"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)

domingo, 25 de abril de 2021

Revolução

«Manhãzinha cedo, senti acordar-me o sopro da voz ciciada da minha mulher:
- O Fafe telefonou de Cascais… Lisboa está cercada por tropas...
Refilo, rabugento:
- Hã?
E enrolo-me mais nos lençóis:
- É algum golpe militar reaccionário dos "ultras"... Deixa-me dormir.
Mas qualquer coisa começou a magoar-me a pele com dentes frios, para me dissuadir de adormecer.
E daí a instantes a minha mulher insistiu, baixinho, muito baixinho, com medo de não haver realidade:
- Só funciona o Rádio Clube que pede às pessoas que se conservem em casa.
Golpe militar? Reaccionário, evidentemente. Como se poderia conceber outra coisa?
Levanto-me preparado para o pesadelo de ouvir tombar pedras sobre cadáveres. Espreito através da janela. Pouca gente na rua. Apressada. Tento sintonizar a estação da Emissora Nacional. Nem um som. Em compensação o telefone vinga-se desesperadamente. Um polvo de pânico desdobra-se pelos fios. A campainha toca cada vez mais forte.
Agora é o Carlos de Oliveira.
- Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa?
Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso.
Às oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro:
- Aqui, Posto de Comando das Forças Armadas. Não queremos derramar a mínima gota de sangue.
De novo o silêncio. Opressivo. De bocejo. Inútil. A olhar para o aparelho.
Custa-me a compreender que se trate de revolução. Falta-lhe o ruído (onde acontecerá o espectáculo?), o drama, o grito. Que chatice!
A Rosália chama-me, nervosa:
- Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa.
Corro e ouço:
- Aqui o Movimento das Forças Armadas que resolveu libertar a Nação das forças que há muito a dominavam. Viva Portugal!
Também pede à polícia que não resista. Mas Senhor dos Abismos!, trata-se de um golpe contra o fascismo (isto é,: salazarismo-caetanismo).
(...)
Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas. Ainda assisti, ainda assisti à morte desse maldito meio século de opressão (…).
De súbito a Rádio abre-se em notícias (...)
Abro a janela e apetece-me berrar: acabou-se! acabou-se finalmente este tenebroso e ridículo regime de sinistros Conselheiros Acácios de fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Acabou-se. Vai recomeçar tudo.
(…)
Antes de morrer, a Televisão mostrou-me um dos mais belos momentos humanos da História deste povo: a saída dos prisioneiros políticos de Caxias. (…)
E o telefone toca, toca, toca… Juntámos as vozes na mesma alegria. (Só é pena que os mortos não nos possam telefonar da Morte: o Bento de Jesus Caraça, o Manuel Mendes, o Casais Monteiro, o Redol, o Edmundo de Bettencourt, o Zé Bacelar, a Ofélia e o Bernardo Marques, o Pavia, o Soeiro Pereira Gomes e outros, muitos, tantos... Tenho de me contentar com os vivos. Porque felizmente dos vivos poucos traíram ou desanimaram. Resistimos quase todos de unhas cravadas nas palmas das mãos...)
De repente, estremeço, aterrado.
Mas isto de transformar o mundo só com vivos não será difícil?
Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos.
Revolução.»

José Gomes Ferreira, Poeta Militante (3.º volume)



sexta-feira, 23 de abril de 2021

Dia Mundial do Livro

«Tudo aquilo parecem desenhos, mas dentro das letras estão vozes. Cada página é uma caixa infinita de vozes. Ao lermos não somos olho, somos ouvido.»

Mia Couto, Mulheres de Cinza




sábado, 17 de abril de 2021

Ressonância do 17 de Abril de 1969

No dia 17 de Abril de 1969, o Presidente da República, Almirante Américo Tomás, e os ministros da Educação (José Hermano Saraiva), da Justiça e das Obras Públicas deslocaram-se a Coimbra para inaugurar o novo edifício de Matemáticas na Cidade Universitária.
Apesar do forte dispositivo policial, a comitiva foi recebida por um mar de capas negras com cartazes em protesto. 

O Presidente discursou no novo edifício perante um público de apoiantes, porque os estudantes foram mantidos fora da sala onde a reunião estava a acontecer. No final do discurso, o presidente da Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra (Alberto Martins) subiu para cima de uma cadeira com a capa aos ombros e pediu a palavra "em nome dos estudantes de Coimbra". 
A palavra não lhe foi dada: o Presidente da República, mesmo atrapalhado, introduziu o discurso do ministro das Obras Públicas e a sessão terminou logo a seguir. A comitiva presidencial abandonou rapidamente o edifício entre vaias e gritos. 
Foi o início da chamada Crise Académica de 1969.




