"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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segunda-feira, 15 de abril de 2019

A defesa de Notre-Dame de Paris por Victor Hugo


«Todas as formas de profanação, degradação e ruína ameaçam simultaneamente o pouco que resta desses admiráveis monumentos da Idade Média que trazem a marca das glórias passadas de nosso país, às quais estão ligadas tanto a memória dos reis quanto a tradição do povo. Enquanto assistimos a construção, a alto custo, de edifícios bastardos (estes que, com a pretensão ridícula de parecerem gregos ou romanos na França, não são nem gregos nem romanos), outras estruturas admiráveis e originais estão ruindo sem que ninguém se dê conta disso, enquanto seu único crime é o de ser francês por origem, por história e por propósito.»
Victor Hugo

Este era o pensamento de Victor Hugo e a razão por que escreveu Notre-Dame de Paris (1831).




O escritor pensava que a catedral estaria em risco de ser demolida, depois dos danos sofridos durante a revolução francesa, período em que chegou a funcionar como armazém e teve várias imagens e estátuas destruídas.
Victor Hugo apresentava Notre-Dame como o símbolo de um passado glorioso.
A sua obra acabou por ser uma peça fundamental na campanha pela sua restauração, iniciada em 1844.

Catedral de Notre-Dame de Paris em 1840 
Gravura de Gustave Doré para a edição de Notre-Dame de Paris de 1860

A curiosidade de outra gravura de Gustave Doré, com a imagem da catedral, para ilustrar Gargantua, de François Rabelais, na edição de 1854. Gargantua surge refugiado nas torres, de onde roubaria os sinos.


Neste momento, a catedral de Notre-Dame de Paris está a arder...


sábado, 6 de abril de 2019

Bento Coelho da Silveira no MNAA


Por doação do Imamat Ismaili em Portugal, na pessoa de Aga Khan, o Museu Nacional de Arte Antiga passou a integrar nas suas colecções duas obras de Bento Coelho da Silveira, um dos mais importantes artistas do barroco português.

Repouso no Regresso do Egipto

Virgem com o Menino e a Visão da Cruz


sábado, 26 de janeiro de 2019

Ephemera: 10 anos aos papéis


Início das comemorações do 10.º aniversário da biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira, o guardião da memória, com a presença de António Costa e da Ministra da Cultura.

O que estará Pacheco Pereira a mostrar?

"Fora nada que sirva a memória"


sábado, 29 de setembro de 2018

Dia de S. Miguel Arcanjo


Nas Jornadas do Património Europeu, de visita ao Museu de S. Miguel de Odrinhas, em dia do Arcanjo.
O Arcanjo S. Miguel a matar o demónio - escultura do séc. XV.
A (desaparecida) mão esquerda segurava a balança
com que pesava as almas dos fiéis. Conforme o peso dos pecados,
assim a alma seguiria para o Céu ou para o Inferno.
O Purgatório era a via intermédia...
Museu de S. Miguel de Odrinhas

Necrópole medieval
Mosaico romano

«O renovado Museu de Odrinhas é herdeiro de uma longa tradição de salvaguarda dos vestígios antigos do local, verificando-se as primeiras iniciativas neste local em pleno Renascimento, ao abrigo do Humanismo e fascínio pelo passado romano do Ocidente europeu. Em 1955, a Câmara Municipal de Sintra lançou as bases modernas do museu, por intermédio de Joaquim Fontes, primeiro director da instituição, depois de uma tentativa frustrada de alguns eruditos em transportar o espólio para um grande museu nacional. O actual plano museológico iniciou-se em meados da década de 90 do século XX e teve como principal impulsionador José Cardim Ribeiro.»
(Direcção-Geral do Património Cultural)






Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas
Exposição permanente


P.S. - Com tantas referências a S. Miguel, agora reparo que o programa que inicialmente tracei para hoje era... ter visitado o Paço de S. Miguel, em Évora.


quinta-feira, 28 de junho de 2018

É a bolha!

Dizia a personagem de Fernão Lopes, "Agora se vende Portugal, que tantas cabeças e sangue custou a ganhar, quando foi tomado aos Mouros!".



Espanhóis compram a Suíça e suíços compram o Beato!

Convertidos ao capitalismo.
Tudo se vende e tudo se compra.
Vende quem quer, compra quem pode.
Como nós não podemos...

Da Suíça (e de todo o quarteirão em que a Suíça se integra) resta saber o que irá ser feito.
Mais um hotel, diz-se.
Lisboa, Cidade Hotel!




