"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

O amor nos tempos de cólera

«A CFC tinha compromissos laborais que Florentino Ariza conhecia melhor que ninguém, tinha contratos de carga, de passageiros, de correio e muitos mais, impossíveis de alterar na sua maioria. A única coisa que permitia saltar por cima de tudo era um caso de peste a bordo. Declarava-se quarentena no navio, içava-se a bandeira amarela e navegava-se em emergência. O comandante Samaritano tivera e o fazer várias vezes pelos muitos casos de cólera que se apresentavam no rio, ainda que depois as autoridades sanitárias obrigassem os médicos a declarar disenteria comum. Aliás, muitas vezes na história do rio se tinha içado a bandeira amarela da peste para fugir aos impostos, para não recolher um passageiro indesejável, para impedir inspecções inoportunas. Florentino Ariza encontrou a mão de Fermina Daza por baixo da mesa.
- Pois bem - disse. - Vamos fazer isso.
O comandante ficou surpreendido, mas logo, com o seu instinto de raposa velha, viu tudo claramente.
- Eu mando neste navio, mas o senhor manda em nós - disse. - De modo que se está a falar a sério, dê-me a ordem por escrito e começamos já.
Era a sério, evidentemente, e Florentino Ariza assinou a ordem. Ao fim e ao cabo toda a gente sabia que os tempos da cólera não tinham acabado, apesar dos informes alegres das autoridades sanitárias. Quanto ao navio, não havia problema. Transferiu-se a pouca carga embarcada, aos passageiros disseram que havia um percalço com as máquinas mandaram-nos nessa madrugada num navio de outra empresa. Se estas coisas se faziam por tantas razões imorais e até indignas, Florentino Ariza não via porque não seria lícito fazê-las por amor. A única coisa que o comandante suplicava era uma escala em Puerto Nare, para recolher uma pessoa que o acompanharia na viagem: também ele tinha o seu coração escondido.»
(continua)
Gabriel García Márquez, O amor nos tempos de cólera



quarta-feira, 6 de março de 2019

Toda a vida

«No dia em que Florentino Ariza viu Fermina Daza no adro da catedral, grávida de seis meses e com perfeito autodomínio da sua nova condição de senhora da sociedade, tomou a decisão feroz de ganhar nome e fortuna para a merecer. Nem sequer se deteve a pensar na inconveniência dela ser casada, porque simultaneamente decidiu, como se dependesse dele, que o doutor Juvenal Urbino tinha de morrer. Não sabia nem quando nem como, mas tomou-o como um acontecimento inevitável, e estava resolvido a esperá-lo sem pressas nem arrebatamentos nem que fosse até ao fim dos tempos.»
Gabriel Garcia Márquez, O amor nos tempos de cólera



Parece, mas não é, o princípio do romance. 
No fim, a decisão de Florentino Ariza concretizou-se. "Toda a vida - disse." foi a sua última frase, referindo-se ao futuro.

Gabriel Garcia Márquez faria hoje 92 anos.


domingo, 6 de março de 2016

Data de nascimento de gente importante

6 de Março parece ser um data abençoada para o nascimento de pessoas marcantes em diferentes áreas culturais.

Miguel Ângelo



Gabriel Garcia Márquez

«Ele ainda era demasiado jovem para saber que a memória do coração elimina as coisas más e amplia as coisas boas, e que graças a esse artifício conseguimos suportar o peso do passado.»
O Amor nos Tempos de Cólera


David Gilmour
(o único deste grupo a quem se pode dar os parabéns "ao vivo" - uns lindos 70 anos!)



Lorin Maazel
(aqui como maestro)



A ordem é irrelevante...


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Gabriel García Márquez

«[Sobre Cem Anos de Solidão] (...) escreveram-se toneladas e toneladas de papel, disseram-se coisas absurdas, coisas importantes, coisas transcendentes, mas ninguém tocou o ponto que a mim mais me interessa ao escrever o livro, e que é a ideia de que a solidão é o contrário da solidariedade. Creio que é essa a essência do livro. (...) E eu creio que aqui há um conceito político: a solidão considerada como a negação da solidariedade é um conceito político. E é um conceito político importante.»
Gabriel García Márquez


"(...) já tinha compreendido que não sairia nunca daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilonia acabasse de decifrar os pergaminhos e que tudo o que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e por todo o sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham um segunda oportunidade sobre a Terra.»
Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão