"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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domingo, 31 de março de 2019

Muda a hora


O despertador desperta, 
acorda com sono e medo; 
por que a noite é tão curta 
e fica tarde tão cedo?
Millôr Fernandes



segunda-feira, 2 de novembro de 2015

sábado, 29 de março de 2014

Cuidado com a mudança da hora!



Relógio combalido...
minutos eram muitos, tantos, tantos...
e os astros à lareira
aprendem a aquecer-se...
(...)
Jorge de Sena


domingo, 27 de outubro de 2013

Do tempo vivido ao tempo medido ou... dar corda ao relógio

Dar corda ao relógio
(ilustração de meados do século XV)

«Os aparelhos de medir o tempo não aparecem senão muito tarde na história da humanidade. (...) o tempo, sendo essencialmente não mensurável, nunca se nos apresenta senão como provido de já de uma medida natural, cortado já em fatias pela sucessão das estações e dos dias, pelo movimento - e os movimentos - do relógio celeste, que a natureza previdente teve o cuidado de pôr à nossa disposição. Fatias um pouco espessas, sem dúvida. E bastante mal definidas, imprecisas, de duração desigual: mas que importância pode isso ter no quadro da vida primitiva, da vida nómada, ou mesmo da vida agrícola? A vida desenrola-se entre o erguer e o pôr do Sol, com o meio-dia como ponto de divisão. Um quarto de hora, ou mesmo uma hora a mais ou a menos não mudam absolutamente nada. É apenas a civilização urbana, evoluída e complexa, que, por exigências precisas da sua vida pública e religiosa, pode vir a sentir a necessidade de saber a hora, de medir um intervalo de tempo. É só então que surgem os relógios. (...)

Foi nos mosteiros, e por necessidade do culto, que terão nascido e se terão propagado os relógios, e terá sido este hábito da vida monástica, o hábito de se conformar com a hora, que, difundindo-se em redor da muralha conventual, impregnou e informou a vida citadina, fazendo-a passar do plano do tempo vivido ao do tempo medido.»
Alexandre Koyré, Do Mundo do "mais ou menos" ao Universo da Precisão


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A arte da lentidão

Um excelente texto de José Tolentino Mendonça sobre nós e a nossa vida, publicado já em 25 de Maio, no Expresso.
A falta de tempo "normal" impediu-me de o ler devidamente na altura, o que o tempo de férias me permitiu fazer agora.

«Talvez precisemos voltar a essa arte tão humana que é a lentidão. Os nossos estilos de vida parecem irremediavel­mente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as pergun­tas atrasam-nos, os sentimentos são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas resulta­dos. À conta disso, os ritmos de atividade tomam-se impiedosamente inaturais. (...) Passamos a viver num open space, sem paredes nem margens, sem dias diferentes dos outros, (...) Deveríamos, contudo, refletir sobre o que perdemos, sobre o que vai ficando para trás, submerso ou em surdina, sobre o que deixamos de saber quando permitimos que a acelera­ção nos condicione deste modo.
(...) A pressa condena-nos ao esquecimento. Passamos pelas coisas sem as habitar, falamos com os outros sem os ouvir, juntamos informação que nunca chega­mos a aprofundar. Tudo transita num galope ruidoso, veemente e efémero. Na verdade, a velocidade com que vivemos impede-nos de viver.
Uma alternativa será resgatar a nossa relação com o tempo. Por tentativas, por pequenos passos. Ora isso não acontece sem um abrandamento interno. Precisa­mente porque a pressão de decidir é enorme, necessitamos de uma lentidão que nos proteja das precipitações mecâ­nicas, dos gestos cegamente compulsi­vos, das palavras repetidas e banais. Precisamente porque nos temos de desdobrar e multiplicar, necessitamos de reaprender o aqui e o agora da presença, de reaprender o inteiro, o intacto, o concentrado, o atento e o uno. (...)
Mesmo se a lentidão perdeu o estatuto nas nossas sociedades modernas e oci­dentais, ela continua a ser um antídoto contra a rasura normalizadora. A lenti­dão ensaia uma fuga ao quadriculado; ousa transcender o meramente funcio­nal e utilitário; escolhe mais vezes convi­ver com a vida silenciosa; anota os pequenos tráficos de sentido, as trocas de sabor e as suas fascinantes minúcias, o manuseamento diversificado e tão íntimo que pode ter luz.»
Amen