"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Primeiro poema de Outono

Mais uma vez é preciso
reaprender o outono -
todos nós regressamos ao teu
inesgotável rosto
Emergem do asfalto aquelas
inacreditáveis crianças
e tudo incorrigivelmente principia
Já na rua se não cruzam 
olhos como armas
Recebe-nos de novo o coração

E sabe deus a minha humana mão

Ruy Belo, Aquele grande rio Eufrates


domingo, 19 de setembro de 2021

The Concert in Central Park - 40 anos

 Há 40 anos, no Central Park...


A presença do espírito de J. S. Bach...


José-Augusto França (a morte já anunciada)

A comunicação social já anunciara o seu falecimento em 2018.

Uma das maiores referências do panorama cultural português.

«O França não é uma pessoa, é um mundo (...)» (Rogério de Moura, antigo editor dos Livros Horizonte).

«Se a minha avó o tivesse conhecido, diria apenas: "É um homem que tem tudo muito bem explicado e que nunca deixa nada por dizer."» (José Jorge Letria)

Eduardo Lourenço e José-Augusto França, figuras maiores
da nossa cultura nas últimas décadas.
Dois intelectuais exilados no Estado Novo, dois afrancesados.

Abandonar o país para poder pensar e criar livremente.

«(...) já tinham estudado Histórico-Filosóficas, agitado o meio cultural, interrogado o mundo. Pouco depois sairiam do país para perceber que “não estávamos tão orgulhosamente sós” (...)»


Que ordem oculta reina no cosmos?

«Deixo morrer a tarde sentado no pátio da casa, à sombra do noveleiro, a olhar um ninho de melro que já criou e a ouvir gemer a cadela cheia de cio na loja. Minha irmã, de chapéu de palha, guarda o milhão estendido na eira, a mexê-lo de vez em quando às rodadas, num ritmo que já vem dos nossos avós. E o ninho vazio, a cadela aluada e o milhão assim mexido enchem-se de não sei que sensação de mistério. Invade-me um estranho sentimento de sagrado, misto de pânico e de deslumbramento, de negrura e de iluminação. O que sei eu desta linhagem de melros que desde que me conheço habitam no quintal? Que força oculta exalta o instinto de procriação da perdigueira? Que hereditariedade determina em minha irmã os mesmos gestos ancestrais? Que ordem oculta reina no cosmos para além dos preceitos transitórios das legislações humanas? Chego ao fim da vida na perplexidade inicial. Quantas mais explicações leio dos fenómenos naturais, mais afastado me sinto da verdade. De uma verdade que não seja de tropismos, de reflexos condicionados, de hormonas, e onde caiba tudo isso.

Miguel Torga (S. Martinho de Anta,19 de Setembro de 1974), Diário XII

Casa de Miguel Torga em S. Martinho de Anta


sábado, 11 de setembro de 2021

O homem sóbrio, inteligente, sensível

«Gostei de o ver. É o mesmo homem, sóbrio, inteligente, sensível. Há vinte anos estivemos juntos na campanha para as eleições autárquicas que então se iam celebrar e que ganhámos, ele para o exercício inovador e competente da sua função de presidente da Câmara Municipal de Lisboa, eu para o desempenho pouco afortunado do cargo de presidente de uma Assembleia Municipal de má memória. Calcorreámos corajosamente ruas, praças e mercados de Lisboa pedindo votos, mesmo quando, creio que por pudor, não o fazíamos explicitamente. Como já ficou dito, ganhámos, mas quem ganhou realmente foi a cidade de Lisboa que pôde rever-se com orgulho no seu máximo representante na Câmara. Tivemo-lo depois como presidente da República durante dois mandatos em que deixou a marca de uma personalidade nascida para o diálogo civilizado, para a procura livre de consensos, sem nunca esquecer que a política, ou é serviço da comunidade, serviço leal e coerente, ou acaba por tornar-se em mero instrumento de interesses pessoais e partidários nem sempre limpos. Ficámos de ver-nos com tempo e vagar, promessa mútua que espero ver cabalmente cumprida no futuro, apesar da intensa actividade no projecto da Aliança de Civilizações, de que é Alto Representante. Com Jorge Sampaio não há palavras falsas, podemos fiar-nos no que diz porque é o retrato do que pensa.»

José Saramago (2009)

Jorge Sampaio e José Saramago em campanha, 
no "meu" (à época) Mercado de Benfica

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Jorge Sampaio

Faleceu hoje um homem que, para mim, representa o modelo de político.
O único em quem votei por convicção e admiração.


«Sempre me disseram, por vezes, aliás, num tom crítico e que até, paradoxalmente, me diverte, que era um homem preocupado. E sou. Sou um homem inquieto. O futuro do país preocupa-me genuinamente. Não já porque me sinta que posso fazer algo mais, mas porque, quando se dedicou ao país e aos cidadãos toda uma vida, fica-se para sempre servidor da res publica

Jorge Sampaio 
(por ocasião do lançamento do 2.º volume das suas memórias, 2017)


terça-feira, 7 de setembro de 2021

Lhéngua Mirandesa

Carta Europeia de Línguas Regionais e Minoritárias do Conselho da Europa

Portugal assinou hoje a Carta Europeia de Línguas Regionais e Minoritárias do Conselho da Europa. Este instrumento visa, desde 1992, por um lado, proteger e promover as línguas regionais e minoritárias históricas da Europa, mantendo e desenvolvendo a herança e tradições culturais europeias; e, por outro lado, respeitando o direito inalienável e comumente reconhecido de uso das línguas regionais e minoritárias na vida pública e na esfera privada.
A Língua Mirandesa esteve na base desta assinatura. A Câmara Municipal de Miranda do Douro, a par da Associaçon de la Lhéngua i Cultura Mirandesa, desenvolveram uma lista de compromissos a cumprir, decorrentes da adesão de Portugal à Carta.
Lisboa, 7 de setembro de 2021