"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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segunda-feira, 15 de abril de 2019

A defesa de Notre-Dame de Paris por Victor Hugo


«Todas as formas de profanação, degradação e ruína ameaçam simultaneamente o pouco que resta desses admiráveis monumentos da Idade Média que trazem a marca das glórias passadas de nosso país, às quais estão ligadas tanto a memória dos reis quanto a tradição do povo. Enquanto assistimos a construção, a alto custo, de edifícios bastardos (estes que, com a pretensão ridícula de parecerem gregos ou romanos na França, não são nem gregos nem romanos), outras estruturas admiráveis e originais estão ruindo sem que ninguém se dê conta disso, enquanto seu único crime é o de ser francês por origem, por história e por propósito.»
Victor Hugo

Este era o pensamento de Victor Hugo e a razão por que escreveu Notre-Dame de Paris (1831).




O escritor pensava que a catedral estaria em risco de ser demolida, depois dos danos sofridos durante a revolução francesa, período em que chegou a funcionar como armazém e teve várias imagens e estátuas destruídas.
Victor Hugo apresentava Notre-Dame como o símbolo de um passado glorioso.
A sua obra acabou por ser uma peça fundamental na campanha pela sua restauração, iniciada em 1844.

Catedral de Notre-Dame de Paris em 1840 
Gravura de Gustave Doré para a edição de Notre-Dame de Paris de 1860

A curiosidade de outra gravura de Gustave Doré, com a imagem da catedral, para ilustrar Gargantua, de François Rabelais, na edição de 1854. Gargantua surge refugiado nas torres, de onde roubaria os sinos.


Neste momento, a catedral de Notre-Dame de Paris está a arder...


sábado, 16 de março de 2019

sexta-feira, 8 de março de 2019

Rosie, the Riveter


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Naomi Parker


There's something
true about--red,
white, and blue
about--Rosie, 
brrrr, the riveter.


sábado, 1 de dezembro de 2018

Portugal e Islândia: a mesma luta

A 1 de Dezembro de 1918, por acordo firmado com a Dinamarca (país de que fazia parte integrante), a Islândia foi reconhecida como um Estado soberano. Foi o chamado Acto de União - nome que se justifica pelo facto do rei da Dinamarca continuar a ser o da Islândia.
A total independência, com um sistema republicano, seria conseguida em 1944, como resultado de um referendo interno, depois de um período atribulado vivido em consequência da II Guerra Mundial. 


União Ibérica é o nome dado à nossa submissão aos Habsburgos, terminada a 1 de Dezembro de 1640.


Portugal e Islândia, reinos constituintes de monarquias duais, mas que conquistariam (ou reconquistariam) a sua independência. 

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

1.º Festival de Jazz de Cascais

20 e 21 de Novembro de 1971
Em plena primavera marcelista, depois do festival de Vilar de Mouros, o Cascais Jazz era o segundo grande evento musical que fugia ao enquadramento do regime do Estado Novo.

O programa do festival era representativo do jazz que se fazia na época: 4 grupos em cada noite – os mais modernos na noite de dia 20, os mais "tradicionais" na segunda noite.
O público era, essencialmente, constituído por jovens. O Cascais Jazz, no velho pavilhão do Dramático, seria não só a celebração de uma expressão musical, como um espaço de liberdade e de rebeldia, difíceis de viver à data. 


A forte presença de público salvou financeiramente o festival, cujos principais patrocinadores retiraram o apoio quase em cima da hora. O entusiasmo superou a má acústica do pavilhão (que chegava a ter uma bancada atrás do palco) e os atrasos do programa. 

A história mais conhecida deste festival, é a que envolve Charlie Haden, contrabaixista do quarteto de Ornette Coleman. Haden, que teria vindo tocar contrariado a Portugal, dedicou uma das composições do grupo – Song for Che – aos movimentos de libertação de Moçambique, Guiné e Angola.
Os espectadores aplaudiram e manifestaram-se ruidosamente, teria havido quem aproveitasse para espalhar panfletos contra a guerra colonial, e a polícia de choque, de prevenção no exterior, invadiu o recinto. 

