"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
Mostrar mensagens com a etiqueta Raul Brandão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Raul Brandão. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 8 de junho de 2026

De Lisboa ao Corvo

«8 de Junho, 1924

A bordo do São Miguel

Enquanto a gente vê terra, não tira os olhos - não pode - dum resto de areal, dum ponto de violeta que desmaia e acaba por desaparecer na crista duma vaga. Um ponto e acabou o mundo. O nosso mundo agora é outro. Durante um momento calamo-nos todos a bordo. A abóbada esbranquiçada fecha-se e encerra o disco azul onde espumas afloram nos redemoinhos que nos cercam: só uma gaivota teima em nos acompanhar descrevendo círculos por cima do navio.»

Raul Brandão, As ilhas desconhecidas



terça-feira, 28 de maio de 2024

O 28 de Maio de 1926, o General Gomes da Costa e a geringonça


Manuel de Oliveira Gomes da Costa, o general que aceitou arrancar com o movimento militar que eclodiu em Braga, em 28 de Maio de 1926, e que pôs fim à 1.ª República. 

O movimento militar não tinha um projecto político definido, constituindo "uma amálgama heterogénea de interesses e doutrinas contraditórios" que tornou instável a Ditadura Militar que se instalou em Portugal.

Gomes da Costa viria a assumir a chefia do Governo a 17 de Junho de 1926. "(...) demasiadamente impulsivo para seguir qualquer linha de coerência programática" (Adelino Maltez), foi vítima do golpe dos generais Carmona e Sinel de Cordes, tendo ficado preso no Palácio de Belém (8 de Julho). Foi transferido para Caxias e Cascais e, no dia 11, foi desterrado para Angra do Heroísmo, deixando de ter qualquer protagonismo militar e político.
Dele dizia Raúl Brandão que "tem cabeça de galinha e é sempre da opinião da última pessoa com quem fala". 

José Rodrigues Miguéis, no romance O Milagre segundo Salomé, retrata bem o ambiente que se vivia no período de crise da 1.ª República e de transição para o regime ditatorial - "Trata-se da figuração simbólica de uma época, ambiente e estado de espírito colectivo, sob a forma de romance convencional" -, desenhando em vários capítulos um retrato de Gomes da Costa - o "General ABC": 
«A Nação, inerte ou entregue a si mesma, quer sonhar perfeito o Herói para o venerar melhor na paz da inconsciência. Ele fará tudo por nós, durmamos pois! Esperamos sempre que um ente superior, sobrenatural, eterno Desejado, faça por nós aquilo que somos incapazes de, ou não estamos dispostos a fazer. (...) Nos momentos de crise (e quais o não são!) fala-se dele como do Homem-capaz-de-meter-isto-nos-eixos. Os partidos disputam-no, fazem-lhe namoro, mas ele, oh!, é apenas (textual) "um soldado que cem vezes arriscou a vida pela Pátria", e com franqueza a Pátria começa a estar enjoada de politicagem.»

É neste romance, "terminado provisoriamente" nos anos de 1950, mas só publicado em 1975, que é utilizada, a propósito do contexto político, não sei se pela primeira vez, a expressão "geringonça".
«Eu não perdi a fé na República como ideia-força, mas se ela se não salva por si, alguém terá de a vir salvar. Quanto a mim, o problema é essencialmente económico, mas tudo depende da fórmula política. Se não for dentro da geringonça parlamentar, há que ir buscá-la fora dela.»

Nem Paulo Portas, nem Vasco Pulido Valente - José Rodrigues Miguéis!


domingo, 27 de março de 2022

S. Jorge, estiraçada a outro comprimento

«O mar está espelhado e o céu tão espelhado como o mar, com brancuras de algodão, e nuvens meio adormecidas, orladas de cinzento. Tudo tão branco e parado que parece que o tempo suspendeu a sua marcha. Olho para o mar com rastejados de caracol e pedaços brancos iluminados por dentro. Ao longe vai aparecendo e acompanha-me sempre outra ilha. S. Jorge, estiraçada a outro comprimento. Já percebi que o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha que está em frente.»

Raul Brandão, As ilhas desconhecidas

Em primeiro plano, a vila de Velas.
Ao fundo, a ilha do Faial. Sobre a esquerda, a ilha do Pico
Fotografia de 2008, o último ano em que estive em S. Jorge.

