"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)

terça-feira, 25 de abril de 2023

25 de Abril - O tempo democrático


«O 25 de Abril libertou-nos o tempo. O futuro deixou de reduzir-se à repetição do presente, mudar cessou de ser um verbo malquisto. O porvir passou a estar em aberto, declinável em várias possibilidades de evolução e transformação. E as pessoas descobriram-se sujeitos do futuro, cidadãs e cidadãos responsáveis pelas escolhas que o determinariam.

(...)

O tempo tem sido um marcador essencial da vida coletiva democrática. Como tudo o resto, sujeito à pluralidade e diversidade das representações a seu propósito. Mas não será difícil entender-nos sobre alguns aspetos cruciais.

A transitoriedade é o elemento básico. Nada é eterno, nada escapa à usura, cada contexto tem o momento próprio. A lógica republicana impõe limites ao exercício continuado de funções públicas, obrigando à renovação. As escolhas não são, por definição, definitivas. A composição dos parlamentos varia com as circunstâncias: os que hoje são maioria amanhã serão minoria, as oposições de hoje serão amanhã governo. Programas, políticas, equipas, lideranças, tudo isso é breve.

Em democracia, o tempo é, portanto, uma passagem. É também de uma grande plasticidade. Umas vezes acelera, outras abranda. Aqui predomina a urgência, ali o que faz sentido é parar um pouco para refletir. Esta hora é de estudar e preparar, aquela de agir sem delongas; e o agir pode ser para continuar ou para mudar, para consolidar ou para romper um certo estado de coisas.

Outra característica estrutural do tempo democrático é a ciclicidade. A escolha política fundacional, que é o sufrágio, determinando quem representa e quem governa, com que programa, obedece a critérios de periodicidade e duração.

A eleição é periódica porque nenhum poder é eterno, devendo ser regularmente aferida a vontade das pessoas. Por exemplo: as eleições legislativas ocorrem em cada quatro anos, determinam a composição do Parlamento e é a partir dessa composição – e só dela - que se formam os Governos e as Oposições.

Mas este intervalo que a renovação pendular delimita é também uma duração. O tempo dura, e isso é essencial numa democracia. Para que os programas sejam executados, as políticas aplicadas e os resultados avaliados. Para que a fiscalização se exerça e diferentes propostas sejam apresentadas e discutidas. Para que novos programas, protagonistas e coligações se preparem e maturem. Para que, assim informadas, as pessoas possam, no momento próprio, comparar e escolher.

Os tempos políticos são diferenciados; e pautarem-se os vários órgãos de soberania e demais instituições por diversas temporalidades é um dos ingredientes da estrutura de poderes e equilíbrios em que repousa a democracia. Depois, o ritmo da política não pode confundir-se com a cadência própria de outros atores relevantes do espaço público, como os atores sociais, os média ou os interesses económicos, nem a eles pode ser subordinado. O tempo político não é indiferente ao pulsar complexo e contraditório da sociedade; mas é a institucionalidade democrática que pauta o seu andamento, e a sua base principal é a escolha periódica, livre e soberana dos cidadãos.

Nada disto é novidade, mas talvez seja oportuno lembrá-lo. Aqui e agora. Aqui no Parlamento que, nos termos da Constituição saída de Abril, é o coração da representação pluralista e do debate livre, e o centro da dialética entre Governo e Oposições. Agora que uma certa sofreguidão ameaça propagar-se, como vírus, no espaço público, pondo em causa vantagens preciosas da sólida democracia que somos, como tal reconhecida internacionalmente. As vantagens da estabilidade política, da previsibilidade dos comportamentos institucionais, da resiliência face à volubilidade das opiniões, da maturação das medidas em resultados, do sentido de responsabilidade nas palavras proferidas.

Claro que, em democracia, tudo pode ser questionado. Como já assinalei e faço questão de repetir, o tempo democrático é, por natureza, passageiro, plástico, diferenciado; e o regime tem mecanismos para evitar a perpetuação de situações que se tornem insustentáveis. Mas o tempo democrático é também cíclico, tem um certo ritmo e duração. E, se a Assembleia funciona, debatendo, fiscalizando, inquirindo, legislando; se o Governo desenvolve e aplica as suas políticas, com variável acerto, e goza de confiança parlamentar; se as Oposições vão fazendo caminho de formação e afirmação de alternativas; se os órgãos de soberania cooperam, no respeito pelas competências uns dos outros; se inúmeros são os problemas das pessoas e do país, sendo responsabilidade primacial dos diferentes decisores enfrentá-los – então devemos respeitar o tempo de cada instituição, sem atropelos nem precipitações. Devemos preferir a respiração pausada própria de uma democracia madura à respiração ofegante típica das excitações populistas.