P.S. - Da Suíça, sinceramente, já nem me lembro quando foi a última vez que lá entrei. Lembro-me do sacrifício (leia-se falta de educação) dos empregados em servirem os clientes. 
Mas é bom que exista respeitinho pelo património.


domingo, 22 de abril de 2018

Lisboa W-E, Cidade Triste e Alegre

Farto de estar no aquário, fui procurar Lisboa... exposta em museu.
Encontrei o rio na relva... 

Lisboa W-E - Lisboa vista do rio Tejo, em fotografias de José Manuel Costa Alves.


Um percurso ao longo da Zona Ribeirinha, com os pés no rio, olhando para a cidade. 


E encontrei as pessoas da cidade na época em que nasci...

Lisboa, Cidade Triste e Alegre: Arquitectura de um Livro


Obra da autoria dos arquitectos Victor Palla (1922-2006) e Costa Martins (1922-1996), editada em 1959 e resultado de "um trabalho de três anos em que ambos percorreram as ruas de Lisboa, retratando-a e aos seus habitantes, assim revelando uma cidade escondida, simultaneamente triste e alegre."


Obra apresentada pelos seus autores:

«(...) o retrato da Lisboa humana e viva através dos seus habitantes – de dia, de noite, nos seus bairros, na Baixa, no Tejo – revelação ora alegre ora triste, mas sempre terna e sentida, da vida de uma cidade. Talvez por isso fosse mais adequado chamar-lhe "poema gráfico" - até porque o arranjo das imagens e a própria composição do livro têm, no seu grafismo, o fluir, a alternância de ritmos, as ressonâncias de uma obra poética.»



Voltarei à Cidade Triste e Alegre
porque

Alegre ou triste,
numa cidade como esta
é sempre para os olhos uma festa
Armindo Rodrigues

Museu de Lisboa, Palácio Pimenta (ao Campo Grande)





quarta-feira, 18 de abril de 2018

Dia Internacional de Monumentos e Sítios - 2018


Para memória futura, um ponto da situação na área dos museus feito pelo ICOM - problemas e... poucas respostas.
De geração para geração continuamos com a cultura como parente pobre!
Mesmo em Ano Europeu do Património Cultural.
Esquerda, direita, um, dois, esquerda, direita...

A cultura está tão por baixo... que até a data do comunicado está errada.
Antecipa o futuro!

Comunicado ICOM

Por ocasião do Dia Internacional de Monumentos e Sítios
19 de Abril de 2018
A direção do ICOM (Comissão Nacional Portuguesa do Conselho Internacional de Museus) reuniu recentemente com o Ministro da Cultura e alertou para os problemas existentes na área dos museus. Do mesmo modo, estando o governo a meio da legislatura questionámos o senhor Ministro sobre algumas medidas prometidas em programa de governo para a área museológica, tais como: autonomizar as áreas dos museus e património; revitalizar a RPM, com vista à valorização e qualificação crescentes dos museus portugueses, dos seus profissionais e dos serviços que prestam ao público; consolidar a oferta pública de museus e flexibilizar os seus modelos de gestão e permitir que certos equipamentos culturais bandeira, como museus e monumentos de especial relevância, pudessem beneficiar de uma maior autonomia de gestão.
Apesar de estarmos na reta final desta legislatura não nos foram transmitidos quaisquer projetos de melhoria das condições atuais.
Os objetivos assumidos no Programa de Governo não têm concretização, mas, mais do que isso, torna-se evidente a ausência de um fio condutor, de uma linha de ação que permita construir um tecido museológico mais coeso e preparado para os desafios crescentes da sociedade atual. O ICOM mencionou o aumento de receitas resultante do grande crescimento do turismo, mas esta constatação não tem tido outra consequência que o aumento de arrecadação de verbas e a exaustão das equipas.
A definição de estratégia está refém da reorganização administrativa prevista pela descentralização, situação que tem desde já a consequência evidente de profundas alterações à Lei-Quadro, único quadro normativo estruturado que, infelizmente, nunca chegou a ser integralmente implementado.
As preocupações manifestadas pelo ministério prendem-se essencialmente com o modelo de gestão dos museus e monumentos da administração central do Estado, tendo-nos sido transmitido que há um novo projeto de autonomia de gestão praticamente pronto. A intenção é a de dar maior autonomia na gestão científica e cultural dos museus, mas não financeira.
Quanto à situação deficitária das equipas técnicas nos museus não há nenhuma estratégia prevista para colmatar a sangria preocupante de profissionais, resultado do envelhecimento das equipas, sendo apontada a possibilidade de melhoria do quadro de assistentes técnicos para vigilância com recurso a mobilidade de outros ministérios.
À nossa questão para quando a reposição do PROMUSEUS para os museus RPM não foi apontada nenhuma continuidade ou alternativa.
Em suma, são vários os problemas dos museus portugueses e dos seus profissionais e a falta de capacidade de concretização de algumas medidas prometidas cuja justificação é apontada como impossível de concretizar até ao fim da legislatura por razões de equilíbrio financeiro.
Foi-nos prometida informação escrita às nossas questões, o que aguardamos.
 A Direcção do ICOM Portugal



