pedras do poema.

No ar que se respira há um perfume
e a terra é como página já escrita
onde a palavra pulsa e me reúne
para dizer a Ilha nunca dita.

Sabe a primeira vez e a nunca visto
eu olho e não resisto à tentação
há música no ar e o Pico é isto
um poema que está feito e eu passo à mão.
Manuel Alegre, Escrito no mar - Livro dos Açores


segunda-feira, 25 de abril de 2016

Manuel Alegre - Prémio Vida Literária

Prémio Vida Literária 2015/2016 para Manuel Alegre.
Escolha unânime da direcção da Associação Portuguesa de Escritores, tendo em consideração os 50 anos de percurso literário e uma obra "símbolo da luta pela liberdade".

O Prémio neste dia fica-lhe bem.

Poema com h pequeno

Cantarei o homem criador crucificado
em suas máquinas. Caçador caçado
por suas armas. Tocador tocado
por suas harpas.
Cantarei o homem vezes homem até ao infinito.
Cantarei o homem: esse mortal-imortal
meu amigo-inimigo. Meu irmão.

Cantarei o homem que transforma tudo
e tão dificilmente se transforma.
Ele que se escreve com h pequeno
em todas as coisas que são grandes.

Cantarei o homem no plural.
Ele que é tão singular
tão impossível de ser outro
senão ele próprio: o homem.

Cantarei o homem vezes homem até à massa.
Cantarei a massa vezes massa até ao homem.
Porque não sei de outra guerra. Não sei de outra paz.
Não sei de outro poema que não seja o homem.

O Canto e as Armas



domingo, 5 de janeiro de 2014

Eu vi-o jogar

Era eu miúdo, morava em S. Domingos de Benfica.
Podia bem ir a pé para o Estádio da Luz. O meu pai fazia muitas vezes serviço aos jogos e levava-me para ver o Benfica.
Depois tornei-me sócio, até 1976, altura em que passaria a sócio sénior e teria de pagar um valor que achei ser mais bem empregue noutras coisas. Prioridades da vida.
Mas no final dos anos 60 e no início da década de 70, era difícil perder um jogo do Benfica na Luz. E o Benfica raramente perdia um jogo.
Tinha o Eusébio.

Eusébio era o rei.
Em 4x2x4, lembro-me que do meio-campo para a frente era Jaime Graça e Coluna, José Augusto à direita, Simões à esquerda, Torres e Eusébio no meio.
Eusébio era o 10.

O 10 era o mais difícil dos "bonecos da bola", no tempo em que os jogadores de futebol embrulhavam um rebuçado de açúcar caramelizado, custando um tostão cada um, comprados perto da escola primária (a "escola das escadinhas", ao Bairro Novo). Mas também os cheguei a comprar em Serpa, nas férias, quando ia com a minha tia Teresa à mercearia do sr. Figueiras e ela me dava o troco das compras.
Dos rebuçados (de fraca qualidade) não queria saber - chegavam a ir para o lixo ou a derreterem-se no fundo dos bolsos, esquecidos numa massa peganhenta...

Houve tempos em que esses "bonecos da bola" iam forrar o interior das caricas, recortados no seu fundo, formando equipas que disputavam renhidos campeonatos, em que eu fazia os relatos, chegando ao pormenor de imitar o bruá do público nos momentos mais empolgantes dos desafios.
Ter o Eusébio nas caricas não era fácil - tomáramos nós tê-lo colado na caderneta.
Imagino o que seria se, na época, já existissem as play station...
Mas o Eusébio não chegou às PS.

As caricas "já foram", os "bonecos da bola" já são cromos autocolantes com fotografias de alta definição, não é preciso fazer cola caseira com farinha e vinagre com que os colávamos nas velhas cadernetas.
Imitar o Eusébio nos jogos de futebol de rua, nunca tentei. Não tinha talento de atacante... Regra geral, jogava a guarda-redes e safava-me (melhor se as bolas iam para a minha esquerda; não era tão hábil se as bolas iam para a direita. Por isso, gastava o joelho esquerdo das calças, ou arranhava o dito - se jogava de calções - e os sapatos na zona do dedo mindinho do pé esquerdo).

Do Eusébio restam-me, então, duas ou três cadernetas com o seu "boneco" e as memórias dos jogos que ele resolvia, as suas fintas desconcertantes, as suas explosões em direcção à baliza e os seus remates poderosos, num tempo em que o marcador do estádio, manual, chegava facilmente aos 5, 6 ou 7 a zero.

A mim, que não perdia um jogo do Benfica, mas que há mais de 30 anos não ponho os pés num estádio, só um Eusébio me faria voltar.
E não há mais nenhum Eusébio.


Havia nele a máxima tensão
como um clássico ordenava a própria força,
sabia a contenção e era explosão,
havia nele o touro e havia a corça.

Não era só instinto, era ciência
Magia e teoria já só prática.
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro jogo e sua matemática.

Buscava o golo mais que golo: só palavra
Abstracção. Ponto no espaço. Teorema.
Despido do supérfluo rematava
e então não era golo: era poema
Manuel Alegre


P.S. - Poema corrigido. A 1.ª versão estava truncada.


sábado, 1 de junho de 2013

Primaveras, Terra e deuses (3)

Os Açores são outra história, outras Primaveras.
A energia da matéria primeira - terrafogo -, que deu origem às ilhas e teimosamente as abala, mistura-se aqui com a energia do mar.
Não conheço outro sítio onde essa mistura seja tão intensa, mar e terra se desafiem e se complementem de forma perfeita.

S. Miguel

Capelinhos - Faial



























«Sei que cheguei a um lugar
para ser novamente nomeado
como se este fosse o mar
nunca dantes navegado.

Como se um vulcão rompesse
de súbito na palavra
e o poema se escrevesse
a fogo e lava.

(...)»
Manuel Alegre, Escrito no mar - Livro dos Açores