"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Notre-Dame de Paris - Edith Piaf




A defesa de Notre-Dame de Paris por Victor Hugo


«Todas as formas de profanação, degradação e ruína ameaçam simultaneamente o pouco que resta desses admiráveis monumentos da Idade Média que trazem a marca das glórias passadas de nosso país, às quais estão ligadas tanto a memória dos reis quanto a tradição do povo. Enquanto assistimos a construção, a alto custo, de edifícios bastardos (estes que, com a pretensão ridícula de parecerem gregos ou romanos na França, não são nem gregos nem romanos), outras estruturas admiráveis e originais estão ruindo sem que ninguém se dê conta disso, enquanto seu único crime é o de ser francês por origem, por história e por propósito.»
Victor Hugo

Este era o pensamento de Victor Hugo e a razão por que escreveu Notre-Dame de Paris (1831).




O escritor pensava que a catedral estaria em risco de ser demolida, depois dos danos sofridos durante a revolução francesa, período em que chegou a funcionar como armazém e teve várias imagens e estátuas destruídas.
Victor Hugo apresentava Notre-Dame como o símbolo de um passado glorioso.
A sua obra acabou por ser uma peça fundamental na campanha pela sua restauração, iniciada em 1844.

Catedral de Notre-Dame de Paris em 1840 
Gravura de Gustave Doré para a edição de Notre-Dame de Paris de 1860

A curiosidade de outra gravura de Gustave Doré, com a imagem da catedral, para ilustrar Gargantua, de François Rabelais, na edição de 1854. Gargantua surge refugiado nas torres, de onde roubaria os sinos.


Neste momento, a catedral de Notre-Dame de Paris está a arder...


O tempo, esse grande escultor

A agenda da sessão plenária do Parlamento de amanhã, 16 de Abril, contempla o “Projecto de Lei n.º 944/XIII/3.ª (Cidadãos)” sobre a “Consideração integral do tempo de serviço docente prestado durante as suspensões de contagem anteriores a 2018, para efeitos de progressão e valorização remuneratória”, resultante de uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) desenvolvida desde 17 de Abril de 2018.

Um ano - a democracia custa!

Dos resultados... duvido. 
Penso que será uma discussão inconclusiva, semelhante às do Parlamento inglês, a propósito do Brexit.
As responsabilidades serão empurradas, os custos financeiros apresentados pelo PS continuarão sem confirmação, os imbróglios legais arrastarão a situação até...
E vamos todos continuar na mesma, voltando a página da austeridade.

Não se vê nada à frente


domingo, 14 de abril de 2019

Feliz época pascal




Bibi Anderson

Bibi Anderson, uma das actrizes de Ingmar Bergman, faleceu hoje.



Nem vejo a idade da reforma!

O dinheiro manda!

A sustentabilidade da segurança social... a juntar à da ADSE...
Em período pré-eleitoral, uma nova frente de ataque.
Mais fraquinha, no entanto, do que a já enjoativa nomeação de familiares.
Porque mesmo comentadores como José Gomes Ferreira consideraram, desde logo, que estava em jogo "fazer jeito aos fundos de pensões e às seguradoras".

Será de lembrar que...
... o "isento" coordenador do estudo, Amílcar Moreira, foi Secretário de Estado do Governo de Passos Coelho, época em que se falou do corte de 600 milhões em pensões e o começo da sua privatização - "abrir o mercado ao privado". No fundo é pretender que os privados do sector vivam encostados ao Estado (que nos obrigaria a colocar os nossos rendimentos naquelas instituições).
... o estudo foi encomendado e/ou, pelo menos, pago por quem não prima por bons salários e, logo, ajuda a fracas contribuições para a segurança social.
... quem defende estas políticas tem garantida ou vive de reforma dourada.

Cada vez maior é o problema das políticas de redistribuição - também há estudos que indicam que a percentagem que os trabalhadores recebem relativamente à riqueza produzida tem vindo a diminuir.
E cada vez maior é o problema dos horários de trabalho escravizantes e da perspectiva de reformas indignas (como não serão as dos seus legisladores, do mentor do estudo, de pessoas desta "casta", que acautelaram mui condignamente, com largos cabedais, o seu futuro).

