"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Capitão Teófilo Bento

Morreu mais um Capitão de Abril - Teófilo Bento.

Figura central da Escola Prática de Administração Militar (EPAM), na madrugada de 25 de Abril iria ter um papel destacado na sublevação da unidade e na organização da coluna que iria ocupar a RTP.

Vários camaradas seus referem, a propósito da organização do 25 de Abril, a sua "inabilidade conspirativa": com facilidade se abeirava deles para lhes perguntar abertamente se estavam disponíveis para "participar numa acção militar para derrubar o regime".



segunda-feira, 27 de julho de 2020

Na morte de Salazar - Nenhum estremecimento abalou o país

«Morreu Salazar. Mas tarde de mais para ele e para nós, os que o combatíamos. Para ele, porque não morreu em glória, como sempre deve ter esperado; para nós, porque o não vimos morrer na nossa raiva, na nossa humilhação, na nossa revolta. Viveu a frio conscientemente, envolto numa redoma de severidade gelada, a meter medo, e acabou por morrer a frio inconscientemente, numa preservada agonia amolecida, a meter dó. A doença desceu-o de super-homem a homem, e a duração dela, de homem a farrapo humano. E, quando há pouco chegou a notícia de que se finara de vez, nenhum estremecimento abalou o país. Nem o dos partidários, nem o dos adversários. Para uns, a sombra definitiva do cadáver sobrepôs-se apenas à bruxuleante luz do ídolo; para os outros, o sentimento de piedade cobriu cristãmente o ressentimento sectário. A obra de domesticação nacional estava realizada há muito por uma tenacidade dominadora que utilizava apenas as qualidades negativas do português, e não tinha outra sabedoria do tempo senão a lição da rotina sancionada nos códigos do passado. A fome de aventura, a inquietação da liberdade, o alento da esperança, o orgulho, o brio, a alegria e a coragem - tudo fora sistemática e impiedosamente apagado na lembrança da grei. Daí que se não vislumbrem quaisquer sinais de tristeza aterrada, e, menos ainda, de euforia redentora. A nação inteira passou, sem qualquer sobressalto, de respirar monotonamente com ditador, a respirar monotonamente sem ele.»
Coimbra, 27 de Julho de 1970
Miguel Torga, Diário XI

Caricatura de João Abel Manta, editada em Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar


Há 50 anos...

«Agora mesmo (é perto do meio-dia) a Emissora tocou A Portuguesa (roubaram-nos tudo) e noticiou a morte de Salazar, às 9 e 15 da manhã de hoje.
Evoquei mentalmente Humberto Delgado - assassinado e enterrado como um cão.
Agora vamos assistir à comédia das grandes dores oficiais - ajudadas por uma propaganda tenaz.

Ao mesmo tempo vai beber-se muito champanhe por essa sinistra pátria fora...»
José Gomes Ferreira, Dias Comuns IX


terça-feira, 21 de julho de 2020

A Voz da (minha) Memória do 25 de Abril



«Nas comemorações dos trinta anos do 25 de Abril tive a ocasião de ir a várias escolas, e uma das coisas que me deslumbra nestes contactos com os jovens das escolas, é verificar que alguns deles descobrem a grande generosidade que esteve na génese da revolução. Como tu dizes, na maior parte do mundo, quando se fala de Portugal fala-se da festa que foi a revolução portuguesa, muito mais do que em Portugal. Nós perdemos a dimensão do que significava a festa que vivemos.»
Luís Filipe Costa (excerto de uma entrevista, em 2005)


domingo, 12 de julho de 2020

Soneto XVII e o amor de Modigliani

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou seta de cravos que propagam o fogo:
amo-te como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Amo-te como a planta que não floriu e tem
dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te diretamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira,

a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono. 


Pablo Neruda, Cem Sonetos de Amor 

Pablo Neruda nasceu a 12 de Julho, assim como Amedeo Modigliani (20 anos mais cedo).

Amedeo e Jeanne


segunda-feira, 6 de julho de 2020

Morricone, The Good

1928 - 2020





Resfriadinho?

