"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)
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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Festa do Avante – 49.ª Festa nos 50 anos da Festa



Apesar de ser uma festa anual, nos 50 anos da sua 1.ª edição, será a 49.ª Festa do Avante! Em 1987, por diferendo em relação ao terreno do Alto da Ajuda, não se pôde realizar.


A primeira festa do Avante! teve lugar na antiga FIL (Feira Internacional de Lisboa), na Junqueira, em 1976, de 24 a 26 de Setembro.

Num país saído havia pouco da ditadura, o evento foi algo novo e original na vida política e cultural. O espírito era de um cosmopolitismo aberto, sobretudo, ao mundo antes interdito da Europa de Leste, com as suas bancas de artesanato e produtos culturais, em alguns casos de gastronomia (lembro-me do goulash húngaro). As “Cubas livres” circulavam a grande velocidade.

Mas os artistas – aquilo que mais me interessava – eram de geografias muito variadas, a começar pelos naturais, os que se destacaram a cantar a liberdade antes e depois do 25 de Abril.


O espaço da FIL era muito limitado para tanta festa. Na bancada frente ao palco principal, quando os mais jovens se instalavam para assistir a uma das principais atracções musicais, os Area, instalavam-se também os “velhos” militantes comunistas, alguns vindos de longe, para assistir ao discurso que Álvaro Cunhal iria fazer no mesmo palco logo após o grupo de jazz-rock italiano.

Os diferentes interesses em jogo manifestaram-se logo no início do concerto, quando os “camaradas” começaram a reclamar contra o nível de som, demasiado alto para os seus ouvidos.

Lembro-me, no último dia, de ter assistido, a encerrar a festa, ao concerto de Carlos do Carmo, ficando a aguardar que o pai de uma colega do liceu me desse a boleia para casa. E bem que aguardei… Enquanto militante, ainda ficou a ajudar nas arrumações finais.

A festa passaria, nos anos seguintes, pelo Jamor, Alto da Ajuda, Loures (onde um dia, quando consegui chegar à Quinta do Infantado, a festa estava já a encerrar, tal foi o engarrafamento que apanhei!) e Amora (Quinta da Atalaia) desde 1990.

Apesar da Amora ser território familiar - durante décadas trabalhei na freguesia - foi a partir da mudança da festa para a margem Sul que eu fui deixando de comparecer. 

A crise da hérnia discal de 1992 marca a fronteira temporal a partir da qual me começaram a marcar faltas de presença. Os nomes grandes da música internacional, que eram o chamariz, deixaram de ser tão frequentes e passaram a ser vistos mais facilmente noutros eventos. Também a idade foi tirando a disposição: "já não estamos por tudo!"

Mas acredito que é uma festa diferente: Não há festa como esta!

«Uma Festa como efectivamente Portugal jamais vira, não apenas porque a actividade do Partido Comunista fora forçada à clandestinidade, mas também porque a repressão que forçou o nosso Partido à luta clandestina atingia afinal não apenas os comunistas mas todos os potugueses, a sua liberdade, a sua felicidade - a sua vida em suma.

A Festa do «Avante!», sendo uma Festa organizada pelos comunistas teria de ser uma grande Festa da vida, dessa vida que o fascismo reprimiu e tentou destruir, uma festa popular onde, finalmente liberto, o povo pudesse construir e conhecer a realidade de ser livre.

Esta grande festa da liberdade e do homem que organizámos na FIL correspondeu inteiramente ao que dela esperávamos.» (Rúben de Carvalho)