"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astrosou para o sorriso das vacas." Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
"Nada é garantido", diz alguma imprensa.
Sim, mas não é garantido que não. E dignifica-nos ter um candidato que não resulta de arranjinhos externos.
Penso eu de que...
«Escreva-se o óbvio: num mundo ideal os paraísos fiscais não deviam existir. E não deviam porque servem, no mínimo, para a fuga e evasão fiscais e no máximo para guardar o dinheiro de esquemas fraudulentos ou de actividades criminosas.»
Fado, Futebol, Fátima e Facebook!
Se fosse o Papa... era outra coisa!... «Es verdad que no se puede reaccionar violentamente, pero si Gasbarri, gran amigo, dice una mala palabra de mi mamá, puede esperarse un puñetazo. Es normal!»
"Ensinaram-nos" que foi a nossa "cupidez", a nossa "desbragada vontade consumista", a nossa "inconsciência" de vivermos "acima das nossas possibilidades" que nos conduziu ao colapso...
«Até aos Olivais, não cessou de ruminar coisas vagas e violentas que faria para aniquilar o Dâmaso. No seu amor não haveria paz, enquanto aquele vilão o andasse comentando sordidamente pelas esquinas das ruas. Era necessário enxovalhá-lho de tal modo, com tal publicidade, que ele não ousasse mais mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil... Quando o coupé parou à porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas no Dâmaso, uma tarde, no Chiado, com aparato…»
Eça de Queirós, Os Maias
Mas há dificuldade em compreender a cultura de finais de 1800...
1.ª edição - 1944 Com desenhos de Leandro Gil (pseudónimo de Mário Dionísio)
«Mas não havia só camponeses e operários. Havia a sociedade inteira: tudo dependia do "ponto de vista". Havia, nomeadamente, a pequena-burguesia a que todos pertencíamos, que conhecíamos de dentro e que tinha (teria), quanto a mim, um papel importante na situação política portuguesa. Não inventada, mas observada e pessoalmente vivida, a pequena-burguesia permitiria trazer a nossa ficção para a cidade. E foi o que fiz em quase todo O Dia Cinzento. Por isso terá sido tão mal compreendido quando apareceu. Mas a actividade clandestina lá está, e na cidade. Bastou o pequeno truque de dar nomes estrangeiros às personagens (na 1.ª edição), simulando, para a censura, tratar-se duma história da Resistência francesa. As pessoas, contudo, as ruas, os recintos descritos no "Nevoeiro na cidade" são de Lisboa. A casa da personagem principal é na Calçada dos Cavaleiros, o café é em frente da estação do Rossio. Aí os via, escrevendo. Creio que O Dia Cinzento marca ainda outra viragem. E, se mo permitem, importante. Durante a ocupação da França pelas tropas de Hitler, faltaram-nos os livros e os jornais (franceses) que tinham sido até aí o nosso alimento diário. Não tive remédio senão puxar pelo meu pouco inglês, desenvolvê-lo o mais possível e isso me permitiu conhecer directamente as literaturas de língua inglesa (cheguei a traduzir A Pérola do Steinbeck) e descobrir a short story e a short short story (...). A essa descoberta devo, em grande parte, tecnicamente falando, O Dia Cinzento. E quem não tiver dado por isso nunca terá percebido nada do que se passou daí em diante no neo-realismo. Pelo menos, nos que chegavam: Cardoso Pires, por exemplo. Adeus ao descritivo-sentimentalismo de influência brasileira. Outras coisas viriam.»
Apesar de uma divulgação muito mais envergonhada do que a dos golos e transferências do futebol, começa a ser cada vez mais natural encontrar notícias dando conta de medalhas conquistadas por ginastas portugueses nas mais importantes provas internacionais, como, aliás, também está a acontecer em outras modalidades, como o remo e a canoagem.
Portugal conquistou sete medalhas (cinco de bronze, uma de prata e uma de ouro) nos campeonatos europeus de trampolim que hoje terminaram em Valladolid, Espanha. E ainda houve outros atletas com classificações de destaque.
Alguma coisa vai acontecendo no desporto português (que não só no futebol)...
Era bom que a comunicação social, nomeadamente a desportiva, tivesse um papel mais activo na divulgação destes sucessos.
