"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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domingo, 31 de março de 2019

Eça não estava lá

Pensei que Eça poderia estar em Paris, onde era Cônsul Geral, quando da inauguração da Torre Eiffel.

Mas Eça estava em Lisboa: tinha vindo perto do final do mês de Março. Os seus companheiros dos Vencidos da Vida recebem-no a 26, para um jantar no Hotel Bragança. E por esses dias repetem-se os encontros e o jantares entre os amigos.

A subida à Torre Eiffel fá-la-á mais tarde, a 27 de Agosto, acompanhando o (ainda) príncipe D. Carlos. Este teria ido a Paris pela Exposição Universal. 

«Por aqui nada de novo. Esteve cá Luís Soveral, e fizemos um jantar de vencidos, com bacalhau, na Maiso d'Or. Depois houveram cantigas e danças. Agora está cá o Príncipe. Subimos com ele à Torre Eiffel - e, sicut licet exclamámos: "é explêndido!" A torre não dá para mais do que uma exclamação - mas essa é de dever, e não lha regateámos.»
Carta a Oliveira Martins



domingo, 10 de fevereiro de 2019

10 de Fevereiro e Eça de Queirós

A 10 de Fevereiro de 1867, Eça de Queirós abriu escritório de advogado em Évora, no edifício da sede de redacção do Distrito de Évora, na actual Praça Joaquim António de Aguiar.


Edifício onde funcionou a sede da redacção do Distrito de Évora (foto Google maps)

A 10 de Fevereiro de 1886, Eça de Queirós casou-se com Emília de Castro Pamplona, na capela particular da Quinta de Santo Ovídio (Porto), que pertencia à família da noiva, os Condes de Resende.


Fachada poente e jardins do solar da Quinta de Santo Ovídio
A fachada principal, voltada a nascente, dava para a
Praça da Regeneração, actual Praça da República.
Pintura do jardim primitivo (século XVIII), presumivelmente desenhado por Nasoni.

O casal
«Aqui é um convento, adormecido dentro da sua cerca, ou antes do seu roseiral, porque apenas em Maio tudo são rosas, e tão afastado do mundo e das suas empresas que, quando a sineta do portão, anunciando o correio, quebra este lento silêncio que só costuma ser quebrado pelo cantar dos repuxos, há tanto alvoroço como outrora entre os frades de Tibães ou do Bostelo, ao chegar com grande guizalhada de machos, o estafeta da corte. De manhã passeio na rua dos Loureiros, que é no meio da cerca, sem breviário, mas tão pachorrentamente como se levasse os olhos postos num; e à noite leio genealogias e agiológios.»
Excerto de uma carta de Eça de Queirós para Eduardo Prado (1892)

O solar foi demolido em 1895, para abertura da Rua Álvares Cabral.

Reparei nas datas durante a visita à exposição

Informações sobre Eça comple(men)tadas na Fotobiografia, de A. Campos Matos.
Informações sobre o solar da Quinta de Santo Ovídio (e que tantos nomes foi tendo...) na Fotobiografia e no blog Monumentos Desaparecidos.


sábado, 22 de dezembro de 2018

Literatura pesada


«Estamos em férias de Natal; é esta a época das festas de família, do plum-pudding, e duma praga de versos, de publicações, de baladas, de contos alegóricos, de cromo-litografias celebrando o velho ano, o bom Christmas, o ano novo e as doçuras do lar! O Natal dá lugar a uma singular experiência de literatura, que é para as letras o que o plum-pudding é para as confeitarias - um produto pesado e indigesto que todo o mundo gosta de ver sobre a mesa e em que ninguém toca, e que a gente grande estima pela alegria que dá às crianças. É sobretudo para as crianças que são escritas estas poesias piegas, e estas histórias de fantasmas, desenhadas estas vistas convencionais da neve e estas figuras grotescas da caridade. Os jornais, ou revistas, todas as publicações, põem de parte o bom senso, ciência ou arte, e dedicam um número a estas crianças, que se chama "o número de Natal", o que pela venda prodigiosa que tem, constitui um dos rendimentos das publicações inglesas. Os teatros fazem o mesmo: e todos sem excepção, representam nesta época a "pantomina", espécie de mágica desordenada, cheia de transformações, de bailados, e de glorias, onde aparecem simultaneamente actores, palhaços, cães sábios, virtuoses ilustres, feras, dançarinas célebres, habitantes de países exóticos (lapónios ou patagónios), macacos, esquadrões de cavalaria, e cascatas naturais! Estas representações duram três meses, e toda a família verdadeiramente inglesa e que respeita as tradições, vai ver a "pantomina" pelo menos três vezes, com todas as crianças e todos os criados: uma solenidade doméstica.»
Eça de Queirós, Cartas de Londres





