"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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domingo, 7 de abril de 2019

Almada Negreiros

José Sobral de Almada Negreiros nasceu na Roça Saudade, em S. Tomé (S. Tomé e Príncipe), a 7 de Abril de 1893.


«(...) a situação de Almada Negreiros é ímpar, ao longo dos sessenta anos em que actuou, durante a vigência de três ou quatro gerações que variadamente o acolheram. O seu valor é sem dúvida especial (...)
Artista do Sudoeste europeu, da Península Ibérica, "el portugès Almada" foi um poeta e um pintor português, ou mais exactamente lisboeta, por valores assumidos duma mitificação cultural. (...)

Artista português, Almada não teve mestre para o ser. "Nós não precisamos de Mestres, para chegarmos a Mestres bastam-nos os nossos sentidos aqui na cidade." Esses sentidos explicam o visual que desenha ou escreve, aprendendo nessa vivência aguda e amorosa que foi sempre a sua, entendendo os seres e o seu sentido linear atá ao fundo duma anticiência "acusmaticamente" codificada em discurso geométrico.»
José-Augusto França, Amadeo & Almada


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Começar (de novo)

A RTP lembrou ontem...


A gravura mural Começar, é a última grande obra de Almada Negreiros – “um trabalho obcecante” -, inaugurada em Outubro de 1969.
Com 12,90 m x 2,20 m, foi gravada em calcário polido, no átrio da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa). Almada acompanhou a sua execução, feita por uma equipa de operários especializados.


É um discurso geométrico: uma profusão vertiginosa de linhas e arcos, acompanhados por números e expressões matemáticas, num jogo de cores.



«Vou simplesmente dizer o título da obra que eu concluí, que é uma obra síntese de tudo o que eu fiz na minha vida: é a Geometria. O título é Começar…»
(Almada Negreiros, numa conferência proferida por Jorge de Sena e dedicada, exactamente, a Almada Negreiros, em 1969).
Começar, a última obra.



domingo, 17 de abril de 2016

Gares Marítimas com os painéis de Almada Negreiros

Dia Internacional dos Monumentos e Sítios


«Tejo, lombada do meu poema aberto em páginas de Sol (...) Nós temos todos os rios de que precisamos. O Tejo é o maior; nasceu em Espanha, como outros, mas não quis ficar lá (...) Nós também temos varinas que vão pelas ruas como barcos sobre o Mar. - Elas sabem a sal. E trazem o Mar nas suas canastras.»
Almada Negreiros, Histoire du Portugal par Coeur



Dois dos painéis da Gare Marítima de Alcântara
(sobre Lisboa e o Tejo)


sexta-feira, 18 de março de 2016

O caçador

«Um dia um caçador… Não, ele não era caçador. Ia hoje à caça pela primeira vez. Uns desgostos levaram-no a experimentar a caça. Sobretudo, porque os caçadores chegam estafados à cama e dormem com os inocentes. E para que não lhe perguntassem o que fazia pelos campos, foi comprar uma farpela de caçador e todos os seus pertences, ajudado pelo catálogo de St. Étienne. Por conseguinte, era uma vez um rapaz vestido de caçador.»
Almada Negreiros



domingo, 29 de março de 2015

A Invenção do Dia Claro

Almada tinha razão: mais luz, alegres.




História das Palavras

«As mulheres e os homens estavam espalhados pela Terra. Uns estavam maravilhados, outros tinham-se cançado. Os que estavam maravilhados abriam a bocca, os que se tinham cançado tambem abriam a bocca.

Houve um homem sósinho que se poz a espreitar esta diferença - havia pessoas maravilhadas e outras que estavam cançadas. 

Depois ainda espreitou melhor. Todas as pessoas estavam maravilhadas, depois não sabiam aguentar-se maravilhadas e ficavam cançadas.

As pessoas estavam tristes ou alegres conforme a luz para cada um - mais luz, alegres - menos luz, tristes.

O homem sósinho ficou a pensar n'esta diferença. Para não esquecer fez uns signaes n'uma pedra.

Este homem sósinho era da minha raça - era um Egypcio!

Os signaes que elle gravou na pedra para medir a luz por dentro das pessôas, chamaram-se hieroglifos.

Mais tarde veiu outro homem sósinho que tornou estes signaes ainda mais faceis. Fez vinte e dois signaes que bastavam para todas as combinações que ha ao Sol.

Este homem sósinho era da minha raça - era um Phenicio!

Cada um dos vinte e dois signaes era uma lettra. Cada combinação de lettras uma palavra.»

Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro


terça-feira, 24 de março de 2015

Revista de uma geração

24 de Março de 1915
Publicação do n.º 1 da Orpheu.



"Literatura de manicómio" é o título de um artigo de A Capital em que se analisa (?) a revista.
Os poetas de Orpheu são considerados "casos de paranóia", clinicamente falando. Orpheu é considerado um caso de foro psiquiátrico.


«Rilhafolescamente: A humanidade avança... mais 200 anos e o mundo será um grande manicómio.»
(O Povo, 17 de Abril de 1915)

Como escrevia Fernando Pessoa numa carta a Côrtes-Rodrigues (4 de Abril de 1915): «Somos o assunto do dia em Lisboa; sem exagero lho digo. O escândalo é enorme. Somos apontados na rua, e toda a gente - mesmo extraliterária - fala do Orpheu.»

É assim que Fernando Pessoa apresenta a revista, quando, depois do n.º 2, escreve a Camilo Pessanha a convidá-lo para colaborar:
«(...) é a única revista literária a valer que tem aparecido em Portugal, desde a Revista de Portugal, que foi dirigida por Eça de Queirós. A nossa revista acolhe tudo quanto representa a arte avançada; assim é que temos publicado poemas e prosas que vão do ultra-simbolismo ao futurismo.»

