"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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sexta-feira, 29 de março de 2019

Miguel Torga

«Já era hora de voltar. Andrée não se conformava que não víssemos o Torga. Passamos novamente pelo consultório e ele desceu. Gentilíssimo, talvez não seja adjectivo que convenha a ele, pois a sua cordialidade é feita mais de franqueza e à vontade do que de amabilidade, mas foi encantador. (...)
Na verdade, ele é meio primitivo, não é um homem de sociedade, mas tão inteligente, tão brilhante, tão diferente, que vale a pena vê-lo e ouvi-lo.»
Cleonice Berardinelli, Diário de Viagem (29/3/1959)
(JL, 12 de Outubro de 2016)

Miguel Torga e Andrée Crabbé Rocha


sexta-feira, 9 de novembro de 2018

De 9 para 10 de Novembro - sinais contrários na Alemanha

1938
Noite de Cristal

«Circulavam jornais com caricaturas de judeus de monstruosos narizes em cavalete, olhos esbugalhados, cobiçosos, expressão brutal ou lasciva e mãos papudas, carregadas de anéis descomunais. Publicavam-se artigos aterradores sobre o culto religioso nas sinagogas e nas casas judaicas. Chegava a afirmar-se que os judeus matavam crianças na noite de Passah em que esperavam o Messias. Nos carros eléctricos e nos comboios viam-se os passageiros divertirem-se à custa de tais histórias e das gravuras repugnantes que as ilustravam. Talvez não acreditassem no que liam e viam, mas procuravam a excitação e até o arrepio que lhes havia de justificar o pôr a descoberto os seus maus instintos. A falta de trabalho inquietava-os. Jovens e velhos perdiam os empregos e esperavam em bichas nas repartições de trabalho, para o selo e o carimbo nos cartões do seguro social. Os desempregados enchiam as cervejarias e exaltavam Hitler, que lhes prometia trabalho e lhes afirmava serem os judeus os maiores culpados da desgraça económica do país. O nome "judeu" cada vez se tornava mais injurioso.»
Ilse Losa, O mundo em que vivi

1989
Queda do Muro

«Só quem um dia o viu ao natural, eriçado de arame farpado e de metralhadoras, pode avaliar a vergonha e humilhação que ele representava para o espírito humano. Agora, pronto. Já se podem trocar as virtudes, os vícios e as ideias. E olhar livre e fraternalmente em todas as direcções.»
Miguel Torga, Diário XV


quarta-feira, 30 de maio de 2018

Juntos


Ponho um ramo de flores
na lembrança perfeita dos teus braços;
cheiro depois as flores
e converso contigo
sobre a nuvem que pesa no teu rosto;
(...)

Depois, 
não sei porquê nem porque não,
essa recordação desfaz-se em fumo;
muito ao de leve foge a tua mão,
e a melodia já mudou de rumo.

Coisa esquisita é esta da lembrança!
Na maior noite,
na maior solidão,
vem a tua presença verdadeira,
e eu vejo no teu rosto o teu desgosto,
e um ramo de flores, que não existe, cheira!
Miguel Torga


sábado, 26 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (13)

«As revoluções não se fazem de cartilha na mão, digam o que disserem os ortodoxos. Vê-se agora, em França. Todas as condições exigidas pela teoria realizadas - a sublevação consciente na rua, os meios de produção nas mãos dos trabalhadores, a pequena burguesia de acordo, os camponeses idem, o poder às aranhas -, e nada. É que os textos sagrados - e até os profanos - só valem o que vale a liberdade de quem os lê.»
Miguel Torga, Diário X (Coimbra, 26 de Maio de 1968)




quarta-feira, 2 de maio de 2018

Estar com a juventude

«Estar com a juventude, sem o proclamar demagogicamente de nenhuma maneira. Estar com ela agora e sempre, na sua encarnação presente e futura, tão discretamente que nunca sinta ao lado nem uma presunção protectora, nem uma ambição mentora. Acompanhá-la nas horas boas e más, só através da sinceridade duma atitude ou da pureza dum poema que lhe acudam à lembrança.»
Miguel Torga, Diário X (Coimbra, 7 de Maio de 1968)


sábado, 12 de agosto de 2017

Aniversário

Há trinta e cinco anos que nasci.
Foi um calvário lento esta subida!
Chuva, granizo, neve, e o que não vi
Que era um sol frio e me gelava a vida...

