"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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domingo, 21 de junho de 2026

e o verão

A mão 
que levei à boca
interminavelmente fresca
é outra vez a casa
onde a palavra
acaba de nascer

e o verão

Eugénio de Andrade


terça-feira, 7 de outubro de 2025

Fernando Paulouro (1947 - 2025)

Li, há dias, a notícia de que presidiria à Comissão de Honra do jornal de que foi director (creio que entre 2002 e 2012, sucedendo a seu tio, António Paulouro, fundador do jornal), depois de já ter sido seu jornalista e chefe da redacção.

O nome Paulouro está no ADN do Jornal do Fundão e associado a uma história de luta e resistência que chegou a custar a suspensão do jornal durante 6 meses, no período do Estado Novo.

Poucos jornais fora do círculo das cidades de Lisboa e do Porto terão tido a qualidade jornalística e o destaque que o Jornal do Fundão conquistou.


Hoje, leio a notícia da sua morte.

Fiquei a saber que, no Domingo passado, Fernando Paulouro apresentara o seu último livro, As Sombras do Combatente, numa sessão realizada na Biblioteca Eugénio de Andrade (Fundão).

Essa sessão, realizada numa sala repleta, terminou com a sua leitura do poema Os Amigos, do poeta que dá nome à biblioteca.

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham;
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria -
por mais amarga.

Os amigos de Fernando Paulouro despediram-se com uma emocionada ovação.

Fica o exemplo, num tempo em que a dignidade faz falta no jornalismo.


domingo, 18 de maio de 2025

Que faremos nós, filho, para que a vida seja mais que a cegueira e cobardia?

«Vais crescendo, meu filho, com a difícil luz do mundo. Não foi um paraíso, que não é medida humana, o que para ti sonhei.

Só quis que a terra fosse limpa, nela pudesses respirar desperto e aprender que todo homem, todo, tem direito a sê-lo inteiramente até ao fim. Terra de sol maduro, redonda terra de cavalos e maçãs, terra generosa, agora atormentada no próprio coração; terra onde teu pai e tua mãe amaram para que fosses o pulsar da vida, tornada inferno vivo onde nos vão encurralando o medo, a ambição, a estupidez, se não for demência apenas a razão; terra inocente, terra atraiçoada, em que nem sequer é já possível pousar num rio os olhos de alegria, e partilhar o pão, ou a palavra; terra onde o ódio a tanta e tão vil besta fardada é tudo o que nos resta; abutres e chacais que do saber fizeram comércio tão contrário à natureza que só crimes e crimes e crimes pariam.

Que faremos nós, filho, para que a vida seja mais que a cegueira e cobardia?»

Eugénio de Andrade
Ao Miguel, no seu 4º Aniversário, e contra o nuclear, naturalmente


domingo, 19 de janeiro de 2025

Eugénio de Andrade, 102 anos

Metamorfoses da casa

Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.
A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.
Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.
Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.
Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.
Ostinato Rigore

Eugénio de Andrade na Casa da Eira, Póvoa de Atalaia, terra do poeta
(Fotografia de Dario Gonçalves)

«Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira Baixa que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio do amor vigilante e sem fadiga de minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que a minha poesia é capaz. As minhas raízes mergulham desde a infância no mundo mais elemental (...)»


Fontanário na Póvoa de Atalaia
(Fotografia de Isabel Duarte)

Eugénio de Andrade faria hoje 102 anos.


domingo, 1 de setembro de 2024

Mar de Setembro

Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto, 
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves - só
ritmo e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem; 
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto.
Puríssimo. Doirado.

Eugénio de Andrade


Marques de Oliveira, Praia de banhos, Póvoa de Varzim (pormenor)


sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

No centenário do nascimento de Eugénio de Andrade

Em dia de centenário, a notícia de que na casa onde Eugénio de Andrade viveu no Passeio Alegre vai nascer a Casa da Poesia Eugénio de Andrade.

Finalmente, depois de anos de um vazio - e de uma casa vazia - o anúncio da sua abertura... a 13 de Junho, data do falecimento do poeta.