No final da noite, a PIDE aguardava Charlie Haden e Luís Vila-Boas, o mais conhecido dos organizadores.
Foram precisas várias horas de negociação para se conseguir autorização para a segunda noite do festival. Ficou a promessa que aquele seria o último festival de jazz de Cascais.
Charlie Haden, gozando da intervenção do adido cultural da embaixada americana, esteve poucas horas detido, sendo depois escoltado para o aeroporto da Portela. Só voltaria a Portugal depois do 25 de Abril de 1974. Dizem que Luís Vilas-Boas deixou de gostar de ouvir o seu nome!








Quando vejo o cartaz do 1.º Festival de Jazz de Cascais, penso no incrível programa: como se conseguiu, num primeiro ano, num país que vivia em ditadura, ter um conjunto de músicos daqueles?



20 e 21 de Novembro de 1971
Eu dormia tranquilo, frequentava o antigo 3.º ano de Liceu e não queria chumbar outra vez. 
Ignorava o que se passava em Cascais, estava longe do jazz. Ouvia My Sweet Lord, já conhecia Procol Harum, Moody Blues, gostara do Submarino Amarelo... Em casa ouvia-se muita música no (na?) rádio.
Da guerra colonial já sabia e assustava-me...


domingo, 11 de novembro de 2018

A carruagem das capitulações

Celebra-se o centenário do Armistício que pôs fim à 1.ª Guerra Mundial na sua frente ocidental (a mais simbólica).
O Armistício foi assinado na carruagem 2419 D, utilizada pelo Marechal Foch, chefe do Estado-Maior do exército francês.


Mas a 1.ª Guerra Mundial foi "uma guerra de passagem". Vinte anos depois da assinatura do tratado de paz, o mundo mergulhou numa guerra de ajustes de contas...

Na mesma carruagem em que o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Matthias Erzberger, assinara a capitulação da Alemanha, em 11 de Novembro de 1918, perante o marechal francês Ferdinand Foch, representantes franceses assinaram o cessar-fogo que submeteu a França, a 22 de junho de 1940.

A ofensiva alemã sobre a França, a Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo tinha sido um êxito, em apenas 6 semanas.
O novo governo de França, liderado pelo marechal Pétain, comandante superior das tropas francesas na Primeira Guerra Mundial e já com 84 anos, pretendia um cessar-fogo.

Como a vingança se serve fria, Hitler quis que o acordo de paz fosse negociado na floresta de Compiègne, na mesma carruagem em que o general Foch ditara as condições da rendição alemã, em novembro de 1918.


O vagão, que se encontrava exposto em Réthondes, foi empurrado por soldados alemães até ao local onde tinha sido assinado o Armistício de 1918.
A 21 de junho, Hitler sentou-se no lugar do marechal Foch e Pétain foi obrigado a ocupar o lugar em que Erzberger assinara a capitulação alemã. O general Wilhelm Keitel leu as exigências alemãs.
Depois de negociações, às 18:55 h de 22 de Junho de 1940, foi assinado o cessar-fogo.




Três quintos do território francês (a zona Norte), incluindo as principais cidades industriais e a costa atlântica, passaram directamente ao controle da administração militar alemã. Para a Alsácia-Lorena, foi estabelecida uma administração civil. A região desocupada no Sul, com a capital em Vichy, ficou para o governo francês.
A França comprometeu-se a extraditar para a Alemanha todos os refugiados políticos. Os imigrantes foram proibidos de deixar o país.

A carruagem ficou exposta em Berlim, sendo destruída, por ordem de Hitler, em Abril de 1945, um mês antes da capitulação alemã.
Não fossem os franceses lembrar-se de…

Agora, brindemos à Paz!



domingo, 21 de outubro de 2018

António Borges Coelho - História e Paisagem

O historiador Borges Coelho parece ter sido (re)descoberto, agora que cumpriu os 90 anos de vida (7 de Outubro).
Foi ouvido pela Agência Lusa (e citado em vários jornais) a propósito do Museu das Descobertas ou da Expansão ou qualquer que seja o nome que venha a ter, são reeditadas obras suas e a Editorial Caminho promove um ciclo de palestras em sua homenagem, durante a próxima semana, na Livraria Buchholz (R. Duque de Palmela), sob o título O Trabalho do Historiador (sessões com entrada livre).