Para benefício de todos. Porque, se todos perderemos no dia em que aceitarmos que a dinâmica política deve ser insensível às necessidades e ao ambiente social e pautar-se exclusivamente por procedimentos administrativos e formais; também todos perderemos no dia em que renunciarmos a distinguir entre erros localizados, ainda que graves, e crises prolongadas e sistémicas, e no dia em que aceitarmos que a vida de um Parlamento ou de um Governo – sejam eles quais forem - está dependente do nível de protesto deste ou daquele setor, do favor da opinião publicada, da perceção dos média, do ruído nas redes sociais ou da evolução das sondagens.

Como o conjunto do mundo terreno para o Eclesiastes, a democracia compreende vários tempos. Há um tempo para analisar e há um tempo para escolher. Há um tempo para decidir e outro para executar. Há um tempo para realizar e outro para avaliar. Não se sucedem uns aos outros; a sua copresença é que define a nossa circunstância. Permanentemente sujeita à contradição e ao debate, mas também com os graus de liberdade que permitem, aos atores políticos, referirem a sua ação ao interesse geral, sabendo-se protegidos pela duração, face à exigência demagógica do império do instante.

As palavras, as palavras que dizemos e as palavras que não dizemos, contam muito. Deixo, pois, aqui uma defesa convicta do tempo democrático, que é o ciclo da conjuntura e não a fugacidade dos eventos. Só assim podemos continuar – todos - o trabalho que temos feito como país: prosseguindo os interesses permanentes, consolidar, modernizar, mudar o que for preciso e para evoluir e progredir. Construindo o futuro que o 25 de Abril nos abriu.»

Discurso de Augusto Santos Silva, Presidente da Assembleia da República, na sessão comemorativa do 49.º aniversário do 25 de Abril de 1974.


segunda-feira, 24 de abril de 2023

Chico Buarque - Prémio Camões

Na Sala do Trono do palácio de onde a corte portuguesa saiu para o Brasil, em 1807, e para onde a corte regressou, em 1821, aconteceu, com 4 anos de polémico atraso, a cerimónia da atribuição do Prémio Camões a Chico Buarque.

Nunca um Prémio Camões tinha merecido tanto destaque. E ainda bem! 

Foi bonita a festa, pá!

Chico Buarque, Construção


domingo, 23 de abril de 2023

Dia Mundial do Livro

 

Os livros. A sua cálida,
eterna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua 
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
de alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.
Eugénio de Andrade

sábado, 22 de abril de 2023

Estava delicioso...

«Um homem caminhava por uma floresta. Anoitecia. Escuro. De repente, o rugido de um leão. O homem teve muito medo. Correu. No escuro não viu por onde ia. Caiu num precipício. No terror da queda agarrou-se a um galho que se projetava sobre o abismo. E assim ficou pendurado entre o leão e o vazio. De repente, olhando para a parede do precipício, viu uma plantinha e, nela, uma fruta vermelha. Era um morango. Ele estendeu o seu braço, colheu o morango e o comeu. Estava delicioso...»

Afonso Cruz



Dia da Terra

Ilha Terceira, vista a partir da Serra do Cume

Palavras para quê?


Aniversário do Museu Nacional de Arqueologia

Foi há 120 anos que se iniciou a instalação do Museu Nacional de Arqueologia, à época chamado de Museu Etnológico Português, na ala oitocentista do Mosteiro dos Jerónimos.

Exatamente 3 anos depois - 22 de Abril de 1906 -, o museu abriu ao público.

O interior do museu com o mobiliário inicial, com vitrinas
herdadas do extinto Museu Industrial e Comercial 
de Lisboa, antes instalado no mesmo espaço.

O Museu encontra-se encerrado, num processo de ampla remodelação, com um custo estimado superior a 24 milhões de euros (no âmbito do PRR), só devendo reabrir em 2025. 

O Museu Nacional de Arqueologia foi o meu primeiro local de trabalho, em finais de 1982. A falta de verbas (tão comum a todas as épocas e muito mais nas vésperas de nova intervenção do FMI antes da integração europeia) levou a uma curta experiência profissional. Não sei o que será possível fazer nas actuais instalações, pois o espaço não será o mais propício e qualquer intervenção estará muito condicionada pela integração do Museu num monumento nacional como o Mosteiro dos Jerónimos.