Desconfio que o teste positivo de Bolsonaro será equivalente à gravidade da facada que levou antes da eleição para a presidência.
Sairá do caso como um intrépido herói...

Sobre o respeito devido à vida humana, recordo...


«Eu espero que [o mandato de Dilma] acabe hoje, enfartada ou com câncer, de qualquer maneira. O Brasil não pode continuar sofrendo com uma incompetente, ou 'incompetenta' à frente de um país tão grande e maravilhoso como é este aqui.»


quarta-feira, 1 de julho de 2020

Amália - 100 anos no dia que escolheu

«Não sei o dia em que nasci. Nem eu, nem ninguém na minha família. Ligaram tão pouca importância ao meu nascimento, era uma família tão grande, que não sabem. Uns diziam que nasci a 1 de Julho, outros no dia 12, outros a 4 ou a 14. A minha avó dizia que eu tinha nascido no tempo das cerejas, que vai de Maio a Julho. Então eu escolhi o dia 1 de Julho para fazer anos. Mais tarde, quando tive de tirar papéis para fazer exame, vinha 23 de Julho. Resolvi guardar as duas datas, porque assim sempre podia fazer duas festas de anos, com um vinhito abafado e uns bolos secos.»

Vitor Pavão dos Santos, Amália (uma biografia)



domingo, 21 de junho de 2020

Em saldo

Foi uma Primavera muito confinada.
Não devia contar...


Fim de Primavera, princípio de Verão...



segunda-feira, 8 de junho de 2020

Fundar bibliotecas

«Fundar bibliotecas era também construir celeiros públicos, armazenar reservas contra um inverno do espírito que, por certos indícios e infelizmente, vejo que se aproxima.»

Marguerite Yourcenar nasceu a 8 de Junho de 1903.


terça-feira, 26 de maio de 2020

Ruben A. - dramaticamente normal

«Sentia em mim uma natureza rebelde e dócil ao mesmo tempo, um fartar vilanagem na própria altura em que tudo o que nos rodeia está a saque. E, destes escombros, eu sabia que um sentido de equilíbrio me aguentaria nas cristas das ondas. Cada exagero que cometia, sobretudo quando comecei a jogar à batota nos vários casinos, abria-me uma panorâmica que sempre me fornecia algo de benéfico. A coisa que mais me custa na vida é ser normal. E sou obedientemente normal, dramaticamente normal. Todos os dias faço esforços heróicos para ser normal. Preparava-me para a vida sem saber o que era a vida, mas sempre na certeza de que eu era capaz de realizar, arrancar, acordar o morto País cujo cemitério pisava todos os dias. Triste Ilusão! E como iam aos soluços desabando os entusiasmos. E sem perceber, sem nada que me pudesse dar indícios - como se apresentava claro o caso poético da Sophia, flagrante, do cerne - eu era dirigido para a matéria escrita, ia ser escritor por falhar naquilo que era a minha verdadeira vocação – uma carreira de homem público.»

Ruben A., O Mundo à minha Procura (II)



Ruben A. nasceu a 26 de Maio de 1920


A reciprocidade é a lei fundamental da natureza

«O homem desempenha na modelação da paisagem um papel muito importante; pode ser considerado, neste aspecto, como um autêntico criador de beleza. Toda a actividade humana tem como fim a satisfação das suas necessidades, quer espirituais, quer materiais. (…) A paisagem terá de ser considerada como um todo orgânico e biológico em que cada elemento é interdependente, influenciando e sofrendo da presença dos restantes participantes. A reciprocidade é a lei fundamental da natureza.» 
Gonçalo Ribeiro Telles (1956)





Gonçalo Ribeiro Telles “sempre nos ensinou que a democracia para se consolidar precisa de cuidar da memória e da cultura, como factores de humanização – de modo que o ser prevaleça sobre o ter e que a dignidade humana seja o denominador comum da vida em sociedade.” (Guilherme d'Oliveira Martins)


segunda-feira, 25 de maio de 2020

Disse fêmea

Surpresa por encontrar Maria Velho da Costa na música de Jorge Palma.
Fez a tradução (ou recriação) de poemas para as canções da peça Carta a uma Filha, de Arnold Wesker.