A sustentabilidade do sistema de repartição é uma questão mais política do que económica, financeira ou demográfica. 
Há sempre produção de riqueza e haverá sempre opções a tomar sobre a forma como distribuir essa riqueza.


Estão todos doidos!

Em clima pré-eleitoral - um clima mais frequente do que as próprias eleições - e já no último ano da legislatura (não desvendaram mais cedo?), a direita descobriu um filão que colhe junto das ideias feitas: os tachos, tachinhos...
Como dizia Beckett, "os moralistas são pessoas que coçam onde os outros têm comichão."

Foi recordado - por ironia, a partir de uma fonte insuspeita, O Independente de Paulo Portas - que em tempos idos de governos de centro-direita também os familiares de ministros enxameavam os ditos governos. Mas o que lá vai, lá vai... o pessoal foca-se no presente e segue em frente.

E no presente, por possível interferência do tal clima - talvez por influência do aquecimento global (e mental) - as amêndoas são piores do que o cimento.
O Presidente também ajuda à festa e prepara legislação (sabendo e reconhecendo que não é da sua competência, mas é para ajudar e para precaver o futuro...).


E estes delírios são maus conselheiros.
Tudo se quer legislar. Mesmo onde, mais do que questões legais, se colocam questões éticas. Parece-me...
As decisões tomadas a quente, muitas vezes, revelam-se inadequadas.
Voltando a Beckett, "a virtude absoluta mata o ser humano com tanta segurança como o vício absoluto, pela letargia e pomposidade que provocam".

No actual sistema, em que o poder financeiro se sobrepõe ao político, considero mais preocupante os "tachos" e "tachinhos" dos ex-ministros que saltam para as grandes empresas que beneficiam (será impressão minha?) de legislações/decisões políticas.
Contem-se estes casos. Devem ser mais do que os familiares no Governo.

Sobre este tema, escreveu José Pacheco Pereira (Público, 30 de Março):
«A obsessão populista com os “políticos” esquece que a maioria deles não tem qualquer poder significativo e, ao concentrar-se neles, ajuda a permanecer discretos os verdadeiros poderosos. E esses continuam a “mandar” em Portugal. E não estou a falar do DDT mais conhecido, mas no “círculo de confiança” que dos negócios à advocacia, aos lóbis, às empresas, aos think tanks e fundações subsidiados, controlam tudo o que é importante na decisão económica, social e política em Portugal. Há um “círculo” parecido na cultura e nos media, com relações próximas com o que referi antes, mas esse fica para outra altura.

Esse “círculo de confiança” é informal, mas controla escolhas de pessoas, ou nomeando-as para lugares estratégicos ou vetando-as, talvez o mais importante poder que tem, e acumula uma enorme quantidade de informação, pura e dura, sem distracções, que lhe vem da circulação dos seus membros pelos lugares de poder, quer políticos, quer nos conselhos de administração, quer nas comissões de remuneração, quer na pseudo-governance nas empresas, quer nos escritórios de advogados de negócios – sempre os mesmos a serem contratados pelo Estado ou contra o Estado –, quer nas empresas de auditoria ou de consultadoria financeira, nos grandes bancos, no Banco de Portugal, nos clubes desportivos, nas ligações obscuras na União Europeia, etc., etc. Essas é que são as “famílias” perigosas e também estão no governo, como de costume nas áreas mais sensíveis.

Comparado com isto, as “famílias” governamentais e partidárias são chicken feed, excelente expressão inglesa para designar “uma pequena quantidade de alguma coisa”. Não é que não sejam um sintoma, só que não são um sintoma daquilo que se lhes aponta. São um sintoma de um outro problema da democracia, o encolhimento da oligarquia partidária à medida que, cada vez mais, nos grandes partidos, PS e PSD, se implantam carreiras profissionalizadas, desde as “jotas” ao partido adulto, com gente que não tem qualquer experiência das dificuldades da vida a não ser in vitro dentro dos partidos. E é natural que a endogamia cresça, como acontece em todos os grupos que encolhem ou são muito fechados.»


Taiguara - Terra das palmeiras



Esta canção é do disco Imyra, Tayra, Ipy, de Taiguara, músico de origem uruguaia que viveu no Brasil.
Imyra, Tayra, Ipy é um disco com uma história muito atribulada, a qual teve início quando da sua edição, em 1976.
O seu compositor já tinha um historial de perseguição pela censura brasileira. Tinha regressado, pouco tempo antes, do exílio em Inglaterra. Algumas canções que integram o álbum, como Terra das palmeiras, fizeram a censura actuar.
O disco foi proibido e banido das lojas apenas 72 horas após ter sido lançado. 