Há alguns anos, quando do projeto da mudança do Museu Nacional dos Coches para as suas novas instalações, houve quem referisse a maior urgência de construção de um novo Museu de Arqueologia. Mas quem ganhou o novo espaço (que considero desadequado) foram os coches. 


Enquanto duram as obras, a equipa do Museu tem oportunidade de se concentrar numa intensa campanha de estudo, levantamento fotográfico/digitalização e conservação e restauro do acervo do Museu.


quarta-feira, 19 de abril de 2023

IVA 0%

Tu aumentas 1 euro, eu baixo 1 cêntimo!




DN - Crónica de uma morte anunciada

Os membros eleitos do Conselho de Redação e as delegadas sindicais do Diário de Notícias entregaram esta terça-feira, 18 de Abril, ao Presidente da República, esta CARTA ABERTA, aprovada num plenário da redação realizado no dia 8 de Março. Apelo a que a divulguem, de todas as formas possíveis. Eis o seu conteúdo, na íntegra.

CARTA ABERTA DA REDAÇÃO DO “DIÁRIO DE NOTÍCIAS”
«Dirigimo-nos a todos os que em Portugal percebem a necessidade de pluralismo na comunicação social para que o princípio democrático se mantenha forte.
É a estes que a redacção do DN vem apelar para que connosco se mobilizem na defesa de uma inversão no rumo de degradação do DN enquanto jornal de referência.
(...)
Sabemos bem que a massificação da internet criou problemas globais de sobrevivência dos “media”; não ignoramos os problemas nacionais de pobreza e iliteracia. Mas a este contexto somam-se causas próprias de incompetência na gestão empresarial do jornal, como o foram os recentes avanços e recuos na decisão de abandonar a edição diária impressa por uma semanal, de forma totalmente imprudente e que apenas serviu para sustentar mais um processo de esvaziamento da redação.
Sem jornalismo, a democracia morre na escuridão - este é desde 2017 o lema do Washington Post.
Acreditamos nisso. Acreditamos na missão do jornalismo e na sua importância fundamental na vida democrática e na defesa dos direitos humanos.
Acreditamos num jornalismo que faz diferença. Com rigor, acutilância, assertividade, coração e ganas. Somos jornalistas, não "produtores de conteúdos". Queremos continuar jornalistas.
Morrendo o DN como jornal de referência, o panorama do jornalismo de imprensa ficará substancialmente reduzido. Ficará um pouco mais escuro; a democracia ficará a perder. Num momento em que o ideal democrático parece por vezes perder fulgor, queremos crer que a sociedade portuguesa não ficará indiferente ao nosso apelo.»

Concordo com os princípios expostos sobre o jornalismo e o seu papel.
Lamento muito a situação de um jornal histórico como o Diário de Notícias.
Mas a degradação da sua qualidade nos últimos anos...
Quando a gestão de um jornal está longe de ter os princípios e as preocupações com a função do jornalismo acima enunciados...

Dizem* que Einstein escreveu que chegaria o tempo em que os muito ricos controlariam de tal forma os meios de comunicação, que seria quase impossível as pessoas comuns tomarem decisões informadas e, assim, a democracia estaria em risco.

*Dizem (às vezes já não sabemos se devemos acreditar). Mas o sentido da frase é real (quem quer que seja o seu autor). 


segunda-feira, 17 de abril de 2023

Em nome dos estudantes da Universidade de Coimbra, peço a vossa excelência para usar da palavra

 Coimbra, 17 de Abril de 1969.


O Presidente da República e os ministros da Educação, Justiça e Obras Públicas deslocaram-se a Coimbra para inaugurar o novo edifício de Matemáticas na Cidade Universitária.
Foram recebidos por centenas de estudantes que empunhavam cartazes defendendo a democratização do ensino.
Na sessão de inauguração, Alberto Martins, o representante dos estudantes pretendeu usar da palavra. Foi impedido.
A comitiva do Presidente Américo Tomás abandonou rapidamente o edifício, entre vaias dos estudantes.
Na madrugada do dia seguinte, Alberto Martins, presidente da direcção-geral da Associação Académica de Coimbra, seria preso pela PIDE.
Iniciava-se a chamada "crise académica" de 1969.
O ministro da Educação era José Hermano Saraiva.