domingo, 25 de novembro de 2018

Eça, um artista

«Convenci-me de que um artista não pode trabalhar longe do meio em que está a sua matéria artística: Balzac (...) não poderia escrever a Comédia Humana em Manchester (...) Eu, não posso pintar Portugal em Newcastle. De modo que estou nesta crise intelectual: ou tenho de me recolher ao meio onde posso produzir, por processo experimental - isto é, ir para Portugal - ou tenho de me entregar à literatura puramente fantástica e humorística.»
Carta a Ramalho Ortigão, 8 de Abril de 1878



Eça de Queirós nasceu a 25 de Novembro de 1845.


terça-feira, 6 de setembro de 2016

Está de escachar! Derrete os untos!

«- Sim, está de escachar!
(...) Entrei no quarto atordoado, com bagas de suor na face. E debalde rebuscava desesperadamente uma outra frase sobre o calor, bem trabalhada, toda cintilante e nova! Nada! Só me acudiam sordidezes paralelas, em calão teimoso: "é de rachar"!, "está de ananases"!, "derrete os untos"!... (...)»
Eça de Queirós, Correspondência de Fradique Mendes


quinta-feira, 7 de abril de 2016

Já não há bengalas como antigamente...


«Até aos Olivais, não cessou de ruminar coisas vagas e violentas que faria para aniquilar o Dâmaso. No seu amor não haveria paz, enquanto aquele vilão o andasse comentando sordidamente pelas esquinas das ruas. Era necessário enxovalhá-lho de tal modo, com tal publicidade, que ele não ousasse mais mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil... Quando o coupé parou à porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas no Dâmaso, uma tarde, no Chiado, com aparato…»
Eça de Queirós, Os Maias

Mas há dificuldade em compreender a cultura de finais de 1800...


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Memórias de Um Átomo...

«Carlos ria, abraçando-o outra vez.
- E donde vens tu, de Celorico?
- Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... O fígado, o baço, uma infinidade de vísceras comprometidas. Enfim, doze anos de vinhos e águas-ardentes.»

Não me lembrava que o Ega tinha vindo da Foz!
Valha-nos a televisão...



domingo, 22 de novembro de 2015

Proximidades - as bandeiras francesas e o pé da Luisinha Carneiro

Várias pessoas, nas redes sociais (e falo do fb), acusam outras de hipocrisia, porque estas últimas coloriram a sua foto com as cores da bandeira francesa em sinal de solidariedade com os franceses, após os atentados do passado dia 13.
Para sustentar essa acusação, lembram os atentados noutros territórios, nomeadamente em vários pontos de África.
Pintar uma bandeira ou colocar uma foto de Paris ou outra imagem alusiva... vale o que vale. Para alguns pode servir de lenitivo. Outros participam, apenas, do momento.
Sentir o que acontece em Paris mais do que aquilo que acontece em África (Mali, Nigéria, Camarões...) parece-me natural. Em África, se for em alguma das nossas antigas colónias, certamente que a reacção será mais emotiva. Há uma proximidade geográfica e afectiva em relação a quem tem mais afinidades connosco, está mais perto, pertence ao "nosso mundo" nesse outro mundo mais vasto.
Quando li a tal acusação de hipocrisia por parte de um ex-aluno já crescidinho (e não foi feita a mim, que não "partilhei" aí o momento), lembrei-me de um texto de Eça de Queirós que eu costumava trabalhar nas turmas a quem leccionava Português.