Orpheu é uma bem-aventurada reunião de um conjunto multifacetado de poetas e artistas com "afinidades dissonantes". «Quando algumas pessoas têm a mesma desgraça... juntam-se.», afirmou Almada Negreiros na entrevista que deu, em 1969, no Zip Zip.
Corresponde a um encontro pleno das letras com as artes, espaço de uma expressão criativa de ruptura. A alma modernista centra-se em Almada Negreiros, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, todos numa fase de afirmação e de irreverência própria de quem está na casa dos vinte anos.

Como continua Fernando Pessoa na carta para Camilo Pessanha, «[A revista] tem sabido irritar e enfurecer, o que, como V. Ex.ª muito bem sabe, a mera banalidade nunca consegue que aconteça. Os dois números não só se têm vendido, como se esgotaram, o primeiro deles no espaço inacreditável de três semanas. Isto alguma coisa prova - atentas as condições artisticamente negativas do nosso meio - a favor do interesse que conseguimos despertar.»

Júlio Dantas atacava: «Quem não tem juízo, é quem os lê, quem os discute e quem os compra.»

Resposta (através de Almada): «Morra o Dantas, morra! PIM!»


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Crepúsculo quotidiano

Por hoje já foi o bastante
por hoje basta d'evaporar bílis em espírito
alambique contra-instantes
basta d'espírito sem corpo e alma
um dia mais que vence a morte 
embate terrível entre vida e morte
vence-se a morte e não a vida
empate entre elas 
e nós resultado d'empate 
vamos indo graças a Deus

Ao cair da Luz na sua fronteira com as trevas
começa o espectáculo
o número do limite possível anima-se d'indefinido
o homem julga querer
e lê perfeitamente o que não pode
ainda? Há milénios.

De Deus e do Seu Sagrado não é a dúvida
mas no resto é
fazer fim do meio
e próprio de meio o que não é fim
nisto vamos graças a Deus

O frete de ser excede qualquer
e não se esboça outro
a dupla coluna do Céu e da Terra aos lombos de Atlas
mirra-nos o físico, larga-nos a alma, incendeia-nos o espírito 
e foca-nos
foca-nos o tríduo pelo menos.

(...)
Almada Negreiros


sábado, 12 de abril de 2014

Visita ao Palácio de Belém

Aproveitei a ausência do voluntário de Belém para visitar o palácio.
O palácio onde D. José I se safou do terramoto.

Penso ter completado a colecção de palácios reais da capital.
No interior, nada de fotos por motivos de segurança. Insegurança? São tão poucos os espaços que se podem visitar! E os que se visitam são conhecidos através da televisão e das foto do Museu da Presidência.
Já nas Necessidades a história é a mesma. E aí a vontade é maior - o interior do palácio é muito bonito e as visitas são raras, o que o torna desconhecido.


Sala dos Embaixadores - O magnífico lustre com a águia bicéfala, encomendado por um Romanov (Paulo I, filho de Pedro III e Catarina, a Grande), em Veneza, e adquirido por D. Fernando II, para o Palácio das Necessidades.

Na Sala Império, os painéis da Nau Catrineta, de Almada Negreiros (gare marítima de Alcântara), reproduzidos em tapeçarias de Portalegre - "Lá vem a nau Catrineta que traz muito que contar."

Montagem (com falhas) a partir de imagens copiadas da net

Vista a partir da varanda

Jardim de cima


segunda-feira, 7 de abril de 2014

Almada Negreiros

«Dizem que sou eu, o Menino d'Olhos de Gigante; e eu juro, pela minha boa sorte que não sou só eu!»
Almada Negreiros 
(nasceu a 7 de Abril de 1893)



segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Ver Almada


Comemoraram-se 120 anos do nascimento de Almada Negreiros e, simultaneamente, 100 anos da sua primeira exposição individual, nos salões da Escola Internacional de Lisboa.


Almada - one man show (expressão de Fernando Cabral Martins) - desenhador, caricaturista, pintor, poeta, bailarino, conferencista, dramaturgo, romancista, ensaísta, crítico de arte... Multiplicador (ou desmultiplicador) de criação artística nos seus vários níveis.
O sentido crítico mordaz e a criatividade permanente constituem a unidade dessa obra multifacetada.

Artista "Assim, inteiro, sem adjectivos, só de uma peça!"



sexta-feira, 17 de maio de 2013

Confidências

Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!
Almada Negreiros 




domingo, 5 de maio de 2013

Maternidade


Maternidade
Almada Negreiros

Pintura de 1935, referência ao nascimento do primeiro filho do pintor, ocorrida em finais do ano anterior.
O círculo quase perfeito que resulta do envolvimento do filho pela mãe - criação de uma forma única.

domingo, 7 de abril de 2013

Almada Negreiros


Almada Negreiros - 7 de Abril de 1893 - 15 de Junho de 1970

Vêm aí as comemorações dos 120 anos do nascimento e 100 da primeira exposição (números redondos). Que sejam em grande, como a vida e os sonhos de Almada. Nada de pequenez!

«Almada é sábio e saltimbanco, vanguardista e actor, poeta e mágico, desenhador e arlequim, contista e pintor, gráfico e coreógrafo, todas essas funções desempenhadas num grande teatro dedicado à lealdade e à paixão. E a sua obra é marcada por um virtuosismo que se multiplica pela diversidade das suas práticas.»
(posfácio a José de Almada Negreiros, Ficções)

Numa nota autobiográfica que acompanhava a exposição Humoristas Portugueses (1913) escreveu: «A data mais memorável da minha individualidade será por certo 1993, quando universalmente se festejar o centenário do meu nascimento.»

Auto-retrato