"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astrosou para o sorriso das vacas." Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
Recebemos a notícia do falecimento de Narana Coissoró, antigo dirigente do CDS.
Não me prende a este partido qualquer laço de especial afinidade/simpatia política, mas penso que há uma diferença tão grande entre aquilo que eram, em tempos mais recuados, os dirigentes políticos do CDS e aquilo que são os actuais, que não deixo de sentir respeito pelos antigos.
E li o texto emocionado de Isabel Moreira a recordar a sua amizade e consideração para com Narana Coissoró, próximo de seu pai, Adriano Moreira.
Tenho de sentir simpatia por quem assim tem os livros...
Não sei se os néscios de direita também chamavam monhé a Narana Coissoró, como chamam a António Costa...
Há 60 anos - 29 de agosto de 1966 - os Beatles deram o seu último concerto com público pagante no Candlestick Park, em São Francisco, encerrando a fase ao vivo da banda e iniciando uma nova era de experimentação em estúdio.
«Se não aparecerem mulheres, importam-se, que é em
Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, ideias,
filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilos, indústrias, modas,
maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização
custa-nos caríssima, com os direitos de alfândega: e é tudo em segunda mão, não
foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas...»
No final do 1.º ano da faculdade (1977-78), à chegada de uma visita de estudo - a única de todo o curso! - ao Castro do Zambujal (Torres Vedras).
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado. Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos, com os livros atrás a arder para toda a eternidade. Não os chamo, e eles voltam-se profundamente dentro do fogo. — Temos um talento doloroso e obscuro. Construímos um lugar de silêncio. De paixão.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irão usou um clássico para responder.
«O homem que mente para si mesmo e dá ouvidos à sua
própria mentira chega a tal ponto que não consegue distinguir a verdade dentro
de si, nem ao seu redor, e assim perde todo o respeito por si mesmo e pelos
outros.»
«Está claro - dizia o conde [de Gouvarinho] - que não temos nem os milhões, nem a marinha dos Ingleses. Mas temos grandes glórias; o infante D. Henrique é de primeira ordem; e a tomada de Ormuz é um primor...»
«(...) Alencar, já desanuviado, foi acompanhá-los pelo Aterro. E falou sempre, contando o plano de um romance histórico, em que ele queria pintar a grande figura de Afonso de Albuquerque, mas por um lado mais humano, mais íntimo: Afonso de Albuquerque namorado; Afonso de Albuquerque, só, de noite, na popa do seu galeão, diante de Ormuz incendiada, beijando uma flor seca, entre soluços. Alencar achava isto sublime.»
Eça de Queiroz, Os Maias - Episódios da vida romântica
Conheci dias duradouros, o sol tão longo entre manhã e tarde. Um levantar súbito de luz por trás da crista das heras no muro velho, e depois descer no verão entre grades verdes e para além do portão como a cair no Hades, no inverno. Não havia tempo nos dias longos, mas a passagem diária do sol abençoado.
Às 10:51 - hora em Greenwich - ocorreu um eclipse total do Sol, o último do 2.º milénio.
Em Portugal, o eclipse foi visto como parcial, variando a sua magnitude entre 62% em Faro e 77% em Bragança.
27 anos de distância, registados nos óculos homologados e cheios de logótipos (Direcção-Geral da Saúde, Societas Ophtalmológica Lusitânica, Ordem dos Médicos, Associação Nacional das Farmácias e Observatório Astronómico de Lisboa - Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa).
Algures, dentro das caixas de arquivo, tenho a minha fotografia com os óculos postos, na varanda da casa de Benfica. Tempo das máquinas analógicas.
«Este é o nó górdio da Educação em Portugal: o conhecimento que os alunos têm ou não à entrada do Superior. Ninguém diz o óbvio: os alunos em Portugal nada lêem. Escrevem mal. Pensam mal. Têm pouca linguagem. A ignorância quanto a factos histórico-culturais é profundíssima; não dominam verbos, não entendem o que lhes é pedido que façam em situação de exames. Quem fala disto?
(...)
Todo o estudante, na verdade, sabe que já não é preciso ler-se seja o que for para "entrar" na faculdade. Saber escrever de forma analítica e crítica, aplicar técnicas de análise textual, relacionar conceitos com factos históricos, considerar problemas abstractos com observação de problemas concretos, colocar hipóteses de sentido, comprovar essas hipóteses, citar com propriedade, construir um argumento válido e verdadeiro - tudo isso é o passado e este é o tempo do ChatGPT, do sucesso e da fama nas redes sociais, da IA que tudo resolverá.»
Parece que foi atingido o supremo objectivo de saber onde se encontram todas as provas realizadas, tê-las classificadas e ter as pautas afixadas.
Quanto às reapreciações, ainda não está tudo resolvido, mas promete-se brevidade.
Os níveis dos resultados dos exames são uma questão secundária, já não se discute o que avaliam os exames e como avaliam.
Várias vozes falam de "indigência absoluta", de "exercícios idiotas de cruzinhas e de verdadeiros e falsos, de associação de respostas, de correspondências".