Homenagem às lutas estudantis pela liberdade e pela justiça

Está em sépia o perfume deste dia,
navegando a memória, cheiro antigo.
Passa a brisa dos dias docemente,
quase luz, melancólica saudade.
Eram negros os corvos desse tempo,
cercando cada gesto, cada passo,
sem tréguas, com ódio, sem pudor,
apodrecendo mais em cada dia.
Abrimos a janela do futuro
num incêndio de paz e juventude.
Rasgámos o cinzento que doía,
respirando por dentro da alegria.
Quantos anos passaram desfilando
por glórias, sonhos e paixões.
Deixamos que a memória nos semeie,
colhemos esse dia e somos sempre.

Rui Namorado (Abril de 2021)

sexta-feira, 16 de abril de 2021

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Empobrecimento lícito


Tanto se fala em enriquecimento ilícito, que o estudo sobre a pobreza em Portugal - o empobrecimento lícito - fica esquecido e sobre ele não se pretende que se faça justiça. 


Dizia a minha avozinha que ninguém enriquecia a trabalhar. 

Será motivo de reflexão, também, o facto de a fundação que suporta o estudo ser "suportada" por um grupo empresarial que, ao que se diz, não paga muito bem aos seus trabalhadores (vulgo "colaboradores").

P.S. - Hoje, na rádio, ouvi que os stands de automóveis utilitários estão a passar por grandes dificuldades. Os carros de luxo continuam a sair como os pãezinhos quentes do forno.
São trajectos e quotidianos (de quem não tem o "cofre da mãe")...


quarta-feira, 14 de abril de 2021

Dia Internacional do Café - chamar a Cristandade ao café

«Ousarei ainda desenrolar a minha surpresa perante os versos da epístola em que o Santo Padre recomenda o café, com bondoso fervor, insistindo mesmo que o tomemos de Moca e o saboreemos lentamente, em regalados goles? O café! Mas o café foi logo, desde a sua aparição, a bebida directa, quase oficial do racionalismo! Estimulando a imaginação e a razão indagadora - ele implicitamente dissolve o respeito pela regra e pelo dogma imutável. O café, mais que a Enciclopédia, fomentou a Grande Revolução. Bebido, com o alvoroço da sensação nova, por Buffon, Diderot, d'Alembert, Rousseau, ele aqueceu mais aquelas almas calorosas, aguçou mais aqueles espíritos penetrantes: e Michelet não duvida afirmar, com gongorismo, mas com rigor histórico, que essa geração forte descobriu no fundo das chávenas, através da negra e perfumada bebida, o luminoso raio de 89! Os ímpios do século XVIII foram insaciáveis bebedores de café - e, na primeira mesa do botequim do Procópio onde ele se bebeu, se improvisaram decerto as primeiras pilhérias sobre Jeová. Voltaire tirou da cafeteira toda a sua obra demolidora. Esse diabólico rei da Prússia, Frederico-o-Grande, que morreu dos excessos de café, e que se regalara de não acreditar nem em Deus nem na Vida Eterna, exclamava, moribundo: "Já não sou nada, já não bebo café! O café, a quem devo tanta ideia!... Agora ao almoço só sete chávenas e ao jantar apenas catorze!" Voltaire, Frederico da Prússia!... Estes dois únicos homens deviam tornar para sempre suspeitos à Igreja os escuros grãos de onde eles tiraram a força, o ardor, a petulância e "as ideias". E agora Nosso Santo Padre, num lardgo e doce gesto, urbi et orbi, chama a Cristandade ao café!»

Eça de Queirós, Notas Contemporâneas


Sai um cafezinho!


sábado, 10 de abril de 2021

Os outros saem de fininho (e assobiam para o lado)



Todos se centram em Sócrates. E os outros, os donos do capital que corrompe, Salgado (só abuso de confiança?), Zeinal Bava, Granadeiro, Bataglia, as empresas dos ditos?



sexta-feira, 9 de abril de 2021

Um copo à memória de Baudelaire

«Devemos andar sempre bêbedos. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê? Com vinho, com poesia ou com a virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são: "São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto.»
Charles Baudelaire





2.º centenário do nascimento de Baudelaire

 


domingo, 4 de abril de 2021

É a Vida (quase uma Ressurreição)

O correr da vida embrulha tudo,
a vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
O que Deus quer é ver a gente
aprendendo a ser capaz
de ficar alegre a mais,
no meio da alegria,
e inda mais alegre
ainda no meio da tristeza!
A vida inventa!
A gente principia as coisas,
no não saber por que,
e desde aí perde o poder de continuação
porque a vida é mutirão de todos,
por todos remexida e temperada.
O mais importante e bonito, do mundo, é isto:
que as pessoas não estão sempre iguais,
ainda não foram terminadas,
mas que elas vão sempre mudando.
Afinam ou desafinam. Verdade maior.
Viver é muito perigoso; e não é não.
Nem sei explicar estas coisas.
Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor.

João Guimarães Rosa