No centro do grupo central (mais central era difícil), S. Jorge é um território insular com 56 km de comprimento e apenas 8 km de largura máxima, com uma cadeia de relevos em posição central, criado por uma série de episódios vulcânicos, no seguimento uns dos outros, mas espaçados no tempo. 

A orla costeira é escarpada e alta, erguendo-se verticalmente do mar. Na base das arribas, encontram-se as numerosas fajãs (a que havemos de voltar, porque de Velas e de fajãs agora muito se fala).



S. Jorge, com a ilha do Pico em frente.
Foto de 1994, o ano em que conheci as ilhas.


segunda-feira, 16 de março de 2020

À espera das andorinhas


«Portugal, nos primeiros dias de primavera, é coberto de asas e o céu azul chilreia. Toda a gente espera as andorinhas. As rústicas escolhem os campos; e as outras procuram as vilas, as cidades, a convivência dos homens e os velhos beirais a cair para uma banda. Conhecem as pessoas, entram pelas janelas com familiaridade, e na antiga casa da aldeia até dentro da sala constroem o ninho. […]

Conhecem Portugal a palmos: as eiras do Minho, com alguns punhados de milho, e as vastas eiras do “monte” alentejano; os descampados do sul com alguns pinheiros mansos isolados, e o homem do Algarve que desbrava a terra a fogo e pesca o atum na costa. São elas que põem Portugal em comunicação com o céu, e que fazem a primavera nos primeiros dias de Março. Não há verdadeira primavera nos países onde não há andorinhas.»
Maria Angelina e Raul Brandão, Portugal Pequenino (1930)


Manet, As andorinhas


quinta-feira, 12 de março de 2020

A vida é fictícia... - Raul Brandão

«A vida é fictícia, as palavras perderam a realidade. E no entanto esta vida fictícia é a única que podemos suportar. Estamos aqui como peixes num aquário. E sentindo que há outra vida ao nosso lado, vamos até à cova sem dar por ela. E não só esta vida monstruosa e grotesca é a única que podemos viver, como é a única que defendemos com desespero. — Pois sim... pois sim... Estamos aqui a representar. Estamos aqui todos ao lado da morte e do espanto a jogar a bisca-de-três. Estamos aqui a matar o tempo. Este passo, que é único e um só, damo-lo como se fosse uma insignificância.»
Raul Brandão, Húmus

Raul Brandão nasceu a 12 de Março.



sábado, 28 de outubro de 2017

Os gigantes de 1867 por Eugénio de Andrade (1) - Raul Brandão

«Era um poeta - às palavras estava condenado, mas só elas o poderiam salvar. Só nas palavras a treva do seu ser abria para a luz. E não era a luz toda a ternura do mundo? Por isso se lhes abandonava, com uma confiança que nunca dera à vida. Quando, oh quando poderia regressar ao azul limpo dos seus olhos, sem tropeçar na angústia mais viva? Que voz o poderia reconduzir aos dias em que a consciência de existir não era ainda consciência de ser uma só e paciente espera da morte? Contra a morte só tinha palavras - as que lhe subiam à boca. Na "noite velha" cantava. Cantava para sua mãe que, debaixo da terra, talvez o ouvisse ainda; cantava para o Nel, que depois de tantos anos ainda o via subir às figueiras, aos figos lampos, para lhe dar; cantava para aquela velhinha que lenta, lentamente, subia a ladeira apoiada numa bengala. Cantava para a transparência do mundo.»

Eugénio de Andrade, Os afluentes do silêncio



Gigantes

«1867, Um Ano de Gigantes» foi o título de um congresso organizado, esta semana, pelo Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias - CLEPUL (da Faculdade de Letras de Lisboa), que assinalou os 150 anos do nascimento de três nomes grandes da literatura portuguesa: Raul Brandão, António Nobre e Camilo Pessanha, por ordem cronológica.

Vivendo na mesma época, foram três personalidades bem distintas que construíram, cada um per se, uma obra original e precursora, que reflecte os respectivos universos particulares.