De vez em quando uma bandeira erguida
Lá muito longe, ao fim da encosta, ali
Onde a vista só chega comovida...
Era outro Homem que passava aí.

Nem uma telha contra essa invernia!
A própria pele humana que trazia
Tornou-ma em carne viva o aguaceiro...

Falta chegar ao fim, à cruz e ao fel.
Fazer a sério o resto do papel,
Até que o tempo corra o reposteiro.
Miguel Torga, Diário II (12 de Agosto de 1942)



domingo, 1 de janeiro de 2017

Outro ano


«Outro ano. Toda a gente excitada, e, de conhecido para conhecido, esta senha:
- Boas entradas!
- Igualmente! - responde o contemplado.
E lá segue cada qual o seu caminho, com o supersticioso pé direito à frente, não vá o demo tecê-las.
A estafada e monocórdica ária de sempre, que apenas mói os ouvidos de quem é por condenação um rói-migalhas, e passa o tempo a reparar nas inocências do homem, e a registá-las.


Ano Novo! Os torcegões que a realidade sofre nas nossas mãos, a ver se conseguimos disfarçar-lhe a crueza! A imaginação colectiva aos sobressaltos, na grata ilusão (na triste ilusão) de que a coisa vai começar agora - agora que o ano é novo, o século é novo, a idade é nova. No fundo, todo o passado é um erro para cada um de nós. E como ninguém é capaz de aceitar corajosamente os erros e de fazer deles um roteiro de sinceridade, contorna-se o problema desta ingénua maneira: recomeçar.  Sem nos querermos convencer de que nada pode deixar de ser como é, porque continuamos os mesmos e, só errado, o caminho é bonito e nos apetece. (...)


Mas como felizmente ninguém pode voltar atrás, nem saber antes de saber, vai de recomeçar vida nova cada novo ano. Cada novo ano que passa a velho logo que se fazem trezentas e sessenta e cinco tolices...»
Miguel Torga, Diário II (Coimbra, 1 de Janeiro de 1943)


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A castanha



«Mas o fruto dos frutos, o único que ao mesmo tempo alimenta e simboliza, cai dumas árvores altas, imensas, centenárias, que, puras como vestais, parecem encarnar a virgindade da própria paisagem. Só em Novembro as agita uma inquietação funda, dolorosa, que as faz lançar ao chão lágrimas que são ouriços. Abrindo-as, essas lágrimas eriçadas de espinhos deixam ver numa cama fofa a maravilha singular de que falo, tão desafectada que até no próprio nome é doce e modesta: a castanha. Assada, no S. Martinho, serve de lastro à prova do vinho novo. Cozida, no Janeiro glacial, aquece as mãos e a boca de pobres e ricos. Crua, engorda os porcos, com a vossa licença...»
Miguel Torga, Um Reino Maravilhoso (Trás-os-Montes)



Fotografias de Georges Dussaud 
Trás-os-Montes - Montezinho (2013-2014)


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Eu gosto do Porto

«Eu gosto do Porto. Não do Porto erudito do Sampaio Bruno, ou do burguês e literário do Ramalho. Gosto de um Porto cá muito meu, de que vou dizer já, e amo-o de um amor platónico, avivado de ano a ano à passagem para a minha terra natal, quando o menino Jesus acena lá das urgueiras.
Entro então nele a tiritar de frio, atravesso-o molhado de nevoeiro, tomo um quarto, e deito-me no aconchego dessa velha e particular paixão que nos une. No dia seguinte, pela manhã, levanto-me, compro um jornal, embarco, e a minha visita anual e discreta acabou.
De vez em quando perco a cabeça, estrago os horários, e vou ver o Pousão, a mão do Conde Ferreira, a igreja de S. Francisco, ou meto-me num eléctrico e dou a volta ao mundo, a descer à Foz pela Marginal e a subir pela Boa-Vista.»

