"Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos não têm nada mais a dizer-nos, é desculpável que nos voltemos para a chilreada fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros ou para o sorriso das vacas."
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (revista e acrescentada por Carlos C., segundo Aníbal C. S.)

quarta-feira, 18 de março de 2026

Augusto Abelaira - centenário do nascimento

«Uma vez, o meu pai apareceu-me em casa com um livro de versos, que tinha acabado de sair, de um poeta de certo modo desconhecido, tinha já morrido, abriu o livro e leu-me uma poesia que terminava assim:

"Com que ânsia tão raiva quero aquele outrora
Eu era feliz? Não sei. Fui-o outrora agora."

O poeta em questão chamava-se Fernando Pessoa. Foi a maior revolução literária da minha vida, sobretudo estas últimas palavras: "Eu era feliz? Não sei. Fui-o outrora agora." Mas que história é esta do "Fui-o outrora agora."? O que é certo é que a partir desse dia percebi que a literatura era outra coisa. Acabaram-se os sonetos, acabou-se o Guerra Junqueiro, com injustiça ou não, acho que há alguma injustiça, mas enfim, a grande revolução literária fez-se. 

Dois outros nomes muito importantes apareceram depois, a facilitar este fenómeno de perceber que a literatura era outra coisa. Um foi o Tchecov, com a leitura de um livro que se chama Uma História Vulgar, e outro foi o livro de contos de Katherine Mansfield, o Garden Party. Foi no contacto com estas obras que eu descobri que a literatura era uma coisa diferente de tudo aquilo que eu conhecia até então.»

Excerto de uma entrevista a Mário Ventura (finais da década de 70, início da de 80)


Augusto Abelaira nasceu em Ançã (Cantanhede), a 18 de Março de 1926.


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