Por agora, estamos felizes com o sucesso atingido nesta fase do processo de distribuição, digitalização e classificação dos exames nacionais do 12.º ano.
Foi mandado construir no Campo Grande pelo poeta Arthur Ernesto Santa Cruz Magalhães (de quem não conheço um único verso ou uma única referência à obra), para expor a suacolecção de peças de Rafael Bordalo Pinheiro.
Doado à Câmara Municipal de Lisboa, é um dos núcleos do Museu de Lisboa e faz a divulgação da vida e obra do artista.
Para além da exposição permanente, tem neste momento 3 exposições temporárias alusivas à sua personagem mais popular: o Zé Povinho.
Comfortably Numb numa colaboração entre Roger Waters e a artista palestiniana Mona Miari.
Com versos inéditos em inglês e árabe, a canção aborda temas como a deslocação, a memória, a perda e a busca incessante pela justiça e pela dignidade humana.
«Ceuta não foi uma crise migratória. Foi guerra híbrida. Marrocos abriu a fronteira para pressionar Madrid por causa da lei de nacionalidade saharaui. (...)
E encaixa na doutrina do Grande Marrocos, que reclama o Sara, Ceuta e Melilha. Não é a primeira vez: a ilha de Perejil em 2002, a Marcha Verde em 1975, o assalto a Ceuta em 2021 com cerca de dez mil pessoas. A fronteira acende sempre que convém a Rabat.
É a mesma arma que a Bielorrússia usa contra a Polónia e a Turquia contra a UE: a migração como pressão sobre a Europa.»
(Jorge Silva Carvalho, na CNN)
O factodePedroSáncheztervisitadoaArgélia (apoiante da Frente Polisário pela independência do Saara Ocidental, antiga colónia espanhola ocupada por Marrocos em 1975)comointuitode melhorar asrelaçõesentreEspanhaeArgélia (e de ter acesso ao seu gás natural, importante no actual contexto),foivistoporMarrocoscomoalgonegativo.
E Marrocos está com as costas quentinhas pelo apoio de Donald Trump, cujo nome deverá ser dado à auto-estrada a construir entre Tiznit, em Marrocos, e a península de Dakhla, no território do Saara Ocidental.
Será uma via com mais de 1.000 km de extensão, percorrendo cerca de um terço da costa marroquina.
"Obrigado ao muito respeitado Mohammed VI, rei de Marrocos. Uma tremenda honra! Estou ansioso por percorrer toda a extensão desta Grande Autoestrada um dia, espero que em breve!", são as palavras de Donald Trump publicadas num vídeo promocional do projeto marroquino.
Na Europa, do centro à direita mais extrema, fervilha uma excitação de pôr os corninhos de fora. O Sanchez é um perigoso esquerdista, caraças! Parece que é o único Abencerragem na UE...
O Chega, que nos seus gabinetes da AR tem uma política de portas abertas, defendeu a suspensão do acordo de Schengen.
O nosso Primeiro, a exercitar a coordenação do Governo em período de férias e num exercício de moderação, não foi tão longe, mas já decidiu o reforço da presença das forças de autoridade no controlo de fronteiras, nomeadamente no sul do país, de um modo particular a fronteira marítima... não vão os marroquinos continuar a nadar de Ceuta para o Algarve.
Gostaria de ter ouvido Nuno Melo dizer: "Se Ceuta, em 1640, não tivesse decidido continuar sob domínio espanhol, isto nunca teria acontecido sob o nosso governo!".
«Os professores são hoje uma das últimas reservas estratégicas de Humanidade. Enquanto os sistemas digitais reduzem pessoas a dados e probabilidades, eles continuam a olhar para cada aluno como uma singularidade irrepetível. Enquanto os algoritmos aprendem pela repetição, os professores continuam a acreditar na transformação, no espanto, no inesperado e no milagre discreto da aprendizagem. (...) Continuam a guardar aquilo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir: a capacidade de despertar consciência.»
José Paulo Santos, Visão, 23 de Julho de 2026
Um grupo de alunos do 7.º ano entrevistando o Prof. Cláudio Torres, em Mértola, 1995
«É verdade que muita nostalgia, muito fanatismo e quase todo o Portugal retrógado e ultramontano vieram a Lisboa verter a sua lágrima e ver as pompas fúnebres. Mas desde a operação do dr. Vasconcelos Marques ao hematoma craniano do ditador até à lamentável mensagem televisionada que o apresentara, gaguejante, trôpego e inútil, ao país atónito, completara-se o percurso da última etapa da sua vigência de quatro décadas. Só lhe faltava, portanto, aquele cortejo imperial pelas ruas de Lisboa a arrastar um símbolo sem herança sólida, cujos guerreiros se cansavam de guerrear sem esperança e cujos velhos patrícios fiéis deixavam já roçar pelas fímbrias das respeitáveis togas meia dúzia de rapazes que, antes do fim daquele ano, pela voz do dr. Sá Carneiro, haveriam de fazer corar Salazar, na sua tumba, e as múmias adiadas, em S. Bento, denunciando a evidência: os direitos e liberdades não eram respeitados em Portugal.»