Miguel Torga, O Porto, in Portugal


Dominguez Alvarez, Porto - Torre dos Clérigos (1938)


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Miguel Torga - O Rosto de Viriato

«(...) uma tarde, já não sei quando, ou talvez ao fim da manhã, ao entrar para o eléctrico dos Olivais, senti um baque, vi aquele rosto como nunca outro assim, não era feio e era quase bonito, estava antes da fealdade e da beleza, era um rosto do homem antes do homem, não podia ser senão ele, ninguém me disse, mas eu olhei e soube que só podia ser ele, Miguel Torga. A menos que fosse a reincarnação de Viriato. E soube mais: soube que ele só podia ser assim, aquele rosto, aquele olhar de águia das montanhas, aquele porte de camponês e príncipe. Soube que ele só podia ser assim e só podia ter aquele nome. (...) Não creio que tenha sido por homenagem a Cervantes e Unamuno, nem sequer pela flor do monte, mas sim pelas vogais e consoantes. Há nomes que estão certos sem se saber porquê e este nome está certo. Veja-se o e de Miguel e o o de Torga, vogais abertas, mas, sobretudo, nem percebo porque nunca ninguém deu por isso, veja-se o g de Miguel e o g de Torga. Esse é o segredo, vogais, consoantes, sonoridades, correspondências, mistérios. Seja como for, ele só podia ter aquele nome e este nome. É por isso que não sei quem é Adolfo Rocha. Acho que Miguel Torga é só isso, Miguel Torga, ele próprio, o outro, no exacto sentido em que Rimbaud definiu o poeta moderno: "je est un autre". Ou talvez seja mais complicado, talvez ele tenha acabado por fazer o contrário: um outro é eu.
O garoto trangalhadanças que de fralda de fora vai à escola aprender a gramática e a tabuada nunca se chamou Adolfo. Mesmo sem o saber ele já era Miguel e só nasceu verdadeiramente quando o autor o pôs em Agarez, que é S. Martinho erigido em local mítico, o tal "local sem paredes", onde a escrita e a vida se fundem em realidade e símbolo para ganhar uma dimensão universal.»
Manuel Alegre

Miguel Torga nasceu a 12 de Agosto de 1907, em S. Martinho de Anta.


terça-feira, 5 de julho de 2016

Agenda cultural do Presidente

Por Trás-os-Montes, Marcelo Rebelo de Sousa esteve em duas inaugurações: a do Espaço Miguel Torga, em S. Martinho de Anta (Sabrosa), e a do Museu Nadir Afonso, em Chaves.
Miguel Torga e Nadir Afonso profetas na sua terra.
Em ambas, a presença dos arquitectos dos edifícios: Souto Moura e Siza Vieira.
E muita gente...
E que gente não falte para visitar esses espaços, conhecer a obra e manter a memória





















domingo, 8 de maio de 2016

A importância do túnel do Marão


Aí está! 
Para reforçar a importância do túnel - a equipa do Desportivo de Chaves está mais perto das cidades onde vai disputar os jogos da I Liga, na próxima época.

«Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente, rasga a espessura do silêncio uma voz de fraqueza desembainhada:
- Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...»
Miguel Torga, Um Reino Maravilhoso


quarta-feira, 9 de março de 2016

Literariamente bem escrito

Miguel Torga em Macau

A 9 de Junho de 1987, na sua visita a Macau, Miguel Torga afirmou, numa conferência no Salão Nobre do Leal Senado:
«Não somos um povo morto, nem sequer esgotado. Temos ainda um grande papel a desempenhar no seio das nações, como a mais ecuménica de todas. O mundo não precisa hoje da nossa insuficiente técnica, nem da nossa precária indústria, nem das nossas escassas matérias-primas. Necessita da nossa cultura e da nossa vocação para o abraçar cordialmente, como se ele fosse o património natural de todos os homens.»
Miguel Torga, Diário XV

Hoje, no seu discurso de tomada de posse, Marcelo Rebelo de Sousa lembrou este pensamento de Torga (e outros, proferidos na mesma ocasião).
Haja quem os conheça!
Haja um Presidente que os conheça, compreenda e... os incorpore!


Interrogado sobre o discurso do novo Presidente, Paulo Portas afirmou que "Foi bom. Literariamente bem escrito."

Como disse Torga, na referida conferência (não sei se Marcelo o recordou), "A paixão tolda-nos a vista."


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Bartolomeu Dias não chegou ao fim...