Ainda bem que o Brasil não teve ditadura militar!...

Como dizem os versos de Outra Cena (uma outra canção do disco):
A grana o gado o ladrão
O pau o podre o país
Amado o medo a matriz
Só não sofreu
Quem não viu
Não entendeu
Quem não quis


Domingo de Ramos

Em Serpa



Íntima fracção

À memória de Francisco Amaral.

A música que iniciava o Íntima Fracção, num tempo de boas músicas... há já umas décadas.

«Sempre pouco para dizer, muito para escutar, tudo para sentir.»



sexta-feira, 12 de abril de 2019

Robert Delaunay





Quando deflagrou a I Guerra Mundial, Robert e Sónia Delaunay encontravam-se de férias em Espanha. Decidiram fixar-se em Madrid, mas, no Verão de 1915, vieram para Lisboa, à procura de um clima mais ameno. 
Por possível sugestão de Eduardo Viana, alugaram uma casa em Vila do Conde, juntando-se-lhes outros artistas estrangeiros amigos e o próprio Eduardo Viana. 


Fotos encontradas aqui

A luz e as cores fascinaram Robert, contribuindo para as suas teorizações e experiência de novas técnicas. «(...) des contrastes violents de tâches colorées (...) des costumes populaires d'une richesse de couleur rare. Toutes ces rondeurs éclatantes brisées par les noirs profonds et les blancs étincelants des costumes masculins qui apportent de la gravité, des angles dans cette mer mouvante de couleurs répandus.»

Com eles contactaram outros portugueses, como Amadeo Souza-Cardoso e Almada Negreiros.
Em 1917, os Delaunay regressaram a Espanha, já depois de terem vivido os últimos tempos em Valença do Minho e após uma rocambolesca acusação de espionagem (que poderá ficar para uma próxima história...).

Robert Delaunay nasceu a 12 de Abril de 1885.


Cidades, vilas, aldeias, lugares


«Portugal. Começámos por procurar um país com o desejo de o representar. Construímos um corpo de informação que reúne mais de 30 anos de viagens, 750.000 quilómetros percorridos, mais de 1.650.000 fotografias. São todas as cidades, todas as vilas, inúmeras aldeias e paisagens pouco povoadas, da orla marítima, das margens dos rios ao topo das montanhas. Encontramos em Portugal um território de uma grande diversidade, com diferentes modos de expressar a terra, desde tempos imemoriais até ao presente. As formas de mostrar este trabalho são um desafio constante e esta exposição enquadra mais uma tentativa, sempre mais completa, eventualmente mais complexa, que a anterior.»
Duarte Belo

Exposição Fuga. Ar.Co. Lisboa. 2019

«A exposição FUGA - Fazeres de Unidade para a Génese de um Atlas é um conjunto de fotografias, textos, desenhos, mapas e outros elementos gráficos, sobre o processo de mapeamento fotográfico do território. É a descrição extensiva de um caminhar que vai da terra, do demorado contacto com o solo, à palavra. É a geografia de uma construção.»
Duarte Belo



quarta-feira, 10 de abril de 2019

Pornografia!

Uma questão de castas.


São gestores topo de gama!

É o seu trabalho árduo que faz avançar as empresas, a economia, o país, a comunidade europeia, a civilização ocidental...

(e muitos devem ser das mesmas famílias, o que é politicamente incorrecto 
segundo os cânones das últimas semanas)


Os anos da avó

10 de Abril
Era o dia do aniversário da minha avó Alda.



segunda-feira, 8 de abril de 2019

Jacques Brel



Jacques Brel faria hoje 90 anos.


Alfarrabista centenário



Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
é gérmen que faz a palma
É chuva que faz o mar.
Castro Alves




Ao contrário do que o título (e a lógica da vida com os anos contados) possa fazer pensar, é mesmo o alfarrabista - o homem e não a loja - que faz 100 anos.

Li no Público (e as televisões também devem ter lido - hoje, lembraram-se de livros!): João Rodrigues Pires cumpre hoje o seu centenário, trabalhando ainda na sua loja, O Mundo do Livro.