A casa do Passeio do Alegre em 2012

O Museu e Bibliotecas do Porto apresentou um vasto programa de exposições, ciclos de conversas, de leituras e de música em torno da vida e da obra de Eugénio de Andrade, que será o escritor homenageado da Feira do Livro do Porto deste ano.

No edifício do Passeio Alegre, hoje reaberto para a realização da cerimónia, foi também feita a apresentação da Biblioteca Digital Eugénio de Andrade.

Esta biblioteca conterá o imenso espólio que estava na posse das autarquias do Porto e do Fundão (concelho da sua origem).

Eugénio de Andrade - pintura de Júlio Resende


Eugénio de Andrade - A voz da mãe e da natureza na poesia

«Por mais voltas que dê, é sempre à minha mãe que vou ter quando me ponho a imaginar como é que a poesia se me cravou tão fundo na carne. À minha mãe e àquele lugar onde os meus sentidos despertaram para uma luz atravessada por um chiar de carros de bois pelas quelhas, a caminho das terras baixas dos lameiros. É sempre àquela fonte que regresso.»

«Depois da ceia, arrumada a cozinha, às vezes minha mãe sentava-se no balcão e cantava. Cantava um desses romances de que eu entendia melhor o ritmo do que as palavras. E não tardava que outras vozes se misturassem com a sua, e não raramente se lhes juntava o som ácido de um realejo, ou o do harmónio, menos acidulado. E foram esses ritmos, essas palavras de misterioso significado que me cativaram e passaram aos meus versos, mas isso só o soube muitíssimo mais tarde, depois de percorrer em livros outros caminhos. Porque esta é a poesia que sempre foi a minha: uma voz que no corpo se faz alma para que noutras almas regresse ao corpo. Essa poesia teve origem nestas terras, entre a luz esfarelada e a poeira levantada por cabras e ovelhas, rompeu na boca e nos olhos daquela gente, despertou com o calor de outros corpos em enxergas de folhelho ou sobre a palha rala de alguma choça de pastor, quando eu anos mais tarde ali vinha ritualmente passar as férias grandes - grandes, grandes, grandes, porque então nem os dias nem as noites tinham fim. Será preciso dizer que foi também nestas terras que os sentidos despertaram e se abandonaram ao desejo doutro corpo?»

Eugénio de Andrade, Rosto precário

Eugénio de Andrade - ilustração de Cristina Valadas

Eugénio de Andrade faria hoje 100 anos.


domingo, 23 de abril de 2023

Dia Mundial do Livro

 

Os livros. A sua cálida,
eterna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua 
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
de alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.
Eugénio de Andrade

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Eugénio de Andrade - O amigo mais íntimo do Sol

«(...) o meu mundo também não era o das letras, mas o dos pássaros e do vento, o das águas e dos amieiros. Essa era a "poesia" que me chegava, mas havia outra, ela vinha na voz da minha mãe, e nos seus intermináveis romances, cuja lembrança me aquece ainda.»

«Por mais voltas que dê, é sempre à minha mãe que vou ter quando me ponho a imaginar como é que a poesia se me cravou tão fundo na carne. À minha mãe e àquele lugar onde os meus sentidos despertaram para uma luz atravessada por um chiar de carros de bois pelas quelhas, a caminho das terras baixas dos lameiros. É sempre àquela fonte que regresso. Nela bebi os primeiros versos (...)»

Eugénio de Andrade

Nascido há 100 anos


domingo, 19 de janeiro de 2020

O silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade (nascido a 19 de Janeiro de 1923)

Eugénio de Andrade desenhado e pintado a café por Artur Bual

sábado, 19 de janeiro de 2019

Serão só palavras...


Diremos prado bosque
primavera,
e tudo o que dissermos
é só para dizermos
que fomos jovens

Diremos mãe amor
um barco,
e só diremos
que nada há
para levar ao coração

Diremos luz ou mar
ou madressilva
mas sem música no sangue
serão palavras só,
e só palavras, o que diremos.
Eugénio de Andrade


Eugénio de Andrade nasceu a 19 de Janeiro.



segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O outono vem vindo...