Recordo o seu poema Paisagem, musicado e cantado por Luís Cília (1967), poema escrito na prisão de Peniche, onde esteve detido entre 1957 e 1962
O porto e a vila eram a paisagem possível de quem estava naquela prisão.





sábado, 1 de setembro de 2018

A mudança da hora



Organizem um calendário de maneira a que da meia-noite de Domingo se salte para a meia-noite de 6.ª feira (ou "uma coisa em forma de assim").
Até dispensava as férias.



O que quer que seja que se decida terá prós e terá contras, defensores e detractores...
Lembremo-nos que, em 1992, quando Cavaco Silva era 1.º Ministro, Portugal adoptou o horário da Europa central (fuso de Berlim), para "facilitar as comunicações e transportes internacionais".
Até 1996, altura em que o governo de Guterres nos fez regressar à hora do Meridiano de Greenwich, o Sol acordava mais tarde e punha-se lá para as tantas.
E não foi a primeira vez que se verificou esse "alinhamento".

As raízes da mudança da hora estão associadas ao racionamento de energia no período da I Guerra Mundial.
A hora de verão já tinha sido proposta por Benjamin Franklin, para poupar energia (na altura, século XVIII, toneladas de cera de vela), mas só no contexto daquele conflito se concretizaria a mudança da hora.
A poupança energética continua a ser um dos argumentos dos defensores da mudança.

Ilustração de João Vaz de Carvalho


segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Fim da Primavera de Praga


Na noite de 20 de Agosto de 1968, tropas de 5 países do Pacto de Varsóvia invadiram a Checoslováquia.

A invasão pretendia reverter as reformas de liberalização política que este país do bloco de leste experimentava, sob a liderança de Alexander Dubcek - um "socialismo com face humana" - a chamada Primavera de Praga.

As principais cidades checoslovacas foram ocupadas. A população ofereceu resistência à ocupação, mas sem grande sucesso perante a força invasora - algo semelhante à Hungria de 1956.



A orientação política voltou ao alinhamento com Moscovo, no respeito pela denominada Doutrina Brejnev, em que a União Soviética assumia a liberdade de intervenção política e militar nos países que, situando-se no bloco de leste, pusessem em causa a união entre os países e partidos socialistas - “as vitórias do ideal comunista” -, ameaçando sair da órbita do PC soviético.


A ortodoxia venceu. 

As primaveras políticas são apenas primaveras anunciadas. Não me lembro de uma primavera que tenha desaguado num verão...

domingo, 19 de agosto de 2018

Remodelação do Governo, acção revolucionária e comunicação social

A 19 de Agosto de 1968, tomou posse o Governo resultante da última remodelação governativa de Oliveira Salazar.
Entraram 7 novos ministros, tendo o Presidente do Conselho de Ministros dado conta desta remodelação ao Presidente da República durante as férias.


Uma remodelação deste cariz, mais de sete anos depois da última (verificada em Abril de 1961, após o chamado "golpe de Botelho Moniz"), que hoje seria motivo de demoradas análises políticas e de  extensos comentários, pouco espaço mereceu na comunicação social da época.

Salazar já tinha caído da cadeira, no Forte de Santo António, no princípio do mês de Agosto, mas isso ainda estava por se saber e tudo decorria aparentemente de forma normal.
A 3 de Setembro seria a primeira reunião do novo Governo. Aí, Salazar já se apresentou pálido e cansado.
«Na manhã seguinte, o secretário da Presidência, Paulo Rodrigues, iria aperceber-se de que ele várias vezes tirava os óculos para passar a mão pela testa, a letra estava tremida. Ainda nesse dia começou a queixar-se de fortes dores de cabeça. Foi então que D. Maria lhe desobedeceu e chamou Eduardo Coelho [médico pessoal de Salazar].»

Depois foi o processo de degradação do seu estado de saúde e o natural afastamento do já longo exercício do poder.
Os novos ministros, no entanto, puderam prosseguir no seu lugar - foram muito poucos aqueles que Marcelo Caetano trocou quando tomou posse a 27 de Setembro de 1968.
A evolução na continuidade.

A tomada de posse do Prof. Marcelo Caetano já atraiu a comunicação social

Nesse mesmo dia 19 de Agosto de 1968, longe do Palácio de Belém, a LUAR tentou pôr em prática um plano de ocupação da cidade da Covilhã - a "operação Matias" - para chamar a atenção para a situação portuguesa.