1970

O Mundo do Livro, na esquina do Largo da Trindade com a Rua da Misericórdia, desde 1951, fica numa zona em que o grande número de alfarrabistas antes existentes tem vindo a diminuir drasticamente, em resultado da lei do arrendamento e dos interesses imobiliários numa Lisboa que, a continuar assim, será visitada, no futuro, por turistas que vêm ver os outros turistas, porque indígenas não haverá, pela certa!

Antes de O Mundo do Livro, de que muito se orgulha, João Rodrigues Pires trabalhou para o livreiro Sá da Costa (foi o primeiro empregado da Sá da Costa na livraria do Chiado, hoje, também, espaço de um alfarrabista).

Parabéns João Rodrigues Pires!




domingo, 7 de abril de 2019

Trabalhos forçados

Que empreitada justifica que, ao Domingo, meia dúzia de trabalhadores tenham de andar a calcetar uma rotunda (e os passeios próximos), debaixo de uma chuva rigorosa?

À hora da fotografia já não chovia


Almada Negreiros

José Sobral de Almada Negreiros nasceu na Roça Saudade, em S. Tomé (S. Tomé e Príncipe), a 7 de Abril de 1893.


«(...) a situação de Almada Negreiros é ímpar, ao longo dos sessenta anos em que actuou, durante a vigência de três ou quatro gerações que variadamente o acolheram. O seu valor é sem dúvida especial (...)
Artista do Sudoeste europeu, da Península Ibérica, "el portugès Almada" foi um poeta e um pintor português, ou mais exactamente lisboeta, por valores assumidos duma mitificação cultural. (...)

Artista português, Almada não teve mestre para o ser. "Nós não precisamos de Mestres, para chegarmos a Mestres bastam-nos os nossos sentidos aqui na cidade." Esses sentidos explicam o visual que desenha ou escreve, aprendendo nessa vivência aguda e amorosa que foi sempre a sua, entendendo os seres e o seu sentido linear atá ao fundo duma anticiência "acusmaticamente" codificada em discurso geométrico.»
José-Augusto França, Amadeo & Almada


Francis Ford Coppola

«Para perceber o que sou, é preciso perceber o rapaz de cinco anos que era (...). Era muito entusiasta. Adorava representar peças de teatro para os meus amigos, adorava fazê-los representar juntos e acho que continuo assim! Esse Francis de cinco anos é, certamente, o melhor Francis que já existiu e está sempre presente. Na verdade, sou um sobrevivente, sou uma criança que sobreviveu...»
Francis Ford Coppola, entrevista em 1991

Francis Ford Coppola faz hoje 80 anos.


Billie Holiday



Eleanora Fagan, conhecida por Billie Holiday, nasceu a 7 de Abril de 1915.


Canções do tempo do telefone (20)

Your call is very important to us.



Please hold.
E devemos ficar por aqui...


sábado, 6 de abril de 2019

Bento Coelho da Silveira no MNAA


Por doação do Imamat Ismaili em Portugal, na pessoa de Aga Khan, o Museu Nacional de Arte Antiga passou a integrar nas suas colecções duas obras de Bento Coelho da Silveira, um dos mais importantes artistas do barroco português.

Repouso no Regresso do Egipto

Virgem com o Menino e a Visão da Cruz


Neve em Marvão

No fb da Mercearia de Marvão.


Na Marginal... ainda não!



Cenas do tempo do telefone


Marujos do amor


Canções do tempo do telefone (19)

Uma estranha chamada de Istambul...


I got a telephone call from Istanbul
My baby's coming home today


domingo, 31 de março de 2019

Eça não estava lá

Pensei que Eça poderia estar em Paris, onde era Cônsul Geral, quando da inauguração da Torre Eiffel.

Mas Eça estava em Lisboa: tinha vindo perto do final do mês de Março. Os seus companheiros dos Vencidos da Vida recebem-no a 26, para um jantar no Hotel Bragança. E por esses dias repetem-se os encontros e o jantares entre os amigos.

A subida à Torre Eiffel fá-la-á mais tarde, a 27 de Agosto, acompanhando o (ainda) príncipe D. Carlos. Este teria ido a Paris pela Exposição Universal. 