Às vezes não damos pelas coisas, e depois começamos a tropeçar nelas sistematicamente. 


Gonçalo Ribeiro Telles

No dia do seu aniversário, as notícias surgem contrastantes.
Devem ter confundido aniversário com obituário.
Humor negro!

Parabéns, Professor!
Era óptimo que pudesse comemorar como o Professor Eduardo Lourenço.



Este imenso vazio

Escrevemos juntas as "Novas Cartas Portuguesas":
Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e eu.
Então, foi uma aventura única, nas nossas vidas.
Hoje,com a morte da Maria Velho da Costa, há em mim esta queda, esta incredulidade, este imenso vazio..
UM IMENSO VAZIO

Não sei Fátima
explicar
sequer aquilo que sinto

este nada atordoado
esta queda
este vazio

Esta saudade assustada
Uma rosa magoada
A falta do nosso riso
Maria Teresa Horta


sábado, 23 de maio de 2020

Parabéns, Prof. Eduardo Lourenço

«Na adolescência, vivemos com naturalidade no sublime. E se aí ele não nos eleva um pouco acima de nós mesmos, corremos o risco de o falhar para sempre. Foi dessas alturas que eram da vida, de sonhos vagos, de vertigem inocentes e duradouras do coração que o ‘Tempo da Guarda’ foi feito para mim.»
Eduardo Lourenço (entrevista ao JL, 8 de Maio de 1996)


Eduardo Lourenço completa hoje 97 anos.


sábado, 9 de maio de 2020

Dia da Europa - Qual Europa?

A Europa do Atlântico aos Urais?

A Europa da Comunidade Europeia?
Que Comunidade?
Qual "sobressalto"?

Europa e o Touro - fresco da cidade de Pompeia

Botero, O rapto de Europa
Da Declaração Schuman (9 de Maio de 1950):
«A paz mundial não poderá ser salvaguardada sem esforços criadores à medida dos perigos que a ameaçam.
A contribuição que uma Europa organizada e viva pode dar à civilização é indispensável para a manutenção de relações pacificas. (...)
A Europa não se fará de um golpe (...): far-se-à por meio de realizações concretas que criem em primeiro lugar uma solidariedade de facto.»


Onde está essa Europa?
Demasiado volumosa e instalada, pouco ágil...


Super Lua

A Super Lua, já pouco super, depois de uma noitada.



sexta-feira, 8 de maio de 2020

Dia da Vitória - 75 anos

Exactamente há 75 anos terminava a guerra na Europa.


8 de Maio de 1945, às 23.45 h, em Karlshorst (subúrbio de Berlim), o marechal-de-campo Wilhelm Keitel assinou a capitulação incondicional da Wehrmacht. 
Foi a formalização do fim da II Guerra Mundial na Europa.

No dia anterior, na cidade francesa de Reims, já tinha sido declarada a "capitulação incondicional de todas as tropas de terra, água e ar (...) diante do supremo comandante da Força Expedicionária Aliada". As operações bélicas iriam ser suspensas às 23.01 h do dia 8.

Mas em Reims não estivera nenhum representante do alto escalão do exército soviético.
Teria sido esse o motivo para a formalização (repetida) da rendição nazi.

A 8 de Maio - o Dia da VE - fez-se a festa.




quinta-feira, 7 de maio de 2020

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Las Çarandilleras

S'ajuntórum las três comadres...
(não consigo escrever o u com til...)



A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria



Gaiteiros de Lisboa, La Sarandillera em Invasões Bárbaras (1995)



Miranda do Douro
Né Ladeiras, La Çarandilhera em Traz os Montes (1994)

Canção da zona de Vimioso.Çarandillera (ou çarandilleira, ou sarandilheira, entre o mirandês e o português) é a mulher que usa a saranda, instrumento com crivo utilizado na eira para separar o cereal da palha.

Sarandear (çarandar) tem o significado de peneirar com saranda, mas também de vadiar; andar de um lado para o outro; mexer-se. Ver dicionário português/mirandês.