Tão amigos que nós somos... ou que nós éramos?

 

A evidência de uma das muitas contradições na história da guerra.

A História é (um)a constante luta de interesses. 
E estão as almas puras e virtuosas escandalizadas com as declarações de Lula da Silva sobre a guerra na Ucrânia e os interesses envolvidos (incluindo os do próprio).


quinta-feira, 13 de abril de 2023

Dizem que é o Dia do Beijo

Aprendi há pouco, com o Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas, que para os romanos havia 3 tipos de beijo: o osculum (na mão ou na face), o basium (nos lábios) e o savolium (o beijo apaixonado... [onde?]).


Disco de terracota de época romana com representação em relevo de um casal a beijar-se. 
Oriundo de Tarsus (Turquia).


sexta-feira, 7 de abril de 2023

Ecce Homo

«Uma vez mais, Pilatos saiu do palácio e foi dizer aos judeus: "Eu vou trazê-lo cá fora, para que saibam que não encontro nenhuma razão para o mandar matar." Quando Jesus saiu do palácio, trazia a coroa de espinhos na cabeça e o manto vermelho pelos ombros. Pilatos disse aos judeus: "Eis o homem!" Quando os chefes dos sacerdotes e os guardas do templo o viram, começaram a gritar: "Crucifica-O! Crucifica-O!"»
João, 19:4-6

Quentin Metsys, Ecce Homo

Uma Páscoa feliz


domingo, 2 de abril de 2023

Ryuichi Sakamoto (1952-2023)

 "Saber estar no silêncio é o princípio."


Uma música que ganhava espaços de silêncio...

Obrigado pela música, Ryuichi Sakamoto


domingo, 12 de março de 2023

Governo avança com Observatório de Preços

 Será assim... 

... depois de construírem as torres de observação!



Diz o roto ao nu...

 

Eu requento
Tu requentas
Ele(a) requenta
Nós requentamos
Vós requentais
Eles(as) requentam


À turba ninguém pedirá responsabilidades

«Mas se o povo é por sua natureza vário e pusilânime, afeito às aparências das coisas e distraído de pensar e prever, compete ao magistrado suprir essas fragilidades de alma, já que à turba ninguém pedirá nunca as responsabilidades que ao magistrado toda a gente pede.»

Mário de Carvalho, Um deus passeando pela brisa da tarde


Quem está a ficar com o nosso dinheiro?

 Quem está a ficar com o nosso dinheiro?

Opinião de Daniel Oliveira, na TSF.


As (muitas) cebolas que nos fazem chorar

 












quarta-feira, 1 de março de 2023

Os portugueses e o papel higiénico


 



The Dark Side of the Moon - 50 anos


Há 50 anos, a 1 de março de 1973, os Pink Floyd lançavam The Dark Side Of The Moon, oitavo álbum de estúdio da banda.

Felizmente (como descobri alguns anos depois)!
Uma companhia de muitos momentos, sobretudo a sequência final a partir de Us and Them...
Uma obra-prima de disco (capa incluída).




terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

À Lena

O que dizer quando morre uma amiga?

Recordamos os momentos que vivemos juntos, os mais marcantes, os que nos ficam na memória, que sentimos como nossos. E foram bons!...

O liceu onde nos conhecemos numa das primeiras turmas mistas pré-25 de Abril. O D. Pedro V tinha este raro privilégio no início dos anos 70.


Termos vivido os tempos pós-25 de Abril, com todas as vivências que decorreram da abertura e que marcaram a nossa adolescência. Fomos felizes em termos passado por essa época. 

As músicas que ouvíamos, que continuávamos a ouvir e que ficaram para sempre.

Os reencontros mais ou menos regulares, reatados após um largo período de tempo em que trilhámos diferentes caminhos. E, nesse sentido, abençoado facebook que facilitou os nossos contactos. Até agora, em que serve para despedidas emocionadas, repletas de memórias.

Há pouco, o baque da certeza de um vazio (que já se tinha aberto,) que já era esperado...


How I wish, how I wish you were here
(de um disco que não te fartavas de ouvir)



domingo, 19 de fevereiro de 2023

Muito Vermeer para ver...

... pelos felizardos que puderem!

 
Público, 19 de Fevereiro de 2023

«Há uma paciência de chinês na arte de Vermeer
Frase atribuída a Marcel Proust


Processo de Betonização em Curso

 Pedimos desculpa pela interrupção, o processo continua dentro de momentos.