«Por aqui nada de novo. Esteve cá Luís Soveral, e fizemos um jantar de vencidos, com bacalhau, na Maiso d'Or. Depois houveram cantigas e danças. Agora está cá o Príncipe. Subimos com ele à Torre Eiffel - e, sicut licet exclamámos: "é explêndido!" A torre não dá para mais do que uma exclamação - mas essa é de dever, e não lha regateámos.»
Carta a Oliveira Martins



Torre Eiffel inaugurada há 130 anos






Entre o que (não) me apetece e o que tenho que fazer...




Muda a hora


O despertador desperta, 
acorda com sono e medo; 
por que a noite é tão curta 
e fica tarde tão cedo?
Millôr Fernandes



sábado, 30 de março de 2019

Loving Vincent


Vincent van Gogh nasceu a 30 de Março.


Meter os pés pelas mãos...



É o resultado das jigajogas, das vias tortuosos por que se metem, das leis engendradas para contornar os custos financeiros que uma correcta solução da contagem do tempo de carreira implicaria.
É verdade que implica verbas elevadas. Mas todos estes caminhos ínvios aumentam as situações de injustiça. E resta saber se as despesas, no final, não serão pouco inferiores.
E vamos de malabarismo em malabarismo, de erro em erro, de injustiça em injustiça. Qual delas a pior...

Mas do Ministério da Educação já esperamos tudo.
Não há trapalhada e justificação caricata que chegue!


Canções do tempo do telefone (18)





Esse olhar que era só teu




O olhar da Ponta dos Corvos para Lisboa...


... que já era dos Trovante, de Terra Firme.


Metamorfoses da Humanidade, de Graça Morais



Metamorfoses da Humanidade de Graça Morais
Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado

«Um conjunto de mais de oito dezenas de desenhos e pintura sobre papel compõe a exposição Metamorfoses da Humanidade, da pintora Graça Morais. Reflectindo sobre as múltiplas faces da natureza humana, com as suas fragilidades e as suas aterrorizadoras atitudes predatórias, estes desenhos recentes de Graça Morais (realizados em 2018) oferecem-nos, como num espelho quebrado, os múltiplos reflexos dos nossos muitos medos quotidianos: a guerra, a exclusão, a perda absoluta, a fome, a morte. Em cada um dos trabalhos apresentados, como se em pequenos pedaços de um mundo estilhaçado, reconhecemos emoções que nos são íntimas. A voragem, a capacidade de destruir, a vontade de recusar ao outro a sua humanidade e dignidade, ou o desejo de domínio — tudo isso lá está. Mas não apenas isso. À parte o sofrimento das vítimas, também aí representadas, na sua silenciosa e derradeira resistência, na sua resiliente exigência de dignidade, desponta nestes trabalhos o teimoso caminho para a esperança. A empatia pelas vítimas, a capacidade de dar voz a quem a não tem, sente-se e ouve-se nestes trabalhos que mostram, como com uma lupa, as grandes tensões do nosso tempo, condensadas em imagens perturbadoras e tocantes.»

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«A metamorfose é o que faz de nós "alguma coisa", mesmo quando o traço imemorial da fera parece difícil de ser arrancado ao colectivo.»
Agustina Bessa-Luís, As metamorfoses


Pelo caminho, pelo caminho, pelo caminho...

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.


DN, 29 de Março
Depois querem o quê?

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drummond de Andrade


sexta-feira, 29 de março de 2019

Miguel Torga

«Já era hora de voltar. Andrée não se conformava que não víssemos o Torga. Passamos novamente pelo consultório e ele desceu. Gentilíssimo, talvez não seja adjectivo que convenha a ele, pois a sua cordialidade é feita mais de franqueza e à vontade do que de amabilidade, mas foi encantador. (...)
Na verdade, ele é meio primitivo, não é um homem de sociedade, mas tão inteligente, tão brilhante, tão diferente, que vale a pena vê-lo e ouvi-lo.»
Cleonice Berardinelli, Diário de Viagem (29/3/1959)
(JL, 12 de Outubro de 2016)

