"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
Mostrar mensagens com a etiqueta Arquitectura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Arquitectura. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 25 de março de 2019

Manuel Graça Dias, 1953 - 2019

«Se hoje pudesse ir "ao volante pela cidade", procuraria um outro roteiro onde coubessem a sua paixão pela fotografia e os desenhos de juventude em Alcanena. Mas uma noite destas, quando me sentar diante de uma pequena mesa sobre a qual incidirá um foco de luz, no Teatro Azul, em Almada, desculpai-me, se por instantes me ausentar da leitura para a qual estarei sendo convocado. O mais certo é que o pensamento me leve para um canto da sala onde o imaginarei discutindo cores fortes com Pedro Calapez, o pintor que gosta muito de arquitectos.»
Fernando Alves, Sinais - TSF, 25 de Março de 2019 



Um breve "se" para Manuel Graça Dias
Crónica integral de Fernando Alves


sábado, 26 de maio de 2018

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Raúl Hestnes Ferreira

Ontem, a notícia da morte de Raúl Hestnes Ferreira, aos 86 anos, arquitecto e professor, filho do poeta José Gomes Ferreira.


Foi através do pai que o seu nome se tornou meu conhecido.
Em 1963, na 1.ª edição de Aventuras de João Sem Medo, JGF faz a dedicatória aos seus dois filhos, «Para os meus dois filhos - o homem e a criança - este Divertimento escrito por quem sempre sonhou conservar a Criança bem viva no Homem.» E torna mais explícito: «Para ti, Raúl José, homem há muito - e homem autêntico -, que aprendeste à tua custa que a verdadeira coragem é a força do coração...»

Raúl Hestnes Ferreira fez formação em várias partes do mundo. «Chegou ao Mediterrâneo por um longo e sinuoso caminho, do Porto à Finlândia, da ordem dos Modernos a Kahn, a Roma, à universidade da ordem compositiva», como assinalou Alexandre Alves Costa.

Família Gomes Ferreira
Estudo e painel de azulejos da autoria de Maria Keil, amiga da família.

«Eu também gostava muito de escrever, mas fui também muito influenciado pela personalidade do arquitecto Keil do Amaral. O meu pai convivia muito com artistas plásticos – sei lá…Manuel Ribeiro de Pavia, a pintora Maria Keil,… – e os meus padrinhos foram Bernardo Marques (desenhador) e Ofélia Marques (uma grande pintora, também). Eu fui criado nas artes, e gostava muito de desenhar. Aos 15, 16 anos, naquelas opções da escola, acabei por enveredar pela arquitectura, e não estou nada arrependido, de facto.»

Das suas múltiplas obras, de que sobressai um Prémio Valmor (2002, Edifício II do ISCTE), destaco três, mais uma vez pela ligação paterna:
- a que foi a sua primeira obra de raiz, a chamada Casa de Albarraque, em Rio de Mouro (Sintra), projecto de 1959-61, desenhada como tranquilo retiro de fim-de-semana para o seu pai, frequentemente referida nos diários de JGF, Dias Comuns;

A Casa de Albarraque (1961?), com José Gomes Ferreira ao cimo das escadas

A Casa de Albarraque (2013), com a presença de Raúl Hestnes Ferreira.
Na parede, o painel de azulejos de Maria Keil

- a escola secundária que tem o nome do pai, em Benfica (pertinho da minha antiga casa);

Escola Secundária José Gomes Ferreira (Benfica)
Maqueta e fotografia tirada do morro fronteiro

- a Biblioteca de Marvila (Lisboa), onde existe uma sala dedicada ao pai, integrando alguns dos seus objectos pessoais, a secretária onde escrevia e a sua biblioteca.


Desenhos de Filipe Pinto, aqui

Como pelo pai sinto a morte do filho.
José Gomes Ferreira que, em A Memória das Palavras, recorda a morte do irmão Jaime, quando ele, no quarto ao lado "a ouvir tudo, tudo, TUDO!...", também estava com febre tifóide.
«Fiquei eu. Sim, eu. De olhos abertos, a ouvir, a adivinhar... Eu. Terrível. Sozinho. Curioso de ouvir morrer. Mãos de horror nos lençóis. Lágrimas a secarem os olhos. (...) Meu pai entrou no quarto e deitou a cabeça a meu lado, na cama, a chorar.»