«Os seus percursos autorais configuram importantíssimas respostas a um momento de confluências e transições, que passam pela receção crítica da cultura portuguesa em sentidos convergentes e distintos dos ensaiados ao longo do século XIX, em particular pela Geração de 70, pela imagem que deles foi feita por parte dos mais representativos escritores das primeiras décadas do século XX, e pela renovação que deram aos géneros e formas consagrados, antecipando em muitos aspetos o que de mais moderno e singular se produziria ao longo de Novecentos.» 
(do programa do congresso)


domingo, 12 de março de 2017

Raul Brandão, Húmus

«- A alma - diz ele -, ao contrário do que tu supões, a alma é exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a matéria. Em certos homens a alma chega a ser visível, a atmosfera que os rodeia toma cor. Há seres cuja alma é uma contínua exalação. Há-os cuja alma é duma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. Daí também simpatias e antipatias súbitas quando duas almas se tocam, mesmo antes de a matéria comunicar. O amor não é senão a impregnação desses fluidos, formando uma só alma, como o ódio é a repulsão dessa névoa sensível. É assim que o homem faz parte da estrela e a estrela de Deus. Nos vegetais, nas árvores, a alma é interior, pequenina emoção, pequenina alma ingénua e humilde, que se exterioriza em ternura a cada primavera: tocada pelo grande fluido esparso, vem à tona em oiro e verde, em deslumbramento. Nos minerais, na pedra concentrada e recalcada, que dor inconsciente, que esforço cego e mudo por não poder abalar as paredes e comunicar com a alma do universo! A pedra espera ainda dar flor.»
Raul Brandão, Húmus

Celebram-se os 150 anos do nascimento de Raul Brandão e os 100 anos da edição de Húmus.



«Um livro como Húmus pode escrever-se num surto de arrebatada actividade criadora - e nem de outra maneira sabia e podia Raul Brandão escrever. O que todavia não é possível é conceber que uma obra com a riqueza e a complexidade desta possa surgir senão depois de uma larga e reiterada meditação - neste caso a sempre repetida e dramática equacionação das incógnitas que de há muito estavam na base da problemática existencial do escritor. Deste livro se poderia dizer que contém e amplia todos os outros no sentido de que nele se concentram e desenvolvem, a nível literário até aí ainda não atingido, todas as inquietações que fizeram deste indisciplinado pesquisador de mistérios um originalíssimo espírito metafísico.
Quanto a ser esta a sua melhor obra não há qualquer dúvida. Assim unanimemente os críticos o têm entendido e assim a considerava o próprio Raul Brandão, conforme testemunho de Câmara Reis.»
Guilherme de Castilho, Vida e obra de Raul Brandão


Raul Brandão - Só a luz!

«Se vale a pena viver a vida esplêndida - esta fantasmagoria de cores, de grotesco, esta mescla de estrelas e de sonho?... Só a luz! só a luz vale a vida! A luz interior ou a luz exterior. Doente ou com saúde, triste ou alegre, procuro a luz com avidez. A luz para mim é a felicidade. Vivo de luz. Impregno-me, olho-a num êxtase. Valho o que ela vale. Sinto-me caído quando o dia amanhece baço e turvo. Sonho com ela e de manhã é a luz o meu primeiro pensamento. Qualquer fio me prende, qualquer reflexo me encanta.»
Raul Brandão, Memórias III

De um escritor frequentemente sombrio...
mas que consegue pintar com palavras e tintas vivas (porque nunca foi de meias-tintas).

Caricatura da autoria de Miguel Salazar


Raul Brandão - 150 anos

«Tenho diante de mim a sua figura enorme, vejo-o caminhar, umas pernas imensas sustentando um corpo mais pequeno, andar um pouco desarticulado, apoiado à sua bengala (...) Não esqueço mais o seu olhar infinitamente azul, a sua cabeça aristocrática, a sua voz a falar-me de coisas extraordinárias.»
Carlos Carneiro (escrevendo sobre Raul Brandão)