Miguel Torga e Andrée Crabbé Rocha


quinta-feira, 28 de março de 2019

Os românticos, pais do escritor moderno português

«É só com a transfusão romântica que o sangue da literatura portuguesa ganha vida outra vez. Desperta com viço desconhecido tanto nas veias afidalgadas de Garrett, como nas plebeias de Herculano. O liberalismo, conquistado nos barracões do desterro e na paixão das batalhas, unira todos os filhos progressivos da nação. E eis que renasce uma literatura rica das mais fundas virtualidades nacionais, máscula, imaginosa, ou grácil, com deliberadas raízes na tradição e altos anseios universais. O folclore é descoberto e estudado, as lendas são recolhidas, o passado é meditado ou dramatizado, e cada motivo leva uma volta original, inesperada e duradoira. Cultores dos vários géneros da expressão escrita, ambos possantes e fecundos, Garrett e Herculano dão ao teatro, ao romance, à poesia e à história uma dignidade e uma beleza há muito desconhecidas. Pela primeira vez surge em Portugal o escritor de ofício, o homem que põe nos seus livros não apenas a vocação, mas também o seu destino social. Em Herculano, sobretudo, onde essa união é mais convincente, joga-se com o brio do artista a própria integridade moral do homem. A arte, agora, é vista como um bem colectivo, património de todos, que é preciso defender e propagar. E tanto o Divino como o futuro Solitário de Vale de Lobos actuam como criadores e clercs. São eles os verdadeiros pais do escritor moderno português.»
Miguel Torga, Panorama da Literatura Portuguesa (1954)

Almeida Garrett e Alexandre Herculano
Pormenor de painel da autoria de Columbano Bordalo Pinheiro,
nos Passos Perdidos do Palácio de S. Bento (Assembleia da República)

Alexandre Herculano nasceu a 28 de Março de 1810.


Canções do tempo do telefone (17)





terça-feira, 26 de março de 2019

Canções do tempo do telefone (16)




Como a morte pode melhorar as pessoas

Leio em quase todos os meios de comunicação social on line os maiores elogios às qualidades humanas e profissionais de João Vasconcelos, ex-Secretário de Estado da Energia, hoje falecido.

Recordo-me que abandonou esse cargo na sequência das viagens e idas ao futebol pagas pela Galp (acho que foi isso...), quando nos mesmos meios de comunicação lhe "ladravam às canelas", pondo em causa a sua idoneidade.

Não o conheci.
Só sei que morrer aos 43 anos é muito cedo.


segunda-feira, 25 de março de 2019

Manuel Graça Dias, 1953 - 2019

«Se hoje pudesse ir "ao volante pela cidade", procuraria um outro roteiro onde coubessem a sua paixão pela fotografia e os desenhos de juventude em Alcanena. Mas uma noite destas, quando me sentar diante de uma pequena mesa sobre a qual incidirá um foco de luz, no Teatro Azul, em Almada, desculpai-me, se por instantes me ausentar da leitura para a qual estarei sendo convocado. O mais certo é que o pensamento me leve para um canto da sala onde o imaginarei discutindo cores fortes com Pedro Calapez, o pintor que gosta muito de arquitectos.»
Fernando Alves, Sinais - TSF, 25 de Março de 2019 



Um breve "se" para Manuel Graça Dias
Crónica integral de Fernando Alves


Canções do tempo do telefone (15)

Operator!



domingo, 24 de março de 2019

Canções do tempo do telefone (14)

A importância de saber os números...



Moçambique - de abraço em abraço

João Gil, com a Cruz Vermelha Portuguesa, lançou o desafio a artistas lusófonos para participarem na "Operação Imbondeiro - O Maior Concerto do Mundo", via internet.
O objectivo é a angariação de fundos destinados a ajudar Moçambique.

No Verão de 1985, um conjunto de artistas juntou-se com o mesmo objectivo, por causa da fome e da seca que nessa altura afectava aquele país.
O disco com a canção Abraço a Moçambique foi gravado em 1985, juntando dezenas de músicos, sob a direcção de Pedro Osório.



Estávamos na época dos grandes espectáculos de beneficência. Poucos dias depois do Live Aid, o abraço a Moçambique culminou num concerto no Coliseu dos Recreios.

Em 2000, as cheias justificaram um novo abraço a Moçambique.
E desta música eu não me lembrava mesmo nada! Terá sido um abraço menos forte...


Agora, novas cheias e o impacto do ciclone Idai.