Público, 19 de Fevereiro de 2023

Tudo a bem (dos patos bravos) da Nação!


sábado, 18 de fevereiro de 2023

David Gilmour integrado nos Pink Floyd

Num momento em que Roger Waters e David Gilmour "andam picados", recordamos que...

Em 18 de Fevereiro de 1968, David Gilmour foi integrado oficialmente nos Pink Floyd.

Devido aos problemas que Syd Barrett apresentava, David Gilmour, amigo de infância daquele, já havia sido convidado para integrar o grupo em Dezembro de 1967, pensando, sobretudo, nas apresentações ao vivo da banda.

Os Pink Floyd ainda se apresentaram como um quinteto, mas, durante a gravação de A Saucerful of Secrets, Syd Barrett foi mesmo afastado do grupo e Gilmour oficialmente integrado como guitarrista.

A nova formação apresentou-se no programa Live At Bouton Rouge, a 24 de Fevereiro.

Set the Controls for the Heart of the Sun
a faixa de A Saucerful of Secrets tocada sob a forma de quinteto


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Para que não tentem realizar todos os seus caprichos

«(...) mandamos inicialmente as crianças à escola, não tanto com a intenção de que lá aprendam alguma coisa, mas com a ideia de que se acostumem a sentar-se quietas e a observar prontamente o que lhes é ordenado, de forma a que, no futuro, não tentem imediatamente realizar todos os seus caprichos.»

The Educational Theory of Emmanuel Kant 

Fotografia de Robert Doisneau (série L'École - anos 50)


domingo, 12 de fevereiro de 2023

Respeito e justiça

 E é isto, no geral, desdobrando-se em inúmeros particulares...

Professora com memória!

Aguardamos...


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Cantiga(s) do Fogo e da Guerra

Assanhem-se os ânimos! 

Agilitemos os espíritos guerreiros!

Sus!


Há um fogo enorme no jardim da guerra
E os homens passeiam fagulhas na terra
Os homens passeiam co'os pés no carvão
que os deuses acendem luzindo um tição

Pra apagar o fogo vêm embaixadores
trazendo no peito água e extintores
Extinguem as vidas dos que caiem na rede
e dão água aos mortos que já não têm sede

Ao circo da guerra chegam piromagos
abrem grande a boca quando são bem pagos
Soltam labaredas pela boca cariada
fogo que não arde nem queima nem nada

Senhores importantes fazem pique-niques
churrascam o frango no ardor dos despiques
Engolem sangria dos sangues fanados
e enxugam os beiços na pele dos queimados

É guerra de trapos, do pulmão que cessa
do óleo cansado que arde depressa
Os homens maciços cavam-se por dentro
e o fogo penetra, vai direito ao centro

José Mário Branco
Cantiga do Fogo e da Guerra
Letra: Sérgio Godinho     Música: José Mário Branco


Génio da cooperação para o bem geral!

O génio da ironia na ficção sobre a guerra. 

«Cornelius-Hippolite VandenBeurs consagra-se à organização, em países neutros, note-se bem, mormente na pacífica e laboriosa Schwíndia, de alguns trusts e holding companies através dos quais se procederá à exploração, troca e rateio dos produtos dispensáveis aos dois campos beligerantes: essas empresas, rigorosamente neutrais, é bom acentuarmos, controlavam ao mesmo tempo o capital e a gerência das indústrias que, antes da guerra, nos países agora hostis, haviam funcionado em perfeita harmonia, sob a forma de sindicatos e cartéis. Escusado será dizer que os detentores de tais interesses em cada país "inimigo" não intervinham pessoalmente na gerência desses trusts! Por uma espécie de acordo entre gentlemen, escolhiam-se para directores-delegados cidadãos de países neutros, sabedores e dignos de inteira confiança. Invenção genial, essas empresas prosperaram fabulosamente, vendendo a gregos e a troianos sem discriminação, mantendo vivo em plena guerra o espírito de paz e cooperação internacional, e contribuindo a par disso para acelerar a decisão do conflito, e poupar assim muitas vidas e bens. (Aplausos discretos.) O minério de ferro da Rendânia voltava a esta sob a forma de chuva de obuses e granadas; o carvão da Brancónia e do Littenburgo ia à Lamagna e à Rendânia aquecer os alto-fornos donde saíam os tanques e canhões das ofensivas contra a Brancónia, etc. Não se pode conceber forma mais subtil nem mais elevada de internacionalismo. Isto, meus senhores, é o que se pode chamar génio da cooperação para o bem geral! Chegou-se mesmo à perfeição de proibir que fossem bombardeados, em território nacional ocupado pelo inimigo, os centros de produção empenhados em abastecê-lo de material de guerra.»