Raul Brandão na caricatura de Stuart Carvalhais (1927)


sábado, 12 de março de 2016

Raul Brandão, esquecido

«Uma literatura faz-se com vivos e mortos. Não só a ficção os junta na sua comunidade milagrosa, como têm prazo dado na imaginação do leitor, que sente a sombra do escritor morto, de ontem ou de há seis séculos, na inspiração e no estilo do escritor contemporâneo. (...)
Um esquecimento negro caiu sobre Raul Brandão, por exemplo, e quase o sepultou pela segunda vez. As últimas edições dos seus livros, paradas no mercado há mais de dez anos, nem quase se vêem já nos mostradores, onde no entanto abunda tanta farfalha impressa. Porquê? Perdeu o grande escritor a actualidade dos seus temas, o timbre da sua voz sincera e humana como poucas, a impressividade das suas páginas? Quanto aos temas, o fundo populista de Os Pobres, de Húmus, de A Farsa, tão vivo e pungente (e falo de populismo por ser uma tendência que parece estar na moda em ficção novelística), lá está a atestar que não é por falta de uma relação forte entre a obra de um morto e os seus sobreviventes e pósteros imediatos que os seus livros não são lidos e cotados nos recontares dos letrados.»
Vitorino Nemésio, Raul Brandão, esquecido, in Diário Popular, 7 de Dezembro de 1949

Raul Brandão nasceu a 12 de Março de 1867, na Foz do Douro.



Foz do Douro

Raul Brandão - comemorações dos 150 anos do nascimento


in Reflexo Digital, 10 de Março de 2016

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Nascimento de Jesus

«DAQUI A ALGUMAS HORAS CELEBRA-SE EM TODO O MUNDO a maior festa do ano. Cada lar é um templo: Deus está presente e desce até ao coração de todas as criaturas, que nessa hora suprema esquecem os agravos e as injúrias para comungarem, com lágrimas nos olhos, o mesmo pão, em torno da mesma mesa, junto ao lume que as aquece. Se há festa ao mesmo tempo cheia de grandeza e de humildade, de ternura e paz, de alegria e de imensa tristeza também - pois que de ano para ano a Morte leva um, depois outro - é esta...»
Raul Brandão, in O Dia, 24 de Dezembro de 1903
(A pedra ainda espera dar flor)


Feliz Natal


terça-feira, 9 de setembro de 2014

As ilhas (re)conhecidas

Encontrei as minhas ilhas conhecidas nas notas e paisagens de Raul Brandão e nas fotografias de Jorge Barros.


«Este livro é feito com notas de viagem, quase sem retoques. Apenas ampliei um ou outro quadro, procurando sempre não tirar a frescura às primeiras impressões.»
Raul Brandão (1926)


«Sempre que regresso às ilhas atlânticas trago comigo o livro de Raul Brandão. Descubro na sua leitura sítios e situações - na luz e no silêncio -, coisas que me surpreendem, seduzem, fascinam.
Mas é o convívio humano - olhares, gestos -, e a sua generosa entrega, que me enriquece espiritualmente e que aqui procurei evocar.
O amor para com os outros é o melhor de nós. E é o melhor de nós que encontro no meio deste mar imenso.»
Jorge Barros (2011)


«A nossa última viagem foi aos Açores numa época (1926) em que quase não se falava ainda nesse lindo arquipélago, e Raul Brandão partiu com o carinho que sempre dispensava a qualquer obra que empreendesse (...)
(...) em todas as ilhas ficou um pouco do nosso coração.
Foi talvez esta a última viagem, que tanto nos encantou, a causa do avanço mais rápido da doença de Raul Brandão porque a sua saúde já era precária e o trabalho foi exaustivo, a aproximação constante do mar devia ter influído na depressão tão grande do seu coração.»
Maria Angelina Brandão, Um Coração e uma Vontade. Memórias (1959)


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Não fui espreitar a casa em que nasceu Raul Brandão

«E nas minhas visitas à Foz raro é que não vá à Cantareira, espreitar a casa em que nasceu Raul Brandão. Esse foi meu mestre e meu amigo o deslumbramento inesquecível da minha juventude de incipiente sonhador, que ele acalentou a um fogo ardente e magnífico.
É uma ruazita estreita e sinuosa, à qual deram o nome do escritor. A pequena casa tem dois pisos, as janelas e as portas emolduradas de grossa cantaria de granito. Nunca sequer ali tentei entrar, porque não sei quem hoje lá mora, quem habita debaixo daquelas telhas, e temo que me confrangeria o que ia ver.»
Manuel Mendes, Na Cantareira (Abril de 1963)

Faço quase sempre o mesmo: espreitar a casa do mestre.
Este ano não o fiz.