«Estudiosos (poucos) que calcorrearam Trás-os-Montes, última província musical a ser civilizada, registaram em papel ou fita magnética estes sons seculares que, furando a história, chegaram ao nosso conhecimento. (...) nos cantares de Trás-os-Montes encontramos os valores estéticos que só a Memória cristaliza. Demos-lhes a nossa leitura impregnando-os das linguagens de sons de que é feito o nosso tempo.» (do disco de Né Ladeira, Traz-os-Montes)


Uma valente quarentecla



Sem fronteiras!


terça-feira, 5 de maio de 2020

Língua (portuguesa)



A língua que mamei

A língua que mamei
é esta doce portuguesa
que me dizem fechada na boca mastigada
pela cárie dos pobres
e vai-se a ver cantante no meu beiço
como flauta de cana
vós chamareis-me o bronco da Europa
porém o jeito leve
na garganta o trilo modulado
quem há por essas raias eu pergunto
que melhor o conheça?
eu sou nesta canção igual que um pássaro
nem a crítica aceito
do latim vulgar estropeado
por um fundo ibérico malsão
cá vou dizendo tudo sobretudo
a alegria estes espantos
com o que tenho à mão, o coração

Fernando Assis Pacheco


Já dizia Fradique Mendes

«Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: — todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro. Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade; — e quem for possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa, vai gradualmente sofrendo uma desnacionalização. Não há já para ele o especial e exclusivo encanto da fala materna, com as suas influências afectivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do carácter.»
Eça de Queirós, A correspondência de Fradique Mendes


segunda-feira, 4 de maio de 2020

Aldir Blanc (1946 - 2020)


O criador de algumas das canções mais notáveis de Elis Regina.

A letra de O Bêbado e a Equilibrista
(tão actual no actual Brasil)



Sai uma Marcha Imperial!


No dia em que começamos a deixar de estar descafeinados... 


sexta-feira, 1 de maio de 2020

The River




E tudo era possível


Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de Maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisa sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o pode duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer
Ruy Belo

Fotografia de Mário Apolinário


quinta-feira, 30 de abril de 2020

O Príncipe Igor



Alexandre Borodin, químico, filho de príncipe e com nome de escravo.


Era possível estar preparado para esta pandemia?

«Nunca vamos estar preparados. A questão para a comunidade científica já não era se iria surgir uma pandemia grave, mas quando. E serão cada vez mais. Ao longo da história, os vírus foram saltando de espécie em espécie. Quando descobrimos a agricultura, a varíola passou das vacas para o homem. Depois crescemos em cidades com mais de meio milhão de pessoas e o sarampo passou dos animais para o homem. Há 100 anos, o VIH existia em chimpanzés e só havia 30 mil em África, isolados, mas o homem invadiu o território deles e o vírus saltou a barreira da espécie. Cada vez mais há pressão em territórios como o dos morcegos, que são o habitat natural dos coronavírus. Portanto, a melhor forma para estarmos preparados é prevenir, através de uma forma inteligente de viver com a natureza. E não a que temos tido.»
Pedro Simas, virologista, 
em entrevista ao Expresso, 24 de Abril de 2020


terça-feira, 28 de abril de 2020

Como um vírus

Em tempos de ensino a distância, um aluno enviou-me um mail a perguntar qual era o principal porto de mar português do século XIV.
Estranhei o interesse para quem está no 6.º ano.
Era para um jogo online, precisava de responder.

Desconfiei.
Procurei rápido na net e fui ter a um site educativo (?) "disponível em Portugal e no Brasil".
Encontrei aí a resposta: Roterdão!

É verdade que a resposta Roterdão não é dada directamente pelos responsáveis do site.
Mas indirectamente acabam por "contribuir" para essa resposta.
Respondi ao meu aluno: "A resposta verdadeira é Lisboa. Se estás a jogar na net, é possível que a resposta seja Roterdão. Aposta em Roterdão."
Apostou.
Acertou!
Roterdão era o maior porto português no século XIV!

A pergunta está feita!