O texto é este:
(pode estar com algumas adaptações em relação ao original)

Bem recordo uma noite em que, numa vila de Portugal, uma senhora lia, à luz de um candeeiro, que dourava mais radiantemente os seus cabelos já dourados, um jornal da tarde. Em torno da mesa outras senhoras costuravam.
Espalhados pelos sofás e no divã, três ou quatro homens fumavam, na doce indolência do tépido serão de Maio. E pelas janelas abertas sobre o jardim entrava, com o sussurro das fontes, o aroma das roseiras. No jornal que o criado trouxera e ela nos lia, abundavam as calamidades. Era uma dessas semanas também em que pela violência da natureza e pela cólera dos homens se desencadeia o mal sobre a Terra.
Ela lia as catástrofes lentamente, com a serenidade que tão bem convinha ao seu sereno e puro perfil latino. “Na ilha de Java um terramoto destruíra vinte aldeias, matara duas mil pessoas…”. As agulhas atentas picavam os estofos ligeiros; o fumo dos cigarros rolava docemente na aragem mansa; e ninguém comentou, sequer se interessou pela imensa desventura de Java. Java é tão remota, tão vaga no mapa! Depois, mais perto, a Hungria, “um rio transbordara, destruindo vilas, searas, os homens e os gados…”. Alguém murmurou, através de um lânguido bocejo: “Que desgraça!”. A delicada senhora continuava, sem curiosidade, muito calma, aureolada de ouro pela luz. Na Bélgica, numa greve desesperada de operários que as tropas tinham atacado, houvera entre os mortos quatro mulheres, duas criancinhas… Então, aqui e além, na aconchegada sala, vozes já mais interessadas, exclamaram brandamente: “Que horror!... Estas greves!... Pobre gente!...”. De novo o bafo suave, vindo de entre as rosas, nos envolveu, enquanto a nossa amiga percorria o jornal atulhado de males. E ela mesmo teve um oh de dorida surpresa. No sul de França, “junto à fronteira, um trem descarrilando causara três mortos, onze ferimentos…”. Uma curta emoção, já sentida, já sincera, passou através de nós com aquela desgraça quase próxima, na fronteira da nossa península, num comboio que desce a Portugal, onde viajam portugueses… Todos lamentámos, com expressões já vivas, estendidos nas poltronas, gozando a nossa segurança.
A leitora, tão cheia de graça, virou a página do jornal doloroso e procurava noutra coluna, com um sorriso que lhe voltara, claro e sereno… E, de repente, solta um grito, leva as mãos à cabeça:
- Santo Deus!...
Todos nos erguemos num sobressalto. E ela, no seu espanto e terror, balbuciando:
- Foi a Luísa Carneiro, da Bela Vista… esta manhã! Desmanchou um pé!
Então a sala inteira se alvorotou num tumulto de surpresa e desgosto.
As senhoras arremessaram a costura; os homens esqueceram charutos e poltronas; e todos se debruçavam, reliam a notícia no jornal amargo, se repastavam da dor que ela exalava!... A Luisinha Carneiro! Desmanchara um pé! Já o criado correra, furiosamente, para a Bela Vista, buscar notícias por que ansiávamos. Sobre a mesa, aberto, batido da larga luz, o jornal parecia todo negro, com aquela notícia que o enchia todo, o enegrecia.

Eça de Queirós, Cartas Familiares



quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Os Maias no cinema

Estreou hoje.


Independentemente da qualidade do filme - será bom, não será - já é óptimo que alguém se tenha aventurado numa realização cinematográfica de Os Maias - que tenha feito um esforço, corrido com ânsia para (ou por) alguma coisa que não um americano.
Na vida, sempre vale a pena correr por qualquer coisa.


sexta-feira, 27 de junho de 2014

800 anos de Língua Portuguesa (mas também de dívidas e de abusos)

Há quem comemore os 800 anos da Língua Portuguesa.
Há quem conteste a data e, sobretudo, a pertinência do evento, entrando por considerações mais substanciais:
«Quando a investigação científica séria em Portugal está subfinanciada, especialmente nesta área das Humanidades, não têm vergonha cívica de apoiar iniciativas diletantes?»
Prof. Ivo de Castro, Catedrático da Fac. de Letras de Lisboa

Fora isso (que não deixa de ser pertinente) e o atentado à língua portuguesa que é o chamado acordo ortográfico, todos reconhecem que a língua é o resultado de um longo processo e que a escrita apenas a fixa após muitos anos de maturação oral.
A data é boa para lembrar o elemento primeiro do nosso património cultural. Haja memória e capacidade para outras alembraduras e vistas mais largas sobre o nosso património.

Os 800 anos são os do testamento de D. Afonso II - 27 de Junho de 1214 -, rei temente da morte e do que pudesse acontecer à sua alma, mas que não deixa de falar no proveito dos seus vassalos (depois dos de sua mulher e seus filhos).