Jardim do Passeio Alegre, em frente ao Douro


sexta-feira, 4 de julho de 2014

Cidade da Horta

A Horta foi elevada à categoria de cidade em 4 de Julho de 1833.
Foi o reconhecimento, por D. Pedro IV, da adesão da ilha do Faial à causa do liberalismo, depois do Conde de Vila Flor, partindo da ilha do Pico, ter atravessado o canal até à Praia do Almoxarife e corrido com as forças absolutistas, em 1831.

Horta vista do mar (1997)
«Cerca das três horas da tarde, lançámos ferro ao fundo na baía da Horta. Terminada a barulhenta manobra e ferradas as velas, veio de terra um barco verificar se havia doenças ou tabaco a bordo e dar-nos licença de desembarque. Enquanto isso se fazia, íamos observando a cidade da Horta (há pouco elevada por D. Pedro a esta categoria), cujo aspecto é o que melhor impressão deixa, de entre outras cidades ou vilas açorianas que visitáramos. A sua situação não podia ser melhor, tanto sob o ponto de vista comercial, como no que concerne à sua beleza natural. (...) A cidade está edificada junto à praia, estendendo-se ao longo da baía larga linha de casas brancas sem chaminés, sobressaindo de entre elas igrejas, conventos e edifícios públicos.»
Joseph Bullar, médico inglês (1839)
in Maria Filomena Mónica, Os Dabney, uma família americana nos Açores



Horta vista do Monte da Espalamaca (1996)
«Já vejo a Horta ao fundo da baía limitada por dois morros, o Monte Queimado numa extremidade e na outra o Monte da Espalamaca. É uma cidade de uma só rua, como eles dizem, a branco e cinzento. Alguns conventos, algumas igrejas pesadas, velhas e simpáticas casas de província com varandas de madeira e reixas: às vezes na varanda um postiguinho para a mulher falar ao namoro acocorada no chão. - Cheguei-me ao ralo - dizem as meninas.»
Raul Brandão, As ilhas desconhecidas (1926)


terça-feira, 29 de abril de 2014

Açores

«O nosso mundo agora é outro.»


«Aqui acabam as palavras, aqui acaba o mundo que conheço; aqui neste tremendo isolamento onde a vida artificial está reduzida ao mínimo só as coisas eternas perduram.»
Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas
(sobre a ilha do Corvo, 1926)


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A Foz literária

A Foz é literária.
Ou foi.

António Nobre passeava na Foz, onde veio a morrer de tuberculose em casa do irmão. Os bons ares não foram suficientes para o salvar.

Dizem que Eça de Queirós também gostava de lá passear.

O seu amigo Ramalho Ortigão "ainda menino, ia à Foz, à tarde, de chapéu de palha e bibe, apanhar conchinhas na costa." 
Já mais velho, convivia no Chalé Suisso (à época Chalet de António Carneiro) com Camilo Castelo Branco, Arnaldo Gama e Alberto Pimentel, entre outros.
A Foz é a primeira a ser tratada nas suas Praias.

O Chalé Suisso na actualidade

Camilo escreveu Cenas da Foz (que só encontrei na net e ainda não li) e bailaria, na década de 1850, nos saraus do Castelo da Foz. Aí celebrou, com algum escândalo, o aniversário de Ana Plácido, em 1859 (27 de Setembro). Estando já detido na Cadeia da Relação do Porto, incriminado de adultério, obteve autorização para passear fora da prisão, por motivos de saúde, e estendia esses passeios à Foz.
Também aí se hospedaria, mais tarde, com a família.

Sobre Camilo escreveu Teixeira de Pascoaes (O Penitente): "Meu pai conheceu-o no Porto (...). E eu mesmo, talvez houvesse olhado para ele, na Foz do Douro ou na Póvoa, em qualquer Verão da minha infância..."
Na Foz, Pascoaes terá ficado perturbado por um encontro casual que teve com uma "rapariga de cabelos loiros em anéis, a cercar-lhe a cabeça dourada", perseguindo depois, na realidade e na ficção, a figura dos seus sonhos e do seu amor.
No final da vida foi amigo de Eugénio de Andrade, que se mudara para o Porto. Os dois tomavam café na Confeitaria da Foz, onde ainda hoje se comem excelentes bolos (e não só) e se desfruta a presença próxima do mar.