José Rodrigues Miguéis, O Milagre segundo Salomé



domingo, 22 de janeiro de 2023

Dia de S. Vicente

 Hoje é o dia do padroeiro de Lisboa.


Iluminura representando a trasladação
do corpo de S. Vicente (1502)

Nau de S. Vicente - Armas da Cidade de Lisboa,
baixo-relevo do século XVII


sábado, 21 de janeiro de 2023

No Reino da Estupidez

Do DN de hoje

Seguindo esta lógica, aguarda-se pela contratação de ninguém mais do que uma grávida para o papel de grávida, a contratação de um marreco para O Corcunda da Notre Dame, de um prisioneiro para fazer de bandido, de padres a sério para O Crime do Padre Amaro e um dos Secretários de Estado demitidos a representar um político.

O Teatro é para ser levado a sério, não é para fazer de conta!

Olho por olho, dente por dente! Os coxos que se preparem...

Vamos ver quem é o próximo a invadir o palco...


P.S. - Peço desculpa se ofendi alguém: não era minha intenção ofender coxos, marrecos, políticos demitidos ou outros. 


quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Eugénio de Andrade - O amigo mais íntimo do Sol

«(...) o meu mundo também não era o das letras, mas o dos pássaros e do vento, o das águas e dos amieiros. Essa era a "poesia" que me chegava, mas havia outra, ela vinha na voz da minha mãe, e nos seus intermináveis romances, cuja lembrança me aquece ainda.»

«Por mais voltas que dê, é sempre à minha mãe que vou ter quando me ponho a imaginar como é que a poesia se me cravou tão fundo na carne. À minha mãe e àquele lugar onde os meus sentidos despertaram para uma luz atravessada por um chiar de carros de bois pelas quelhas, a caminho das terras baixas dos lameiros. É sempre àquela fonte que regresso. Nela bebi os primeiros versos (...)»

Eugénio de Andrade

Nascido há 100 anos


terça-feira, 10 de janeiro de 2023

É só fazer as contas!...

Esta notícia é do passado dia 31 de Dezembro
 

O jornalista sabe quanto o Ronaldo ganha por mês, mas enganou-se no cálculo relativo à hora.
Provavelmente nem acreditou e, por isso, baixou o valor ao nível... do minuto!
É que os 386 euros são aquilo que Ronaldo ganha por minuto, mesmo que esteja a dormir.
Não é para um vulgar humano, um reles médico, enfermeiro, engenheiro, professor... Chefe de Governo, Presidente da República...
Eu, professor do Básico, teria de trabalhar 357 anos integrado no mais alto escalão (valores ilíquidos e incluindo subsídio de férias e de Natal) para conseguir ganhar o que Ronaldo vai ganhar num ano!
Não acredito muito que tenha vida para tanto!

Acho piada quando ouço dizer que lhe devemos estar gratos pelo que já fez por Portugal.

Toca Xutos


A humidade corrói a Humanidade

 

O tempo estava de chuva, como se pode ver, e isso terá influenciado o escrivão dos rodapés.

 A exposição Anjos e Lobos - Diálogos da Humanidade está na Galeria de S. Roque (Lisboa).

«(...) apresento uma série de retratos, bastante realistas, de mulheres a que chamei Machas, em português Marias (...). E estas Marias vivem uma guerra terrível, uma tragédia a que estamos a assistir. E não sabemos uma milésima do que está a acontecer. As mulheres, como sempre nas guerras, são violadas e torturadas. Tirei essas mulheres de um jornal e trouxe-as para a minha pintura. Não são seres como fiz em Metamorfoses da Humanidade, pessoas que se transformavam em bichos, são cabeças que nos interrogam. São mulheres geralmente pobres que ficaram naquele país, porque não quiseram ou não puderam fugir. E a minha vontade ao retratá-las é mostrar como são fortes. Porque o olhar dessas Machas é de luta.» 
(Graça Morais)

A guerra corrói mais do que a humidade!...



segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

A invasão alienada merece ser filmada


«Brasília foi invadida por alienígenas – seres provenientes de uma realidade paralela onde não só é permitido invadir, destruir e roubar os edifícios sede dos poderes executivo, legislativo e judicial, como se deve filmar essa afronta aos pilares da democracia e partilhá-la desassombradamente nas redes sociais.»