Um "principiante" não mentiu na sua resposta: Roterdão é o maior porto marítimo da Europa! Não diz que fica em Portugal ou que é português. Isso já foi uma interpretação de quem montou um jogo.
É afirmado que Roterdão fica nos Países Baixos, mas isso é um pormenor. No século XIV seria apenas um recente e pequeno porto pesqueiro. Mas para saber isso já é necessário perder algum tempo a pesquisar.
O principiante não respondeu à pergunta feita e ajudou a criar um facto histórico.
Pelos vistos, a pergunta (e a presumível resposta, que até ganhou 4 estrelas em 5) está a servir para jogos educativos online.
Como um vírus!


Comentadores (de cada momento)

A situação extraordinária que vivemos libertou-nos dos comentários futebolísticos e deu-nos a conhecer os especialistas da saúde e da ciência. Desconhecíamos a existência de tantos e do trabalho que realizam, no nosso país ou no exterior. Não ganham é tanto como os futebolistas (aqueles mais conhecidos), não têm as mesmas condições de trabalho nem a atenção habitual da comunicação social.

Os comentadores generalistas, apanhados de surpresa no início da pandemia, regressaram rápido à ribalta, pois tanto comentam o futebol como o vírus.

A tendência dos últimos dias é o da ascensão dos comentadores de economia, defendendo, maioritariamente, o regresso à normalidade (a passada, pois o que será a normalidade futura?), porque a crise económica os preocupa mais do que o estado da saúde pública. Também, regra geral, foram dos que acharam, em tempos de crise, que deviam diminuir as despesas ou investimentos no Serviço Nacional de Saúde.
Economia versus Saúde. Como a história de quem apareceu primeiro: o ovo ou a galinha. Não há economia sem saúde pública, não há saúde pública sem economia.

Abre-se, agora, uma janela de oportunidade para o regresso dos comentadores futebolísticos. Até porque futebol é economia.
E só num tempo estranho seria possível reunir as três personalidades referidas no último parágrafo do excerto da notícia do DN.

 
Não há uma vida normal sem futebol!


sábado, 25 de abril de 2020

Liberdade

- Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pão de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

- Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
- Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga, Diário XII


quarta-feira, 22 de abril de 2020

Terra




A Terra




Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.

Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.

Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!

Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.

Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!

E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.

Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!

A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.

Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!
Miguel Torga



sábado, 18 de abril de 2020

It's very smart

"It's very smart", o vírus.
Trump é um "dangerous idiot" (diz o Independent).


Pensar como enfrentar o futuro

«(...) temos de viver reconhecendo que o pânico não contribui para aumentar as nossas possibilidades de sobrevivência. Devemos aproveitar este tempo começando a pensar como enfrentar o futuro com novas pandemias, com escassez de recursos, com catástrofes ambientais e com dirigentes políticos cada vez mais primários, interessados antes de tudo na sua sobrevivência e na do grupo, cada vez mais restrito dos que com eles sobreviverão.»
Carlos Matos Gomes


Um mês



quinta-feira, 16 de abril de 2020

O vírus da ganância


«Rating mais baixo significa financiamento mais caro. Para as empresas e para os Estados. A rapaziada do rating não perde pitada para transferir cada vez mais dinheiro para os bolsos de banqueiros gananciosos. Não seria esta uma única excelente oportunidade para a Europa enterrar de vez as obnóxias e corruptas agências de rating norte-americanas e criar de raiz um sistema decente de avaliação de risco?»
Carlos Vargas


A lentidão

Lembrei-me do texto de Tolentino de Mendonça por via da memória deste livro de Luís Sepúlveda.
«Com razão, num magnífico texto intitulado "A lentidão", Milan Kundera escreve: "Quan­do as coisas acontecem depressa demais, ninguém pode ter certeza de nada, de coisa nenhuma, nem de si mesmo." E explica, em seguida, que o grau de lenti­dão é directamente proporcional à intensi­dade da memória, enquanto o grau de velocidade é directamente proporcional à do esquecimento. Quer dizer: até a impressão de domínio das várias frentes, até esta empolgante sensação de omnipo­tência que a pressa nos dá é fictícia. A pressa condena-nos ao esquecimento. Passamos pelas coisas sem as habitar, falamos com os outros sem os ouvir, juntamos informação que nunca chega­mos a aprofundar. Tudo transita num galope ruidoso, veemente e efémero. Na verdade, a velocidade com que vivemos impede-nos de viver.