Venha o novo abraço!
Não resolve os problemas, mas sempre pode mitigar o sofrimento.
E activa a má língua de quem está sempre contra tudo e nunca confia nos outros...


sábado, 23 de março de 2019

Calouste Gulbenkian - 150 anos

Como lembra o DN, celebramos o homem que, 150 anos depois do seu nascimento, pelo seu testamento, "determinou que em Lisboa se criasse uma fundação com o seu nome e que tivesse como propósito fundamental melhorar a qualidade de vida das pessoas através da arte, da beneficência, da ciência e da educação".
Lisboa mudou e a cultura em Portugal também.

A Fundação Calouste Gulbenkian é, de facto e pela sua história, um caso muito particular e... feliz.
Foi um verdadeiro ministério da cultura, no país cinzento anterior ao 25 de Abril. E continuou a sê-lo durante um largo período.
Hoje, esse papel encontra-se esbatido. Bom sinal, pelo crescimento cultural do país (apesar da "pobreza franciscana" dos orçamentos da cultura), não tão bom pelos sinais de maior apagamento da Fundação (saudades do seu Ballet, por exemplo, das longas jornadas de música antiga...).

A Biblioteca, de doce memória dos meus tempos finais do liceu e da faculdade

Integrada nas comemorações do 150.º aniversário de Gulbenkian, uma exposição que pretende mostrar uma vida sem ser uma exposição - Calouste: uma vida, não uma exposição.


Manifestação de professores

Cerca de 80 mil docentes* aderiram ao protesto organizado pelas dez estruturas sindicais que, durante mais de um ano, tentaram negociar a recuperação do tempo integral de serviço: nove anos, quatro messe e dois dias.
Foram movidas mais umas peças neste "jogo de xadrez".


A bola está do lado da Assembleia da República.
Os pedidos de apreciação parlamentar, apresentados pelo PCP, BE e PSD ao diploma do Governo que estabelece a recuperação do tempo de serviço, serão debatidos no parlamento, no próximo dia 16 de Abril.
Li que aqueles partidos «dão razão aos professores e esperam “coerência” no parlamento».
Eu é que espero coerência da parte dos seus deputados!
Sobretudo, pelos colegas mais novos. Já nada lucrarei (nem nada perderei) com o que venha a ser aprovado.  


* P.S. - Talvez 50 mil, 40 mil, 60 mil... quem sabe?


A descoberta da fotografia de Artur Pastor


Em Évora, na Galeria da Casa de Burgos, até 18 de Abril, a exposição Paisagens Urbanas no Alentejo, com fotografias da autoria de Artur Pastor.



A partir da próxima semana, em Tavira, no Palácio da Galeria/Museu Municipal de Tavira, a exposição Artur Pastor e os Mundos do Sul. com trabalhos entre 1942 e 1974.  



Assim podem ser vistas algumas das obras do enorme acervo deixado por Artur Pastor (1922 - 1999) e que têm vindo a ser objecto de uma maior divulgação, dando a conhecer este grande fotógrafo.

Foi em Tavira, durante a prestação do serviço militar, que Artur Pastor, alentejano de nascimento (Alter do Chão), se iniciou na actividade fotográfica.


Trabalhou durante toda a vida no Ministério da Agricultura, tendo sido o criador do seu arquivo fotográfico. Produziu um vasto corpo de imagens de grande qualidade sobre a agricultura em Portugal, mas não se quedou pela temática agrícola.

Fotografia...
«(…) Arte de toda a gente, a que melhor compreendemos e executamos, a que melhor (…) reproduz a realidade que nos cerca.» 
Artur Pastor, Diário de Noticias (29 de Agosto de 1948)


Após a sua morte, o espólio foi adquirido pelo Arquivo Municipal de Lisboa à família do fotógrafo.

«Comprava incessantemente móveis para arquivar fotografias e algumas divisões da casa pareciam exigir a perícia de uma gincana para serem atravessadas. Dava gosto abrir os armários e ver a forma
meticulosa como tudo estava arrumado.» 
Artur Pastor
(o filho, que tem tido um papel importante na divulgação da obra do pai)

Aos interessados:

Arquivo de Artur Pastor (extraordinário arquivo fotográfico)

A Paisagem de Artur Pastor (documentário)

Catálogo da exposição da obra de Artur Pastor - CML 

Fotógrafo Artur Pastor (no facebook)