Comunicado da LUAR, Agosto de 1968

A operação era ambiciosa: militantes armados deviam dominar o posto emissor, cortar as comunicações, neutralizar os postos da PSP e da GNR e assaltar os bancos para conseguir fundos.

Uma operação de trânsito de rotina da PSP deitou tudo a perder, ao mandar parar as viaturas, apreender as armas e prender os cerca de 25 operacionais da referida organização política, incluindo o seu líder (Hermínio da Palma Inácio).


Sobre isso, como é óbvio, o silêncio forçado da comunicação social.


sábado, 11 de agosto de 2018

Imperador Adriano


Admiro a capacidade de quem sabe fazer as devidas correspondências no calendário e afirma peremptoriamente que essa foi a data.

«-Considera Adriano um génio?
- Certamente. (...) Porque ele inova continuamente, ou reforma sem cessar, com uma inteligência rara. (...) Foi inteligentíssimo em tudo. Se olhou muito para o passado, isso não o levou a negligenciar o futuro. Está muito mais próximo de nós do que o típico imperador romano de Suetónio, ou dos filmes e dos romances de grande espectáculo. Num certo sentido, é um homem do Renascimento. (...) Adriano não é fulgurante. É uma das coisas que gosto nele. É sobretudo lúcido, com grande abertura a mundos que não os seus... (...) Um pequeno poeta latino, Floro, dizia, troçando: "O imperador adora passear-se nos países frios, sob a neve cita e a chuva bretã." E Adriano respondia-lhe mais ou menos assim: "Ficai em Roma, nas tabernas, deixando-vos picar pelos mosquitos e falando de literatura."»
Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos - Conversas com Matthieu Galey

Admiro o génio de Marguerite Yourcenar.
Através dele admiro Adriano.


sábado, 30 de junho de 2018

Maio de 68 - 50 anos (22)

Leituras e heranças...

«Mais do que um movimento global, 1968 foi feito de 68 tão diversos (...)»
Manuel Loff


«Nos dez anos seguintes passou-se de uma "esquerda generalista" a "esquerdas especializadas": feminista, homossexual, ecologista, regionalista, anticonsumista, etc.»
Pascal Ory (historiador)

«A partir da década de 70, como herança dos eventos de Maio de 68, houve o ápice dos movimentos feministas. Essas mobilizações mudaram radicalmente os direitos das mulheres.»



«Graças a Maio de 68, houve uma importante evolução do sistema universitário e pedagógico na França. Antes, nas universidades as aulas eram dadas em grandes anfiteatros e somente o professor tinha palavra, depois foram introduzidas as salas menores, onde os estudantes poderiam participar.»
Julie Pagis (socióloga)

«(...) a reivindicação fundadora do 68 estudantil — a democratização do acesso à e da gestão da universidade, o ataque ao autoritarismo escolar e à pedagogia elitista — teve um evidente sucesso nos 30 anos que se seguiram a 1968 (...)»
Manuel Loff


«O movimento não era contra a sociedade de consumo, mas a favor dela» e teria preparado terreno para o capitalismo. 
Luc Ferry (filósofo)

Nicolas Sarkozy criticou a herança de Maio de 68 por ter liquidado a escola do mérito e do respeito e ter estabelecido as bases do capitalismo sem escrúpulos e sem ética.



«A tese mais comum sobre 68 (...) é a da vitória cultural mas derrota política. (...) Definir 68 como o embate entre uma vanguarda política e culturalmente criativa e um conservadorismo político e societal partilhado à direita e à esquerda, por burgueses e operários, é uma leitura tão intrinsecamente burguesa e liberal que ninguém nos 68 se atreveria a assumi-la.»
Manuel Loff


Maio de 68 - 50 anos (21)

«Faltam-me outras palavras, porque não sei o que vai acontecer. Só pressinto, como um bicho, que a meteorologia está mudando. Ou que, algures, um afloramento de alma faz ondear a crosta da nossa civilização burguesa: é a única certeza que tenho.»
António José Saraiva, Maio e a crise da civilização burguesa


Leituras de Maio há muitas.
As heranças de Maio foram várias...
Os herdeiros de Maio foram por muitos caminhos...