«O outono vem vindo, chegam 
melancolias,
cavam fundo no corpo,
instalam-se nas fendas; (…)»
Eugénio de Andrade


sábado, 9 de junho de 2018

Uma presença serena



«- Vejo aqui livros da Yourcenar com dedicatórias - conhece-a?
- Sim, conheço-a há muitos anos e gosto muito dela. É uma mulher admirável. Na autora das Memórias de Adriano, a sagesse alia-se à simplicidade , e a elegância não se distingue da naturalidade. É uma presença serena, próxima e distante ao mesmo tempo, como se a fraternidade e a reserva fossem inseparáveis - esquecida da sua grandeza ou demasiado consciente da precariedade dela, passando leve sobre a terra, mas sem contudo perder o contacto com a sua rugosidade.
- Foi ela que aproximou a sua poesia da música de Bach?
- Do Cravo bem Temperado, e dos desenhos de Matisse, sim, foi ela. São imagens que apontam para um rigor que não sufoca o instinto, ou se prefere, imagens de "limpidez no ardor", de que Yourcenar diz conhecer poucos exemplos.»
Do Silêncio à Palavra, 
entrevista concedida por Eugénio de Andrade a Helena Vaz da Silva
(Expresso, 27 de Maio de 1978)




domingo, 25 de março de 2018

Um poema ou uma árvore podem ainda salvar o mundo

O sobreiro é, desde 2011, a Árvore Nacional de Portugal.

Esta semana, um sobreiro de Águas de Moura venceu o concurso europeu de árvore do ano.
Classificado como  “Árvore de Interesse Público” desde 1988 e e inscrito no Livro de Recordes do Guinness como "o maior sobreiro do mundo", chamam-lhe o Assobiador, devido "ao som originado pelas inúmeras aves que pousam nos seus ramos".

Sobreiro de Águas de Moura - o Assobiador

Na mesma data da sua classificação, também o foi um sobreiro de Canha (Herdade Vale da Balça, concelho do Montijo), com cerca de 400 anos, um tronco de perímetro mais largo, uma maior altura  e um diâmetro médio da copa semelhante.
Será maior, parece, do que o primeiro. Mas isso não interessa para aqui.

Sobreiro de Canha (se a pesquisa na net não me enganou)

Em Póvoa e Meadas (Herdade de Pai Anes), concelho de Castelo de Vide, existia um outro sobreiro monumental, “Árvore de Interesse Público” desde 1993.
Esse seria o maior. E mais antigo, ainda. Morreu em 2013(?), já depois de ter sofrido a perda de algumas pernadas em 2007.
Dizem que, cortado, terá dado cerca de 86 toneladas de madeira.

Sobreiro de Póvoa e Meadas (fotografia antiga)


Mais importante para o futuro dos sobreiros, no entanto, será a notícia de que os industriais da cortiça pretendem fazer "crescer a área do montado de sobro nacional em mais 50 mil hectares (os dados actuais indicam que os sobreiros ocupam actualmente 737 mil hectares)".
Diz a notícia de o Público que "O gráfico das exportações da indústria corticeira na última década é uma monótona curva ascendente."

Aqui, não há nada como ser monótono.
E na cortiça, a indústria não pode estar longe do montado.

Um poema ou uma árvore podem ainda salvar o mundo.
Eugénio de Andrade


sábado, 28 de outubro de 2017

Os gigantes de 1867 por Eugénio de Andrade (3) - Camilo Pessanha

«(...) creio que só a Camilo Pessanha amei em segredo como mestre.»



«(...) ele coara de todo o sarro as poéticas fin-de-siècle, que eram as do seu tempo, o que nem Pessoa nem Sá-Carneiro haviam conseguido, relativamente ao tempo deles, com tal perfeição. Mas a sedução maior daquela alquimia estava na sua magistral capacidade de sugerir, de insinuar, de não concluir o que fora começado a dizer, como se dizer não fora para Pessanha o que mais importava. Era a indecisão tornada matéria de poesia, criando-se com esta reticência, uma hesitação entre pensar e sentir. Nunca no corpo do poema o rigor se aproximara tanto do abandono, como se nenhuma elaboração preexistisse àquela trama de misteriosa transparência, como se as palavras desde sempre estivessem apenas destinadas ao ritmo daquela "água morrente", o que eu já sabia ser impossível.»