Eu não cheguei ao fim.
Dobrei o Cabo, mas havia em mim
Um herói sem remate.
Quando os loiros da fama me sorriam,
Aceitei o debate
Do meu destino de predestinado
Com singelos destinos que teriam
Um futuro apagado,
Fosse qual fosse a glória prometida.
E sempre que uma nau enfrenta o mar e o teme,
E regressa vencida,
Sou eu que venho ao leme
Com a Índia perdida.
Miguel Torga


Li que foi a 3 de Fevereiro que Bartolomeu Dias passou o Cabo das Tormentas, rebaptizado Cabo da Boa Esperança.
Será a data certa? Nem ele teve a consciência imediata de o ter passado. Só quando lhe faltou terra a bombordo e inverteu caminho...

A Bartolomeu Dias faltou o remate de ter chegado à Índia.
Não foi ele o designado para a viagem da descoberta do caminho marítimo.
Partiu com os Gamas... mas para ficar na Mina.
Partiu com Cabral... mas para não chegar ao fim, náufrago do Cabo que passara.




Bartolomeu Dias recordado na África do Sul


quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O abraço saiu-me aqui

«Que tristeza isto de a gente escrever! Secos como paus na vida, e sai-nos depois a ternura pelo bico da pena! Comigo é assim. E como ninguém me lê - ninguém dos que eu mais desejava que recebessem ternura de mim (minha Mãe, meu Pai, minha Irmã, uns pobres amigos rudes que tenho na minha terra e uns infelizes que encontro por este mundo) -, fica tudo em letra morta. Hoje todo eu fui uma sede ardente de abraçar um infeliz que calcorreava às apalpadelas as ruas escaroladas da Nazaré. Um dia como uma estrela, aquela maravilha ali para se ver, e o desgraçado cego de nascença! Mas o abraço saiu-me aqui, na tinta.»
Miguel Torga, Diário, vol. I (Agosto de 1938)

Feliz 2015


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Regresso

Regresso às fragas de onde me roubaram.
Ah! minha serra, minha dura infância!
Como os rijos carvalhos me acenaram,
Mal eu surgi, cansado, na distância!

Cantava cada fonte à sua porta:
O poeta voltou!
Atrás ia ficando a terra morta
Dos versos que o desterro esfarelou.

Depois o céu abriu-se num sorriso,
E eu deitei-me no colo dos penedos
A contar aventuras e segredos
Aos deuses do meu velho paraíso.
Miguel Torga

A quem está de regresso à terra...
(à minha amiga Cristina, que mata saudades)


«(...) deram-lhe o maior bem que se pode ter:
O nome de transmontano, que quer dizer filho de Trás-os-Montes, pois assim se chama o Reino Maravilhoso de que vos falei.»


sábado, 21 de junho de 2014

Solstício enublado


«Há a liberdade de falar e há a liberdade de viver, mas esta só existe, quando se dá às pessoas a sua irreversível dignidade social.»
Miguel Torga


sexta-feira, 18 de abril de 2014

Via Sacra


Duro caminho de chegar à morte!
E dura condição
De ser nele,
Como eu,
Conjuntamente o Cristo e o Cireneu!

Condenado,
Açoitado,
A cair
E a sangrar
Sob o peso do lenho,
Se me quero sentir humano e ajudado,
O recurso que tenho
É cantar como um carro carregado.

É pedir a coragem dos meus passos
À força dos meus versos.
Versos que são apenas o sudário,
Solidário
E crispado,
Do meu rosto de carne, desenhado
No chão da caminhada.
Como ajuda que desse ao próprio corpo
A sombra por ele mesmo projectada.
Miguel Torga, Orfeu Rebelde


sábado, 22 de março de 2014

A vida...

«A vida... E a gente põe-se a pensar em quantas maravilhosas teorias os filósofos arquitectaram na severidade das bibliotecas, em quantos belos poemas os poetas rimaram na pobreza das mansardas, ou em quantos fechados dogmas os teólogos não entenderam na solidão das celas. Nisto, ou então na conta do sapateiro, na degradação moral do século, ou na triste pequenez de tudo, a começar por nós.
Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.
A vida é o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve e de sol, uma manta de panasco onde uma ovelha acabou de parir um cordeiro, e duas crianças - um rapaz e uma rapariga - silenciosas, pasmadas, a olhar o milagre ainda a fumegar.»
Miguel Torga, Diário II 
(Abrecôvo, 27 de Dezembro de 1941)


Douro visto de S. Leonardo da Galafura


domingo, 9 de fevereiro de 2014

É o vento que me leva


Foz do Douro  (foto de Adão Vaz)

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
Miguel Torga,