«Como em tudo, a leitura do passado faz-se sempre a partir dos valores do presente, pelo que uma boa parte do que se celebra hoje de 68 (e do estudantil em particular) é constituído sobretudo por pontos de chegada de um processo que, mesmo que se tenha iniciado em 1968, dificilmente se pode dizer que tenha sido desejado há 50 anos.»
Manuel Loff


«Nós não podemos perceber o Maio de 68 e os seus desenvolvimentos se ignorarmos a Revolução Chinesa, e a leitura ocidental que ela teve, e se ignorarmos a Revolução Cubana e a independência argelina e as lutas do Terceiro Mundo. E tudo isso criou um caldo de cultura política que também se manifesta em relação à invasão da Checoslováquia, combatida em muitos países pela mesma geração do Maio de 68.»
José Pacheco Pereira

«Foi uma geração que gerou o movimento. E que se bifurcou depois, perdida entre os arautos da pós-modernidade, os compromissos do Estado e as carreiras.» 
Francisco Louçã




«Tenho uma visão mais festiva sobre a coisa. Foi uma festa linda, um grito, um sobressalto. Não havia um projecto político. Foi um movimento libertário. Teve a importância que teve porque coincidiu com uma adesão maciça da classe trabalhadora: sete milhões de operários em greve, com a ocupação das empresas (não foi como a maior parte das greves de agora que servem para ficar em casa a ver a novela). Daí a vivência que tive. Comecei a estar integrado em grupos móveis de artistas que iam aos sítios ocupados, cantar, declamar e fazer sketches, com a dupla função de entreter e dar força moral para que continuassem.»
José Mário Branco

«Começou a parecer a muita gente que havia experiências revolucionárias que não seguiam o modelo leninista tradicional e que poderiam ser mais eficazes e, acima de tudo, pareciam mais modernas. A linguagem não era a mesma; a forma de vestir, também não. Havia símbolos icónicos que mostravam bem isso, como aquela fotografia tirada pelo Korda ao Che Guevara. Se formos a ver aquilo a que chamamos o adquirido do Maio de 68, que em Portugal chegou muito mais tarde, traduz-se no dar importância a lutas que até ali não tinham tido relevância. Há uma nova visão da psiquiatria, há uma nova forma de ver o problema das prisões, há um renovar do movimento feminista, o aparecimento com mais força do movimento LGBT. Houve em França e nos EUA...» 
José Pacheco Pereira

«A morte de Guevara, as barricadas da Rue Gay-Lussac, a sublevação do Quartier Latin, o incêndio da Bolsa de Paris, o ataque à Convenção Democrata em Chicago, a fuga de De Gaulle para junto do exército francês na Alemanha, o atentado contra Dutschke, o assassinato de Bobby Kenedy, de Malcom X, de Martin Luther King, o mundo ardia. Movia-se uma nova constelação: Joan Baez, Bob Dylan, os rapazes de Liverpool já se tinham calado. We want the world and we want it now, cantava o profeta Jim Morrison.» 
Francisco Louçã


Maio de 68 - 50 anos (20)



«31 de Junho de 1968*
Sucesso do governo nas eleições, excedendo todas as expectativas. A oposição perdeu mais de metade dos seus deputados, o PC idem. É a derrota do Waldeck-Rochet. O PCF vai entrar em crise, a não ser que se deixe encarreirar mansamente para uma situação eleitoral parecida com a da SFIO. (...)

Os "revolucionários" é que são coerentes, pois, desde o início, recusaram o jogo eleitoral e fizeram valer o princípio das "minorias actuantes". Somente, o princípio da minoria só vale na medida em que ela suscita a adesão da maioria. A minoria não comanda, convence. De outro modo seria a ditadura, e portanto a repressão, e portanto o Estado, e portanto a burocracia que os revolucionários pretendem abolir. A maioria alcançada pelos gaullistas nas eleições mostra que a França não está pronta para a revolução.

E, no entanto, ao ouvir ontem o Humberto, todo lançado na "Université d'été", convenço-me de que a revolução vai recomeçar no Outono com a abertura das aulas, não posso duvidar de que a revolução está em marcha. As eleições ficaram na sombra.
São estas duas atitudes que é preciso confrontar e opor: a França que vota gaullista maciçamente - incluindo a banlieue de Paris, que sempre votou vermelho -, a França que confirma a rotina; e, por outro lado, a revolução que prossegue, na minoria, o seu andamento, igualmente seguro e inelutável.