Quando da aprovação da Constituição, em 1976, o deputado do PPD (Partido Popular Democrático) Marcelo Rebelo de Sousa assinou uma declaração de voto em que afirmava, entre outras coisas, que "com todos os erros e defeitos (...) a Constituição era um marco histórico fundamental na institucionalização da democracia e no avanço reformista para o socialismo humanista em Portugal."
Como uma festa foi a sua aprovação, depois de se ter vivido um conturbado período durante todo o espaço de tempo em que a Constituição foi elaborada.
Mas era um tempo em que toda a esperança parecia possível.
Os 17 activistas angolanos foram condenados a penas de cadeias entre os 2 e os 8 anos de prisão.
"A Amnistia Internacional considera-os prisioneiros de consciência e apela às autoridades angolanas que sejam imediata e incondicionalmente libertados. Ajude-nos assinando este apelo."
«O caso da prisão de Luaty Beirão e dos seus amigos revela mais uma vez a verdadeira face do regime angolano: um regime bondoso, justo e preocupado com o bem-estar dos seus cidadãos. Os activistas foram presos por estarem a ler um livro, o que constitui um dos mais engenhosos incentivos à leitura de que me lembro. O programa Ler +, do nosso Ministério da Educação, empalidece junto do programa Ler -, levado a efeito pela polícia angolana. É sabido que os jovens nutrem especial predilecção pelas actividades clandestinas. Se o Estado os incentiva a ler, lêem menos; se proíbe a leitura, em princípio, lêem mais. É raro o aluno que lê com gosto as obras de leitura obrigatória, nos programas escolares portugueses, mas aposto que todos gostariam de saber mais acerca das obras de leitura proibida pelo regime angolano. Eu próprio, que considerei indigesta a obra "Eurico, o Presbítero", que me obrigaram a ler, já encomendei o livro "From Dictatorship to Democracy, A Conceptual Framework for Liberation", que o regime angolano não deseja que seja lido.»
Ricardo Araújo Pereira, Visão - 22 de Outubro de 2015
O Cordeiro Místico no tímpano do portal Sul da Igreja do Divino Salvador (matriz de Bravães)
O cordeiro de leite, simbolizando a pureza, a inocência e a docilidade, é a vítima sacrificial por excelência de judeus, muçulmanos e cristãos, de que a celebração da Páscoa é o exemplo.
«Deitem fora o fermento velho, a fim de se tornarem massa para um novo pão; um povo que, à semelhança do pão sem fermento da festa da Páscoa,não sofre de impureza alguma pois Cristo, nosso Cordeiro pascal, já foi morto.» (1 Coríntios, 5:7)
O cordeiro foi a forma simbólica dos primeiros cristãos representarem Cristo e o seu sacrifício.
Um cordeiro com uma cruz com sangue a escorrer do seu lado para um cálice é o Agnus Dei, o Cordeiro de Deus, e simboliza Cristo Crucificado e a Eucaristia.
Há momentos ou acontecimentos que, à falta de um futuro possível, nos remetem para o passado, o mais longínquo que conseguimos.
As viagens à infância são viagens de revisitação de afectos, encontro com o que fomos (ou a sua reconstrução) e com a memória de pessoas que podem já cá não estar.
Uma forma de frequência de um mundo perdido.
«Entra a Semana Santa, e a Mãe visita com ele as sete igrejas da praxe, todas soturnas de velas que tremeluzem na expectativa da Ressurreição, e com santos nos seus altares, sinistramente tapados por panos roxos de que se desprende o bafio de muitas humidades. E lá por trás, cristalizados em suas teatrais atitudes, derramam eles lágrimas copiosas pela Paixão do Senhor, aguardando o tilintar das campainhas da aleluia. Ajoelha então à beira da Mãe, contrito dos seus pecados de crueldade e desobediência, e o coração do rei que tanto ama a cidade que lho oferece como prova da sua ternura goteja lentamente, coroado como o Divino Mestre por espinhos que se entrelaçam.»