Testamento de D. Afonso II

Documentos mais antigos em português também os há, mas não com o mesmo carácter oficial que o testamento.
Não deixa de ser curioso que um desses documentos, Notícia de Fiadores, datado de 1175, discrimine as dívidas de um tal Pelágio Romeu.
Outro, da mesma época que o testamento de D. Afonso II, Notícia de Torto, é um relato de D. Lourenço Fernandes da Cunha, fidalgo da região entre Braga e Barcelos, das malfeitorias (o torto) - perseguições, violências e roubos - que sofreu da parte de Gonçalo Ramires e respectivos filhos (que ainda seriam parentes dos Cunhas).
Ah! Os ilustres Ramires (esses de quem o Eça se terá lembrado)... Feitos, possivelmente, com o rei, o anterior (D. Sancho I), de quem aquele fidalgo também se queixou, pois terá mandado destruir a torre do solar da Cunha, a sede da família. Mas isso está noutro documento, parece que um rascunho não datado.

Notícia de torto

Uma conclusão que podemos tirar é que, ainda Portugal mal nascera e o português mal se escrevia, já as notícias davam conta de coisas tortas - dívidas e abusos de poder.
Se alguém se lembra - e o actual Governo é perito em alijar responsabilidades - ainda vão culpar o tal Pelágio Romeu da dívida (pública ou externa).


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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Eça de Queirós

25 de Novembro de 1845, nascia, na Póvoa do Varzim, José Maria de Eça de Queirós.


A sua arte realizou o seu legítimo desejo de não ser apagado de todo pela morte.


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A Foz literária

A Foz é literária.
Ou foi.

António Nobre passeava na Foz, onde veio a morrer de tuberculose em casa do irmão. Os bons ares não foram suficientes para o salvar.

Dizem que Eça de Queirós também gostava de lá passear.

O seu amigo Ramalho Ortigão "ainda menino, ia à Foz, à tarde, de chapéu de palha e bibe, apanhar conchinhas na costa." 
Já mais velho, convivia no Chalé Suisso (à época Chalet de António Carneiro) com Camilo Castelo Branco, Arnaldo Gama e Alberto Pimentel, entre outros.
A Foz é a primeira a ser tratada nas suas Praias.

O Chalé Suisso na actualidade

Camilo escreveu Cenas da Foz (que só encontrei na net e ainda não li) e bailaria, na década de 1850, nos saraus do Castelo da Foz. Aí celebrou, com algum escândalo, o aniversário de Ana Plácido, em 1859 (27 de Setembro). Estando já detido na Cadeia da Relação do Porto, incriminado de adultério, obteve autorização para passear fora da prisão, por motivos de saúde, e estendia esses passeios à Foz.
Também aí se hospedaria, mais tarde, com a família.

Sobre Camilo escreveu Teixeira de Pascoaes (O Penitente): "Meu pai conheceu-o no Porto (...). E eu mesmo, talvez houvesse olhado para ele, na Foz do Douro ou na Póvoa, em qualquer Verão da minha infância..."
Na Foz, Pascoaes terá ficado perturbado por um encontro casual que teve com uma "rapariga de cabelos loiros em anéis, a cercar-lhe a cabeça dourada", perseguindo depois, na realidade e na ficção, a figura dos seus sonhos e do seu amor.
No final da vida foi amigo de Eugénio de Andrade, que se mudara para o Porto. Os dois tomavam café na Confeitaria da Foz, onde ainda hoje se comem excelentes bolos (e não só) e se desfruta a presença próxima do mar.

Confeitaria da Foz (agora)
Eugénio de Andrade viria a instalar-se na Foz, em frente ao Jardim do Passeio Alegre, na década de 1990, no prédio que foi sede da Fundação com o seu nome. A luz e o olhar do rio estão na sua poesia.

O poeta homenageia Raul Brandão, nascido numa família de pescadores, na antiga Rua da Bela Vista, hoje rua com o seu nome, bem perto da Igreja de S. João da Foz.
Raul Brandão dedicou o seu livro Os Pescadores à memória do avô morto no mar. O primeiro texto deste livro é sobre a Foz do Douro.

Teixeira de Pascoaes e Raul Brandão,
na casa do primeiro, em Amarante

À Foz ia José Gomes Ferreira nas suas férias. E este poeta também reverencia Raul Brandão, a quem chamou "o meu mestre secreto".