(...) São precisos conceitos diferentes para entender uma e outra. Uma revolução só é possível quando, de salto, a massa entra em estado dinâmico. Foi o que, parece, esteve quase para acontecer em Maio. Foi o que aconteceu em Novembro de 1917 na Rússia. É só no momento em que o estado dinâmico se propaga à maioria da população activa que a estrutura pode mudar.»


António José Saraiva, Maio e a crise da civilização burguesa


* Exactamente assim... no livro. O lado revolucionário de Maio de 68 chegou até ao calendário!...


Maio de 68 - 50 anos (19)



«(...) houve as eleições com os resultados que sabes. Em resumo, o PC perdeu perto de 3/4 dos deputados e cerca de meio milhão de votantes. A Féderation perdeu mais de metade dos deputados. Os gaulistas ortodoxos têm a maioria absoluta. Seguem-se-lhe em número de deputados os giscardianos (que estão à direita dos gaullistas, e não ao centro como dizem), o PC, a Federação e os Centristas. Há um número considerável de gaulistas de esquerda.

Esperava-se a vitória dos gaulistas, mas o recuo do PC foi para mim uma surpresa. O mais curioso é que o PC perdeu uma parte do seu eleitorado nos seus bastiões tradicionais, como a chamada "ceinture rouge" de Paris. Houve muitos operários que votaram gaulista. Isto confirma que a classe operária está em grande parte integrada no sistema, fazendo bicha para a sua vez na chamada "sociedade de consumo". O operários que tiveram a iniciativa da greve foram uma minoria muito esclarecida, pertencente, na maior parte, à metalurgia. O operariado vota no PC institucionalmente, mas considera o PC como um elemento da ordem e não da revolução. Num momento em que a ordem parecia ameaçada, as classes médias e uma parte do operariado consideraram que como baluarte da ordem o De Gaulle era preferível ao ao Waldeck Rochet. E à luz destas considerações percebe-se muito bem porque é que o PC condenou tão ostensivamente os "revolucionários" e centrou a sua campanha eleitoral à volta do tema de que é um partido ordeiro e inimigo de aventuras, com o "sens de l'État".

Foi um duche escocês. Na 1.ª fase pareceu que toda a gente em França queria a revolução; na 2.ª fase que toda a gente queria o status quo. Na realidade a revolução foi obra de uma minoria actuante, que durante mais de um mês penalizou a maioria. Só as minorias fazem as revoluções.

Tenho várias ideias anotadas sobre todo este problema num diário que escrevi e que te hei-de mostrar.*
(...)
O que vai seguir-se? (...) O De Gaulle vai acabar mal, evidentemente, porque terá contra ele a Esquerda e a Direita. A não ser que, mais uma vez, a audácia o recompense. De qualquer forma uma viragem está em curso em França, e, através dela, em toda a Europa ocidental. O socialismo, ou qualquer coisa com outro nome e mais desalienante do que o que o dito nome contém existencialmente, virá, mas por vias bem diferentes daquelas que ensinam os clássicos e os doutores. Viva a imaginação!»
Carta de António José Saraiva
António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência

* António José Saraiva, Maio e a Crise da Civilização Burguesa


sexta-feira, 29 de junho de 2018

José Manuel Tengarrinha

Morreu José Manuel Tengarrinha.
Nascido em Portimão, em Abril de 1932, foi um político, professor e historiador que se distinguiu no estudo do período liberal e da história da imprensa.

Opositor ao regime de Salazar, viria a estar ligado, já no período da Primavera Marcelista, à fundação da Comissão Democrática Eleitoral (CDE) para disputar as eleições de 1969. 
Detido várias vezes pela polícia política, estava na prisão de Caxias quando da revolução de 25 de Abril de 1974.

Um conjunto de opositores ao Estado Novo presos uma semana antes do 25 de Abril de 1974. 
Esta fotografia foi feita 40 anos depois da prisão. José Manuel Tengarrinha é o 3.º a contar da esquerda.
Entrevista pode ser vista aqui

Após o 25 de Abril, a CDE constituiu-se em partido - MDP/CDE -, tendo conseguido eleger 5 deputados à Assembleia Constituinte. José Manuel Tengarrinha foi um desses deputados, mais tarde também eleito para outras legislaturas.
Professor da Faculdade de Letras, época em que o conheci, dedicou-se mais à carreira académica. 
Voltaria à política recentemente, tendo aderido ao partido Livre.