quarta-feira, 28 de março de 2018

Espólios - o poder não se move pela cultura

Li
e partilho.

ESPÓLIO DE ANTÓNIO JOSÉ SARAIVA
Confesso que me repugna a atitude dos familiares que leiloam o que constituiu para os seus pais a obra de uma vida. Sim, que a obra não consiste apenas no que se escreve, pinta e esculpe mas também em colecções de livros e de objectos que o defunto levou a vida a juntar. Se a mim, defunta, me fizerem o mesmo, juro que hei-de arranjar maneira de me insurgir contra! Isto a propósito do leilão dos livros e dos pertences de José Hermano Saraiva que agora aconteceu. Alguém que lá foi contou-me. Os comerciantes abutres lá estavam, a arrematar os objectos que ele juntou com tanto amor: entre tantos outros, a olaria de Estremoz, agora património da humanidade, foi muito disputada. (Olho para as minhas peças, que há muito reúno, e fico apreensiva…). E todos os preciosos livros, claro. Essa pessoa que foi ao leilão soube, pela leiloeira, que iam fazer o mesmo à biblioteca do irmão, António José Saraiva – e fiquei estarrecida. Os livros de que se servia eram suculentamente anotados, e não dava posteriormente forma escrita a esses textos. Pergunto-me se irá também a leilão o seu espólio, que até agora não foi encaminhado para a Biblioteca Nacional, onde teria o seu útil assento. Por onde andarão tantos escritos inéditos, tantos documentos de que se serviu para a sua monumental História da Cultura e para toda obra de uma vida inteira dedicada ao estudo e à escrita? E a correspondência recebida de tantas pessoas – que guardaram a dele e a deram à estampa (Óscar Lopes, Luísa Dacosta)? É um século da nossa cultura que não foi ainda arrecadada! Perder tudo isso seria um crime de lesa-cultura que urge evitar – diz a leiloeira que o leilão de A. J. Saraiva está previsto até ao Verão! Por mim farei o que puder para o evitar – mas posso tão pouco! Não me movo nas esferas do poder que cuidam da nossa cultura e que se deviam sentir na obrigação de acudir a este perigo iminente. Quem dá uma mãozinha? Partilhar já ajuda.
Teresa Rita Lopes


Senti o mesmo em relação ao espólio de José Hermano Saraiva (apesar de não ser pessoa da minha simpatia) e à sua própria casa, em Palmela.
O poder não se move pela cultura.
(e as televisões estão mais preocupadas com a derrota da seleção e a não expulsão dos diplomatas russos)


sábado, 10 de março de 2018

Os hotéis como património e atração turística

A exemplo de Lisboa, o Porto arrisca-se a atrair, apenas, turistas interessados em ver e visitar hotéis.

Quando algumas pessoas compreenderem que as cidades, para serem atraentes, precisam de ter uma identidade própria e que o património cultural é parte integrante e fundamental dessa identidade... será tarde.



Capitalismo burro!


quarta-feira, 7 de março de 2018

Beef Wellington ou o beef que Wellington não comeu

Não passam os ingleses por terem uma gastronomia refinada...
Dos franceses é proverbial o seu chauvinismo...

Vêm estes dois estereótipos a propósito de uma receita ocidentalmente reconhecida, sobretudo a partir do momento em que o presidente Richard Nixon a passou a incluir nas recepções oficiais da Casa Branca, mas cujo criador ficou na sombra.


Não se conhece o verdadeiro pai do Beef Wellington, nem a sua nacionalidade.
De Wellington, o duque, sabe-se a sua apetência para derrotar as tropas napoleónicas, seja nas Linhas de Torres seja em Waterloo.
Só este destaque militar justificará a atribuição do seu título nobiliárquico ao "lombo", porque, decididamente, Wellington não era um apreciador de comida. Comia para matar a fome. Só o teremos por bom garfo se entendermos que, com ele, tudo marchava.
Todas as indicações encontradas são de um distanciamento em relação à alimentação.