Durante a primavera inteira aprendo os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto correr do espaço — e penso que vou dizer algo cheio de razão, mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios, sinto que me faltam um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer coisa extraordinária. Porque não sei como dizer-te sem milagres que dentro de mim é o sol, o fruto, a criança, a água, o deus, o leite, a mãe, o amor,
«No dia seguinte, a grande multidão que tinha ido a Jerusalém para a festa da Páscoa teve conhecimento de que Jesus ia entrar na cidade. Toda aquela gente pegou em ramos de palmeira para ir ao seu encontro e gritava: "Glória! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Aquele que é o rei de Israel!"»
- Vem! grita ela mergulhando nas águas claras sentindo na sua nudez o frio inclemente dos lagos a subir do seu âmago mais fundo Mas ele fica calado como se a interrogasse juntando o seu silêncio à beira-face no côncavo das mãos Enquanto os animais começam a sair, ainda indecisos dos covis, das cavernas e das grutas dos esconderijos das matas farejando o ar gelado das florestas, dos bosques com as línguas ásperas-ávidas a tentarem degustar o tempo - Equinócio da Primavera afirma a deusa das árvores com os seus cabelos fulvos enquanto o bronze dos seus galhos se enchama de pequeníssimas corolas e folhas Equador celeste! - clama Só então começa a despontar a luz mais ampla
Lula foi empossado Suspensa posse de Lula Lula foi empossado Suspensa posse de Lula Lula foi empossado Suspensa posse de Lula Lula foi empossado
Suspensa posse de Lula?
Vou-me deitar na dúvida se Lula é ministro ou não!
«Um dia um caçador… Não, ele não era caçador. Ia hoje à caça pela primeira vez. Uns desgostos levaram-no a experimentar a caça. Sobretudo, porque os caçadores chegam estafados à cama e dormem com os inocentes. E para que não lhe perguntassem o que fazia pelos campos, foi comprar uma farpela de caçador e todos os seus pertences, ajudado pelo catálogo de St. Étienne. Por conseguinte, era uma vez um rapaz vestido de caçador.»
Dia de barrigada de Mozart.
No CCB, com a Orquestra de Câmara Portuguesa, de Pedro Carneiro, as 3 últimas sinfonias (n.ºs 39, 40 e 41).
O verão de 1788 foi sinfonicamente produtivo para Mozart. O tempo não estaria bom para a praia, Viena já não teria encantos para o compositor ou foi mesmo o problema da falta de "cobres" na sua algibeira.
No espaço de 3 meses - de Junho a Agosto - escreveu aquelas que seriam as suas últimas sinfonias. Saberia Mozart?
Não há certeza de que tenham sido executadas em vida do seu autor.
Nikolaus Harnoncourt, falecido há dias, falava, a propósito destas sinfonias, das mais representativas da obra de Mozart, num "tríptico indissociável", "um ciclo fechado" de "oratória sem palavras".
Deixo aqui um Harnoncourt expressivamente maravilhado com Mozart.
Sinfonia n.º 41, Júpiter
«Sabendo que Mozart era um homem não podemos perder a esperança na Humanidade.»
«Uma literatura faz-se com vivos e mortos. Não só a ficção os junta na sua comunidade milagrosa, como têm prazo dado na imaginação do leitor, que sente a sombra do escritor morto, de ontem ou de há seis séculos, na inspiração e no estilo do escritor contemporâneo. (...) Um esquecimento negro caiu sobre Raul Brandão, por exemplo, e quase o sepultou pela segunda vez. As últimas edições dos seus livros, paradas no mercado há mais de dez anos, nem quase se vêem já nos mostradores, onde no entanto abunda tanta farfalha impressa. Porquê? Perdeu o grande escritor a actualidade dos seus temas, o timbre da sua voz sincera e humana como poucas, a impressividade das suas páginas? Quanto aos temas, o fundo populista de Os Pobres, de Húmus, de A Farsa, tão vivo e pungente (e falo de populismo por ser uma tendência que parece estar na moda em ficção novelística), lá está a atestar que não é por falta de uma relação forte entre a obra de um morto e os seus sobreviventes e pósteros imediatos que os seus livros não são lidos e cotados nos recontares dos letrados.»
Vitorino Nemésio, Raul Brandão, esquecido, in Diário Popular, 7 de Dezembro de 1949
Raul Brandão nasceu a 12 de Março de 1867, na Foz do Douro.