Faltarão outros (faltarão muitas mais coisas...), mas ainda vou buscar o insuspeito Mário Cláudio, portuense de um Porto mais barroco, da pedra do casco da cidade velha, mas que inicia a acção de Anel de Basalto na Igreja de S. João da Foz (barroca - tinha de ser!), quando um serafim de talha que sustentava o retábulo do altar das Santas Mães ganhou vida e anunciou coisas assombrosas a Maria dos Anjos de Sampaio Lobo Pitta e Themudo da Gama, uma santa senhora que rezava, sozinha, no silêncio do templo. A história começa delirante...
Santas Mães
(Igreja de S. João da Foz)
Mas da Foz literária passo a citar os próprios:
«Esta vila adormecida estava a cem léguas do Porto e da vida. Ali moravam alguns pescadores e marítimos, (...). As casas, limpas como o convés de um navio, espreitavam para o mar, umas por cima das outras.»
«O mar embala o Cabedelo. Uma luz como não há outra e que estremece com o movimento e os reflexos da água, um ar como não há outro e que ainda hoje respiro como a própria vida! Silêncio... a Foz vai doirando lentamente, ano atrás de ano, crestada pelo ar da barra, camada de sol, camada de salitre...» 
Raul Brandão, Os Pescadores

Foz, em frente ao Cabedelo

«(...) namoro com o Cabedelo há muitos anos. É uma língua de areia, acariciada pelas ondas. O ar já não será como no tempo de Raul Brandão, mas a luz ainda "estremece com o movimento e os reflexos da água".
(...) E vou esquecer (...) os pescadores do paredão, cuja arte de paciência me lembra os miniaturistas persas, sonhando com fanecas ou enguias ou robalos; vou esquecer-me disso, porque o bonito é o repuxo, sobretudo quando o sol se mistura com as suas águas, e tudo é poeira doirada, como o Cabedelo, que volto a contemplar. Esta é a luz que gostaria de levar nos olhos quando morrer - a luz do mar da Foz, atravessada por duas ou três gaivotas.»
Eugénio de Andrade, À Sombra da Memória


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Sem esquecer...

De férias mas não distraído.
Datas não esquecidas (a propósito de onde estava):
16 de Agosto - Morte de Eça de Queirós (1900)
Visitei o Solar dos Condes de Resende (Canelas - Vila Nova de Gaia), propriedade da família de sua esposa, D. Emília de Castro.

Demos dois dedos de conversa
(eu e o Eça)

19 de Agosto - Dia Mundial da Fotografia
Para comemorar, as exposições no Centro Português de Fotografia estavam encerradas - era 2.ª feira.

A minha fotografia de homenagem (Travessa da Cedofeita)
Fotografia de Verão. A loja é interessante.
24 de Agosto - Revolução Liberal de 1820
O Campo de Santo Ovídio, actual Praça da República, foi o palco da revolta promovida pelo Sinédrio. 
As novas chegam a Lisboa pelo chamado telégrafo de tábuas.
Dizia Herculano: "Em Portugal o despotismo é que é moderno, e a liberdade antiga."

Pr. da República (Porto)
(ex-campo de Santo Ovídio,
ex-Campo da Regeneração)

Dia de S. Bartolomeu
S. Bartolomeu distraiu-se, deixou fugir o diabo e depois foi uma carga de trabalhos para o apanhar. Por isso há sempre vento neste dia. O santo foi perdoado da distracção e tem destaque na Igreja de S. João Baptista da Foz.
No Domingo foram as festas de S. Bartolomeu, na Foz.

S. Bartolomeu (Igreja de S. João da Foz)
25 de Agosto - O arquitecto Fernando Távora (descendente dos "velhos" Távoras), um dos grandes nomes da arquitectura contemporânea portuguesa, fundador e mestre da "Escola do Porto", cidade onde nasceu, faria 90 anos. Foi no seu atelier que Álvaro Siza Vieira estagiou.


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Põe-se a comer neves

Em maré de gelados...

«E da porta do balcão, Meirinho, em bicos de pés, fazia acenos a Dâmaso: ele reparou, precipitou-se: pisou uma criança que fez beicinhos, derrubou o binóculo duma senhora obesa. Ia pálido.
Mesmo uma velha, que se repimpava por trás de Vítor, disse, com satisfação:
- Deu-lhe alguma cólica.
- Põe-se a comer neves... - rosnou a outra, cujo génio parecia amargo.»
Eça de Queirós, A Tragédia da Rua das Flores