Busto do Duque de Wellington, em Lisboa

Ele gostaria de pratos gordurosos e indigestos. Comia tão rápido que os companheiros de mesa não conseguiam acompanhar o ritmo.
Em Paris, quando convidado pelo cônsul Régis de Cambacéres, questionado sobre o jantar que lhe tinha sido servido, Wellington terá respondido “Estava excelente, mas para lhe ser franco eu não ligo muito ao que como.”

De Wellington se conta que, a conselho de um amigo, contratou os serviços de um reputado cozinheiro. Pouco tempo depois, esse cozinheiro implorava ao seu antigo patrão, Lord Seaford, que o voltasse a contratar, mesmo que por menos dinheiro ou, mesmo... sem salário. 
O duque era um patrão muito amável, mas indiferente aos pratos que lhe eram confeccionados, o mais banal ou o mais elaborado. Tanta insensibilidade gastronómica feria a susceptibilidade do chef!

Parece que só uma receita da cozinha portuguesa - tinha de ser! - lhe mereceu uma menção honrosa.
Nas memórias que escreveu, a duquesa de Wellington exprimiu o seu espanto pelo facto do seu marido lhe ter descrito numa carta a receita de uma sopa que comeu em Lavos, quando aí estabeleceu o seu quartel-general, após o desembarque das forças inglesas em Portugal: canja de galinha!

Mas tudo isto porque, tendo feito uma visita de estudo com os meus alunos ao Centro de Interpretação das Linhas de Torres (CILT) e ao Forte do Alqueidão, em Sobral de Monte Agraço, e tendo inquirido sobre um restaurante que me pudessem aconselhar para uma visita posterior, de carácter familiar, me referiram um que "até" confecciona o Beef Welington.

Centro de Interpretação das Linhas de Torres (Sobral de Monte Agraço)
Achei interessante ir procurar informações sobre este prato, pensando que o famoso general estaria na sua verdadeira origem - um general gourmet, comensal exigente, refinado...
E eis que o tão sofisticado lombo (porque de uma peça de lombo de novilho se trata) não tem uma ligação material ao brioso militar, que nunca lhe terá metido o dente!



E resta a incógnita da sua origem, não assumida seguramente por ninguém. 
Há quem fale numa origem neozelandesa - uma criação para uma recepção cívica na capital da Nova Zelândia, ela própria baptizada com o nome do herói britânico.

Há quem diga que o Beef Wellington é uma receita típica inglesa.

Há que argumente que o Beef virá do Filet de boeuf en croûte, receita francesa em que é usada a Duxelles - preparação feita com cogumelos, chalotas, manteiga e vários temperos, receita inventada pelo chef François Pierre de La Varenne, cozinheiro do marquês d'Uxelles, cujo nome foi dado à receita.
Um cozinheiro inglês, "imbuído de sentimento patriótico", teria trocado o nome do prato na época das guerras napoleónicas.
Os franceses terão dificuldade em engolir o nome atribuído e duvidam da capacidade culinária dos ingleses. Recordo-me de estar em Paris, em 2005, quando a cidade de Londres foi escolhida, em detrimento da capital de França, para a organização dos Jogos Olímpicos de 2012. Nessa ocasião, um despeitado presidente francês, Chirac, questionava como é que um país em que não se sabia cozinhar podia organizar os Jogos Olímpicos!

Em 1925, um jornal australiano trazia um anúncio do Café Français, em Melbourne, a publicitar um menu especial, em que um dos pratos era um Filet d’Bouef a la Wellington - nome tão francês (mas com um Wellington atravessado...).

Talvez a origem seja irlandesa - o duque de Wellington, (Arthur Wellesley, de seu verdadeiro nome) era natural de Dublin. E na Irlanda o nosso beef chama-se Steig Wellington (o steak dos ingleses).
Ou terá sido um cozinheiro irlandês que rebaptizou a receita francesa?

Talvez um dia destes vá a Sobral de Monte Agraço comer o Beef, Filet, Steig, Steak ou Lombo Wellington.
Abençoado património!


domingo, 25 de fevereiro de 2018

Procissão do Senhor dos Passos

Com origens no século XVI - celebrou 430 anos em 2017 - a Procissão do Senhor dos Passos é, neste período da Quaresma, a maior manifestação pública de fé da cidade de Lisboa.