Uma alternativa será resgatar a nossa relação com o tempo. Por tentativas, por pequenos passos. Ora isso não acontece sem um abrandamento interno. Precisa­mente porque a pressão de decidir é enorme, necessitamos de uma lentidão que nos proteja das precipitações mecâ­nicas, dos gestos cegamente compulsi­vos, das palavras repetidas e banais. Precisamente porque nos temos de desdobrar e multiplicar, necessitamos de reaprender o aqui e o agora da presença, de reaprender o inteiro, o intacto, o concentrado, o atento e o uno.

Lembro­-me de uma história engraçada que ouvi contar à pintora Lourdes Castro. Quando em certos dias o telefone tocava repetidamente, e os prazos apertavam e tudo, de repente, pedia uma velocidade maior do que aquela que é sensato dar, ela e o Manuel Zimbro, seu marido, começavam a andar teatralmente em câmara lenta pelo espaço da casa. E divergindo dessa forma com a acelera­ção, riam-se, ganhavam tempo e distan­ciamento crítico, buscavam outros mo­dos, voltavam a sentir-se próximos, refaziam-se.

Mesmo se a lentidão perdeu o estatuto nas nossas sociedades modernas e oci­dentais, ela continua a ser um antídoto contra a rasura normalizadora. A lenti­dão ensaia uma fuga ao quadriculado; ousa transcender o meramente funcio­nal e utilitário; escolhe mais vezes convi­ver com a vida silenciosa; anota os pequenos tráficos de sentido, as trocas de sabor e as suas fascinantes minúcias, o manuseamento diversificado e tão íntimo que pode ter luz.»

José Tolentino Mendonça


Parte deste texto encontra-se na coluna lateral deste blog.
Mas é bom lembrar o que é importante...


Lee Konitz

Acumulam-se demasiadas mortes de conhecidos e admirados.
Significa que as pessoas que são as nossas referências estão numa idade de maior risco e que nós estamos cada vez mais adn (afastados da data de nascimento).

Lee Konitz (1927-2020)


Lee Konitz tocou ainda, entre outros, com Charles Mingus, Ornette Coleman, Elvin Jones, Dizzy Gillespie, Bill Evans, Charlie Haden e Brad Mehldau.


Luís Sepúlveda (1949-2020)

«A minha ideia de morte não é traumática. É o fim de algo. Necessário. Estamos. Crescemos. Somos felizes. Sofremos. A vida é maravilhosa…e tem que chegar o dia do fim. Esse dia virá e quando chegar, quando chegar a morte, há que esperá-la sem traumas. É como abrir a porta e dizer: Bem, aqui estou…vamos…acabou-se.»
Luís Sepúlveda



Poema de despedida

João Luís Barreto Guimarães, poeta e médico, antigo aluno da Prof. Maria de Sousa, divulgou um poema de despedida da cientista, que já se encontrava doente antes de ser contaminada pelo covid-19.


Tudo momentos então
Eternidades agora
Porque posso morrer e vós tereis de viver
Na vossa vida a esperança da minha duração


quarta-feira, 15 de abril de 2020

A América distópica

«(...) um presidente dos EUA perdido nos seus próprios passos, simboliza na perfeição a distopia da sociedade americana. O seu suposto líder continua de passo às avessas com o mundo, com a realidade, com a vida. O desvario narcísico leva-o à procura errática, sucessiva, de bodes expiatórios para tentar justificar a incompetência e o total desconchavo da sua administração. Da UE à China, da ONU à OMS, dos governadores à administração Obama, da FDA aos cientistas, das élites académicas aos media, todos são responsáveis menos Trump. Esse "moto continuo" alienatório não o exonera. Deixa cada dia mais transparente a fatalidade histórica que atingiu a grande nação americana, no topo do seu poder.»
Carlos Vargas, no fb