"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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domingo, 14 de abril de 2019

Íntima fracção

À memória de Francisco Amaral.

A música que iniciava o Íntima Fracção, num tempo de boas músicas... há já umas décadas.

«Sempre pouco para dizer, muito para escutar, tudo para sentir.»



sábado, 26 de janeiro de 2019

Ephemera: 10 anos aos papéis


Início das comemorações do 10.º aniversário da biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira, o guardião da memória, com a presença de António Costa e da Ministra da Cultura.

O que estará Pacheco Pereira a mostrar?

"Fora nada que sirva a memória"


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Soledad



Soledad, antes que o sol se vá 
Como um pássaro perdido 
Também te direi Adeus 
Soledad, Soledad 
Também te direi Adeus





segunda-feira, 19 de novembro de 2018

1.º Festival de Jazz de Cascais

20 e 21 de Novembro de 1971
Em plena primavera marcelista, depois do festival de Vilar de Mouros, o Cascais Jazz era o segundo grande evento musical que fugia ao enquadramento do regime do Estado Novo.

O programa do festival era representativo do jazz que se fazia na época: 4 grupos em cada noite – os mais modernos na noite de dia 20, os mais "tradicionais" na segunda noite.
O público era, essencialmente, constituído por jovens. O Cascais Jazz, no velho pavilhão do Dramático, seria não só a celebração de uma expressão musical, como um espaço de liberdade e de rebeldia, difíceis de viver à data. 


A forte presença de público salvou financeiramente o festival, cujos principais patrocinadores retiraram o apoio quase em cima da hora. O entusiasmo superou a má acústica do pavilhão (que chegava a ter uma bancada atrás do palco) e os atrasos do programa. 

A história mais conhecida deste festival, é a que envolve Charlie Haden, contrabaixista do quarteto de Ornette Coleman. Haden, que teria vindo tocar contrariado a Portugal, dedicou uma das composições do grupo – Song for Che – aos movimentos de libertação de Moçambique, Guiné e Angola.
Os espectadores aplaudiram e manifestaram-se ruidosamente, teria havido quem aproveitasse para espalhar panfletos contra a guerra colonial, e a polícia de choque, de prevenção no exterior, invadiu o recinto. 

No final da noite, a PIDE aguardava Charlie Haden e Luís Vila-Boas, o mais conhecido dos organizadores.
Foram precisas várias horas de negociação para se conseguir autorização para a segunda noite do festival. Ficou a promessa que aquele seria o último festival de jazz de Cascais.
Charlie Haden, gozando da intervenção do adido cultural da embaixada americana, esteve poucas horas detido, sendo depois escoltado para o aeroporto da Portela. Só voltaria a Portugal depois do 25 de Abril de 1974. Dizem que Luís Vilas-Boas deixou de gostar de ouvir o seu nome!








Quando vejo o cartaz do 1.º Festival de Jazz de Cascais, penso no incrível programa: como se conseguiu, num primeiro ano, num país que vivia em ditadura, ter um conjunto de músicos daqueles?



20 e 21 de Novembro de 1971
Eu dormia tranquilo, frequentava o antigo 3.º ano de Liceu e não queria chumbar outra vez. 
Ignorava o que se passava em Cascais, estava longe do jazz. Ouvia My Sweet Lord, já conhecia Procol Harum, Moody Blues, gostara do Submarino Amarelo... Em casa ouvia-se muita música no (na?) rádio.
Da guerra colonial já sabia e assustava-me...


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Juntos


Ponho um ramo de flores
na lembrança perfeita dos teus braços;
cheiro depois as flores
e converso contigo
sobre a nuvem que pesa no teu rosto;
(...)

Depois, 
não sei porquê nem porque não,
essa recordação desfaz-se em fumo;
muito ao de leve foge a tua mão,
e a melodia já mudou de rumo.

Coisa esquisita é esta da lembrança!
Na maior noite,
na maior solidão,
vem a tua presença verdadeira,
e eu vejo no teu rosto o teu desgosto,
e um ramo de flores, que não existe, cheira!
Miguel Torga


sexta-feira, 4 de maio de 2018

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Sebastião Fernandes (1947 - 2018)


Soube hoje que, em finais de Janeiro, morreu Sebastião Fernandes, o "velho" Sebastião, cozinheiro do Velha Goa (Campo de Ourique), proprietário, depois, do Cantinho da Paz e da Casa de Goa, que deixou para ir para o Nova Goa.

Sempre a cozinha da sua Goa, onde a comida portuguesa e a comida indiana confluem.
Recordo a sua simpatia, o seu saber e o que chorei por causa de um ambotic de cação!

«Quando eu morrer, quero que os meus clientes estejam todos lá [no Cantinho da Paz]. Quero uma festa!» (dizia ele à neta)


Logo que tenha oportunidade, lá irei!



sábado, 27 de janeiro de 2018

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto




Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelo e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa, andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entrave,
Que os vossos filhos vos virem a cara.
Primo Levi


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

E então a noite caiu...