Esta procissão, organizada pela Real Irmandade Senhor dos Passos da Graça, retomou há 5 anos o percurso original entre a Igreja de S. Roque e a Igreja da Graça.

Procissão de 2017, junto à Igreja de S. Roque


domingo, 12 de novembro de 2017

O Panteão Nacional... para lá da (actual) polémica

Santa Engrácia viveu ao sabor do tempo, dos sucessivos atrasos da sua construção e dos acasos da sua ocupação/função, nem sempre de acordo com a sua nobreza ("o mais belo dos nossos monumentos do século XVII", segundo Ramalho Ortigão) - quartel, depósito de material de guerra, oficina de calçado...

Santa Engrácia tem uma longa história de tolerância. Um jantar é só um pequeno pormenor, um fait-divers em que somos pródigos.
E essa prodigalidade floresce quando parece que alguém descobre a pólvora e consegue criar um alvoroço que percorre as redes sociais - o agitar de asas da borboleta -, contagia os meios de comunicação social, entidades muito sensíveis a esses bater de asas e... depois, alguém se lembra que a pólvora há muito que foi descoberta. E dá-se o bater de asas de sinal contrário. 
Porque, afinal, jantares e festas já lá houve muitos (por que razão se fizeram tabelas de preços?), tendo passado despercebidos. A memória é curta ou o conhecimento é pouco. 
Mas, pelo menos, tivemos assunto de conversa para o fim de semana e ainda ficam os ecos.

Se não me parece desadequado? Parece!




Por acaso, isto é, levado por Manuel de Arriaga, fui lá ontem, ainda mal informado do jantar de encerramento da (ou do?) Web Summit

Ao acaso de diferentes contextos políticos se tem decidido sobre as personalidades cujos restos mortais aí devem repousar - que critério para juntar Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, Sidónio Pais e Óscar Carmona? 
Isto a propósito de Presidentes. Porquê estes (ou só estes), dois a dois de "sinais" tão contrários?

E os escritores? Garrett, João de Deus, Junqueiro, Aquilino, Sophia... 
Mas por que não aquele e o outro, Saramago, por exemplo, que foi Nobel, mais oitocentistas - Eça, Herculano, Camilo - ou Torga, Raul Brandão, Pascoaes, Vergílio Ferreira... ou Nemésio, Jorge de Sena, José Rodrigues Miguéis... 

Por que não artistas plásticos? Amadeo, Almada, Vieira da Silva...
E por que não cientistas, filósofos?
Vamo-nos lá lembrar... 

Já lá estão a Amália e o Eusébio, tendo este último animado (involuntariamente, coitado, porque o próprio nem chegou a saber) a discussão sobre os critérios que devem levar à decisão de "pantear" os nossos cidadãos mais ilustres. 
Quem será o próximo? 


Voltemo-nos para o já esquecido sorriso das vacas!
Fiquemos pelas vistas:








A vista do terraço permanecerá.
Independentemente das (ou dos?) Web Summits, dos "tumulados" (e "destumulados") no Panteão, dos cruzeiros, com ou sem terminais..., ou de alguma névoa sobre o rio...


P.S. - De quem se encontra no Panteão, creio que só me faltou referir Humberto Delgado. 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Vila Berta - de Tojal em Tojal

Regressei à Graça por motivo da abertura parcial do seu convento, com a exposição da Procissão do Corpo de Cristo, peças da autoria de Diamantino [Francisco] Tojal (1897-1958), nome que desconhecia.

Fiz caminho pela Vila Berta (Villa Bertha), complexo habitacional (no bairro da Graça) empreendido, entre 1902 e 1908/10, por Joaquim Francisco Tojal, nome a que nunca tinha ligado.
Coincidência de Tojais? Certamente família, pai e filho, muito possivelmente.

Segundo as fontes mais credíveis, Joaquim Francisco Tojal fundou uma empresa de construção.
Diamantino Tojal é dado como empresário e construtor civil. E teria sido no seu estaleiro de construção civil - o mesmo que Joaquim Francisco Tojal instalara (?) - "a dois passos da sua residência, na Vila Berta, na Graça, onde sempre viveu", que produziu, também com amigos, as peças da Procissão. O mesmo lugar onde as peças deterioradas foram reparadas para figurarem na actual exposição, cerca de 75 anos depois.

Diamantino Tojal (3.º da esquerda) na inauguração da exposição
da Procissão do Corpo de Deus, em 1948, no Palácio Galveias.
O elevado número de peças não permitiu, então, que todas fossem expostas.