Cartaz numa homenagem feita a José Manuel Tengarrinha, em 2012.

sábado, 23 de junho de 2018

Maio de 68 - 50 anos (18)

23 de Junho
Teve lugar a 1.ª volta das eleições legislativas depois da dissolução da Assembleia Nacional pelo Presidente Charles de Gaulle, para responder à crise de Maio de 68.

Sessão em que o Presidente da Assembleia Nacional anunciou a dissolução deste órgão.

Para estas eleições, os gaullistas formaram a UDR (Union pour la Défense de la République). O tema da campanha foi simples e eficaz: a defesa da ordem e a denúncia da ameaça subversiva e totalitária representada pelo Partido Comunista. Ao lado da UDR encontravam-se republicanos independentes e centristas moderados. 

À esquerda, o Partido Comunista e a FGDS (Fédération de la Gauche Démocrate e Socialiste) procuraram demarcar-se da desordem originada pelas movimentações estudantis. Só o PSU (Parti Socialiste Unifié) reivindicou a herança dos temas dos estudantes de 68 (não chegando a eleger qualquer deputado, apesar de quase 1 milhão de votos).

Dia 30 será a 2.ª volta...


quinta-feira, 31 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (15)

Maio entrou por Junho adentro...


Pouco mais de um mês depois da revolta, a 23 de Junho de 1968, França vota.
O partido conservador de Charles De Gaulle, a União dos Democratas para a República (UDR), ganha as eleições parlamentares, conquistando 353 dos 468 assentos.

«Nas eleições parlamentares que se seguiram, os partidos gaullistas governantes obtiveram uma esmagadora vitória, aumentando a sua votação em mais de um quinto e garantindo uma impressionante maioria na Assembleia Nacional. Os trabalhadores voltaram ao trabalho. Os estudantes foram para férias.»
Tony Judt, Pós-Guerra - História da Europa desde 1945 



Este historiador britânico considera que as revoltas estudantis de Maio de 1968, em França, "tiveram um impacto psicológico fora de todas as proporções do seu real significado". Tendo um estilo "aparentemente revolucionário, foram um "psicodrama" que entrou na mitologia popular, quase de imediato, como objecto de nostalgia.



Curioso que o governo de De Gaulle, constituído após a retumbante vitória de Junho de 1968, somente se sustenta no poder até Abril de 1969.

A História não é assim tão simples...


quarta-feira, 30 de maio de 2018

Maio de 68 - 50 anos (14)

30 de Maio
O Presidente de Gaulle regressa a França, depois de ter estado na Alemanha (Baden-Baden) com os comandantes de uma base militar francesa e de lhes ter pedido o apoio em caso de confrontação.

Cerca das quatro da tarde, através da rádio, fala à nação "com aquela voz profunda, solene, histórica, de militar da velha guarda." Anuncia a dissolução da Assembleia Nacional, recusa demitir-se, conserva o primeiro-ministro e ameaça decretar o estado de sítio. Adia o referendo que anunciara dia antes e convoca eleições antecipadas para 23 de Junho

As suas palavras geram uma gigantesca manifestação de apoio ao regime.
Cerca de 1 milhão de conservadores - as "direitas unidas" e os gaullistas, opostos à greve geral e fartos da violência nas ruas - marcham através de Paris.
«Antes das 16.30 h, estava-se em Cuba; depois das 16.35 h, estava-se quase na Restauração.» (Jean Lacoutoure)




«Tive a percepção de que o Maio de 68 estava a terminar quando estava a vir para casa, a pé, e ao passar pelos Campos Elísios deparei-me, a vir em sentido contrário, com uma grande manifestação com bandeiras tricolores. E, de repente, percebi que havia uma outra França, a chamada maioria silenciosa, que tinha acordado e estava na rua. Não é que eu tivesse perspectivado que pudesse ser diferente mas, naquele momento, entendi que estava a acabar e lembro-me de pensar que a História é mais complicada do que pensávamos. Isso foi-me muito útil quando voltei para viver o período depois do 25 de Abril, e perceber que as coisas não são irreversíveis. » (Sérgio Godinho)




A imagem é um pormenor de uma pintura de Júlio Pomar, Resistência (1946). 
Júlio Pomar, como José Mário Branco e Sérgio Godinho,
encontrava-se em Paris, em Maio de 1968.