António Rodrigues, Público, 9 de Janeiro de 2023
aqui


sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Expresso - 50 anos

"Expresso, um jornal para saber ler" (as linhas e as entrelinhas).

O slogan era do próprio jornal, os parêntesis são meus, a propósito de um tempo em que nem tudo se podia dizer.


No Sábado 6 de Janeiro de 1973, saiu o primeiro número do semanário Expresso
Foram 60 mil exemplares (a 5$00).

Como seu fundador, director e principal proprietário, Francisco Pinto Balsemão, deputado da "ala liberal", em ruptura com o regime depois de várias batalhas perdidas em torno da liberdade de expressão, do direito de e à informação e do fim da censura.

A manchete do primeiro número revelava que 63% dos portugueses nunca tinham votado.

O jornal contava com uma coluna de opinião de Francisco Sá Carneiro, outro dos deputados liberais, e a redacção era chefiada por Augusto de Carvalho.

Marcelo Rebelo de Sousa, Francisco Pinto Balsemão e Augusto de Carvalho

Um mês depois, nas páginas do jornal, MRS (Marcelo Rebelo de Sousa) estreou-se na análise política (o que nunca deixou de fazer até agora!).

Sujeito à censura, como toda a imprensa, muitos foram os cortes que sofreu até ao 25 de Abril. 
"Se o 25 de Abril não tivesse acontecido, o Expresso teria acabado!" (Francisco Pinto Balsemão).

O record de vendas verificou-se em Outubro de 2006: 202 108 exemplares.

Expresso: um jornal que foi uma lufada de ar fresco na balofice do anterior regime e referência do jornalismo português - não o será tanto actualmente, mas é verdade que toda a imprensa (a escrita em especial) vive um momento crítico. A sua qualidade (rigor, pertinência, independência) é muito questionável.  

Penso no carácter que tinha muito jornalismo na época em que não havia cursos superiores de comunicação social...


terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Quem pudesse sintonizar tudo isto!

Há mais de meia hora
Que estou sentado à secretária
Com o único intuito
De olhar para ela.
(Estes versos estão fora do meu ritmo.
Eu também estou fora do meu ritmo).
Tinteiro grande à frente.
Canetas com aparos novos à frente.
Mais para cá papel muito limpo.
Ao lado esquerdo um volume da «Enciclopédia Britânica».
Ao lado direito -
Ah, ao lado direito!
A faca de papel com que ontem
Não tive paciência para abrir completamente
O livro que me interessava e não lerei.
Quem pudesse sintonizar tudo isto!

3.01.1935
Álvaro de Campos


segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Martinho da Arcada


A 2 de Janeiro de 1782*, abriu, nas lojas de um dos primeiros edifícios construídos na Praça do Comércio após o Terramoto de 1755, aquele que se transformou no actual café-restaurante Martinho da Arcada, com o nome de Casa da Neve, vendendo bebidas e sorvetes. Sucederam-se outras designações: Casa de Café Italiana, Café do Comércio, Café dos Jacobinos, Café da Arcada do Terreiro do Paço...


Em 1829, um novo dono, Martinho Bartolomeu Rodrigues, deu-lhe o seu próprio nome, passando a chamar-se Martinho da Arcada para o distinguir do café homónimo do antigo Largo Camões (actual Largo de D. João da Câmara), pertencente ao mesmo gerente.

Foi paragem obrigatória para governantes, artistas e intelectuais, e local de tertúlias. 
Foi a segunda casa do seu cliente mais famoso: Fernando Pessoa. A sua mesa, ex-libris da casa, continua reservada no recanto onde passou tardes a escrever.



Foi aqui, no dia 27 de Novembro de 1935, que Fernando Pessoa e Almada Negreiros se sentaram, beberam um café, conversaram durante algumas horas e se despediram. Três dias depois, Pessoa morreria no Hospital de São Luís dos Franceses e este encontro ainda hoje é recordado como a última vez que o poeta entrou no seu local favorito, em Lisboa. 


* Também encontrei o ano de 1778 como a data fundadora, sendo que em 1782 também vendia bilhetes para as carreiras de sege entre o Terreiro do Paço e Belém.