A Vila Berta foi classificada como Imóvel de Interesse Público (Março de 1996). A proposta de classificação foi do arquitecto Carlos Tojal (um neto de Joaquim Francisco Tojal?).
Existe uma Associação de Defesa do Património da Vila Berta, a qual é presidida por Estêvão Tojal, bisneto do seu fundador e morador na vila.
"Ainda estão na posse da família cerca de 40 a 50% dos prédios".

Começando pelo princípio...
Joaquim Francisco Tojal nasceu no Brasil, filho de emigrantes portugueses. Marceneiro de profissão, veio para Portugal nos finais do séc. XIX e fundou uma empresa de construção.
Morando na Parede, adquiriu, em 1887, terrenos na Quinta do Alcaide Fidalgo (Graça, Lisboa), onde construiu um conjunto de habitações. Esse conjunto apresentava semelhanças com as vilas operárias que se edificavam em Lisboa desde as últimas décadas do século XIX. 

«Desta Rua do Sol, em transversal, segue à Travessa da Pereira, por um passadiço, a “Vila Berta”, construída em 1902 por Joaquim Francisco Tojal, que adquiriu também os terrenos a sul, antes pertencentes a Tomaz da Costa (o proprietário do grande prédio que foi o palácio dos Condes de Val-de-Rei no Largo da Graça, hoje Vila Sousa). Paralela a esta artéria “Vila Berta” (D. Berta Tojal, nela residente) correrá a Rua Francisco Tojal, que celebra a memória do construtor, e cujo dístico já foi colocado.»
Norberto Araújo, Peregrinações em Lisboa

Mas, comparativamente à grande maioria das vilas, apresentava uma assinalável qualidade arquitectónica, com elementos de riqueza decorativa, e de materiais construtivos, ultrapassando o "quadro de miséria" que frequentemente acompanha esta tipologia de construção.
A razão está no facto de Joaquim Tojal ter projectado a vila para habitação da família e de amigos próximos, principalmente, e para os mestres e operários do estaleiro de construção da sua empresa, instalado em terrenos contíguos. Configurava um conjunto habitacional de pequena burguesia, embora haja uma distinção evidente na tipologia dos edifícios, conforme os seus destinatários. 
 A vila foi baptizada com o nome da filha: Berta. 


A Vila Berta é do tipo de vilas que formam uma rua, sendo constituída por duas bandas de edifícios em correnteza, separadas pela rua. 
Essas duas bandas apresentam características diferentes: 
- do lado nascente, os edifícios têm dois pisos e uma cave. 




- do lado poente, "mais nobre", os edifícios são de três pisos, a uma cota superior à do nível da rua. O 1.º piso, para além da sua altura superior, fica afastado da rua por um terraço ajardinado e o 2.º piso apresenta uma plataforma sobre a zona de acesso ao edifício apoiada em pilares de ferro fundido.




Adivinha-se que seriam as primeiras destas habitações aquelas que se destinavam aos operários e mestres (marceneiros, canalizadores, pedreiros, etc.).

No topo Norte da rua, encontra-se o acesso principal ao interior da vila (a partir da Rua do Sol à Graça): uma passagem sob um prédio.



Inicialmente, a vila era encerrada, nos topos, por portões que davam à rua um carácter privado, contando com um guarda e um jardineiro. Os portões deixariam de existir, integrando-se a rua no espaço público.


«As varandas em ferro imprimiram-lhe um carácter peculiar,
bem como os azulejos de estampilha, as varandas e as mansardas.»
(desenhos da arquitecta Ana Tostões)

Com o tempo, foi-se alterando a composição dos seus habitantes, incluindo a instalação de famílias estrangeiras e a renovação etária da população residente.
Presente parece continuar o cuidado com a preservação e a reabilitação das construções, embora haja quem fale na "rápida descaracterização dos seus elementos arquitectónicos".
Em 2015/2016 verificaram-se obras de requalificação do conjunto edificado.
A vila foi cenário da nova versão do Pátio das Cantigas e consta de muitos roteiros turísticos da cidade de Lisboa.

O neto do fundador da vila defende a ideia que «além do património cultural físico, existe ainda outro património socio-cultural associado à Vila Berta que se pretende preservar: a vida comunitária, as relações de boa vizinhança entre os moradores desta aldeia e a participação de todos em actividades comuns».

Será esta a "Casa da Quinta", onde mora Estêvão Tojal?
A visita vale a pena!...