Confeitaria da Foz (agora)
Eugénio de Andrade viria a instalar-se na Foz, em frente ao Jardim do Passeio Alegre, na década de 1990, no prédio que foi sede da Fundação com o seu nome. A luz e o olhar do rio estão na sua poesia.

O poeta homenageia Raul Brandão, nascido numa família de pescadores, na antiga Rua da Bela Vista, hoje rua com o seu nome, bem perto da Igreja de S. João da Foz.
Raul Brandão dedicou o seu livro Os Pescadores à memória do avô morto no mar. O primeiro texto deste livro é sobre a Foz do Douro.

Teixeira de Pascoaes e Raul Brandão,
na casa do primeiro, em Amarante

À Foz ia José Gomes Ferreira nas suas férias. E este poeta também reverencia Raul Brandão, a quem chamou "o meu mestre secreto".

Faltarão outros (faltarão muitas mais coisas...), mas ainda vou buscar o insuspeito Mário Cláudio, portuense de um Porto mais barroco, da pedra do casco da cidade velha, mas que inicia a acção de Anel de Basalto na Igreja de S. João da Foz (barroca - tinha de ser!), quando um serafim de talha que sustentava o retábulo do altar das Santas Mães ganhou vida e anunciou coisas assombrosas a Maria dos Anjos de Sampaio Lobo Pitta e Themudo da Gama, uma santa senhora que rezava, sozinha, no silêncio do templo. A história começa delirante...
Santas Mães
(Igreja de S. João da Foz)
Mas da Foz literária passo a citar os próprios:
«Esta vila adormecida estava a cem léguas do Porto e da vida. Ali moravam alguns pescadores e marítimos, (...). As casas, limpas como o convés de um navio, espreitavam para o mar, umas por cima das outras.»
«O mar embala o Cabedelo. Uma luz como não há outra e que estremece com o movimento e os reflexos da água, um ar como não há outro e que ainda hoje respiro como a própria vida! Silêncio... a Foz vai doirando lentamente, ano atrás de ano, crestada pelo ar da barra, camada de sol, camada de salitre...» 
Raul Brandão, Os Pescadores

Foz, em frente ao Cabedelo

«(...) namoro com o Cabedelo há muitos anos. É uma língua de areia, acariciada pelas ondas. O ar já não será como no tempo de Raul Brandão, mas a luz ainda "estremece com o movimento e os reflexos da água".
(...) E vou esquecer (...) os pescadores do paredão, cuja arte de paciência me lembra os miniaturistas persas, sonhando com fanecas ou enguias ou robalos; vou esquecer-me disso, porque o bonito é o repuxo, sobretudo quando o sol se mistura com as suas águas, e tudo é poeira doirada, como o Cabedelo, que volto a contemplar. Esta é a luz que gostaria de levar nos olhos quando morrer - a luz do mar da Foz, atravessada por duas ou três gaivotas.»
Eugénio de Andrade, À Sombra da Memória


quinta-feira, 4 de julho de 2013

Sem tecto, entre ruínas...

«A vida antiga tinha raízes, talvez a futura as venha a ter. A nossa época é horrível porque já não cremos - e não cremos ainda. O passado desapareceu, do futuro nem alicerces existem. E aqui estamos nós, sem tecto, entre ruínas, à espera...»
Raul Brandão

Fotografia de Sena da Silva

* Devo o título a um livro de Augusto Abelaira.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Pintar o pôr do Sol à beira-mar (com Raul Brandão)

«Se eu fosse pintor, passava a minha vida a pintar o pôr do Sol à beira-mar. Fazia cem telas, todas variadas, com tintas novas e imprevistas. É um espectáculo extraordinário.»
"Tardes violetas"
Raúl Brandão, Os pescadores


E pintava, segundo conta Manuel Mendes, pequenos quadros de paisagens.
Talvez "um pintor perdido", como dizia Columbano, a quem o escritor mostrava esses quadros.

Não sei dos quadros (alguém sabe?), mas vou conhecendo as paisagens que Raúl Brandão pintava com as palavras.


Raúl Brandão e esposa pintados por Columbano (1928)