«Vivemos numa época de notável cegueira espiritual e cultural. Um falso pragmatismo convida-nos a cortar as raízes da memória, como se fosse possível inaugurar uma espécie de “nova criação” desligada do passado; mesmo quem invoca grandes princípios morais pode cair neste niilismo histórico, iludindo-se com a ideia de que as atrocidades do século XX não se podem repetir. Na realidade, as mesmas dinâmicas ressurgem sob novas formas. Parece voltar a impor-se a lógica do equilíbrio armado e da dissuasão. Mas, ao contrário do cenário bipolar da Guerra Fria, hoje a multiplicação dos protagonistas e das frentes de conflito torna esta lógica cada vez mais frágil. A conflitualidade exacerbada conduz a guerras assimétricas e “híbridas”, travadas também em âmbito económico, financeiro e informático, com o recurso à desinformação e a campanhas que alimentam o medo para influenciar a opinião pública. Em muitos países, também no Sul Global, o aumento das despesas militares é apresentado como a única resposta a um futuro incerto ou a ameaças pressentidas, enquanto o custo real recai sobre os mais pobres, que assistem à redução dos recursos destinados à saúde, à instrução e aos serviços sociais.»
Carta encíclica Magnifica Humanitas,Padre Leão XIV
A surpresa e a tristeza da notícia da morte de Luís Represas.
Vi-o no passado 21 de Março, na Meo Arena, Viver tudo numa noite. Os colegas saberiam que era a despedida. Não sabíamos nós, na alegria do reencontro.
A voz não podia ser a de há 30 ou 40 atrás, mas era... "aquela voz" e parecia estar bem.
Tive oportunidade de o ver na FIL, em 1976, na primeira Festa do Avante.
«Tínhamos começado há dois meses, aquilo era ainda muito imberbe, mas tocámos umas quatro ou cinco músicas no palco 1, com 5 mil pessoas à frente. Foi o prenúncio de alguma coisa que estava para vir.» (Luís Represas)
Revi-os, já mais crescidos - a sair da adolescência -, em 13 de Dezembro de 1977, na Aula Magna da Universidade de Lisboa, num espectáculo promovido pelas Associações de Letras, Medicina e ISCTE.
Foi a época da minha entrada na Faculdade, o meu primeiro acto académico, quase diria, num ano lectivo em que as aulas, com a enchente de alunos, só começaram em Fevereiro-Março.
Depois foi o seguir a carreira, as várias festas do Avante, concertos outros, os discos (vinil e CD).
Em 1989, qual coroa de glória (porque eu estava lá e tive alguma coisa a ver com isso...), o Trovante actuou no campo de jogos da então Escola Preparatória Paulo da Gama (Amora), espectáculo integrado na Semana da Música.
Teriam sido mais de 3 mil pessoas naquele espaço, momento inesquecível, quando o grupo atravessava uma fase de enorme sucesso. Espectáculo com as canções de Terra Firme como principal suporte, logo um disco em que o local da foto da capa é a Ponta dos Corvos, no Seixal.
O Trovante (no singular) foi um grupo charneira entre gerações e a música portuguesa seria muito mais pobre sem eles, no colectivo, a solo ou em colaboração com outros.
Sempre valorizei mais a sua actividade artística (tal como a dos outros elementos) no seio do Trovante.
«A entrada gratuita em museus,
monumentos e palácios passou a ser possível durante 52 dias por ano para
portugueses e residentes em Portugal, em qualquer dia da semana, a partir de
agosto de 2024. Até então, e desde setembro de 2023, a gratuitidade era restringida
aos domingos e feriados.
“A média é de 1,4 utilizações, ou
seja, mais de 60% das pessoas só vai uma vez. Não estamos a consolidar nem a
criar hábitos culturais regulares. A mim preocupa-me. […] A medida não está a
ter o impacto que queríamos que tivesse. Não é para acabar com a medida. Tenho
de investir, além da questão do acesso”, sublinhou.
Tendo em conta que dos 37 museus,
monumentos e palácios 18 estão ou estiveram encerrados ou parcialmente
condicionados por causa de obras no âmbito do Plano de Recuperação e
Resiliência, a ministra revelou que este regime de gratuitidade teve
“custos, com uma perda de receita associada à medida de 10 milhões de euros”.»
«Em Portugal, é desolador constatar que as políticas públicas falham sempre que se requer método, disciplina, transparência e apresentação de resultados. Completo agora: é lamentável que situações destas, que exibem escandalosos graus de incompetência, passem sem um levantamento da opinião pública e, sobretudo, sem apuramento de responsabilidades políticas. (...) Mas o mais provável é ser eu quem está enganado: se em Portugal exigimos tão pouco de quem nos governa, então merecemos o pouco que recebemos.»
Alexandre Homem Cristo, antes de ser Secretário de Estado Adjunto e da Educação