E então a noite caiu, para que não se falasse
do cair da noite. A noite caiu tão fria como as
últimas noites que caíram, neste princípio de
inverno, e ninguém pôs um colchão por baixo
dela para que a noite não se magoasse, ao cair.
A noite limitou-se a cair, e com ela caiu o céu
sem lua, com todas as estrelas do universo a
caírem com ela. Só os olhos não caíram, porque
para verem o céu e as estrelas que o enchiam
tiveram de se levantar. E foi preciso falar
do cair da noite para que os olhos tomassem
a direcção do céu, e descobrissem tudo o que
havia no céu sem lua. “Deixem cair a noite”,
disse alguém. E logo alguém pediu que o
dia se levantasse, como se uma coisa estivesse
ligada à outra. Então, o dia levantou-se da
noite em que caiu; e a noite caiu sobre o dia
que se levantava, para que a sua queda fosse
amparada pelo colchão do dia, e as estrelas
tivessem onde pousar, à medida que caíam.
Nuno Júdice, As coisas mais simples

10 anos...


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Nos idos de 75

Alguém tinha de lavar a loiça...

... depois do jantar dos meus anos
(mais novo do que aquilo que eu sou hoje)


terça-feira, 25 de outubro de 2016

Encasacados

Memória de uma ida ao Altinho, junto à Pousada de S. Gens (Serpa), recentemente reaberta agora (2016).
A perna arqueada, estilo extremo, que terá herdado dos tempos de futebolista.



Pouco tempo passaria do 25 de Abril, pelo meu aspecto...
Mas Verão é que não era...


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

7 de Outubro - início das aulas

Era a 7 de Outubro que as aulas começavam.
Falamos do pré-25 de Abril.


E aqui venho eu, todo pimpão, do meu primeiro dia de aulas, ao lado da Isabelinha e da Isa, sob o olhar de uma vizinha. 
Outubro de 1964, na praceta, como a minha mãe fez questão de registar nas costas da fotografia. Como só uma mãe faria.


domingo, 4 de setembro de 2016

Na Festa do Avante, há 40 anos

Estive na primeira, na antiga FIL (em Alcântara), há 40 anos (e em muitas outras, enquanto se realizaram na margem Norte - logo havia de "desistir" quando passou para a Amora, no lado de lá...).


Ainda recordo os militantes mais velhos vindos da província, sentados na bancada central, em frente ao palco, aguardando os discursos políticos e mandando os técnicos pôr o som dos Area mais baixo.



Ainda era o tempo (apesar dos meus 18) em que a minha mãe se preocupava por eu chegar tarde a casa...



segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Introdução à História - Marc Bloch

Começar Agosto a encontrar uma relíquia e a recordar o tempo da descoberta da História.

Esquecido numa estante da livraria, um livro, na sua edição de 1997 (a 1.ª em Portugal):


À ideia, pela proximidade da visita do Papa aos campos de concentração nazis e às imagens passadas, o fim de Marc Bloch.
Historiador francês nascido há 130 anos (6 de Julho de 1886), grande especialista em história medieval, teórico de uma nova corrente da História e fundador da revista Annales d'Histoire Économique et Social, revista símbolo dessa corrente, judeu perseguido pelos nazis/regime de Vichy, que integrou a Resistência e foi preso e fuzilado (em território francês) pela Gestapo, em Junho de 1944.

Introdução à História - título original, Apologie pour l'Histoire ou Métier d'historien - na sua nova edição, revista, aumentada e criticada pelo filho mais velho, Étienne Bloch, a partir da totalidade dos manuscritos deixados, o que permitiu corrigir algumas passagens da edição anterior, da responsabilidade do velho companheiro de Marc Bloch, o também grande historiador Lucien Febvre, a quem a obra foi dedicada.

Obra incompleta, pelas circunstâncias históricas em que se encontrava a ser escrita.
Na dedicatória, redigida em 1941, já Marc Bloch duvidava da própria publicação da obra:
«Se este livro vier, um dia, a ser publicado; se, de simples antídoto ao qual peço hoje, entre as piores dores e as piores ansiedades, pessoais e colectivas, um pouco de equilíbrio da alma, vier a tornar-se jamais num verdadeiro livro, lançado para ser lido (...)»

Da primeira edição portuguesa, guardo o exemplar comprado quando da entrada na Faculdade, com muitas anotações (a lápis, claro!) nas margens, em letra miudinha de estudante "aplicado", cheio de vontade de aprender com o velho mestre.

«"Pai, diga-me lá para que serve a história." Era assim que um rapazinho meu próximo parente interrogava, há poucos anos, um pai historiador. Gostaria poder dizer deste livro que ele é a minha resposta.»
Assim começava.
Adivinha-se que o rapazinho seria o seu filho.
Assim entrei na História, feito filho de Marc Bloch.



quarta-feira, 6 de julho de 2016

Numa fotografia



Não sejas como a névoa, nem quimera.
Demora-te, demora-te assim: 
faz do olhar
tempo sem tempo, espaço
limpo - do deserto ou do mar.
Eugénio de Andrade, O outro nome da terra