Eugénio de Andrade, Os afluentes do silêncio


Os gigantes de 1867 por Eugénio de Andrade (2) - António Nobre

«Uma ou outra vez a voz insinuante de António Nobre me seduziu: foi quando descobri o singular ritmo dos seus versos - o ritmo de quem embala ao peito as próprias mágoas, que teimam em não adormecer.
Se à sua visão falta fundura, a melodia nela sobe, sobe, sem hesitações, e diz o que tem a dizer com uma comovida e dificílima naturalidade.»



«Como não reconhecer em António Nobre um mestre, um mestre da sensibilidade portuguesa?»


Eugénio de Andrade, Os afluentes do silêncio


Os gigantes de 1867 por Eugénio de Andrade (1) - Raul Brandão

«Era um poeta - às palavras estava condenado, mas só elas o poderiam salvar. Só nas palavras a treva do seu ser abria para a luz. E não era a luz toda a ternura do mundo? Por isso se lhes abandonava, com uma confiança que nunca dera à vida. Quando, oh quando poderia regressar ao azul limpo dos seus olhos, sem tropeçar na angústia mais viva? Que voz o poderia reconduzir aos dias em que a consciência de existir não era ainda consciência de ser uma só e paciente espera da morte? Contra a morte só tinha palavras - as que lhe subiam à boca. Na "noite velha" cantava. Cantava para sua mãe que, debaixo da terra, talvez o ouvisse ainda; cantava para o Nel, que depois de tantos anos ainda o via subir às figueiras, aos figos lampos, para lhe dar; cantava para aquela velhinha que lenta, lentamente, subia a ladeira apoiada numa bengala. Cantava para a transparência do mundo.»

Eugénio de Andrade, Os afluentes do silêncio



sábado, 5 de novembro de 2016

José Rodrigues - Um corpo





«Um corpo. Um corpo anda por aqui, obsessivamente, é a alma dos desenhos de Rodrigues. Um corpo opulento e magnífico, um corpo trémulo e desamparado. Da desordem instaurada por um Eros errante, a sua mão recolhe, com apaixonada atenção, um seio onde sentiu um coração opresso, a linha ampla de umas ancas friorentas, a curva adolescente e terna de uns ombros nus, a sombra expectante de um sexo, uns dedos abandonados ao acaso das carícias.»
Eugénio de Andrade


domingo, 11 de setembro de 2016

José Rodrigues - como se pensasse com as mãos

José Rodigues segundo Eugénio.
E vice-versa.

«Estava a falar do meu amigo, perdoem-me o desvio: aos vinte e pouco anos o Zé era outra coisa - simpático, barba bem tratada, atelier ali para as Fontainhas, uma maneira fácil e feliz de comunicar, sobretudo com a garotada de S. Vítor, que lhe batia à porta pelo barro com que gostava de brincar. Distante do pesadelo da guerra colonial, ele necessitava daquele desprendimento juvenil, como juvenil era a curiosidade por toda a espécie de material, barro, papel, ferro, pedra, carvão, grafite: tudo os seus dedos procuram aquecer, moldar, como se pensasse com as mãos, o instinto sempre à frente farejando, no rasto da luz ou de um aroma, rente ao chão. Eu passava pelo atelier quase todos os dias ao fim da tarde, morava perto e gostava de o ver trabalhar, além de eu próprio, às vezes, me arrumar para um canto com os meus papéis. São desses dias alguns dos melhores retratos que fez de mim. Depois, como aconteceu à maioria das pessoas, com o 25 de Abril foi-se metendo por toda a parte: Escola, Câmara, teatro, cooperativa, o raio. Mas apesar de tanta dispersão, o José Rodrigues continuava a trabalhar, trabalhava sempre, mesmo depois de quebradas as luzes todas da festa; e era uma alma generosa, e, coisa mais rara ainda num português, era homem de palavra, fazia o que prometera.»
Eugénio de Andrade, É sempre escura a sombra



quarta-feira, 6 de julho de 2016

Numa fotografia



Não sejas como a névoa, nem quimera.
Demora-te, demora-te assim: 
faz do olhar
tempo sem tempo, espaço
limpo - do deserto ou do mar.
Eugénio de Andrade, O outro nome da terra